Acordou com uma sensação extremamente prazerosa. Os sedosos lençóis roçavam sua pele de uma forma agradável. Ao longe, ouvia o barulho da chuva. Tudo tão calmo, tão tranqüilo. Só que ele sabia que essa paz não duraria muito. Sabia que, em pouco tempo, aqueles monstrinhos apareceriam berrando e xingando uns aos outros e ele teria que brigar com os pequenos trasgos. Esperou, ainda de olhos fechados. Gostava do barulho da chuva.

Não demoraria muito agora.

Esperou mais um pouco.

Onde eles estavam?

Confuso, abriu os olhos e deparou-se com o teto alto do seu quarto na mansão Malfoy.

- Não pode ser... – Draco murmurou.

Olhou em volta e constatou que podia. Estava em seu quarto, na imponente e assustadora mansão Malfoy. Em sua mente, buscou uma explicação.

- Dumbledore! – ele exclamou quase irritado.

Havia sido o diretor de Hogwarts quem o levara de volta; e ele tinha certeza que havia sido Dumbledore quem o jogara naquela outra dimensão onde ele era o pai de mestiços sem-educação.

Suspirou. Por que ele teve que passar por aquilo? Por que colocá-lo no meio de todas aquelas situações desconcertantes e desnecessárias? Dumbledore era um velho senil. Um velhote sádico e completamente senil. Irritado, jogou os lençóis para o lado e levantou-se da cama. Tinha que trabalhar. Tinha que continuar com sua vida, exatamente como fazia antes. Chega de filhos mestiços irritantes e esposa adúltera. Chega de chefe Weasley e festas beneficentes a lá Potter.

O dia no Ministério da Magia havia sido como qualquer outro. Draco gritou com uma meia dúzia de pessoas, saiu para almoçar, voltou e gritou com mais alguns funcionários, assinou alguns pergaminhos e depois foi embora.

Chegou a casa por volta das sete e meia. Um elfo o aguardava com um copo do wisky de fogo. Malfoy estendeu sua capa para o servo, tomou-lhe das mãos a bebida e foi sentar junto à lareira, sem ao menos cumprimentar o pequenino ser mágico. Mirou o fogo por alguns instantes. Sorveu um pouco do líquido que desceu rasgando-lhe a garganta.

- Idiotas. – ele murmurou irritado.

- Senhor... – ele ouviu uma fina voz chamá-lo receosamente. Malfoy virou-se bruscamente.

- O quê você quer? – o loiro perguntou zangado.

- Des-Desculpe, senhor, mas a senhorita Vanden está aqui para vê-lo.

O sonserino exclamou alguns palavrões e levantou-se. Madeline o aguardava com um semblante irritado.

- Você não foi jantar e sequer pediu desculpas. – ela disse.

- E daí? – o outro perguntou descontente. Merlin! Por que aquela mulher tinha que ser tão irritante?

- Como "e daí", Draco? Você poderia ao menos ter se dado ao trabalho de dizer que não queria me ver!

- Madeline, por favor, não enche o meu saco. – o loiro pediu. Estava cansado.

- Bem que me disseram que você não prestava!

- Então saia daqui! – ele gritou para a mulher, que se assustou.

- Você é insuportável, Malfoy. – Madeline falou após se recompor – Só pensa em si mesmo.

- Pro inferno! – ele exclamou virando-se para ir embora – A porta é serventia da casa. Tome cuidado para que ela não bata nesse seu traseiro magro quando sair.

Aquilo deixou Madeline furiosa.

- Você é um cretino! Um desgraçado! Vai acabar sozinho nessa mansão, sem ninguém para cuidar de você!

Nesse instante, Draco bateu com força a porta da biblioteca, trancando-se no recinto. Ele não queria mais ouvir a voz irritante de Madeline. Ele não queria mais ter que escutar todas aquelas verdades. Ele só queria ficar bêbado e dormir.

Blaise o havia chamado para mais uma festa. Ele não queria ir, essa era a verdade; mas ficar em casa, se embebedando e tentando esquecer certas verdades inconvenientes, era ainda pior. A contra gosto, Draco arrumou-se e se dirigiu à casa do amigo de longa data. Ainda era inverno e o frio incômodo irritava ainda mais o sonserino.

- Draco! Seja bem-vindo! – Blaise exclamou.

Pela primeira vez, a alegria de Zabini irritou Malfoy.

- Obrigado. – o loiro respondeu secamente.

Lá estavam as mesmas pessoas, as mesmas conversas. Madeline estava em um canto e fingiu não vê-lo. Draco rolou os olhos. Não se importava com o que a loira pensava dele.

