Sirius POV

Entrei no dormitório vazio e sentei direto na minha cama. Precisava pensar. Precisava de tempo. Tempo sozinho. Seria por que, no entanto, eu sentia vontade de voltar à mesa da Grifinória e dizer algumas boas verdades a Remus? Tinha vontade de prolongar a nossa discussão, de fazê-lo entender o que ele realmente estava dizendo com aquelas palavras. Era muito mais que um simples pedido... era muito mais importante!

Por que tinha que ser Remus a pedir pelo Ranhoso?! Peter poderia fazer isso se tivesse alguma personalidade útil. Remus, não.

Passei uma mão pelos cabelos longos, sentindo a respiração descompassada. Tentei me controlar melhor. Estava sozinho agora e, provavelmente, não teria companhia por uma tarde inteira. Seria muito bom para pensar.

Fui até a janela, de onde eu podia ver toda a área verde da escola, até o começo da Floresta Proibida. Nada de novo ali, nada para me distrair. E todos sabiam que eu precisava de distração quando ficava furioso como eu estava.

Respirei fundo. Remus era parte da minha família agora. Não fazia sentido algum começar a odiá-lo. Não, eu simplesmente não conseguia odiá-lo, mesmo quando ele cometia erros graves como a censura de minutos atrás.

Depois de tudo o que eu já fiz sem me importar com as opiniões dos outros, por que eu me importava tanto com a opinião de Remus? Pensei por um longo tempo e cheguei à conclusão de que devia ser porque ele era parte da minha família... e eu queria que minha família, minha nova família soubesse exatamente quem eu era, que soubesse delinear as minhas atitudes, os meus pensamentos... queria que me conhecesse de verdade, diferentemente do que eu desejava em relação a todo resto das pessoas.

E por que Remus resolvera tentar proteger o Ranhoso? Por que ele preferiu o Ranhoso? Será que ele não via o que estava fazendo? Proteger o Ranhoso daquela forma significava dizer que ele tinha algum sentimento em relação a ele. E isso era imperdoável! Em todos os anos que passamos juntos, eu nunca o vi defender nem a mim ou a James... e agora, o Ranhoso?! Será que aquele monte de cabelo oleoso era realmente mais importante para Remus que nós, os Marotos?

Não, o que eu realmente sentia era diferente. Era como se Remus tivesse me atingido com um feitiço poderoso diretamente contra o peito: preferir o Ranhoso era um insulto! Ele sentia alguma coisa por aquele monte de sebo, alguma coisa diferente do que sentia por mim, alguma coisa mais forte, eu supunha e isso realmente me tirava do sério.

Aquela não era a primeira vez que o Moony defendia o Ranhoso. Isso estava ficando insuportável!

Droga!

Eu estava muito furioso. Meu peito meio que formigava e minhas mãos tremiam o suficiente para me atrapalhar caso eu tivesse que duelar agora. Maldito Moony! Maldito Seboso!

Voltei para a cama, fechei as cortinas e fiquei em silêncio perturbado, mergulhando nos meus pensamentos que, para mim, eram como se eu tivesse lançado um crucio contra o espelho.

Remus POV

Eu quis muito ir atrás de Sirius mas acabei não indo. Prongs me disse pra não ir que seria pior. E eu ainda não estava entendo direito o motivo pelo qual Padfoot perdeu a calma tão rápido. Tudo bem que ele não entendia o meu ponto de vista sobre o respeito que devíamos a todo ser, a toda vida... mas ele não precisava ter reagido tão mal, precisava?

Passei a tarde inteira mentalmente distante durante as aulas, sempre olhando para o lugar vazio de Padfoot entre nós. Isso não estava certo. Eu me peguei pensando em Sirius a cada instante que minha mente tinha oportunidade de vagar por aí. A aula de História da Magia foi a pior, com o professor Bins falando sem parar e com a minha tendência a viajar nessa matéria. Eu me lembrei do sonho que tive com Padfoot mais vezes do que deveria e as lembranças eram tão vívidas! Era como se tudo realmente tivesse acontecido porque meu corpo reagia aos toques sonhados, às palavras murmuradas... e eu tive que me obrigar a prestar atenção nas palavras vazias do professor para evitar que um pequeno acidente voltasse a se formar entre as minhas pernas!

