Capítulo 1:
A Farsa, a Emboscada e o Tempo
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I
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O almoço já estava pronto, e a pequena mesa da cozinha estava ocupada em dois lugares. O terceiro ainda estava vago, apesar de um prato limpo esperar por seu ocupante.
- Richard está demorando - comentou Ginny, remexendo a própria comida.
- Ele deve estar chegando. Você sabe como ele está empolgado com o Ministério, provavelmente encontrou Hermione e estão discutindo algum projeto de lei sobre os direitos dos elfos-domésticos - respondeu Harry, calmamente, enquanto se servia de mais carne. - A propósito, a comida hoje está muito boa!
- Obrigada - respondeu, automaticamente, e fingiu comer. Ela não sabia o que era, mas estava com uma sensação estranha.
Acabou largando o fingimento e recostando-se na cadeira. Passou a mãe pela barriga, distraidamente, agora com seis meses e meio. Já era bem visível o crescimento do bebê. Será que estava pronta para ser mãe novamente? Bastava que o filho se atrasasse para o almoço e ela já ficava naquele estado, o que diria então de uma frágil garotinha recém-nascida?
Mas teria essa super-proteção com um filho dela com Harry, ou apenas agia daquele jeito com o filho porque sabia que este era a prova verdadeira e irrefutável de que um dia conhecera e amara o pai do garoto?
Abanou a cabeça, ligeiramente, afastando o pensamento. A idéia de talvez viesse a gostar mais de um filho do que do outro por causa de sua paternidade a revoltou. Seria mãe, acima de tudo, e era sua obrigação amar a garota que estava por vir de modo igual.
Estava sendo boba. Depois de tanto tempo sem pensar naquilo, para que reabrir antigas feridas? Estava feliz, Harry estava feliz e Richard estava feliz pelos dois. Tinha certeza que gostaria da filha na mesma intensidade que gostava do filho assim que a pegasse pela primeira vez. Por que então se preocupava?
Um estalido na sala anunciou a chegada de Richard. Ela suspirou, aliviada, e deu um leve sorriso. Realmente estava sendo boba.
- Pegue seu prato, a comida já está esfriando - disse Ginny, em voz alta, para que o filho se juntasse a eles.
O rapaz, porém, não se dirigiu à cozinha. Instantes depois, ela ouviu os passos dele subindo as escadas e a porta do quarto se fechando.
Ginny entreolhou-se com Harry, que devolveu-lhe um olhar de afronte. Richard nunca agira daquele jeito antes. Nem mesmo no período mais crítico da adolescência.
Ela levantou-se, cruzou a pequena sala e subiu as escadas o mais rápido que podia em seu estado de grávida, e chegou na frente da porta de madeira clara. Penou em bater, mas acabou abrindo-a sem se anunciar.
- Richard, querido… Qual é o problema? - perguntou, cautelosa, enquanto empurrava a porta, lentamente.
O filho estava parado na frente do guarda-roupas aberto e não respondeu. Havia um jornal amarelado sobre a cama, enrolado, e ele ainda estava com a capa de viagem com que saíra mais cedo naquele dia.
Ele pegou uma peça de roupa pendurada no cabide e colocou sobre a cama. Ginny fechou a porta às suas costas ao mesmo tempo em que o filho pegava o jornal e desdobrava-o na primeira página, e colocava-o ao lado da peça, como se comparasse algo.
A mulher olhou para a página antiga e sentiu toda a cor desaparecer do rosto. Ela conhecia aquela terrível foto debaixo da manchete, e de repente sabia o que significava o comportamento estranho do filho: era a edição do Profeta Diário que rendera milhares de tiragens, logo após o Ano Novo, quase duas décadas atrás. Era a edição que confirmava o que todos queriam saber, e uma última imagem do que fora o maior bruxo das trevas de todos os tempos. A única foto em que Ginny sabia que ele estava usando a capa que lhe dera de aniversário. A mesma que o garoto encarava, em choque, sobre sua cama.
- Q-quem te deu isso? - perguntou, a voz fraca. Ele não respondeu. Ginny aproximou-se, lentamente, e colocou uma mão no ombro dele. Richard esquivou-se e lhe lançou um olhar aterrorizado.
Eles ficaram se encarando, em silêncio. Ao longo dos segundos, o rosto do garoto ia se transtornando, se retorcendo de horror e fúria, enquanto Ginny previa em seus olhos cinzentos a explosão que estava por vir.
