Capítulo beeeem longo... Boa leitura!


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Correndo Atrás

Por Graziela Leon

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Segunda-feira

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- Como assim, madrinha?!

Eu ergui minha cabeça do colo de Inu Yasha, que parou de afagar meus cabelos pra encarar meu rosto confuso. Adoraria que ele começasse a rir da minha cara, dizendo o quanto eu era boba por acreditar naquela história estapafúrdia. Mas isso não aconteceu, e eu estava cada vez mais enrascada.

- Bem, eu sou o padrinho do Sesshoumaru, então é natural que a Sarah te convidasse pra ser madrinha. Eu e você, Kennie e Miroku...

Ugh! O pior pesadelo que eu poderia ter: ficar plantada diante de um altar, com um vestido escolhido por outra pessoa – Por favor, Deus! Que não seja de mangas bufantes! -, segurar um buquê que provavelmente me faria espirrar, e fazer parte do "séqüito" de uma noiva que eu desprezava, e cujo casamento eu planejava boicotar...

Claro que seria demais querer que o meu namorado compreendesse isso. Naquela cabecinha, tipicamente masculina, eu deveria me sentir lisonjeada com o convite.

Por sorte, Rin estava na cozinha, preparando sua famosa torta de espinafre e queijo pro almoço, e não ouviu aquela sandice. Embora ela tivesse um imenso prazer em cozinhar – além de muito talento pra essa tarefa – era óbvio que a escolha de um cardápio de preparo demorado era um pretexto pra passar a manhã inteira na cozinha, e me dar algum tempo pra namorar. Eu não fazia idéia de como ela iria reagir ao saber que eu seria a "assistente de palco" naquele circo.

...

- Perfeito! – Rin dava pulos de alegria, para a minha perplexidade, enquanto Inu Yasha estava no banheiro lavando as mãos – Como foi que eu não pensei nisso antes?

Os olhos dela brilhavam muito e eu estava surpresa. Já estava começando a me acostumar com as surpresas; foram várias nos últimos dias. E eu sabia que, até sábado, haveria muitas outras.

- Rin, você entendeu direito o que eu disse? – eu tentei fazer as palavras soarem com o máximo de clareza – Eu, sua prima, vou ser madrinha da Sarah, sua rival.

Ela riu baixinho, pra que o Inu não escutasse.

- Rival?! Ah Kagome, faça-me o favor! Nem que quisesse ela poderia ser minha rival... – todos têm defeitos, e Rin era um pouco convencida, às vezes. Outra herança de Sesshoumaru – Veja as coisas como eu vejo: sendo madrinha, você pode conquistar a confiança dela com maior facilidade, vai ter acesso a absolutamente tudo! Não vamos ter outra oportunidade como essa...

- ... Oportunidade de que?

Nós duas nos viramos sincronizadamente quando Inu Yasha entrou na cozinha. Ele tinha uma expressão desconfiada, eu comecei a estremecer. Sempre fui péssima mentirosa.

- De presenciar um milagre! – Rin mentiu com calma e naturalidade, enquanto tirava a torta do forno – Ou vai me dizer que você algum dia imaginou o seu irmão casando?

Eu me perguntei se Rin já cogitara a hipótese de ser atriz, ela era excelente no improviso. Inu Yasha puxou uma cadeira e sentou-se à mesa.

- Pois eu sempre achei que ele casaria cm você.

Rin estava com a cabeça dentro da geladeira, e eu agradeci a Deus por não podermos ver a expressão dela ao ouvir aquilo. Voltou para nós em seguida com uma grande jarra de suco nas mãos.

- Hum... Se eu soubesse disso, poderia ter apostado com você e ganho algum dinheiro!

Inu Yasha riu, sacudindo a cabeça em negativa.

- Se nós tivéssemos apostado, eu daria um jeito de te colocar naquele altar, no sábado, cunhadinha...

Ah, se ele soubesse...

Nós almoçamos calmamente, já que eram apenas onze horas da manhã, e rumamos para a casa da minha sogra aonde, aparentemente, passaríamos boa parte da semana.

...

O pesadelo de vestir algo escolhido por uma estranha não foi tão grave quanto eu esperava. Ele estava lá, na casa dos meus futuros sogros, me esperando. Havia duas caixas brancas sobre o sofá da sala, quando nós chegamos, e uma delas tinha o meu nome. E um vestido em seu interior.

Kanna e Izayoi me fizeram experimentá-lo diante de uma costureira, que faria os ajuste necessários. Fui informada de que os dois foram feitos a partir das medidas de Kennie, bem semelhantes às minhas. No fim das contas, a mulher só teve que diminuir um pouquinho na cintura... Minha dieta estava dando certo!

O corte era excelente. Um pouco acima dos joelhos, por ser uma cerimônia matinal, de alças delicadas, justo no tronco e soltinho na saia; simples e elegante. Mas a cor acabou comigo... Lavanda. Aquele azul pastel entre o lilás e o violeta, exatamente a cor das minhas veias sob minha pele pálida e sem-graça. Agora sim, eu sumiria... Apagada pelo vestido-lavanda-de-dama!

- E quanto ao seu vestido de noiva, Sarah?

A pergunta de Rin fez com que eu, Kennie, Izayoi e a costureira nos lembrássemos que Sarah existia e, de fato, estava conosco no quarto. Eu precisava me lembrar de fazer um comentário bem grosseiro sobre a cor do vestido, quando ela não fosse mais minha cunhada em potencial.

Todas nós ainda estávamos esperando pela resposta. Ô garota lenta!

- Bem, a última prova é na quinta à tarde... Então eu vou trazê-lo pra casa.

Ok, a resposta dela não esclareceu muita coisa além de que o vestido estava no atelier de quem quer que fosse, ainda. Se Rin estava planejando incendiá-lo, ou algo do gênero, teria de esperar até quinta-feira. Foi aí que eu me lembrei de algo que nos deu a oportunidade de ignorar Sarah mais um pouco.

- Rin, o que você vai vestir? – Fiz um movimento brusco e a costureira me espetou com um alfinete – Aai! Tínhamos tanta coisa na cabeça, sábado, que nem nos lembramos desse detalhe!

Kanna correu para Rin e jogou os braços ao redor dos ombros dela, eufórica.