Ele bebeu. Bebeu muito. Tentava esquecer. Ultimamente, aquilo tinha virado um hábito.

- Hei, Draco! Vai com calma! – ele ouviu alguém dizer.

- Deixe-me em paz! – Malfoy exclamou irritado.

A certa altura, ele estava na cama de um dos quartos do andar de cima da casa. Não sabia como tinha ido parar ali. Uma ruiva estava em cima dele, beijando-o. Ele passava as mãos pelo corpo da jovem mulher. Sua mente estava turva. Ele mal tinha consciência do que estava fazendo. Ela beijou-lhe o tórax. Draco suspirou.

- Hermione...

A ruiva parou o que estava fazendo e mirou Draco, confusa.

- O quê? Do que foi que você me chamou?

O loiro percebeu que algo estava errado. Olhou com atenção para a mulher à sua frente. Tentava fazer sua mente trabalhar. Não. Aquela não era Hermione Granger.

A euforia desapareceu. Ele sentiu uma mistura de tristeza e decepção.

- Desculpe-me. – Draco murmurou afastando a ruiva e levantando-se.

- O quê? – a mulher perguntava sem entender nada.

- É melhor eu ir para casa. – ele dizia de forma incoerente, tentando arrumar-se.

- O que aconteceu? – a outra perguntou.

- Você não é ela. – o sonserino respondeu fechando a calça – Você, simplesmente, não é ela.

Ele não podia mais continuar com aquela vida e sabia disso. Seu estado beirava a depressão. Não adiantava tentar enganar a si mesmo. Sentia falta dos mestiços irritantes. Sentia falta da sangue-ruim irritante. Ele não queria mais ficar naquele lugar grande e vazio. Era assustador. Ele queria ter companhia. Queria ouvir as discussões dos três fedelhos. Queria ver o rosto de Hermione se contorcer em uma careta quando ela estava zangada. Por Merlin! Ele queria muito levá-los a um jogo de quadribol!

Depois de muito ponderar, ele tomou uma decisão; e contatou Dumbledore.

- O senhor tem certeza disso, senhor Malfoy?

- Tenho.

- Senhor Malfoy, entenda que...

- Eu não quero saber, Dumbledore. – Draco disse interrompendo o mais velho – Simplesmente não quero. Eu não sei o porquê de você ter feito isso. Eu não sei se você queria me dar alguma lição de moral ou se, simplesmente, estava entediado.

Dumbledore abriu a boca para falar, mas, mais uma vez, o sonserino o interrompeu.

- E também não me interessa. Você deve ter tido suas razões, creio eu. Só que eu não quero saber. Não quero saber as circunstâncias nem os motivos. Tudo o que eu quero é voltar para eles.

- Senhor Malfoy...

- Leve-me de volta, Dumbledore. Por Merlin, leve-me de volta. – o loiro suplicava desesperadamente.

O diretor suspirou.

- Como queira, senhor Malfoy. Essa é a sua decisão final?

Draco fez que sim com a cabeça.

- Feche os olhos. – Dumbledore ordenou e Draco prontamente obedeceu.

No instante seguinte, o loiro perdeu a consciência.

Abriu os olhos lentamente e percebeu onde estava. Sorriu involuntariamente.

- Você é tão ridículo, garoto! – ele pôde ouvir a voz de Morgan berrando.

Seu sorriso se alargou.

- Você é muito chata! – Julien gritava no corredor.

- Parem com isso vocês dois! – Hermione ralhava.

Draco riu. Uma gostosa sensação apoderava-se dele.

- Mamãe, eu não acho meu tênis! – a vozinha esganiçada de Andy falava.

- Por Merlin! Harry e Gina vão chegar daqui a pouco! – Hermione exclamava.

Feliz, como há muito tempo não se sentia, Draco levantou-se do sofá e subiu as escadas.

- Julien, pare de implicar com sua irmã e coloque logo o casaco! – Malfoy ouvia a voz da esposa, que vinha do quarto de Julien.

Sorrindo, ele atravessava o corredor.

- Papai! Papai! – ele viu Andy se aproximar – Eu não acho o meu tênis.

- Então vamos procurá-lo. – o loiro disse pegando a mão do filho mais novo.

- Não lembro onde eu deixei. – Andy falou quando entraram no quarto do pequeno.

- Como ele é?

- Vermelho com uma listra dourada. Igual à Grifinória! – o menino disse orgulhoso.

Draco fez uma careta. Merlin! O quê Hermione tinha feito com esse menino?

- Vamos, papai! Vamos papai!

