Hugo Reyes não podia acreditar que estava vivo. Incrédulo, ele esticou os próprios braços à frente, fitando-os com as sobrancelhas erguidas e pouca convicção. Apalpou o peito e o rosto, certificando-se de que ainda era de carne e osso. Após uma checagem rápida, Hurley deixou escapar um suspiro de alívio.

- Cara... - murmurou para ninguém em particular, levantando-se do chão. Depois de passar por quedas de avião, viagens no tempo e explosões atômicas, ele começava a achar que era o amaldiçoado com mais sorte no mundo. Ou talvez não... reconsiderou ao notar, finalmente, a cena se desenrolando a sua volta. Imóvel no meio do caos, ele teve de respirar fundo para recuperar-se do choque.

- Não, não, não! - gritou levantando a cabeça. Hurley abriu os braços e encarou os céus indignado. - Por quê?!

Quando nenhuma resposta veio, ele resignou-se e olhou para o desastre a sua frente - o vôo 815. Com um certo desepero, percebeu que ainda havia dezenas de pessoas espalhadas pela praia, quase todas precisando de ajuda. E ele tinha que ajudá-las... Mas Hugo não avançara dois passos quando uma figura de terno cortou seu caminho carregando alguém nos braços.

- Jack! - Hurley chamou surpreso, acompanhando-o com os olhos ao caminhar até a sombra das árvores.

Não houve tempo para seguir ou falar com o médico. Antes que Hurley pudesse sequer chamá-lo outra vez, Jack abaixou-se com a mulher nos braços e a deitou cuidadosamente sobre a areia. Havia uma dose de pânico e incerteza em seus movimentos. Hurley concluiu que talvez por isso ele não notara uma terceira pessoa se aproximando a passos rápidos - rápidos demais.

- Filho da puta! - Sawyer gritou, praticamente correndo até Jack.

Distraído, o médico virou-se lentamente na direção da voz. Não houve tempo para reagir: de repente um punho fechado o acertou no olho esquerdo com força suficiente para derrubá-lo. Jack caiu de costas, o impacto deixando-o sem ar. Tossiu e engasgou quando alguém se atirou sobre ele, puxando-o pela gola.

- Seu filho da puta! - Sawyer repetiu, os dedos agarrados com força ao paletó do doutor. - Você matou ela!

Um soco cruzado, e agora a visão de Jack estava repleta pequenos pontos pretos. Ele tossiu novamente e sentiu o gosto metálico de sangue na boca. Talvez não demorasse muito até perder a consciência.

- Você matou ela!

Cego em sua aflição, Sawyer ergueu o punho no ar novamente, aprontando seu próximo golpe. Jack fechou os olhos, preparando-se para o impacto. Mas o impacto nunca ocorreu. Subitamente Hurley estava entre eles, puxando Sawyer pelos braços, arrastando-o para longe.

- Ele a matou, Hugo! Ele matou a Juliet! - Sawyer dizia, agora jogado na areia, o rosto contorcido numa expressão desespero. Hurley o encarava ofegante, incapaz de reagir à acusação. Jack continuou estirado por alguns momentos, simplesmente tentando livrar-se da dor que explodia em seu crânio. Quando finalmente recuperou-se o suficiente para mover-se, ele levantou o braço, apontando na direção da mulher ainda desacordada a alguns passos deles.

- Ela está viva. - anunciou simplesmente.

James estancou imediatamente. Num instante, seu olhar deslizou da face inchada do médico para a figura deitada ali ao lado, notando-a pela primeira vez. Sua expressão mudou, de repente, ganhando um ar de incerteza, e ele se levantou mais rápido do que parecia capaz naquele estado. Hugo sentiu-se quase um intruso ao observá-lo se debruçar sobre Juliet, as mãos pousando delicadamente sobre o rosto da mulher.

- Juliet? - ele sussurrou, medo e incredulidade se mesclando em cada letra do nome.

Quando ela abriu os olhos, ele sorriu.