- Compras! – O sorriso dela era tão aberto que seus grandes olhos violetas viraram dois traços, sombreados por longos cílios claros – Nós três vamos passar uma tarde daquelas no shopping, como antigamente!

Rin tocou as mãos de Kennie suavemente, alisando seus dedos com leves tapinhas.

- Oh, eu sinto muito, Kennie, já tenho um vestido – A euforia desmoronou, e Rin percebeu isso imediatamente – Mas uns sapatos novos não fariam mal a ninguém...

Lá estávamos nós quatro. Sim, quatro. A boa educação nos obrigava a convidar Sarah e, para o desespero de Kennie, ela achou que seria grosseiro recusar. Bem, é óbvio que se ela recusasse, eu a acharia uma metida, chata, do tipo que nunca está contente com nada. Como ela resolveu ir, eu a achei um peso morto, uma "alienígena" caindo de pára-quedas entre três amigas de infância.

Digamos que, não importando o que ela fizesse, eu já tinha meu veredicto a seu respeito: AMEBA. Claro que eu estava enganada, mas não vem ao caso. Vocês vão entender mais tarde...

Nós já estávamos lá há duas horas, e Kanna estava bastante entretida na tarefa de bajular Rin e ignorar Sarah. Nos sentamos na praça de alimentação, ocupando uma daquelas mesinhas de quatro lugares, enquanto nossas sacolas ocupavam a mesinha ao lado.

Kanna comprou um Converse para sua coleção – o que me deixou seriamente tentada a comprar um, também – Rin estava no seu terceiro par de Scarpins – viciada... – e eu me encantei por dois pares de sandálias de salto alto. Sem falar nos vários pacotes recheados de saias, blusas, shorts e jeans, que levaríamos pra casa. Sarah carregava apenas uma pequena sacola de papel na mão, de uma joalheria, com um delicado par de brincos de prata e zircônio, único objeto que chamou sua atenção no Shopping inteiro!

Rin tentava desesperadamente inserir a sua (não) rival nas conversas, a fim de obter maiores informações sobre a – aparentemente inexistente – personalidade dela. As respostas simplórias de Sarah não estavam ajudando muito, e as constantes investidas de Kennie para excluir a garota dos assuntos, muito menos.

Minha prima não é, exatamente, o tipo de pessoa que desiste rápido – e isso justifica ela estar tentando reaver um relacionamento rompido há uns sete anos – e, geralmente, ela obtém o que quer com maior facilidade que qualquer um. A essa altura, Sarah já confiava um pouquinho nela, pelo menos a ponto de contar algumas coisas sobre sua infância – uma infância maçante. Como uma boa jornalista, Rin fazia as perguntas certas, e os comentários certos, incentivando Sarah a falar.

Ela já estava chegando à adolescência, aonde, eu supunha, haveria coisas menos chatas, quando seu celular tocou. Como uma menina bem-educada, Sarah pediu licença e foi atender a uns três metros de nós.

Eu conseguia ouvir um pouquinho, e aquele telefonema me fazia lembra filmes de espionagem. Sabe quando o agente secreto recebe uma ligação, e apenas fica dizendo "sim" e "não"? Era exatamente igual, com a única diferença que, ao invés de dizer um "entendido" ou "aguardo instruções" no final, ela disse a maldita frase "também te amo". Do jeito como ela falou, ou era Sesshoumaru ou ela tinha um amante. Ok, caiamos na real, né? Não seria assim tão fácil... Óbvio que era Sesshoumaru. E tudo em mim gritava que ia acontecer uma tragédia.

Quando a ameba rastejou de volta para a mesa, Rin ria nervosamente da conversa com Kanna, brincando com o canudinho de sua água tônica. A audição dela sempre fora excelente, e eu sabia que ela também tinha prestado atenção. Ah! Vale dizer que é pouco provável que alguém mais, além de mim, pudesse perceber alguma alteração no humor de Rin, naquele momento.

- Kanna – Sarah disse, com voz afetada, adicionando um "h" inexistente ao final do nome – Era o Sesshoumaru – que eu lembre, Rin costumava chamá-lo se Sesshy, bem menos mecânico... – Ele acabou de chegar na cidade, então eu estou indo pra casa agora... Você vem?

Havia três mandíbulas tão rígidas naquela mesa, que eu jurava que podia nos ouvir estalando. Claro, Sarah não ouvia nada, já que mostrava aquele sorriso de anúncio de creme dental, que parecia ter sido parafusado no rosto dela. Apertei bem forte a mão de Kennie por baixo da mesa, tentando impedir que ela fosse (muito) grosseira com a pobre ameba.

- Pode ir, Sarah – Ela respondeu ! Kennie até que estava sendo educada... – Eu ainda tenho uns assuntos com as garotas... Coisa de família, você pode ir – Ok, Kennie não estava mais sendo educada.

Tá legal, Sarah até podia ser uma "ameba", mas seria impossível não perceber Kanna sendo hostil, se Kanna quisesse ser hostil com você. Ela levantou da mesa com um jeito meio triste, desanimado, e aquela carinha de "meu cachorro morreu". Despediu-se de nós três rapidamente, dizendo que tomaria um táxi, e sumiu de nossas vistas.

Kanna bufou, passou as mãos no cabelo e apoiou seus cotovelos na mesa, com ar de cansada.

- O que foi que o meu irmão viu nela? – Eu poderia ter dito umas verdades sobre o Sesshoumaru e sua mania de querer controlar as pessoas, mas meu cérebro começou a gritar: "pergunta retórica, não responda!" – Garota chata!

- Eu gostei dela...

Oh meu Deus! Pare o mundo que eu quero descer! Foi tão surreal, tão fora de contexto ouvir a voz de Rin dando forma àquela frase que eu quase pedi pra alguém me beliscar.

Pelo jeito, eu não era a única, já que havia um "Como é que é?!" tatuado no rosto da minha cunhada. Rin sorriu para Kennie e eu me toquei que só podia ser encenação. Parte daquela coisa sobre "ser legal". Finalmente, ela estava pondo o plano em prática.

- Não me olhe com essa cara, Kennie! – Rin usava aquele tom de "bronca amigável", acho que ela aprendeu com a minha mãe – A coitada deve estar se sentindo um peixe-fora-d'água, cercada por tantos desconhecidos.

