Malfoy acordou no dia seguinte sentindo-se péssimo. A culpa corroía sua alma e ele não entendia o porquê de se importar tanto com os sentimentos de Hermione Granger. Aquilo o deixava irritado. Bufando, sentou-se no sofá e levou a mão aos cabelos platinados, apertando-os levemente. Aquilo tudo era muito complicado. Queria sua antiga vida de volta. Queria ser solteiro novamente, sem responsabilidades. Queria não ter que sentir-se mal por magoar certa mulher de cabelos volumosos.

Levantou-se jogando a colcha para o lado. Caminhou até as escadas e foi só então que notou quão silenciosa a casa estava. Pelo horário, as crianças já deveriam estar correndo de um lado para outro, gritando e brigando. Bom, ele não se importava. Era melhor que tudo estivesse silencioso. Sentia falta de ter um pouco de paz. Ouvia o ranger da escadaria à medida que subia. Como queria estar pisando agora em seus degraus de salgueiro...

O corredor estava assustadoramente silencioso. Talvez as crianças ainda estivessem dormindo. Ao chegar ao seu quarto, viu que a porta estava aberta. Não havia ninguém no aposento. Onde diabos havia se metido Hermione? Onde estavam os gritos, os objetos sendo arremessados em sua direção? Uma súbita onda de pânico se apoderou dele. Correu em direção ao quarto de Andy. Não havia ninguém. Foi então ao quarto ao lado. Julien também não estava lá. Por fim, escancarou a porta do quarto de Morgan para encontrar o lugar vazio. Ninguém. Não havia ninguém na casa. Hermione havia ido embora levando seus filhos com ela.

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Uma garrafa de cerveja amanteigada era a sua única companhia. Draco sentia o líquido descer arranhando sua garganta. Havia uma estranha dor em seu peito e suas mãos suavam frio. Já passava das sete e Hermione ainda não havia dado sinal de vida. Ele queria se explicar. Queria dizer a ela que aquele beijo não havia significado nada. Por que a morena não voltava logo? Por que aqueles três fedelhos não adentravam em um rompante gritando e criando confusão? Por que ele se importava tanto?

Oito horas da noite. Hermione, onde você estava?

Nove horas da noite e ele não aguentava mais. Tinha que procurá-los. Tinha que saber se estavam bem. Tinha que aliviar a angústia em seu peito. Decidido, Draco pegou seu casaco surrado e se dirigiu a porta. Foi então que esta se escancarou brutalmente.

- Aquilo foi nojento, Julien! – Morgan reclamava.

- Nojenta é você! – Julien rebateu.

- Parem com isso. – Draco pôde ouvir a voz de Hermione vinda de fora.

- Mamãe! Quero fazer xixi! – a voz fina de Andy reclamava.

Imediatamente Draco sentiu-se aliviado. Um onda súbita de calor se apoderou dele e ele se viu sorrindo para sua barulhenta família que adentrava.

- Pai? Tá passando mal? – o filho do meio perguntou.

- Hã? – o pai perguntou bobamente.

- Você está com uma cara esquisita.

- Não foi nada. – Malfoy disse alegremente. Estava tudo bem. Todos estavam bem. Não que ele se importasse, é claro.

- Eu hein. – foi a vez de Morgan falar – Você está estranho hoje.

- E onde vocês estavam? – Draco perguntou irritado quando sua ligeira alegria passou.

- Na casa da vovó e do vovô. – Julien respondeu dando de ombros como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

- Mamãe! Vou fazer xixi nas calças! – Andy exclamou desesperado.

Hermione então pegou a mão do filho mais novo e o conduziu para o andar de cima. Quando passou pelo marido, seu olhar cruzou com o do loiro. Draco sentiu-se arrepiar e a lembrança do que tinha feito voltou à mente.

O que ele tinha na cabeça para fazer tamanha besteira? O quê? Merlin, como ele era estúpido! Ao longe ele ouviu a discussão de Morgan e Julien sumir no corredor de cima. Foi então que se deu conta que estava sozinho no hall. Suspirando, subiu para o quarto. Mais cedo ou mais tarde teria que conversar com Hermione, gostasse ela ou não. Ao passar pelo quarto de Morgan, ouviu a menina gritar:

- Julien, seu estúpido! Saia já do meu quarto!

- Lálálá! Tente me chutar daqui!

- Argh! Como eu te odeio!

- Tchurururu! Como vai me tirar daqui? Mamãe não deixa usar magia.

Draco parou na porta do quarto da filha e o que viu fez com que ele tivesse vontade de rir. Julien cantarolava e rodopiava como uma bailarina enquanto Morgan tentava acertá-lo jogando bichos de pelúcia.

- Pai! Manda o Julien sair do meu quarto!

Malfoy sorriu discretamente.

- Julien! Deixe a sua irmã em paz.

- Mas pai...

- Agora! – o loiro disse de forma autoritária e o filho não ousou questionar. Fazendo uma careta para Morgan, Julien saiu do quarto.