- POR QUE NUNCA ME CONTOU? POR QUE ESCONDEU ISSO DE MIM? EU TINHA O DIREITO DE SABER! - urrou Richard, mais perturbado do que nunca.
Ela sentiu a garganta apertar. Queria abraçar, consolar o filho, explicar-lhe que não era do jeito que ele estava achando que era, mas sabia que ele não permitiria. Lutou contra a sensação desolada que queria escapar e disse:
- Deixe-me explicar…
- EXPLICAR O QUÊ? EXPLICAR O QUE, MÃE? DURANTE TODA MINHA VIDA EU ACHANDO QUE FOSSE UMA PESSOA QUE NÃO SOU! O QUE VAI MUDAR SABER OU NÃO COMO ISSO ACONTECEU? NÃO VAI MUDAR NADA!
A porta escancarou-se. Harry entrou e Ginny viu-o chegar ao seu lado.
- O que está acontecendo aqui? - perguntou o marido, alarmado, olhando de um para o outro.
Richard olhou para Harry, e ela viu todo o ódio se transformar em dúvida e impotência. Ginny mal podia suportar saber o que o filho estava sentindo.
O rapaz voltou a olhá-la, e ela sabia o que ele estava pensando.
- Harry sabe. Eu não o enganei - disse, firmemente, apesar da vergonha que fazia seu rosto esquentar.
- E você aceitou? - perguntou o garoto, parecendo desolado, enquanto voltava a olhar para quem sempre achara que fora seu pai.
Harry não respondeu de imediato. Ele entreolhou-se com Ginny para se certificar do que eles estavam falando, antes de responder.
- Eu amo sua mãe. O que quer que ela tenha feito no passado… eu não me importo - disse o marido, sério, pousando uma mão carinhosa no ombro dela.
Mas Richard não parecia acreditar naquilo.
- M-mesmo ela tendo… M-mesmo eu sendo… f-filho… dele? - perguntou, com a voz fraca, mal ousando pronunciar o que tanto perturbava sua mente.
Harry confirmou com a cabeça.
- Mas você está errado. É meu filho, indiferente do seu sangue. É meu filho, porque foi eu quem te criei, desde bebê - disse Harry, razoavelmente, mais controlado do que ela. - Você cresceu com meus valores. Eu tenho orgulho de ser seu pai.
Os olhos de Richard estavam rasos d'água.
- Por quê? - perguntou, quase num sussurro. - Por que você fez isso? Eu… eu sou filho do homem que…!
- Eu tive minha vingança, e ele teve seu arrependimento no final - expos Harry, cuidadosamente, poupando o filho de terminar a frase. - Não restou nenhum ressentimento, Richard.
O filho levou as mãos ao rosto, transtornado, e virou-se para não ter que encará-los. Foi até a janela e pousou as mãos no vidro, desnorteado.
Seguiu-se um silêncio constrangedor. Ginny estava atordoada. Por culpa dela, talvez, o filho tivesse descoberto tão nefasto segredo. Nunca devia ter dado-lhe a capa. Não pensara que ele fosse ligar a antiga foto, tão amplamente divulgada em noticiários e livros em todo o mundo mágico, com a peça de roupa. Achava que o garoto já estivesse saturado com as piadas dos colegas sobre sua semelhança com o temível bruxo do passado, que não se importasse mais…
E agora ali estavam eles, tendo aquela conversa que ela lutara tanto para não ter.
Entreolhou-se com Harry, que lhe lançou um olhar preocupado e surpreso ao mesmo tempo. Ele olhou então para as coisas sobre a cama e deu um suspiro. Ginny sentiu-se mal, sentiu-se como se tivesse traído o último pedido do pai de seu filho.
- Você é mesmo minha mãe? - perguntou o garoto, por fim, depois de alguns minutos em silêncio e mais calmo.
Ginny respirou fundo.
- Sim, eu sou. Você é um Weasley, sem dúvida alguma - respondeu, em voz baixa.
Richard fez silêncio. Ela sabia o que ele estava se perguntando. Depois de pensar várias coisas, ele estava tentando imaginar se ela havia sofrido algum tipo de abuso ou se, infelizmente, ela havia estado do outro lado, o que era tão mais provável e terrivelmente mais vergonhoso.
- Eu amei seu pai biológico - confessou ela, dolorosamente, antes que ele expusesse em palavras. - Eu era uma Comensal da Morte. Harry ofereceu-se para se casar comigo, em troca da minha pena em Azkaban.