Kanna parecia contrariada. Não é legal quando você tem vinte anos e uma amiga, só um pouco mais velha, fica te tratando como criança. Eu sei porque Rin faz isso comigo desde sempre - e nós temos a mesma idade.

- Eu acho que você deveria ajudá-la, ao invés de ficar aí, com ciuminho do seu irmão... – Definitivamente, aquilo tinha de ser parte do plano – Sabe no que eu pensei? Poderíamos chamar a Ayame pra ajudar na despedida de solteira, ela sempre foi tão animada... – Uhu! Aquele brilho nos olhos de Rin... Armação, e da melhor qualidade! – Vocês a convidaram para o casamento, não?

- Claro... Mamãe ligou pra ela assim que recebeu a notícia.

Ayame era a irmã adotiva da minha sogra, e tinha mais ou menos a nossa idade. Na verdade, elas eram parentes de sangue, também, mas eu nunca me lembrava em qual grau e, sério, isso não tinha a mínima importância. Ela era uma grande amiga, e uma das mulheres mais elétricas e expansivas que já conheci.

- Ótimo! – Rin disse, com um sorriso satisfeito – A festa vai ser lá em casa, na quinta-feira... Você poderia ligar pra ela, Kennie? Eu acho que não tenho o número...

- Tudo bem, eu ligo... – Os olhos de Kanna se estreitaram por um milésimo de segundo – Sabe, eu concordo com você, Rin... É uma ótima idéia convidar a Ayame.

...

Sabe aqueles sonhos nos quais você é a mocinha de um filme de terror? Você está totalmente sozinha, caminhando em um lugar suspeito, todas as células do seu corpo gritam "sai daí!", mas, por algum estranho motivo, você não controla suas ações, e acaba caindo na armadilha do assassino...

Foi como eu me senti quando Rin decidiu que devíamos ir embora e Kanna veio com aquele papinho de que queria que eu fosse com ela ao banheiro, que encontraríamos a Rin depois no estacionamento.

Então eu fiquei sozinha com a minha cunhada nada-ingênua. E dava pra ver, sentir e talvez até apalpar, que tinha coisa... Dito e feito! Foi Rin pegar o elevador para o subsolo, e a expressão de Kanna se tornou severa, quase acusadora.

- O que vocês estão aprontando? – Ela perguntou, travessa.

- Como? – ergui uma sobrancelha – Aprontando? "Vocês" quem?!

- Ah, Kagome, fala sério! – Muito foi dito sobre a curiosidade feminina; no lugar de Kennie, eu estaria tão impaciente quanto ela – A Ayame pra despedida de solteira?! – Ela fez parecer que era algo terrivelmente óbvio - Eu posso ajudar! Me conta o que vocês vão fazer contra esse casamento, por favor!

Rin e a sua mania irritante de estar sempre certa! Quem diria que a Kanna iria querer estragar o casamento do irmão? Nota mental: Certificar-me de que minha cunhada continue gostando de mim.

- Que absurdo, Kanna! – Eu não sou tão boa atriz, mas o tom de ofensa na minha voz era convincente... – Nós não estamos tentando atrapalhar o casamento do seu irmão!

- Tudo bem, Key... Não vai me contar, né? Posso descobrir sozinha – Ela segurou meu pulso e me puxou em direção ao toalete – Mas pelo menos uma coisa eu vou arrancar de você – Ela me encarou, deixando claro que não aceitaria um "não" como resposta – Vai me contar o motivo pelo qual aqueles dois terminaram!

Um Shopping, de Gracetown, em plena segunda-feira. Obvio que o banheiro estava deserto. Obvio que Kanna havia me encurralado contra a parede. E totalmente obvio que eu não tinha escapatória!

- Ok, Kennie, eu conto... Mas você vai me prometer que não vai comentar com ninguém, certo? – Ela assentiu, sorrindo – Lembra quando o seu irmão foi pra Princeton…?

Ei, não me olhe assim! Isso não foi exatamente traição. Rin nunca sequer comentou sobre o rompimento durante todos esses anos, então também nunca pediu pra guardar segredo... Além do mais, Kennie tinha o direito de saber, ela era nossa amiga! Sem falar que, se eu não contasse, ela com certeza transformaria a minha vida num inferno, ou pior, ela poderia ir perguntar à Rin.

- Claro que eu me lembro. – Ela revirou os olhos – Por semanas não se falou em outra coisa lá em casa... "Sesshoumaru isso, Princeton aquilo, blá, blá, blá, blá...". O que tem?

E suspirei. Não me lembrava dos detalhes, apenas das coisas mais importantes. Kennie teria de se conformar com o "compacto dos melhores momentos".

- Bem, um ano depois, Rin, Inu Yasha e eu entramos em Stanford¹. Por algum tempo, eles mantiveram um contato constante; se telefonavam todos os dias e se viam a cada duas semanas, mas isso foi diminuindo com o tempo. Eles não conciliavam mais os horários, essas coisas... – Os olhos de Kanna eram dois pires violetas, e havia um nó expressivo entre suas sobrancelhas – Quando Sesshoumaru terminou a graduação em Relações Internacionais, ele recebeu uma proposta de trabalho em Nova York. Seu irmão foi até Palo Alto e pediu pra que Rin largasse a faculdade e fosse junto com ele. Naquela época, ela já escrevia alguns artigos pra Jungle, e tinha recebido a promessa de um emprego na redação, em San Francisco, assim que se formasse. Resumindo, Rin disse não pro seu irmão, ele foi pra Nova York sozinho, e depois acabou indo pra Washington, e ela mora comigo em San Francisco, e é uma das editoras da Jungle.

Kennie ficou em silêncio por alguns segundos, como se repassasse, mentalmente, tudo o que eu havia dito. No lugar dela, qualquer um estaria pasmo, eu suponho.

- Então... Foi por isso? – Eu assenti – Nossa. Eu imaginava um motivo mais... Sórdido.

Eu ri. Um motivo sórdido – uma traição, por exemplo – seria mesmo muito mais verossímil do que isso.

O silêncio dentro daquele carro só não era absoluto por que Kanna cantarolava, no banco traseiro, as músicas que ouvia pelo MP4. Rin estava completamente séria, e eu podia sentir a sua tensão aumentando, conforme íamos nos aproximando da casa dos meus sogros. Eu também não estava afim de falar; a conversa com Kennie me fez lembrar de algumas coisas que eu nem imaginava que ainda poderiam me afetar.

