CAPÍTULO 8 – DUAS CANECAS DE CAFÉ

Draco estava sentado na longa chaise de jardim em que estivera com Pansy no final de semana anterior. A garota também estava lá, mas estava tão bêbada que mal conseguia se manter em pé, e ainda assim, dançava como se não houvesse amanhã. Seus olhares se encontraram, e ela veio em direção a ele, insinuando tudo de mais perverso no mundo com apenas um erguer de sobrancelha e um meneio nos quadris.

- Agora não, Pansy. Tem muita gente aqui ainda.

Draco empurrou a garota, e olhou por cima do ombro, certificando-se do que estava dizendo. Provou-se errado, por que já não havia quase ninguém ali. A música era alta, e o local não estava mais tão cheio de gente assim. Um forte cheiro de bebida alcoólica infestava o ar, denunciando a festa pesada que havia se armado ali mais cedo. O garoto tinha o costume de promover festas na sua casa sempre que os pais viajavam, o que acontecia com muita frequência. Mas, dessa vez, por insistência de Pansy, que queria fazer uma festa pra confraternizar com os colegas de curso, ele a incumbiu de toda a organização do evento, incluindo a lista de convidados. É claro que o incomodava lá no fundo ver sua própria casa cheia de idiotas que ele nunca se dera ao trabalho de sequer dirigir o olhar, mas Draco já se importava com tão pouca coisa àquela altura do campeonato, que nem isso o impediu de se divertir. Já passava de 5 e meia da manhã, e os pouquíssimos convidados restantes começavam a mostrar sinal de cansaço, indo embora em pequenos grupinhos.

Em um canto, Draco reparou em Granger e Weasley discutindo. A garota chorava e gesticulava muito, e Ron carregava uma expressão de desespero, mexendo nos cabelos ininterruptamente. Imaginou onde andaria Potter, o item que faltava para completar o trio de perdedores. Sua cabeça girava, o início de claridade da manhã o impedia de enxergar direito, e ele resolveu abandonar o recinto. Caminhou pelo jardim em direção à sua casa, e entrou pela porta da cozinha. Tirou o tênis e a jaqueta no meio do caminho, atirando-os no chão displicentemente. Ao passar pela sala, encontrou alguém dormindo no sofá.

"Esse pessoal não sabe brincar." pensou.

Aproximou-se com o intuito de certificar-se de quem estava ali em estado de miséria, babando no sofá da sua mãe, descobrindo que era ninguém mais ninguém menos do que Potter. Maldito Potter que sempre dava um jeito de intrometer-se em sua vida em todas as ocasiões possíveis.

"Merda. Merda merda merda merda. O que que eu faço agora com esse imbecil?"

Harry estava completamente desmaiado. Draco pensou seriamente em arrastá-lo até o portão da rua e deixá-lo lá até que algum vizinho chamasse a polícia ou uma ambulância, mas algum pingo de escrúpulo que restava nele o impediu de fazê-lo.

- Potter. Acorda. – chamou.

Harry não deu o menor sinal de movimento.

- POTTER. ACORDA!

Nada. O loiro começou a sacudir o ombro do garoto.

- Eiiiii, mhe deixja em pashh... Não tzá vendo que tou dzormindjo... Que falthas de educasssssão, Malfor.. MALVFOY? – Harry terminou a frase em um grito estridente.

- Ah. Claro. Desculpa interromper o seu sono, MAS VOCÊ NOTOU QUE ESTÁ DORMINDO NA MERDA DO SOFÁ DA MINHA CASA?

- MEU DEUSH! Como eu vihm parar na sua cazza? – Harry levantou de um pulo só, ajeitando os óculos tortos no rosto e olhando desesperado pra todos os lados.

- Você estava na maldita festa na MINHA casa e bebeu feito um camelo, a julgar pelo cheiro, e resolveu morrer no meu sofá. Não dou a mínima quanto à parte de você morrer, mas vá arranjar um lugar bem longe daqui pra fazer isso!

- Euh não tenho carro, e, e... onde que eu tho meshmo?

Draco deu um suspiro final, sentindo a última gota de paciência se esvaindo feito fumaça. Agarrou Harry pela camisa, à despeito dos protestos do garoto e foi arrastando-o em direção à porta. Até que o inevitável aconteceu: Harry não coordenou os joelhos moles, e caiu, Draco caiu em cima dele no meio da sala de estar, totalizando 3 tombos com excesso de contato físico em apenas 3 semanas.

Harry sentou-se no chão e ria sem parar, descontroladamente.

- Malfoi, HAHAHA, vozê claramente HAHAHAHAHA, tem uhm prob.. problesma de equilízbrio HAHAHAHAHAHAHA!

Draco pensou que aquilo não podia ficar pior, e deixou a risada que estava segurando sair, afinal. E ambos ficaram ali, gargalhando até sair lágrima dos olhos. A graça naturalmente acabou depois de um certo tempo, o ambiente preencheu-se com silêncio e os dois fitaram-se mutuamente por um segundo, que rapidamente se tornou constragedor.

- Potter... Pode ficar aí se você quiser. Mas vá embora assim que acordar. Eu vou dormir.

