Avisos: Saint Seiya não me pertence e eu classifiquei essa história como M porque acho que as opiniões do Afrodite que eu criei recentemente são meio pesadas para "crianças".

Comentários da autora: Uma das melhores invenções da humanidade foram as aspas :D


O dia amanheceu há algum tempo e eu ainda não quis me levantar da cama. O Sol forte da Grécia invade minha janela por entre as cortinas alvas e toca meu rosto como se me convidasse a ir ao menos até meu jardim negligenciado há um dia inteiro, coisa que nunca havia feito antes enquanto vivo.

Sim, eu estou vivo e acho que não preciso explicar como ou quando. E, infelizmente, todo o vinho que bebi ontem não conseguiu me fazer esquecer da triste tentativa frustrada de invasão ao templo de peixes por parte do meu ex-amante: Máscara da Morte de Câncer. Não quero falar nesse assunto, não gostaria de relembrá-lo. Então, limito-me a dizer que ele deve estar se recuperando dos ferimentos razoavelmente bem.

Se eu me importo com ele? Não, de fato, não.

Não sou alguém que tenha a personalidade tosca de uma garotinha pré-púbere, cujo único e exclusivo objetivo de vida parece ser chamar a atenção dos garotos por meio de exibicionismo, ou seja, eu não estou negando algo que faço ou sinto. Eu realmente não me importo com ninguém. E como se isso já não fosse um problema até determinado ponto para alguém tão sensível como eu fui, ainda tenho meu cargo de cavaleiro e todos os meus afazeres. É, eu preciso me levantar.

Por mim, não há problemas em sair dos meus aposentos ou mesmo do templo de Peixes, o problema é ficar perto de outras pessoas. SIm, porque, apesar de serem cavaleiros e uma deusa, são pessoas e agem e pensam como pessoas e não importa o quanto os obstáculos enfrentados por eles sejam árduos, eles serão eternamente pessoas. Eu também deveria ser uma... e talvez eu seja ainda, em algum canto particular e bem escondido dentro de mim... é, talvez seja no meu dedão do pé.

Máscara da Morte é meio que um assunto encerrado sob o meu ponto de vista e eu sei que não vou mudar de idéia enquanto ainda puder olhar nos olhos dele e ouvir todas as merdas que ele diz sempre que nossos caminhos se cruzam. O que eu deveria esperar de alguém como ele? Apesar de estar de acordo com os princípios de evitar cultivar preconceitos, eu não posso negar que aquele canceriano não foge à regra radical imposta pelo preconceito que tanto aprendemos a guardar dentro de nossos peitos.

Se eu fosse guiado pela cultura geral do mundo, eu devia estar triste agora, mas estou só frustrado. E tristeza é diferente de frustração. A tristeza que eu detesto e espero jamais sentir é aquela causada, dentre tantas outras coisas, pela solidão com significado leigo de "estar solteiro". Desculpe, mas isso é bem triste e vergonhoso. Não funciona assim para mim. Eu já estou acostumado a estar sozinho, eu já estou acostumado a guardar meus assuntos mais importantes apenas para mim, assim como estou acostumado a não poder confiar em ninguém. E não preciso de um peso morto ao meu lado, ocupando espaço na minha adorada e higiênica cama sagrada e estragando minhas plantas ou dobrando as páginas dos meus livros, para me sentir completo. Completo, meus amores, eu já sou e sempre fui.

Claro! Não nasci grudado em ninguém, por mais que essa expressão seja coloquial e não me agrade, é bem útil nesse caso. Vi muitas pessoas que se lamentavam por esse tipo de solidão, vi coisas lamentáveis e vi muito sobre o ser humano durante as minhas batalhas tanto internas quanto externas. Não vou confidenciar aqui coisas sobre minha infância curta demais e nem sobre o meu treinamento com meu mestre, que sempre mereceu morrer da pior forma possível.

Sempre fui tão mal interpretado... e todas as vezes em que eu falava sobre Beleza, as pessoas davam um sentido totalmente fútil a Ela. Claro, porque pessoas são fúteis. Isso cansa e eu estou exausto!

E eu me pergunto qual é o mal em querer algo que valha realmente a pena? Eu morri tantas vezes... passei tanto tempo no inferno que talvez eu tenha realmente enlouquecido. Seria reconfortante pensar que eu sou o louco dessa história, que eu sou o errado e que, aliás, eu nasci errado e que a culpa foi toda minha. Tanto faz. Agora, tanto faz.

Vejo Milo e Kamus em suas brigas épicas que fazem suas vozes ressoarem até as escadarias daqui pertinho e eu entendo que não tenho sangue de barata para suportar tudo o que o Kamus suporta. Ainda, se eu soubesse da existência de uma chance, apenas uma, de que minha alma possa descansar em paz depois de minha morte derradeira, eu me sentiria livre para ter o coração pisado e a alma partida de novo por alguém que não merece nem sequer minha consideração. Mas, como eu sei que não vou poder descansar em paz nunca, eu não pretendo perder tempo com coisas infrutíferas.

São almas tão pequenas e injustas! São tantos egoísmos misturados... ao menos, os que conheci e que não foram poucos. Ouso dizer que nenhum deles realmente me amou e isso deveria me fazer chorar nessa constatação. Entretanto, eu não estou chorando, eu não sinto nada. É indiferente, mesmo porque eu entendi e aceitei que essas pessoas não são capazes de fazê-lo.

Ao menos, aqui, agora no meu jardim, minhas rosas sempre estão à minha espera, como aquelas mulheres das histórias medievais, que sempre esperavam pacientemente pelos seus amados. Eu sei que aquilo tudo é pura mentira mas eu gosto de sonhar, gosto de pensar que um dia toda essa merda de existência foi diferente, que antes havia um significado forte nas uniões das pessoas, algo como amor, por exemplo.

Acabei de rir sozinho aqui, como se pudesse dialogar telepaticamente com as minhas roseiras brancas. E talvez eu possa... mas foi porque cheguei à conclusão de que o amor e a felicidade são conceitos inventados.

Pessoas como Shakespeare e Camões deveriam ser severamente punidas por torturar pessoas de uma forma bem cruel. Eu os admiro por isso. Pessoas como eles deixaram seu legado de fornecimento de esperanças às pessoas, um tipo de esperança que só fere. Tortura de pessoas ingênuas como eu, um bom negócio. Sim, eu me acho ingênuo por ainda acreditar que possa existir algo - e não, alguém - pelo que valha a pena existir nesse mundo, o problema é que eu ainda não encontrei nada que sequer chegasse perto disso. E não tenho esperanças de que aconteça, sinceramente.

E o melhor que posso fazer por mim agora - já que todos somos bastardos egoístas e merecemos o inferno sim - é ser arrogante o bastante para encontrar outro motivo, além de mim, e poder viver em paz dentro da minha reclusão. Eu não quero mais pessoas por perto, eu não quero mais que me toquem, eu não quero mais ter que fingir... chega.

Às vezes, algumas pessoas precisam de liberdade para se sentirem completas de uma forma que um pênis ou uma vagina jamais conseguiriam completar. E, se é preciso ir embora para ser quem eu sou e fazer o que quero fazer, então... adeus.


Ok, ficou parecendo uma carta suicida mas quem se importa? xD

Agradeço os comentários e vou respondê-los assim que minhas provas terminarem, meus amores =) E ainda quero receitas de bolos gostosos u.u beijos!