Eu já falei que Rin era como minha irmã, certo? Então imagine como eu me senti quando, depois de duas semanas sem que o Sesshoumaru ligasse, a ficha de Rin finalmente caiu e ela compreendeu que havia terminado.

Agora imagine isso somado a 1) pais que não se importam com você 2) final de semestre na faculdade, com centenas de provas e trabalhos e 3) saudades de casa. Rin ficou profundamente deprimida; passava longos períodos em silêncio e, por um par de vezes, eu a encontrei encolhida no chão, chorando. Nem sei quanto tempo durou essa fase, mas quando ela terminou, uma nova Rin surgiu. Essa Rin de hoje.

Ela se jogou de cabeça nos estudos e, mais tarde, no trabalho. Com apenas um ano na Jungle, foi promovida três vezes. Rin se tornou agressiva, prática, calculista, e eu podia contar em uma mão o número de encontros que ela teve desde a faculdade, nenhum deles culminando em relacionamentos de mais de um mês.

Eu morria de medo de passar por isso novamente, e não estava bem certa se Rin agüentaria, dessa vez. Talvez fosse até melhor levá-la de volta pra San Francisco.

Quando nós viramos a esquina, eu quase podia o coração de Rin batendo descompassado. Ou seria o meu? Ver Inu Yasha não seria má idéia, mas significaria, possivelmente, dar de cara com Sesshoumaru. E Isso, na minha opinião, era péssima idéia.

Rin parou no acostamento, mas manteve o motor ligado. Nós três olhamos automaticamente para o gramado da casa dos meus sogros. Havia um pequeno tumulto lá; uma van de uma floricultura estava estacionada na entrada da garagem, e três homens uniformizados estavam medindo o jardim e tomando notas em seus blocos de papel. Kennie bufou e resmungou algumas coisas que eu não pude compreender, e, sinceramente, acho que foi até melhor não ter entendido. Rin apenas sorriu e se virou para o banco de trás.

- Não esqueça as suas sacolas Kennie... Ah! E ligue pra Ayame, por favor?

Eu fiquei com medo de Kanna, a expressão dela era assustadoramente furiosa. Acho que, se houvesse sprinklers² no carro, eles teriam disparado com a fumaça que saía da testa dela.

- Como assim?! Vocês não vão descer?

Rin virou para frente, e reposicionou as mãos no volante, tamborilando, impacientemente.

- Não, querida, desculpe. Se a Kagome quiser ficar, eu não me importo, mas estou muito cansada e queria voltar pra...

- Meninas! – Era um grito distante que fez Rin para de imediato. A voz firme e levemente autoritária da minha sogra – Venham já aqui!

Nós olhamos na direção dela, e a vimos parada, próxima à porta de entrada, com alguns catálogos em mãos. Parecia bem animada, acenando pra nós. Eu foquei Rin bem a tempo de ver o desespero em seu rosto. Ta aí uma coisa que há muito eu não via, e não era a melhor das visões.

Aí já não deu mais tempo de nada. Sem nem perceber, nós já estávamos, as três, caminhando rumo à casa. Izayoi tinha essa coisa que 90% das mães têm: a capacidade de convidar-mandando, e fazer os outros aceitarem-obedecendo. Creio que ela obteria a mesma a resposta, tanto dizendo um "gostaria de mais uma fatia?" quanto um "poderia me doar o seu fígado?". Irresistível, essa era a palavra.

Izayoi sorria e nos mostrava dezenas de fotos de arranjos florais. Ela contou estar levemente frustrada, pois, ao perguntar à Sarah o que ela achava de lírios brancos e alaranjados para decorar o altar, a garota respondeu que para ela não faria diferença, e que Izayoi poderia escolher o que achasse adequado. Minha sogra era uma apaixonada por flores, e considerava inadmissível o descaso da futura nora para com a decoração do próprio casamento.

Rin se mostrou excepcionalmente interessada nas flores, dando sua opinião com entusiasmo sobre a disposição, cores e arranjamentos das mesmas. Eu tinha pleno conhecimento de que aquilo era um subterfúgio, uma maneira de se manter do lado de fora da casa. No jardim, o leque de rotas de fuga era muito maior, e Rin, possivelmente, já havia considerado todas elas.

Inu Yasha surgiu de detrás da casa, carregando algumas coisas que eu nem vi o que eram, me deu um beijo de susto, sussurrando "Linda" no meu ouvido, e sumiu em seguida. Isso me deixou, ahn, digamos que, um pouco tonta. Quando "acordei", me toquei de que Sarah – sabe Deus como – estava no nosso meio, e todo o medo que eu estava sentindo dobrou de tamanho.

Ela parecia estar radiante com a presença de Rin, e insistiu para entrarmos. Nós nos negamos veementemente, alegando aquelas desculpas que usamos com Kennie, e que pareciam não funcionar nem um pouco com Sarah e Izayoi.

- Por favor, meninas! – rogava Sarah, finalmente articulando uma frase que não parecia "pré-moldada" – Eu não consigo escolher as jóias pra usar na cerimônia... Gostaria muito da opinião de vocês!

Lembra daquele papo sobre a curiosidade feminina? Bom, digamos que a minha querida jornalista era a rainha das curiosas. Já que não teve jeito de vislumbrar o vestido com o qual a ameba pretendia lhe roubar Sesshoumaru, pelo menos ela poderia conferir de antemão com que enfeites a nem-um-pouco-rival subiria ao altar. Aquele brilho de traquinagem apareceu de novo no rosto dela, e o significado me deixou assombrada. Rin se arriscaria a dar de cara com Sesshoumaru, desde que pudesse saciar sua curiosidade. Ou talvez ela estivesse mesmo querendo dar de cara com ele.

Já fazia uns vinte minutos que nós quatro estávamos sentadas naquela sala, ora olhando umas pras outras, ora analisando os sete – isso mesmo, sete! – conjuntos de jóias que Sarah nos apresentou, todos compostos por colar e brincos, três possuíam tiaras. Eu havia me esquecido que ela era inglesa e, apesar de ter vivido na América por tanto tempo, como toda a inglesa de origem nobre, Sarah debutou em Londres aos dezesseis anos. Tiaras explicadas.