Draco virou as costas e subiu as escadas, os pés vestindo apenas meias brancas pulando de dois em dois degraus. Abriu a porta do quarto, saltando por cima de pilhas de roupa bagunçada e jogou-se pesadamente na cama, de jeans e tudo. Ficou olhando o teto por longos minutos, e quando fechou os olhos, sentiu o topo da cabeça doendo e a sensação das paredes girando que era insuportável demais para pegar no sono. Flagrou-se pensando em Harry. A imagem daquele breve segundo em que se encararam estava fixada na sua cabeça.

"Ele tem os olhos verdes?"

Nunca tinha reparado o garoto tempo suficiente pra notar a cor de seus olhos. Apertou os olhos e sacudiu a cabeça, tentando pensar em outra coisa, mas não conseguiu. Lembrou-se da risada que deram juntos, e aquilo pareceu surreal demais, esquisito demais, mas era impossível negar que realmente aconteceu: os dois riram e se divertiram juntos, esqueceram que se odiavam por intermináveis 5 minutos. Draco sorriu. A imagem já não era tão ruim assim.

Revirou-se na cama por umas duas horas e não demorou muito até ele entender que a batalha estava perdida, desistindo de dormir. Pensou em ir até a cozinha, pra comer alguma coisa, então levantou-se e desceu as escadas. Ao chegar na sala, avistou Potter, dormindo profundamente no sofá. Parou e ficou olhando, lutando internamente com o turbilhão de pensamentos confusos que tomavam conta de sua cabeça. Resolveu dar uma chance ao improvável, e caminhou até o sofá.

- Potter. Acorda.

O garoto se virou e abriu os olhos, meio atrapalhado.

- Menos bêbado agora?

- Já tô indo embora, Malfoy, relaxa.

- Tudo bem, não precisa ir nesse instante. Você quer comer alguma coisa?

Aquilo soou tão estranho para ambos, que até Harry ficou paralisado.

- Quer ou não? Não vou perguntar de novo. – falou muito sério.

- Ahn... Ok...

Caminharam em silêncio até a cozinha, Harry logo atrás de Draco. A cozinha da casa dos Malfoy era realmente impressionante. As bancadas eram de mármore preto, repletas de elotrodomésticos cromados e caros, alguns dos quais Harry não sabia nem para que servia – (Draco tampouco), e havia uma ilha no meio, cercada por bancos altos, onde Harry se sentou. O garoto loiro abriu a geladeira e pensou um pouco.

- Ok, temos pão, frios... frutas... cereal... O que você quer?

- Só um café mesmo já tá bom. – Harry estava tão embasbacado que mal conseguia pensar. Pensou também que o motivo para isso podia ser a ressaca avassaladora que sentia.

- Ok, café então.

Draco colocou água e pó de café em uma máquina de expresso lindíssima, toda vermelha e prata, posicionou duas canecas grandes brancas embaixo dela e ligou um botão. A máquina começou a fazer barulho, e Draco esperou até as primeiras gotas de café começarem a sair antes de se juntar a Harry na bancada.

- Malfoy, desculpa por ontem, por ter dormido no seu sofá. – Harry começou a se explicar, meio evergonhado, sem olhar direito pro rosto do outro garoto. - Eu nem sabia que a casa era sua na verdade. Só vi o endereço no cartaz que estava lá no cursinho e vim.

- Tudo bem, esquece isso. Não é como se eu nunca tivesse dormido em um sofá desconhecido também.

Os dois deram meios sorrisos constrangidos, e calaram-se novamente. Draco levantou-se e abriu um armário, colocou um açucareiro e um adoçante em cima do balcão, pegou colheres em uma gaveta e depois depositou uma caneca grande, cheia de café fumegante até a borda, na frente de Harry. Enquanto brincava com a colher em uma das mãos, observou o moreno adoçar sua bebida.

- Se você soubesse que a festa seria na minha casa, teria vindo mesmo assim? – perguntou hesitante.

- Acho que não, pra ser sincero. – falou enquanto tomava um gole de café. – Mas até que hoje você não está sendo tão horrível assim.

- Eu não sou tão horrível quanto você pensa.

- Você pareceu bem horrível pra mim todas as inúmeras vezes que me submeteu a humilhação pública, sabe.

- Qual é...Já faz um bom tempo que eu parei de fazer isso, Potter. Descobrir novas maneiras de foder com a sua vida deixou de ser a única coisa que eu pensava 24h por dia.

- E por quê?

- Por que as pessoas crescem...

- É, eu acho que sim...

Houve um silêncio constrangedor.

- Malfoy, eu ainda não estou entendendo por que você me deixou ficar aqui e ainda me convidou pra tomar café com você.

- Então estamos na mesma. – sorriu largamente passando a mão pelos cabelos e dando uma bagunçada neles, e Harry reparou que ele tinha dentes muito brancos. -

- Eu acho melhor eu ir embora.

- Ok, você que sabe...

Harry largou a xícara na pia, e pegou o celular, discando os números que já sabia de cor.

- Sirius, preciso que você venha me buscar...


N/A: Se isso não fosse UA, certeza que essa cena teria acontecido na torre de astronomia. :D BEYJOS.