Ela viu o filho agarrar os cabelos com as mãos. Ginny sabia o quão contrariado ele devia estar, tendo sido criado em meio aos bons valores e à ética, de repente tomando conhecimento de que era fruto de uma união entre uma Comensal da Morte e seu tão desprezível mestre. Provavelmente seu mundo estava pendurado ao contrário.
- Me perdoe - pediu ela, sentindo as lágrimas escaparem de seus olhos. - Nunca tive a intenção de te fazer infeliz.
O garoto tornou a se virar para ela, os olhos submersos.
- Não posso - respondeu ele, fracamente. - Você sabe o que eu sou, como eu me sinto?
Ela olhou-o bem nos olhos.
- Sim - respondeu, a voz embargada. Ela via em seus olhos e podia sentir o mesmo que ele. - Por favor, não pense nisso. Você não é responsável por nada que eu ou ele tenha feito!
- Claro que não! - interveio Harry, preocupado e um pouco irritado. - Que culpa você pode ter? Nem era nascido!
O rapaz não olhava para nenhum deles. Tinha um ar pensativo e perturbado.
- Aí é que está… Eu devia ter nascido? - se perguntou ele, em voz baixa. Ginny sentiu uma nova onda de lágrimas percorrerem seu rosto.
- Rick…
- O que eu seria se ele ainda estivesse vivo? O sucessor? - continuou o filho, quase num sussurro, ignorando-a. Ela negou com a cabeça, mas ele não estava olhando-a.
- Não é assim - suplicou ela, sentindo a garganta doer. - Me deixe explicar…
- Não - respondeu ele, sem se alterar. Olhou para o chão por alguns segundos e nem Ginny nem Harry ousaram interromper o silêncio.
Então Richard levantou os olhos para Ginny, deixando-a ainda mais perturbada.
- Preciso ficar um tempo sozinho - disse, numa voz espantosamente fria. Ele não sabia como o timbre de sua voz ficava parecida com a do pai quando fazia isso…
Entretanto, foi a última coisa que ele dirigiu a ela. Antes que ela ou Harry pudessem dizer ou fazer algo, Richard desaparatara.
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Passara-se uma semana desde então. Por dois dias, não tiveram nenhuma notícia do filho, para desespero de Ginny, mas Hermione aparecera no meio da semana dizendo que estava dando abrigo ao afilhado e perguntando se estava acontecendo alguma coisa grave. Ela se sentira mais aliviada em saber que ele estava passando seu momento de reflexão entre familiares e decidiu não intervir; sabia que o filho precisaria de algum tempo longe dela para digerir a verdade.
Aparentemente Richard não questionara a madrinha em até onde ela sabia sobre o assunto. Menos mal; Ginny achava que ele se enfureceria com Hermione também se descobrisse que ela sempre soubera sobre sua paternidade, assim como a maior parte dos parentes que freqüentavam sua casa. Embora ela achasse que era somente uma questão de tempo até que ele calculasse a verdade…
Não se sentia tão mal desde que Tom a mandara embora de Basilisk Hall. A ausência do filho acabava com ela e já não sentia vontade de se levantar pela manhã, já que passava as noites em claro, e não esforçava-se mais para isso. Fazia o possível para não parecer tão deprimida na frente de Harry, mas sabia que era evidente. Ele tentava animá-la com presentes e piadas, mas apesar de reconhecer a boa intenção, não estava funcionando; apenas ter seu filho de volta poderia amenizar aquela impotência.
A campainha já tocara duas vezes em curto espaço de tempo. Tivera a esperança de que quem quer que fosse, desistisse de sua porta, mas seu desejo não foi atendido. Tocaram a campainha pela terceira e quarta vez. Resignada, rolou pela cama e levantou-se, calçou seus chinelos e vestiu o robe. Não se preocupou em olhar no espelho, apenas saiu pela porta do quarto e desceu as escadas esfregando os olhos.
Não sabia que horas eram, mas Harry não parecia estar em casa. Em todo o caso, ele não estava mais voltando para o almoço, uma vez que ela não o estava fazendo. Achava que ele passava lá para ver se estava tudo bem, mas ela não o via. Em todo caso, duvidava que fosse ele na campainha.
Parou na sala para pegar as chaves, e o cômodo estava fracamente iluminado pelo sol, apesar das janelas fechadas. Aproximou-se da porta e ouviu mais um toque da campainha.
