Conversa e Canção de Línguas de Alegre Encanto,
Cujos sons acariciam meu ouvido.
Mas nem uma palavra que ouvi eu poderia contar,
A História era absolutamente clara.
Lemúria
Capítulo 2 – As Terras do Oeste
O sol iluminava o caminho das doze casas conforme se estendia sobre o céu, e a sensação de bem-estar que ele fornecia era maravilhosa. A certeza de que a vida ainda pulsava sobre a terra.
Shaka descia devagar as escadarias que o levariam até a primeira casa zodiacal: Áries. Estava inquieto desde a manhã passada, quando Athena o escolhera para acompanhar os habitantes da morada de Áries até uma terra submersa.
Não que duvidasse da existência de Lemúria, não havia como pensar nessa hipótese, mas algo em tudo aquilo não lhe agradava. Tudo parecia momentâneo demais, rápido demais e não seria uma mera visita a que fariam por lá, tinha algo estranho em tudo isso. E o que mais o intrigava era o por que de sua presença ser indispensável.
Tinham sido as palavras de Athena. Ele era o único que poderia ir... Mas só dissera isso, mais nada.
Chegou na entrada da casa de Áries, mais cedo do que o previsto, mas Mu já estava acordado.
- Bom dia! – o virginiano disse se aproximando devagar.
Mu não demonstrou surpresa alguma.
- Bom dia, Shaka! – ele disse sem desviar o olhar das montanhas que cercavam o território do santuário.
- Parece apreensivo... – ele poderia ter pensado em algo melhor pra dizer, visto a reação do cavaleiro a seu lado.
- Está tão perceptível? – ele riu sem graça. – Estou apreensivo sim, você também parecesse estar, não que seja preocupação, só que está intrigado, não é mesmo? – foi a vez de Shaka sorrir, apenas um arquear dos lábios.
- Acho que somos amigos a tempo demais para que algo passe despercebido... Não é Mu? – o outro olhou para ele confirmando. – Acho que tudo está se processando rápido demais.
- É, tem razão, tudo está acontecendo muito rápido, além do mais é muito difícil acreditar que algo que até então era uma lenda, seja real.
- Você sempre soube da existência de sua terra. – Shaka disse tranqüilo.
- Só não sabia que ela ainda vivia debaixo das águas do pacifico. – Mu respondeu sério.
- Tem razão...
A atenção deles foi desviada por uma presença sutil... A sacerdotisa.
- Vocês são pontuais. – ela disse sorrindo. – E vejo que o cavaleiro de Virgem sente a minha presença.
Ela parecia imensamente feliz, bem diferente do que mostrara no dia seguinte, seu olhar estava mais sereno e não usava o capuz, apesar de ainda usar aquelas roupas que mais pareciam hábitos franciscanos. Os cabelos desciam em desalinho contornando o rosto.
- Peço desculpas se a primeira impressão que tiveram de mim não tenha sido positiva. – os dois se entreolharam, mas não responderam nada para a garota.
- Lamara, por que não nos chamou para vir com você? – um dos guerreiros também apareceu, sendo seguido pelo outro, ainda sonolento.
- Não se preocupe, Lien. Estamos entre amigos. – Lien, o primeiro guerreiro se aproximou dela encarando os dois cavaleiros de maneira desconfiada. – E eu avisei Laico. O outro ainda bocejava.
- Como se ele fosse prestar atenção em algo enquanto dorme...
- Ei! Lien eu tenho consciência de minhas obrigações!
- Sei!
- Não comecem logo cedo, vocês dois! – ela disse rindo. – Deixe-me apresentar os guerreios Naacals a você cavaleiro de Virgem...
- Shaka. – ele a interrompeu.
- Então, Shaka, estes são Lien e Laico. – os dois fizeram uma breve reverência. – Eles são os guardiões da história e da ciência de minha terra, e também possuem conhecimento de inúmeras formas de combate físico.
- Prazer, guerreiro da terra.
- É bom saber o nome de vocês. – Mu disse meio irônico.
- Ora Mu se tivesse estado com a gente no decorrer da conversa com sua esposa e seu mestre teria conhecido melhor os seus conterrâneos. - Lamara disse também com ar irônico.
- Vejo que todos já estão acordados. – Sara apareceu na entrada da casa de Áries, acompanhada por Shion e Kiki. – Já é hora de irmos? Peço desculpas por nossa demora. – ela disse sorrindo.
O clima tenso se desfez e Mu pode observar mais uma vez como sua esposa possuía o dom de acalmar as tensões, qualquer que fossem elas. E estava sempre serena.
- Shaka, bom dia! – ela disse cumprimentando o cavaleiro que até então permanecia em silêncio, para depois se aproximar de Mu.
- Bom dia, Sara! É bom ver que está bem. – o virginiano disse tranqüilo. – Irá viajar conosco?