Eu me repreendi pura e simplesmente porque o que eu sentia por Sirius começava a clarear na minha mente. Eu não queria apenas os toques, eu não queria apenas as palavras... eu queria algo mais, eu precisava de algo mais. Talvez porque Sirius Black fosse realmente um algo mais na minha vida.

Por todos os anos em que vivi como lobisomem, eu tive sempre a consciência de que não era apropriado que eu me apaixonasse e isso sempre foi uma resolução centrada, a única saída que eu tomei para resolver quaisquer problemas que surgissem na minha vida nesse aspecto. Eu não poderia seguir em frente quando me apaixonasse. Eu não poderia ter uma relação com alguém que fosse humano porque seria perigoso demais. Então, os romances estavam descartados da minha existência.

E, no entanto, por que eu não conseguia parar de pensar em Sirius? Eu comecei a tomar consciência do motivo daquele sonho tão real: eu o queria. E o queria há muito mais tempo do que eu podia me lembrar. Era como se eu o tivesse desejado desde sempre, desde a primeira vez em que nos vimos no Expresso de Hogwarts. Mas isso devia ser freado imediatamente! Era loucura e eu não podia culpar o lobo dentro de mim por isso. Eu havia enlouquecido desde o momento em que tinha me dado conta de tudo isso...

Suspirei. Olhei para James e ele me olhou de volta curioso. Ao que me pareceu, eu deixei transparecer alguma coisa na minha expressão. Eu tentei sorrir e fazer cara de entediado, mas James continuou com aquela cara de quem pergunta "O que foi?" com a curiosidade de quem não tem mais nada pra fazer naquela aula chata.

Olhei para os outros alunos da nossa sala e percebi que a maioria estava dormindo debruçada nas carteiras. Quando olhei de volta para James, ele escrevia algo em um pedaço de pergaminho.

"Deixa eu adivinhar: é o Padfoot, acertei?" Eu li e quase engasguei. Ele riu em silêncio.

"Estou estranho com a briga de hoje. Você acertou." Respondi a contragosto.

"Quem mais te deixaria disperso assim, senhor Moony?" Ele me passou o pedaço de pergaminho e eu esperei pela curiosidade característica dele.

"Você, senhor Prongs! Acha que, se eu tivesse brigado com você, eu não estaria mal assim também?" Ele riu em silêncio de novo e me olhou incrédulo.

"E desde quando eu brigaria com você, senhor monitor? Eu tenho amor aos pontos da Grifinória que você tiraria de mim!" Ele tocou meu ombro, me olhando de um jeito estranho.

"Só vou saber se você brigaria comigo se algum dia nós chegarmos a brigar" Eu sorri para ele tranquilamente, tão tranquilamente quanto eu podia, com aquele olhar perceptivo em cima de mim.

"O Padfoot vai ficar bem, você vai ver. Ele melhora até o jantar." Ele me respondeu, colocando uma das mãos como apoio para a cabeça, com uma expressão de quem já via tudo resolvido. Isso me acalmou um pouco.

"Eu não acho que fiz algo errado. Eu fiz algo errado?" Eu era inseguro, eu sabia.

"Você só defendeu o seu ponto de vista. Não tem nada de errado nisso, meu caro! E o Padfoot defendeu o dele, creio eu. "

Suspirei. Eu estava suspirando demais, não estava? Isso era perigoso. Os olhos de James brilharam.

"Você me parece apaixonado, senhor monitor!" James riu pra mim com cara de quem sabe demais.

"NÃO! Eu não estou." Menti com a minha melhor expressão.

"Então por que você corou?" Ele ria de mim e eu sentia que ele ia começar a rir alto dessa vez. Olhei para o professor, que não havia notado nada de diferente e continuava falando sem parar.

"Eu não corei." Eu não sentia minhas bochechas queimando, então achei que não tivesse corado.

"Tá certo então... quem é?" Ele me olhou com os olhos do Dumbledore! Eu vi aquele brilho inteligente nos olhos dele e isso me intimidou.

"Ninguém importante..." Eu confessei uma meia verdade. Eu estava apaixonado, mas isso não importava porque eu nunca levaria isso adiante.