- Ron, não faz isso. Ela já ouviu se estiver aí - entreouviu, abafada, uma voz da soleira da porta.
- Já devia ter atendido. Deve ter saído - respondeu outra voz. - Vamos embora.
- Ainda não, você sabe que precisamos… - dizia a voz abafada de Hermione quando ela girou a chave e abriu a porta.
Ron estava com o dedo na campainha e Hermione estava no degrau de baixo. Ambos olharam-na com expressões surpresas no rosto.
Antes de qualquer coisa, Ginny espiou esperançosa para fora da casa, mas eles estavam sozinhos. A pequena esperança que surgira por uma fração de segundos murchou, deixando-a ligeiramente desorientada.
- Meu Deus, você está bem? Está com uma cara péssima - disse Hermione, aproximando-se, mas Ginny demorou para entender o que ela estava dizendo.
- Eu estou bem - respondeu, automaticamente, assim que conseguiu. - Entrem. Desculpem, não tem almoço…
- Não viemos furtar sua comida - respondeu Ron, desaprovador, enquanto entravam no hall. - Precisamos conversar.
Ela sentiu uma pontada de culpa que a incomodou. Continuou andando em direção a cozinha, porém.
- Arcaremos com todas as despesas que Richard fizer enquanto estiver na sua casa - disse, com a voz mais firme que encontrou, em resposta à fala do irmão.
- Ginny, não tem nada a ver com dinheiro - interveio Hermione, soando um pouco irritada. - Aliás, é bom que ele esteja lá; é mais seguro, considerando a atual circunstância…
Ela necessitava lavar o rosto na pia da cozinha para acordar, mas tinha que admitir que aquela conversa não era o que estava esperando. Virou-se.
- O que aconteceu? - perguntou. Receou a resposta assim que o fez. O irmão e a cunhada olhavam-na com sérias expressões. - Cadê o Harry?
- Ele nos mandou aqui - disse Ron, anormalmente formal. - Como Aurores.
- Está cuidando pessoalmente da situação - disse Hermione, no mesmo tom de voz do marido. - Não achávamos que fossem escapar por tanto tempo, mas…
- Do que vocês estão falando? - interrompeu ela, confusa e com um péssimo pressentimento.
Os dois se calaram por alguns segundos, provavelmente se perguntando por que é que tinham que dar a notícia, e então Ron disse:
- Houve uma fuga há três dias. Em Azkaban.
Ela sentiu o próprio rosto empalidecer.
- Na verdade, não foi apenas uma. Houve um grupo de fugitivos - complementou Hermione.
- Deixe-me adivinhar - murmurou ela, com um calafrio. - Bellatrix é um deles.
O silêncio que se seguiu foi uma triste confirmação de seu temor. Ginny deixou-se sentar na cadeira mais próxima.
- E acham que podem me procurar? - perguntou ela, mais desanimada do que nunca.
- Bom, você foi a única que não foi presa… Achávamos que não viriam tão cedo, mas foram avistados no condado por um trouxa nesta manhã - confirmou Hermione. - Infelizmente não conseguimos encontrá-los quando chegamos. Não achamos que estão armados, mas é melhor prevenir…
Ela não se esforçou para ouvir muito mais do que isso. Não achava que viveria para passar novamente pelos problemas de hierarquia da Ordem das Trevas, e sinceramente não tinha interesses nisso. Aparentemente Bellatrix não achava o mesmo.
Faziam cerca de cinco anos que mandava cartas sem resposta para Azkaban. Disseram-lhe, na última vez que perguntara, que Bellatrix Lestrange havia começado a perder a pouca razão que lhe restava, mas Ginny não sentira nada além de consternação. A única pessoa a qual ela sabia nutrir os mesmo sentimentos por seu antigo relacionamento agora estava tão desorientada a ponto de não reconhecer suas cartas, mas pelo menos talvez aquilo ajudasse a suportar a prisão. Ginny já se perguntara muitas vezes se seria mais fácil bloquear o passado se não pudesse se lembrar com clareza de quem era ou onde estava - pensamento este muito freqüente na última semana.
- Eu não creio que ela esteja bem o suficiente para comandar um grupo de Comensais - disse, lentamente, depois de um tempo. - Está velha e completamente demente.
- Não achamos que ela esteja liderando - respondeu Ron, cuja voz pareceu vir de dentro da geladeira (tinham uma casa completamente trouxa para qualquer ocasião).