- Todos irão, nenhum lemuriano que vive fora das terras submersas irá deixar de ir até ela. – Lamara disse, interrompendo qualquer fala de Sara, que aproveitou para se aproximar de Mu e o abraçar.
-
Mu, eu fiquei preocupada... – ela disse em um sussurro para o
marido. -
Você não pregou o olho a noite toda não
é?
- Não se preocupe com isso.
O silêncio reinou.
Parecia que ninguém queria dizer que era a hora da partida ou estavam esperando algo...
- Que bom que ainda não partiram. – a voz de Saori quebrou o silêncio. – Precisava entregar isso a vocês, Mu, Shaka! – um pequeno embrulho foi entregue a ambos. – Só abram quando sentir que é chegado o momento, eu sei que vocês sabem, mesmo não compreendendo agora, sabem do que se trata. – Agora vocês podem partir.
- Obrigada, Athena! – Shion disse, sorrindo. – Aguarde nossa volta!
- Estarei esperando.
- É hora de partirmos. – Lamara interrompeu. – Não se preocupem com o teleporte, eu e os nacaals somos os responsáveis por eles hoje. Formem dois grupos.
E assim eles partiram...
- Boa Sorte! Meus amigos...
OoO
Tudo muito rápido... Viagem nas arestas do tempo, nas fendas dimensionais. Uma luz, tudo se firma... Uma ilha.
- Aqui é o limite, nossos poderes só reagem até aqui. – Lamara disse com voz fraca, se apoiando em Lien.
- Por que, nossa telepatia sofre conseqüências aqui... – Mu também respirou pesado, só Shaka parecia não ser atingido.
- Da nossa terra submergida, apenas alguns pontos ficaram visíveis, são as ilhas do pacífico. Como as ilhas Marianas, que é a que estamos agora... E a ilha de Páscoa, que é para onde precisamos nos dirigir. – Laico disse em uma explicação rápida.
- Todas essas ilhas interrompem o magnetismo, principalmente a ilha de Páscoa e influem diretamente na nossa força telepática, nos causando dores e cansaço físico extremo. Embora o que estamos sentindo agora seja bem leve, já quando entrarmos em Páscoa... – Lien disse, parecendo preocupado.
- Você está bem, Sara? – Lamara se soltou de Lien e seguiu para o lado dela. – Eu sei que vai ser difícil para você...
- Sara, foi aqui, não foi? – Mu disse sem olhar para nenhuma das duas. – Todo aquele tempo... Estava na ilha de Páscoa...
- Sim. – a voz de Sara soou fraca, sem ânimo.
- Não acha melhor voltar Sara? – Shaka perguntou se aproximando também.
- Ninguém vai voltar, a não ser que queira Cavaleiro de Virgem. – Lamara disse furiosa.
- Não pode forçá-la a sentir dores... – Shion disse sério. – Não é apenas físico.
- Você quer ir embora, mãe? – Kiki se aproximou de Sara. – Eu te levo.
- Está tudo bem, não precisam se preocupar dessa forma. Já passei por isso uma vez, posso superar novamente. – ela estava decidia, Mu pensou, nada a faria voltar a trás.
- Vamos para a ilha de Páscoa, nosso tempo é curto... – Lamara cortou o momento. – Lien, Laico, podem procurar o transporte?
- Claro! – os dois responderam juntos e logo se retiraram.
- Vocês que nunca estiveram lá, sentiram mais dores que nós. – Lamara avisou séria, para Mu, Shion e Kiki.
Era o único momento em que os lemurianos podiam dizer que tinham uma fraqueza inerente. E ali eles estavam totalmente vulneráveis, não podiam lutar com a mente, não podiam lutar com o corpo.
A ilha de Páscoa é uma barreira magnética, nem ao menos bússolas funcionam nesse lugar. Costuma também receber o nome de "umbigo" do mundo e realmente ela se trata do centro. A terra mãe está submergida em seus pés, ou melhor, Páscoa é a ponta do que um dia foi um imenso continente. As enormes esculturas em suas terras são a prova disso, os habitantes das Terras do Oeste as construíram com o seu poder telecinético e funcionavam como símbolo do poder dos homens que ali habitavam, além de serem utilizadas para as cerimônias religiosas.
Mas, uma das esculturas ficou inacabada...
- É aqui, a entrada para a Lemúria submersa.
No vão no qual se encontrava a figura inacabada, uma montanha se erguia, solitária.
- É bom abrir os olhos, Shaka! – Lamara disse, um último aviso. – Ou perderá seu sentido, a pressão é muito grande lá embaixo, é preciso estar sintonizado com a terra.
O Cavaleiro centrou seus cosmos e abriu os olhos devagar.
- Lien, Laico! Vamos abrir a passagem.
Continua...