Izayoi recusou-se prontamente a nos acompanhar. Afinal, já que a noiva era "displicente", alguém tinha que cuidar das flores. Por fim, restamos eu, Rin, Kennie e Sarah, sentadas naquelas poltronas como se fôssemos quatro donzelas do século dezenove, entusiasmadas por causa de um casamento. Bem, no nosso caso, esqueçam essa coisa de entusiasmo.

Eu estava tremendo de medo daquela situação; Kennie estava como sempre, não movia uma palha para disfarçar o quanto estava insatisfeita; Sarah era tão expressiva como sempre – não preciso dizer que isso foi ironia, né? – e Rin... Rin estava me preocupando.

Quando nós começamos a ver as jóias, ela parecia bastante animada, com aquele brilho travesso nos olhos e um sorriso sarcástico, obviamente tendo total consciência de que Sarah escolhia, com todo o esmero, uma jóia para NÃO casar. Mas aos poucos eu a vi murchar, e duvido que as outras duas o tenham percebido. Embora o sorriso ainda estivesse ali, não havia mais sarcasmo, era apenas um sorriso falso, vazio. O brilho dos olhos dela se apagava e, pouco a pouco, eu o via ser substituído por medo. Rin era humana, afinal, e eu sabia que ela não poderia manter a máscara por muito mais tempo.

Naquele momento, eu quis matar Sesshoumaru. E Sarah. E qualquer um que fizesse a minha "irmã" sofrer.

- Acho realmente que você deveria usar as águas-marinhas, Sarah – ao contrário do que eu pensei, Rin não estava tão longe dali – Já que são antigas e azuis... O vestido de noiva vai servir como algo novo, então você só vai precisar de algo emprestado...

Eu olhei para a caixa de madeira forrada com veludo negro que Rin tinha nas mãos. O conjunto em questão era formado por um diadema ao estilo grego – do tipo que dá uma volta completa na cabeça - , um colar discreto e um par de pequenos brincos, as águas marinhas formavam padrões de delicadas flores azuis, encravadas na base de prata. Segundo Sarah, era uma jóia de família, e ela até contou uma história chata sobre a bisavó da bisavó de alguém.

Rin parecia um pouco impaciente, segurando a caixa na frente de Sarah, enquanto que esta parecia considerar favoravelmente à sugestão da minha prima. Kennie começou a rir e, automaticamente, eu me voltei para ela, bem na hora em que começou a falar.

- Rin, é melhor você ir logo ao banheiro... Esse sofá é novo, e minha mãe vai ficar zangada, se você fizer xixi nele.

E olhei de volta para Rin, percebendo agora a maneira como ela sacudia os joelhos e batia o pé no chão. O que eu pensei ser impaciência, nada mais era que a mundialmente conhecida "dança do xixi". Rin estava apertada, e eu não pude evitar rir daquela cena.

- HA-HA-HA, engraçadinhas! – Rin nos mostrou a língua e começou a caminhar até o toalete destinado às visitas, uma porta fechada que ficava atrás da escada.

- O lavabo está em reforma... – Kennie informou, ainda com ar risonho – Tivemos um problema com o encanamento. Use um dos banheiros lá de cima, você sabe onde é.

O sangue desapareceu das feições de Rin, e ela ficou mais branca do que papel. Se ali embaixo, tínhamos uns 60% de chance de encontrar o Sesshoumaru, subir as escadas devia elevar isso pra uns 95%. Ou mais.

Eu fiz menção de acompanhá-la, mas Rin me repreendeu com os olhos. Sempre bancando a forte, srta independente. Seus pés vacilaram quase imperceptivelmente no primeiro degrau, mas ela segurou firme no corrimão e pisou seus passos decididos escada acima.

Minha mãe sempre disse que a preocupação me faria ter rugas antes dos trinta, mas o que fazer? Rin estava demorando demais! Convenhamos que 1 milkshake e 1 água tônica não poderiam encher tanto assim a bexiga de alguém.

Eu pedi licença para Kennie e Sarah, alegando ir ver se Rin estava bem – o que, de fato, era a mais pura verdade – e subi as escadas rapidamente. Já no corredor eu pude ouvir a voz que eu temia ouvir. Sesshoumaru falava baixo, com sua voz grave e firme e, aparentemente, não estava de muito bom humor.

Eu pedia a Deus, em pensamento, que ele estivesse brigando com Inu Yasha. Claro que isso também me deixaria com raiva do meu cunhado, mas o Inu já estava acostumado a quebrar o pau com o irmão e com toda a certeza, ao contrário de Rin, ele não sairia de uma dessas discussões com feridas incuráveis.

Minhas expectativas se quebraram quando, ao dar mais alguns passos adiante, eu vi a metade do corpo masculino que se projetava para fora do banheiro.

- ...E volte logo para San Francisco! – Foi tudo o que eu consegui ouvir da conversa.

- Rin? – eu deliberadamente me fiz ouvir no corredor, e Sesshoumaru me olhou de imediato. Rin saiu do banheiro, quase dando um encontrão nele e vindo para mim – Olá, Sesshoumaru – Eu o cumprimentei.

- Kagome – Ele sorriu, como se não soubesse que eu sabia que ele sab... ah, vocês entenderam!

Rin segurou o meu pulso e me puxou levemente em direção às escadas.

- Uh... Acho que demorei, não? – Ela falou, despreocupada, enquanto caminhávamos – Vamos voltar, Kennie já deve ter roído todas as unhas!

Apesar do tom bem-humorado, Rin não sorria. Creio que nem a melhor das atrizes poderia sorrir depois de tudo o que ela deve ter ouvido. E eu não tinha certeza se teria coragem pra perguntar a respeito dessa conversa, mais tarde.

Conforme nós descíamos, eu sentia Rin ficando mais rígida ao meu lado, embora sua expressão não demonstrasse nada, sequer aborrecimento – como uma boneca de cera. Quando só faltavam os três últimos degraus foi que eu percebi que estávamos sendo seguidas, de longe. Não precisei nem olhar pra trás, pois a "aura elétrica" da escada e a sensação de olhos cravados na minha espinha deixava bem claro que era Sesshoumaru.

Quando entramos no campo de visão de Kennie e Sarah, Rin já sorria naturalmente, como alguém que realmente só tivesse aliviado a bexiga. Será que ela também percebera que Sesshoumaru estava vindo para a sala? Nós nos sentamos e Sarah, como que por um milagre, desembestou a falar. Eu tentei, juro que tentei, prestar atenção ao que ela dizia, mas aquela sensação de filme de terror voltara com tudo. Deveríamos estar quase sendo pegas...