"Melhor assim, Moony. Mas antes, me diga: você recebeu alguma bebida ou talvez chocolates por esses dias? Quem sabe isso não possa ser trabalho de uma poção do amor ou coisa assim? Isso está muito em alta no nosso ano..." Ele continuou me analisando.

"Não recebi nada. Só comi um dos chocolates do Padfoot, mas esses eu sei que ele roubou da Dedosdemel na semana passada." Eu sorri. Sirius era incorrigível... e até eu havia entrado na dança dessa vez. Ah, se Dumbledore descobre...

"Então você está genuinamente apaixonado? Mil vivas!" Ele riu baixinho.

"É, estaria no seu time se o caso fosse outro..." Eu sei! Minha resposta foi estranha e desconexa, mas saiu sem querer. Agora eu sabia que ele ia perguntar.

"Como assim?" Ele me olhou confuso.

"Você está apaixonado pela Lily, não está? Pelo menos, você diz isso pra quem quiser ouvir há tantos anos!" Ele continuou me olhando estranho.

"Então... você não tá apaixonado por uma garota?" O brilho no olhar dele aumentou.

"James!" Olhei para outro lado, mas não antes de dar um tapinha no braço dele.

"O que foi?"

"Eu não disse isso!" Fiquei preocupado com o rumo que essa conversa estava tomando. Sinceramente preocupado...

"Então explique-se melhor, oras!" Ele ria.

"Eu estaria na mesma situação que você mas não estou. É só uma paixão boba. Vai passar logo." Eu passei o pedaço de pergaminho pra ele meio ranzinza.

"Ahh, Moony, amor é amor! Vamos, me diga quem é" Ele estava perigosamente interessado.

"Não é amor tão forte quanto o que você sente pela Lily. Eu posso suportar muito bem até isso passar."

"Ahh, não! Você nunca namorou ninguém! Já estava na hora do seu coração bater mais forte!"

"Meu coração não está batendo mais forte, Prongs." Eu empurrei o pedaço de papel contrariado.

"Quem é?" Ele voltou a sorrir.

Demorei a responder, fingindo que prestava atenção na aula. "Ninguém importante."

"Sem essa, Moony! Se você está apaixonado, claro que é importante! Nós somos os Marotos, podemos conseguir qualquer coisa!"

"Eu não quero conseguir isso."

"Por quê?"

"James, eu sou um lobisomem, não se esqueça. Quem poderia lidar com isso?" Expirei pesadamente.

"Você só tem um probleminha peludo, nada mais. Quem não te aceitaria?"

"Esquece isso... por favor?" Minha vontade era de nunca ter olhado pra cara dele durante essa aula.

"Por que você não quer me contar quem é?" Ele perguntou quase confuso.

"Porque eu sei que você vai dar um jeito de me aproximar da pessoa e eu não quero isso."

"Pessoa? Então pode ser garoto ou garota?" Ele perguntou com o mesmo brilho inteligente nos olhos.

"Quando você vai desistir?" Olhei com cara de dor pra ele. Era a última coisa que eu queria nesse momento: alguém inteligente demais rastreando os meus passos pra descobrir quem era a minha suposta paixão.

"Eu não vou contar pra ninguém, Moony. Não se você não quiser." Ele parecia bem confiável na hora.

"Eu não quero que você pense mais nisso, ok? Por favor..."

"Só me responde uma coisa... é o Ranhoso?" James me olhou profundamente quando entregou o pedaço de papel novamente.

"O quê?" Fiquei chocado. Como assim?!

"É o Ranhoso, não é? Você vem defendendo ele há algum tempo das nossas tentativas de assassiná-lo" James riu, ainda me olhando.

Eu ri alto, alto demais para passar despercebido. O professor parou sua aula pra me repreender e eu estava chocado demais para fazer qualquer coisa que não fosse obedecer e ficar calado. O meu assunto com Prongs, definitivamente, acabava ali.

O jantar começou sem mais incidentes. Nem eu nem Prongs tocamos no assunto dos bilhetes da aula de História da Magia agora que Peter estava acordado e Sirius estava sentado à minha frente com cara de poucos amigos dirigida exclusivamente a mim.