Um silêncio perturbador se instalou no recinto. Todos miravam Draco com curiosidade. Foi o garoto de cabelos castanho-claros que falou primeiro.

- Ah... Por que você chamou a mamãe pelo nome de solteira? – ele perguntou com a sobrancelha arqueada em um gesto típico de Draco Malfoy.

Malfoy por sua vez estava ainda muito chocado. Aquela à sua frente era sem dúvida Hermione Granger e estava exatamente igual à foto que ele vira na manhã anterior. Bom, talvez estivesse um pouco mais gordinha, mas, ainda assim, era ela: olhos brilhantes e cabelos cheios. Sem grandes sinais de envelhecimento.

- Draco? Está tudo bem? – Hermione perguntou um pouco preocupada.

- Papai? Papai? – o garotinho que era muito parecido com a mãe perguntou se aproximando do loiro e quase o agarrando pelas pernas.

Draco estava muito assustado, definitivamente. Ele havia dormido solteiro e acordara com três filhos que tinham como mãe Hermione Granger. Aquilo tudo era um sonho? Se fosse, ele queria acordar imediatamente.

- Draco? – Hermione perguntou novamente.

O loiro abriu a boca e fechou-a. Abriu novamente e voltou a fechá-la. Tomado por um acesso de pânico, ele saiu correndo. Abriu desesperadamente a porta da frente e imediatamente sentiu o ar gelado. Pelo menos ainda era inverno...

- Mas o que está acontecendo? – ele praticamente gritou.

- Senhor Malfoy?

Draco virou-se no mesmo instante. Um homem de barba longa, óculos de meia-lua e olhos azuis brilhantes mirava-o com curiosidade.

- Dumbledore! – Malfoy exclamou – Eu sabia que tinha dedo seu nisso!

- Perdão?

- Não se faça de inocente! – o loiro falava alto enquanto apontava o dedo para o mais velho – Você está envolvido nessa maluquice, não está? O quê foi desta vez? Um vira-tempo?

Um brilho rápido passou pelos olhos claros do mais velho, mas foi tão rápido que Draco sequer notou.

- Eu não tenho idéia do que esteja falando, senhor Malfoy. Vim visitar um velho amigo que também mora nesta rua. Apenas isso.

Draco olhou incrédulo para Dumbledore.

- Você está mentindo. – o loiro acusou achando a probabilidade de Dumbledore ter um velho amigo morando naquela rua e indo visitá-lo naquele momento muito remota.

O mais velho sorriu.

- Por favor, não me acuse, senhor Malfoy.

- Você...

- Preciso ir agora. Dê lembranças à senhora Malfoy e às crianças. – e dizendo isso Dumbledore desaparatou.

Draco ainda ficou olhando por alguns instantes o local onde Dumbledore havia estado quando uma voz o chamou.

- Draco! Está frio! Venha para dentro!

Não havia alternativa. Se não entrasse, morreria de frio. Suspirando, o loiro deu meia-volta e entrou.

Quando entrou na cozinha, as três crianças estavam sentadas à mesa e Hermione estava de costas para a porta, aparentemente cozinhando alguma coisa. Parecia haver uma discussão entre as três crianças. Ainda pensativo, Draco sentou-se e sequer prestou atenção no que seus supostos filhos falavam.

- Não vou! – a menina exclamou.

- Vai sim! – o garoto de olhos cinzentos disse.

- Vai siimm! – o mais novo imitava o irmão.

- Não vou! Pai! – a garota chamou.

Draco não pareceu perceber que estava sendo requisitado.

- Pai! – a garota gritou dessa vez despertando Draco de seus devaneios.

- O quê? – o loiro perguntou um pouco incomodado. Ainda não havia se acostumado a ser chamado daquela forma.

- Diga para Julien que eu não irei para a Lufa-Lufa! – a mais velha falou.

Draco arqueou uma sobrancelha.

- Do que é que vocês estão falando? – ele perguntou.

- Eu falei para a Morgan aceitar o fato de que ela irá para a Lufa-Lufa. – o garoto falou rindo.

- Jamais! Antes a Corvinal do que a Lufa-Lufa! – a garota gritou.

Tudo estava acontecendo rápido demais para Draco. Pelo menos agora ele sabia que os nomes dos mais velhos eram Morgan e Julien e que a garota não queria ir para a Lufa-Lufa de jeito algum.

- E para que casa você quer ir? – Draco perguntou.

Todos olharam espantados para ele. Até mesmo Hermione havia se virado.

"Será que falei alguma coisa errada?" – ele se perguntou ao ver os olhares espantados.

- Para a Sonserina é claro. – Morgan respondeu ainda espantada.

- O quê foi, Draco? – era a voz de Hermione – Nós todos sabemos que a Morgan quer ir para a Sonserina. Você sempre soube disso. Aliás, você sempre foi o que mais incentivou...

- Ah... É verdade. Eu... Eu havia esquecido... – o loiro disse enquanto sorria por dentro. Aquela garota não só era muito parecida fisicamente com ele como também tinha a mesma personalidade. Sim! Mais um sonserino no mundo!

- Mas ela vai para a Lufa-Lufa... – Julien provocou.

- Lufa-Lufaaaaaaaa! – o mais novo gritou.

- Parem vocês! Mãe! – Morgan gritou. Hermione sorria.

- Parem com isso vocês dois.

- E você? – Draco perguntou para Julien – Para que casa quer ir?

O garoto suspirou e depois deu de ombros.

- Para mim qualquer uma serve desde que eu aprenda.

"Corvinal" - Draco pensou.