- Que isso, Sarah! Nós é que ficamos lisonjeadas em poder ajudar...

A voz da minha prima saiu uma oitava mais alta, sinal de que ela estava nervosa. Eu busquei na minha memória o que Sarah havia comentado, então me lembrei de algo sobre ela estar agradecida por organizarmos a despedida de solteira. Ela não iria nos agradecer mais depois do próximo sábado, se tudo corresse bem.

- Bom, eu espero que essas malucas não façam a minha noiva dançar com algum stripper... – Sesshoumaru parou em pé, atrás do sofá onde Sarah estava, e se inclinou para beijá-la na testa, nos olhando, em seguida – Já contou a ela, Rin?

Hun... Ele ainda dizia o nome dela de um jeito diferente, "profundo" eu acho, quase como se sentisse prazer em pronunciá-lo... ESPERA AÍ! "Já contou a ela" o que? Será que eu perdi alguma coisa realmente importante daquela conversa no banheiro?

- Me contar o que? – a expressão de Sarah estava iluminada, estranhamente esperançosa, como uma criança ansiando por seu presente de aniversário. Seria a ameba curiosa?

- Rin foi minha namorada quando éramos crianças – ele indicou minha prima com o queixo, enquanto olhava para a noiva, e eu percebi que ele estava tentando parecer desdenhoso, enfatizando a última palavra.

- Não sei bem se aquilo foi um "namoro" – Rin surgiu das cinzas com voz firme e um sorriso impecável – Como você disse, Sesshoumaru, éramos duas crianças. Acho que foi mais uma brincadeira inocente. Não achei necessário importunar a sua noiva com essas bobagens.

Whooooooa! Se ele estava tentando parecer desdenhoso, Rin conseguia parecer indiferente. E aí eu me lembrava mais uma vez o porquê de ela ser a minha heroína.

Eu esqueci de mencionar que, enquanto Sesshoumaru e Rin travavam sua batalha épica para ver quem dava menos importância ao antigo relacionamento, Kennie havia gritado o nome do irmão mais velho euforicamente e se dependurado no pescoço dele? Bem, eles não se viam há uns seis meses – se não contarmos o rápido encontro, dois dias antes, em que ele anunciou o noivado, deixou a Sarah como peso morto e voltou pra Washington – e considerando a maneira como eram apegados, ninguém estranhava o fato de que ele dava mais atenção à irmã do que à própria noiva.

Eu e Rin estávamos novamente no carro da minha mãe, voltando pra casa, enquanto o sol se punha sem grandes espetáculos. Era muito estranho não ter o Inu conosco, já que Izayoi acabara de nomeá-lo seu ajudante oficial, e ele andava de um lado a outro com uma trena. Eu estava acostumada a sempre tê-lo por perto, em San Francisco.

Ah, sim! Que péssima contadora de histórias que eu sou! Óbvio que vocês querem saber o que mais aconteceu naquela sala, mais cedo, certo? Bem, na verdade... Não aconteceu nada. Sesshoumaru disse que estava indo com o meu sogro até a oficina do marceneiro, ver como estava a confecção do altar para a cerimônia. Casamentos de quintal têm dessas coisas. Kennie decidiu que iria junto, e ninguém se atreveu a contrariá-la. Tá certo que ela queria ficar perto de Sesshoumaru o máximo possível, mas – sem querer duvidar das boas intenções da minha cunhada – eu tenho plena certeza que a possibilidade de passar algumas horas sem Sarah – e melhor, mantendo Sesshoumaru longe dela também – influenciou bastante na sua decisão.

Por falar nela, Sarah recolheu suas tiaras e afins e se retirou para o quarto de hóspedes, que ela estava ocupando desde que chegara. Ela disse que tinha sido um dia bastante exaustivo, e eu não tive como discordar, já que meu corpo parecia ter passado por um moedor de carne. Izayoi estava completamente envolvida com os projetos de decoração e, como eu já disse, seqüestrou meu namorado e o pôs pra trabalhar, também. Quanto a Rin e eu, ou ficávamos ajudando, ou íamos pra casa.

No meu estado de "guisado" e depois de tudo o que nos acontecera, preferimos a segunda opção.

Rin prestava uma atenção incomum à estrada, não que minha prima não fosse uma motorista cuidadosa, na normalidade, mas ela, pelo menos, costumava falar enquanto dirigia.

Eu podia perceber que ela estava abalada, e sabia que havia acontecido alguma coisa dentro daquele banheiro. Alguma coisa que Rin teria de me contar.

- Ele está bem diferente, não acha? – talvez se eu iniciasse o assunto, ela teria a deixa pra me contar.

- Sesshoumaru? Diferente no que? – Ela nem me olhou

- Hun, eu lembro que ele sempre foi assim, calado, mas na época da escola ele fazia um gênero meio "misterioso", e as garotas morriam por isso. Mas agora, sei lá! Ele me pareceu só um cara chato, mal humorado. Estava tão... Frio. Quase não parecia humano.

Rin riu, e finalmente voltou-se para me olhar, tornando a focar a rua logo em seguida.

- Você é muito observadora, ll'Key³ - Nossa, ela não me chamava assim há muito tempo – aquele que você viu na sala com toda a certeza não era o Sesshoumaru que conhecemos...

O tom de voz que ela usou não transmitia nada e me desencorajou de perguntar o que quer que fosse. Óbvio que não ajudou em nada a diminuir a minha curiosidade, muito pelo contrário. Mas não era justo pressioná-la, não quando eu a conhecia tão bem para saber que ela estava confusa.

Sei que Rin me contaria o que havia acontecido, quando ela mesma houvesse organizado esses acontecimentos de maneira coerente.

Nosso trato era bem simples: Rin subiria para tomar um banho, enquanto que eu aquecia a lasanha de microondas que seria o nosso jantar, e comeríamos em uns quinze minutos.

Eu só não entendia porque eu estava sozinha naquela maldita cozinha há cerca de uma hora, encarando uma lasanha já fria e endurecida em cima da mesa. Tá certo que à vezes Rin se passava e demorava demais no banho, mas eu já começava a me perguntar se ela não teria ido dormir, me esquecendo lá embaixo com o estômago roncando. Que falta de consideração da parte dela!