- Não precisava ser tão duro.

- Por que você adora implicar com sua irmã?

- Por que ela é minha irmã, oras! É para isso que estou aqui. Para pertubá-la até o fim dos nossos dias.

- Certo. Que seja. Agora vá para o seu quarto e se eu te pegar implicando com sua irmã de novo, você vai ficar de castigo, entendeu?

- Tá, tá. – o Malfoy mais novo disse entediado – Às vezes você consegue ser mais chato do que a mamãe.

- É para isso que estou aqui. – o outro respondeu com um sorriso irônico que foi retibuído.

- Boa noite, pai.

- Boa noite, filho.

Foi então que Draco percebeu o peso daquela palavra. Filho. Atordoado, ele seguiu para o quarto. Filho. Foi então que uma nova perspectiva surgiu e ele passou a ver tudo de outra maneira. Ele agora era responsável por aquele garoto. Não só por ele, mas também pela sua irmã e seu irmãozinho. Ele era responsável pela mãe daquelas crianças. Já não era mais um irresponsável que chegava tarde da noite, transava com qualquer mulher bonita e ia trabalhar no dia seguinte de ressaca. Não. Isso agora parecia uma lembrança distante, quase como se nunca tivesse existido. As coisas agora estavam diferentes. Ele estava diferente. Draco Malfoy agora era um chefe de família, ele era o responsável por aquele clã. E faria de tudo para protegê-los.

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Quando Draco chegou ao quarto, Hermione estava no banheiro. O loiro sentia uma excitação até então desconhecida. A recente descoberta o queimava por dentro. Tudo agora estava diferente. Sentando na cama e tirando os sapatos, ele imaginava mil e um jeitos de cuidar deles. O que seu pai faria? Teve vontade de rir. Seu pai nunca havia sido um bom exemplo de chefe de família. Passou a maior parte do tempo cuidando dos assuntos dos comensais do que ficando com a mulher e o filho. Não. Se Draco quisesse ser um bom chefe de clã, então ele teria que fazer exatamente o oposto do que seu pai fizera. E teria que ser rápido. Em breve, Morgan iria para Hogwarts e logo em seguida seria a vez de Julien. Céus! Tantas coisas para se fazer em tão pouco tempo! Será que eles gostavam de quadribol? Ele poderia levá-los para assistir uma partida. Oh, Merlin! Será que Morgan já estava saindo com os rapazes? Não, de jeito nenhum! Ele jamais permitiria que qualquer menino chegasse perto da garota. Seus instintos o mandavam ficar de olho no moleque Potter. Ele bem viu o olhar de interesse que James Potter havia lançado para Morgan na festa beneficente. Se ele ousasse alguma gracinha com a garota...

A porta se abriu e Hermione saiu do banheiro. Um cheiro de rosas invadiu o quarto e Draco então esqueceu de tudo. Tudo agora se resumia a morena à sua frente trajando uma linda camisola azul. Draco não percebeu que olhava abobalhado para a esposa até que esta perguntou:

- O que foi?

- Você... está tão bonita...

Hermione corou levemente.

- Hermione, eu...

- Não. Eu não quero saber. O que você fez foi imperdoável.

- Eu sei que foi, mas saiba que a partir de hoje até o meu último dia aqui eu trabalharei para consertar o que fiz. Eu não queria te magoar, gri.

A morena estremeceu. Fazia tempo que Draco não a chamava por aquele apelido. Gri era diminutivo de grifinória. Um apelido estúpido que Draco usava para pertubá-la, mas que acabou pegando. Ele não a chamava assim desde que haviam se formado.

- Palavras bonitas não vão diminuir minha dor, Draco.

- Eu sei, querida. Eu sei.

- Por favor, saia.

- Vou ter que dormir no sofá de novo?

- Se não quiser, eu irei.

- Não. Pode deixar que eu vou.

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Draco sabia que conseguir o perdão de Hermione não seria uma tarefa fácil. Ela era bem cabeça-dura quando queria. Mas ele era mais. Havia prometido a si mesmo que faria de tudo para conseguir o perdão de Hermione. Não que aquilo fosse essencial para viver, mas se ele iria ser o chefe daquela família, teria que aprender a conviver em paz com a mãe das crianças. Ele não se importava realmente com os sentimentos dela. Era só uma ligeira preocupação. Só.

Hermione gostava de rosas brancas e de um doce que só a Dedosdemel vendia. Pelo menos ela costumava gostar na época de Hogwarts. Draco torcia para que isso não tivesse mudado. Ele iria paparicá-la e tudo ficaria bem. Sim, ele era um gênio. Hermione sempre havia sido fácil de se agradar. Contente com sua maravilhosa ideia, ele caminhava pelo corredor até a sala da esposa, na outra extremidade do Ministério da Magia. Iria avisar para a morena que eles jantariam fora naquela noite logo depois de encerrado o expediente. Já estava tudo planejado. Ele havia contactado a sogra trouxa e pedira que ela ficasse com as crianças naquela noite. A mulher aceitou alegremente. Então, seriam apenas ele e Mione. Sem filhos, sem preocupações. Como nos velhos tempos.