- Certo, certo. – e Draco se pôs a procurar o tênis. Achou-o embaixo da cama.

- Ebaaaa! – o menino exclamou contente.

- Eu não acredito que você vai sair com esse tênis ridículo, Andy. – Morgan disse da soleira da porta.

- Bleh! – o garotinho mostrou a língua para a irmã que rolou os olhos.

- Vamos logo! Tia Gina e tio Harry já vão chegar.

- Está bem. Anda, papai. Amarra logo.

- Eu estou fazendo o possível, Andy. Por favor, fica quieto. – Draco falava enquanto tentava amarrar o tênis do filho.

- Estão todos pronto? – Hermione perguntou entrando no quarto.

- Estamos! – Andy exclamou assim que seu pai terminou de amarrar o cadarço.

- Ótimo! – a morena exclamou e a campainha tocou logo em seguida – São eles!

- Ebaaaa! – Andy exclamou e saiu correndo com os bracinhos levantados.

- Tchau mãe. Tchau pai. – Morgan se despediu.

- Cuidem-se, crianças. – a mãe falou.

- Mãe! Nós não somos mais crianças! – Julien exclamou irritado, descendo as escadas.

Draco acompanhava a comitiva, sempre com um sorriso no rosto.

- Comportem-se. Obedeçam a tia Gina e o tio Harry. – Hermione falava.

Julien abriu a porta e cumprimentou o casal que esperava.

- Hei, tio Harry! Oi tia Gina!

- Olá, queridos! – Gina disse com um sorriso – Todos prontos?

- Sim, sim! – Andy não se agüentava de felicidade.

- Muito bem. – Harry disse satisfeito – Amanhã à noite nós os traremos de volta.

- Certo – Hermione concordou satisfeita – Divirtam-se!

- Tchau pai! – Andy acenou vigorosamente para Draco.

- Tchau, crianças. – o loiro disse e viu seus filhos irem embora com o casal Potter.

A porta se fechou e um silêncio incômodo se instalou.

- Então... – Draco tentou iniciar uma conversa.

- Draco – Hermione o interrompeu – Desculpe-me.

Aquilo pegou o sonserino de surpresa.

- O quê? – ele perguntou confuso.

- Eu fui uma hipócrita. Totalmente sem moral.

- Hermione...

- Não. Você precisa me escutar. Eu cometi um grave erro. Só que eu estava tão frágil e magoada...

- Hermione...

- Eu juro que nunca tive nada com o Rony. Foi apenas aquele beijo. Eu nem gosto dele dessa forma. Pra mim, ele é apenas um amigo. Desculpe-me. Desculpe-me por ser uma hipócrita. – ela falava enquanto algumas lágrimas rolavam pelas bochechas.

- Shh- Draco disse colocando o indicador nos lábios da esposa – Nós dois erramos. Eu também errei ao beijar Madeline e peço desculpas por isso. Eu nem gosto dela. Eu não queria te magoar, gri...

- Draco... Eu...

- Eu te amo, Hermione. Amo-te desde Hogwarts. Amei-te e sempre vou te amar.

- Draco...

- Não. Deixe-me continuar, por favor. Eu sei que não sou o melhor marido do mundo. Sei que às vezes sou insuportável, mas... Cara, eu realmente amo você e os nossos filhos. Eles são irritantes, escandalosos e sem um pingo de educação, mas eu realmente gosto daqueles fedelhos.

Hermione riu e secou as lágrimas com as costas da mão.

- Além disso, eu sei que você teve um lapso. Afinal, quem, em sã consciência, trocaria Draco Malfoy, lindo e gostoso, pelo Weasley pobretão e sardento?

A morena não conseguiu se conter e soltou uma gargalhada.

- Você é ridículo, Draco!

- Mas você me ama. – o loiro disse provocante aproximando-se.

- Amo. Amo muito. Você me perdoa? – ela perguntou envolvendo o pescoço do marido.

- Só se você me perdoar. – ele respondeu abraçando-a pela cintura.

Hermione sorriu e viu-se refletida nos intensos e brilhantes olhos cinzentos de Draco.

- Sabe... as crianças só voltam amanhã à noite... – ela disse.

Foi a vez de Draco sorrir.

- Isso é uma proposta indecente, senhora Malfoy?

- Totalmente.

Draco suspendeu Hermione e levou-a para cima.

Pela primeira vez na vida ele estava realmente feliz.

Ele estava realmente muito feliz.

Fim


Espero que tenham gostado da história!

Obrigada a todos que acompanharam e um agradecimento especial àqueles que deixaram review dando sua opinião!

Muitos beijos e nos vemos na próxima!

Kari-chan