Eu subi as escadas um pouquinho brava, disposta a mostrar meu lado malvado, caso a encontrasse lendo, assistindo TV ou em qualquer outra atividade que denunciasse que minha priminha havia, de fato, esquecido-se de mim.

Rin não estava em seu quarto, e sua cama estava impecavelmente estendida. Todas as luzes dos outros cômodos estavam apagadas, menos a do banheiro. Eu me aproximei da porta, e percebi que não havia barulho de chuveiro. Bati na porta fechada e chamei o nome da minha prima. Ela não respondeu. Chamei de novo, praticamente gritando, ainda assim não houve resposta. Tentei girar a maçaneta, e percebi que a porta estava trancada.

Rin não tinha o hábito de trancar a porta do banheiro, tampouco do seu quarto. às vezes esquecia até mesmo de fechá-las. Algo estava muito errado. Eu chamei por ela, forcei a maçaneta até que a porta inteira sacudisse, e nada. Não se ouvia o mínimo ruído vindo de lá de dentro.

No desespero, só uma coisa veio à minha cabeça: chamar o Inu Yasha. Eu corri até o meu quarto pra pegar meu celular. Já estava discando o número dele, quando escutei o som do saxofone vindo da casa ao lado. Bankotsu!

Dizem que situações desesperadas pedem medidas desesperadas, então eu esqueci toda e qualquer timidez e voei escada abaixo. Passei pela porta e cruzei o quintal em uma fração de segundos, batendo feito uma louca na porta do vizinho.

Ele me atendeu descalço, vestindo apenas uma bermuda, e percebeu na hora que havia algo de errado.

- A Rin – eu disse, ofegante, assim que o vi – está trancada no banheiro há uma hora, e não responde quando eu chamo. Acho que ela pode ter desmaiado, ou sei lá – as palavras saíam muito rápido, e eu temia não estar fazendo sentido – Preciso que arrombe a porta!

- Calma, eu vou te ajudar – Ele falou, me olhando firmemente – Fica aqui, Tommy.

Bankotsu pegou um molho de chaves no aparador e bateu a porta, evitando que o cachorro o seguisse. Ele foi até o Impala4 preto estacionado no gramado e pegou uma bolsa de viagem embaixo do banco do motorista.

Antes mesmo que eu pudesse perguntar o que era aquilo, nós dois já estávamos praticamente dentro da casa, e ele falava comigo – muito mais pra me tranqüilizar do que pra dar qualquer explicação.

- Eu não posso simplesmente derrubar a porta, Kagome – disse com calma, enquanto subíamos as escadas – Se ela estiver desmaiada, poderia se machucar... Preciso das ferramentas pra poder abrir a fechadura.

Eu indiquei qual era a porta, quando chegamos, e ele se ajoelhou na frente dela, já empunhando uma chave Phillips. Meu Deus! Ele pensava rápido... Se fosse eu, teria simplesmente metido o pé na porta e, muito provavelmente, causado um traumatismo craniano na minha prima.

A fechadura foi meio que "desmontada", e Bankotsu trocou de ferramenta, utilizando agora um alicate para remover pequenas peças metálicas de dentro da maldita tranca. Eu ouvi um "clack" e a porta se abriu, evidenciando que Rin não jazia atrás dela.

Eu não esperei mais nada; entrei naquele banheiro como um raio e escaneei o local à procura de Rin em um piscar de olhos. Apenas a curva despida de seu quadril estava aparecendo acima da lateral de louça da banheira. Eu me ajoelhei ao lado da banheira, e vi a cena mais dolorosa que jamais imaginei ver novamente.

Rin não estava desmaiada, mas não posso dizer que estava consciente. Os cabelos ainda estavam encharcados, sua pele muito fria e os pêlos eriçados. Ela chorava. Aliás, chorava muito, seus olhos profundamente vermelhos e inchados.

Há muito tempo que eu pensava que essas crises já haviam parado, mas essa era muito pior. Rin estava em estado de choque, chorando em absoluto silêncio, com o corpo trêmulo e encolhido. Quando eu chamei pelo seu nome, ela começou a soluçar, tremendo ainda mais com aquela expressão de medo nos olhos.

- Rin, fala comigo, por favor! – Eu a sacudi levemente, mas ela apenas passou a soluçar mais alto.

- O que ela tem?

Foi só aí que eu me dei conta de que Bankotsu não havia entrado comigo. Provavelmente ele calculara que Rin devia estar nua, e teve a sensibilidade de se manter lá fora. Será que ele era muito esperto, ou eu que sou tão nonsense que jamais pensaria nesse tipo de coisa?

- É uma crise emocional – Eu cobri o corpo de Rin com um roupão, e me virei para ele – Pode me ajudar?

Ele compreendeu o recado e caminhou até nós, pegando Rin no colo com todo o cuidado, para que o roupão não escorregasse. Como a porta do meu quarto estava aberta, e a luz acesa, ele automaticamente a levou para lá, colocando sobre a minha cama.

- Tem algum calmante, ou qualquer coisa que possamos dar pra ela?

Eu raciocinei rapidamente, enquanto pegava uma toalha limpa e um pijama dentro do meu closet. Aonde mesmo que a minha mãe guardava essas coisas?

- Deve haver algum chá no armário, em cima da pia da cozinha...

- Com licença... – E ele sumiu pela porta.

Eu pus a cabeça de Rin no meu colo, enxugando seus cabelos enquanto tentava trazê-la de volta à realidade.

- Rin... O que aconteceu lá hoje pra te deixar desse jeito?

- Me leva pra casa, ll'Key... Está tudo errado... Tudo, tudo! Ele não me ama, Key... Eu não quero, está errado... Não... Me leva, por favor... Me leva pra casa...

Rin tremia muito. De frio, de vergonha, de medo. Seu lábios estavam terrivelmente pálidos, e sua voz era quase que incompreensível. Foi difícil conter minhas próprias lágrimas, mas chorar não ajudaria em nada, então me obriguei a ser forte.

Bankotsu voltou depressa, trazendo uma xícara com o líquido fumegante que, só pelo cheiro, eu pude notar que continha uma dose extra de açúcar. Rin estava mais calma, e nós conseguimos fazer com que ela se sentasse na cama para beber.