Merlin! Como ele era esperto. Satisfeito consigo mesmo, Draco parou em frente à porta da sala da esposa. Sem bater, entrou para anunciar os planos daquela noite. Foi então que gelou. Olhando assustados para ele, estavam Hermione e Rony.

- Eu posso saber o que está acontecendo aqui? – a voz de Malfoy saiu ligeiramente tremida.

- Draco...

Mas o loiro ignorou a esposa e fitou sério o homem de cabelos ruivos.

- Me diga que eu não vi você beijando a minha esposa, Weasley.

- Eu não te devo nenhuma explicação, Malfoy. – Rony respondeu mal-humurado.

Draco soltou uma risada nervosa.

- Draco... – Hermione chamou novamente e novamente foi ignorada.

- Sua mãe pobretona não lhe ensinou que é feio agarrar a mulher dos outros, Weasley?

- Bom, se você estivesse fazendo um bom serviço, Mione não precisaria ser agarrada. E não fale da minha mãe, doninha.

O sonserino cerrou os dentes e sacou a varinha. Rony fez o mesmo. Hermione então se colocou entre os dois.

- Já chega! Não vão começar uma batalha na minha sala! De jeito nenhum! Fora!

- Mas, Mione...

- Fora, Rony! Depois conversamos.

Bufando, o ruivo guardou a varinha e saiu da sala. Um silêncio in cômodo se instalou. Hermione estava assustada. Draco estava extremamente colérico.

- Você é tão hipócrita, Granger!

- Draco, por favor...

- Eu não quero saber! – o loiro cuspia as palavras com raiva – Todo esse tempo eu me sentindo mal pelo o que te fiz e você aí se agarrando com o pobretão do Weasley!

- Foi apenas um beijo! E eu estava carente e confusa!

- Ah, claro! Que ótimo argumento! – a voz de Malfoy se elevou. Estava transtornado.

- Não vamos discutir isso aqui, Draco. Não é o lugar.

- Pro inferno! – ele exclamou saindo da sala da esposa como um furacão.

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Desgraçada! Hipócrita! Puta! Cretina! Como ela teve coragem de traí-lo? E ainda mais com o Weasley! O Weasley! Céus! Era humilhação para uma pessoa só! Desnorteado, Draco entrou no primeiro bar que encontrou.

- Wisky de fogo. – disse sentando ao bancão.

- O quê? – o atendente perguntou confuso. Foi então que Draco se deu conta que aquele era um bar trouxa.

- Me vê uma cerveja pra começar.

- Sim, senhor.

Cretina! Cretina! Cretina!

- Não está um pouco cedo para beber, senhor Malfoy?

Ao se virar para o dono da voz, o loiro se deparou com um par de olhos azuis por trás de óculos em formato de meia lua.

- Dumbledore! O que está fazendo aqui?

- Eu que pergunto, senhor Malfoy. Não deveria estar trabalhando. Não tem uma esposa e filhos para sustentar.

- Esposa... – Draco resmungou pegando a garrafa que o barman havia acabado de colocar a sua frente.

- Algum problema, senhor Malfoy? – Dumbledore perguntou obervando o loiro beber um generoso gole de cerveja.

- Aquela cretina da Hermione. Como ela pôde fazer isso comigo? Desgraçada!

- Não é bom se referir à própria esposa dessa maneira.

- Dane-se, Dumbledore! Dane-se você, ela e todos dessa porra! Estou farto dessa palhaçada. Estou farto de tentar ser quem eu não sou.

- Senhor Malfoy...

- Eu tentei ser um cara legal. Tentei ser um bom pai, um bom marido. E o que eu ganhei com isso? Porra nenhuma!

- Está arrependido, senhor Malfoy?

- É claro que estou, velho! Quem não estaria?!

- Preferiria nunca ter se casado?

- Se eu pudesse voltar atrás, Dumbledore... Se eu pudesse, jamais teria me casado com Hermione. Jamais teria levado um chifre. Ainda mais com o Weasley. Merlin! O Weasley! Puta que pariu.

- Olha o linguajar, senhor Malfoy. Mas se o senhor quer tanto a vida de solteiro novamente...

- O quê? – Draco perguntou confuso. A raiva e o álcool o estavam deixando um tanto desnorteado.

De repente, sua visão começou a ficar embaçada. Ora, ele não havia bebido tanto assim, havia. E além disso...

- Dumbledore? – o sonserino perguntou forçando a vista para enxergar alguma coisa.

- Tudo vai ficar bem, senhor Malfoy.

E no instante seguinte, tudo ficou preto.


Peço desculpas por qualquer erro. Não revisei o capítulo.

O próximo capítulo será o último.

Beijos a todos!