- Todos sabem que conhecimento é poder.

"Hum... Talvez Sonserina..."

- Pergunta pra mim, pai! Pergunta pra mim! – o mais novo gritava enquanto balançava os bracinhos.

Draco olhou com as sobrancelhas levantadas para o garotinho. Por que uma criança de aparentemente quatro anos iria pensar nesse tipo de coisa?

- Muito bem. Para que casa você quer ir, Andy? – o homem perguntou lembrando-se do nome pelo qual Hermione havia chamado o garoto mais novo.

- Grifinória! Grifinória! – Andy respondia alegremente.

No mesmo instante Draco fechou a cara e Hermione abriu um largo sorriso evidenciando o quanto estava orgulhosa.

- Por que você quer ir para essa casa? Lá só tem idiotas!

- Draco!

- Se vocês supostamente são meus filhos, então todos irão para a Sonserina! – Draco disse ainda irritado com a audácia de Andy de querer ir para a casa dos leões.

- Draco Malfoy! – Hermione berrou.

No mesmo instante, as três crianças saíram da mesa.

- Parece que alguém vai levar bronca... – Julien disse provocante enquanto saída da cozinha com os irmãos.

Assim que se viu sozinha com o marido, Hermione começou a ralhar.

- O quê te deu na cabeça para falar assim da minha casa?

- Ah, Hermione! Todo mundo sabe que na sua casa só tem idiotas. – o homem falou fazendo pouco caso.

A mulher estreitou os olhos.

- Oh, sim! E na sua tem o quê?

- Os melhores bruxos da nossa sociedade. – o loiro respondeu com um sorriso. Hermione rolou os olhos.

- Seja qual for a casa para qual meus filhos forem, eu os amarei mesmo assim. – ela disse.

Draco ficou quieto. Não compartilhava dessa opinião.

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Hermione gritava para que Draco se apressasse, mas o loiro ainda não havia se mexido. Estava estático olhando para o guarda-roupa. Quem em sã consciência usaria aquilo? Onde estava seu casaco escuro que havia lhe custado os galeões de um mês inteirinho? Onde estavam as luvas de couro de dragão feitas por encomenda? E Merlin! Onde estava a capa que herdara de seu pai e que estava na família Malfoy há gerações?

- Draco! – Hermione exclamou entrando no quarto – Você ainda não está pronto?!

- Como eu posso estar pronto se eu não tenho roupa? – ele perguntou irritado.

A morena olhou-o confusa.

- Mas Draco, seu armário está cheio de roupas...

- Você chama isto de roupa? – o loiro perguntou segurando uma camisa.

- Qual o problema com a camisa? Foi a minha mãe quem te deu...

- Só podia! Só uma sogra sangue-ruim para dar uma camisa tão horrenda!

- Draco! – Hermione exclamou já irritada – Não fale da minha mãe dessa maneira!

- Eu preciso de roupas decentes... – o loiro murmurou para si mesmo sem prestar atenção na esposa.

- Bom, eu estou partindo. Vemos-nos à noite. – a morena falou magoada enquanto saía do quarto.

Draco ainda ficou um tempo olhando para aquelas roupas horrorosas. Suspirou. Não tinha jeito. Era isso ou ir pelado e congelar.

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Enquanto se dirigia para a sua sala, Malfoy fazia notas mentais.

"Preciso comprar roupas decentes. Aliás, eu preciso é retomar a minha vida. Assim não precisarei comprar roupas decentes".

O loiro abriu a porta sem cerimônias, jogou a pasta – que não tinha a mesma qualidade da sua antiga – em um canto e sentou na cadeira colocando os pés em cima da mesa. Fitou o teto pensativo. Ficou assim por um tempo até um barulho despertá-lo. Parado à porta, estava um homem que parecia ter mais ou menos a sua idade.

- O quê quer? – Draco perguntou mal-educado.

- Ah... Por que você está na minha mesa? – o homem perguntou confuso.

- Sua mesa? Esta mesa é minha! Quem é você?

- Eu sou Zacarias Smith...

Smith... Esse nome não lhe soou estranho. Ele não havia sido da Lufa-Lufa?

- Ouça, Smith. Você com certeza errou a sala. Há anos eu uso esse escritório.

- Não. Há anos eu uso esse escritório. Você trabalha no andar de cima. Esqueceu-se?

Draco olhou-o confuso. Há anos usava aquela sala. A não ser que seu escritório havia mudado de lugar. É, fazia sentido.

- Desculpe. – o loiro falou levantando-se e pegando a mala. – Nos vemos por aí.

- Claro. – o outro respondeu.

Draco saiu irritado da sala. Como haviam mudado seu escritório de lugar e ele não ficara sabendo? Ah! Ele iria reclamar com o ministro! Ah, se ia!

- Onde é a minha sala? – Malfoy perguntou para a primeira pessoa que viu assim que chegou ao andar superior. Sentia-se extremamente idiota por fazer aquela pergunta.

Desconfiada, a mulher de meia-idade apontou para uma das várias portas do corredor. O loiro murmurou um "obrigado" e foi em direção ao novo escritório. A porta parecia gasta assim como a placa de metal grudada nela: "Draco L. Malfoy".

"Eu preciso urgentemente conversar com o ministro." – o homem pensou.

Abriu a porta com violência que se fechou com um estrondo.

- Draco! Está atrasado! – uma voz exclamou.

Ao ver o dono da voz, o loiro quase desmaiou. Ter Hermione Granger como esposa já era uma surpresa, mas ter Arthur Weasley como chefe era mais. O que faltava agora? Harry Potter como melhor amigo?