Quando ela tomou o último gole, Bankotsu afagou seus cabelos e deu-lhe um beijo na testa, me olhando com uma expressão que, sinceramente, eu não sei bem o que demonstrava. Certifiquei-me de que Rin poderia ficar sozinha por alguns instantes, e o acompanhei até o corredor.

- Olha, ela está passando por alguns problemas, e...

- Tudo bem, Kagome. Eu não vou fazer perguntas – Ele me interrompeu, com um sorriso cansado – Todo mundo desmorona, uma vez na vida... Bom, eu misturei alguns chás calmantes que encontrei, então acho que ela vai dormir bastante – Ele parou diante da escada – em todo o caso, eu vou deixar as janelas da minha casa abertas. Qualquer problema, é só gritar – Ele pos a mão no meu ombro e sorriu. Não deu pra não notar o quanto charme aquela figura possuía – Agora vai lá ficar com ela, eu bato a porta ao sair.

- Muito obrigada, Bankotsu. Por tudo.

Ele apenas sorriu e ergueu os ombros, descendo as escadas para sair logo em seguida.

E, agora, viria a parte mais difícil. Encarar Rin, com seus medos, inseguranças e, talvez, sua desistência.

- Ele pensa que eu sou louca? – Rin me surpreendeu, quando eu entrei no quarto.

Ela não me olhava, encarava o chão. Estava sentada em minha cama e já dentro do pijama. Seus olhos castanhos mal apareciam, por trás das pálpebras inchadas e cílios úmidos. Eu podia ver o quanto ela estava contrariada. Desde garota, Rin sempre bancou a forte; detestava que a vissem chorar. Agora, seu rosto não poderia, nem pelo mais ínfimo dos instantes, esconder seu estado de espírito.

- Não, mas ele pensa que você é humana.

- Oh droga, isso vai acabar com a minha reputação...

Ela deu um sorriso triste, e eu me sentei ao seu lado, pondo um braço por sobre seus ombros.

- Quer conversar? Tudo bem, se não quiser...

Rin pareceu considerar, por alguns instantes. Por fim acabou cedendo.

- Tudo bem, é melhor mesmo você saber... Acabou a brincadeira, Kagome. Eu vou voltar pra San Francisco, assim que for possível – Ela finalmente ergueu o rosto para me olhar – O Sesshoumaru que eu amei não existe mais. Seria um erro insistir nisso...

Eu estava pasma. Quem era essa mulher e o que ela fez com a minha prima? Desde quando "desistir" fazia parte do vocabulário de Rin?

- O que houve lá, entre vocês, essa tarde?

Um suspiro escapou dos lábios dela, e eu sabia que Rin estava tentando não chorar.

- Eu saí do banheiro e dei de cara com ele, no corredor. Ele pareceu surpreso ao me ver, já que ficou um bom tempo me encarando sem falar nada... Então ele me beijou. –Eu tentei segurar meu queixo, e minha língua; não era hora de interrompê-la – Foi um beijo estranho... Ao mesmo tempo que parecia ser saudade, também parecia vingança. Como se ele tentasse me punir, mostrando o quanto ainda é capaz de me dominar. Eu nem sei como, mas havíamos ido parar dentro do banheiro. Ele me soltou e começou a falar, foi aí que o médico virou monstro – Rin repetiu cada palavra, engrossando a voz para imitar o timbre de Sesshoumaru – "Eu não sei o que veio fazer aqui, Rin, e também não me importo. Vou construir uma família ao lado de Sarah, então espero que assista a cerimônia, nos deseje felicidades e volte pra San Francisco!"

- Rin...

Eu simplesmente não tinha o que dizer a ela. Limitei-me a abraçá-la e, ao fazer isso, senti mais lágrimas mornas tocando os meus ombros. Minha vontade era gritar! Deus, como era difícil ver Rin sofrendo e saber que, talvez, nada pudesse diminuir seu sofrimento, agora.

- Tudo bem – Ela disse, fungando – Foi melhor assim, eu não vou ter que desperdiçar o meu tempo tentando... – Ela me soltou e limpou os olhos, tentando sorrir – Se importa se eu dormir aqui? Como nos velhos tempos...

- Seria ótimo!

Quando nós éramos meninas, e Rin estava triste, ou confusa, ou com medo, ela vinha ao meu quarto. Fazíamos uma "cama" com edredons para ela dormir, ao lado da minha, e nós conversávamos até pegarmos no sono – o que, às vezes, só acontecia depois do amanhecer. Quando eu tinha problemas, fazíamos o mesmo, mas no quarto dela.

Não falamos sobre o Sesshoumaru, ou voltar pra San Francisco, ou nosso passado, ou nosso futuro. Nós falamos sobre o mundo e as pessoas, nós falamos sobre Deus...

De repente, no meio de toda aquela confusão, eu soube quem eu deveria procurar; a única pessoa que poderia me dar um conselho, uma direção. Alguém que me conhecia bem, e à Rin, e ao Sesshoumaru.

O chá de Bankotsu não demorou a fazer efeito, e Rin adormeceu em cinco minutos de conversa. Eu é que ainda fiquei me revirando e demorei a pegar no sono.

Eu só sabia de uma coisa: Rin e Sesshoumaru se amavam, e apenas seriam infelizes separados. Agora eu estava disposta a juntá-los novamente, pois eu nunca seria completamente feliz, se Rin não o fosse.

Adormeci de um sono inquieto, cheio de pesadelos. E assim terminou a nossa conturbada segunda-feira.

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Continua...

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Notas:

¹Stanford – Universidade particular localizada em Palo Alto, Califórnia. Possui uma conceituada faculdade de jornalismo e estudos de Mass Communication (comunicação de massa);

²Sprinklers – Aqueles sensores de incêndio que ficam no teto, e jorram água quando detectam vestígios de fogo (fumaça, por exemplo);

³Ll'Key – "pequena K" ou "pequena chave". Os americanos costumam fazer essas brincadeiras com os nomes, e eu achei bonitinho a Rin chamar a Kah assim, como se fosse um apelido de infância. Notem que, anteriormente, nesse mesmo capítulo, a Kanna já havia chamado a Kagome de "Key".

4Impala – Chevrolet Impala, um dos melhores e mais bonitos carros já fabricados. Pra quem já assistiu Supernatural, é o carro usado pelos irmãos Winchester.

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Não esqueçam as reviews... Bjnho!