- Achamos que ela esteja servindo mais como fonte de informações. Infelizmente você deu a ela muitos dados pessoais durante todos estes anos - desaprovou Hermione, balançando a cabeça ligeiramente.
Ginny achava que estava tendo princípios de enxaqueca. Sua cabeça estava pesada e não tinha certeza se estava processando o que estavam lhe dizendo.
- Eu não acredito na minha sorte… - suspirou ela, enterrando as têmporas nas mãos. - Eu só queria um pouco de paz…
Não houve resposta ao desabafo, e Ginny tampouco estava interessada no entreolhar que sabia que o irmão e a cunhada haviam trocado. Só queria que seu filho estivesse ali e que ambos estivessem felizes e sem preocupação. Mas quem garantia que ele não estava pior do que ela? Não era todo dia que alguém descobria ser filho do maior bruxo das trevas de todos os tempos, e desconfiava que não era uma sensação agradável em qualquer sentido.
- Ron, porque não vai pegar algumas roupas para Ginny enquanto eu termino de dar as informações? - ela ouviu a voz de Hermione, ligeiramente sugestiva.
- Por que eu? - Ron respondeu às suas costas, parecendo indignado. - Ainda não terminei…
- Ron.
- Ah… Certo. Vou lá.
Ginny ouviu um copo pousar na bancada de granito e passos se distanciarem para a sala, depois elas escadas. Ela forçou-se a levantar os olhos para Hermione, porque sabia que era hora de falar a verdade.
- Ginny… Eu sei está acontecendo alguma coisa entre você e Richard, porque ele ainda fala com Harry no Ministério, mas nenhum dos dois quer me dizer o que está acontecendo - disse a amiga, séria, agachada na sua frente. - Por favor, não me diga que é o que eu estou achando que é.
A ruiva precisou fechar os olhos por um momento para tomar coragem e afirmar com a cabeça.
Fez-se silêncio. Quando Ginny abriu os olhos, a expressão de Hermione era tensa encarando-a.
- Como? - perguntou a amiga, depois de alguns segundos.
- Ele descobriu há alguns dias. Sozinho. Eu tentei me explicar, mas ele está muito decepcionado comigo - disse, baixinho, sentindo a garganta começar a esquentar. Evitava lembrar-se da briga, pois sentia-se ainda mais culpada quando o fazia. - Sei que vai dizer que sou boba, que devia ter contado logo quando ele era pequeno, mas eu não podia…
A expressão severa de Hermione atenuou-se um pouco quando ouviu o tremer de sua voz.
- Claro que não - defendeu-se a amiga. - Ele pediu para você não contar.
Uma pontada na ferida cicatrizada em seu peito a incomodou à menção de Tom. Ela desviou os olhos para um canto do teto.
- Ginny… Eu ainda tenho aquela carta. Posso mostrá-la a Richard, se achar que vale a pena - sugeriu Hermione, em tom inseguro. A ruiva voltou a olhá-la, firmemente. - Tenho certeza de que ele vai entender.
Ginny continuou olhando-a. Ao mesmo tempo em que se perguntava como aquilo podia ajudar, incomodava-a o fato de Hermione achar que podia. Mesmo tendo permitido que a outra lesse, não acreditava realmente que Hermione o faria algum dia. Sentia-se ligeiramente traída.
Como se percebendo seu sentimento pelo olhar frio que de repente lançou à amiga, Hermione justificou-se.
- Eu não ia ler! Estava arrumando as coisas outro dia e encontrei… Eu não sabia o que era, me desculpe!
Ela sentiu um misto de raiva e compreensão que não podiam se digladiar pela primeira posição. Não eram muitas as pessoas que manteriam a curiosidade de lado por tanto tempo tendo uma carta de despedida de um ditador famoso guardada em algum lugar da casa, entretanto… Fazia muitos anos desde a última vez que pensara naquela carta, pois a primeira e única vez que a lera fora o suficiente para destruí-la, e lembrar do assunto que aqueles pedaços de pergaminho encerravam era definitivamente doloroso.
- Você acha que Richard vai me perdoar depois que ler aquela carta? No máximo ele vai ter certeza do quanto eu fui ingênua, e ele não vai gostar mais de mim por isso - disse, amarga.
- Não é verdade, Ginny. A carta coloca as coisas de modo bem compreensível. Richard não seria tão sem-coração a ponto de não entender o relacionamento de vocês…
- Eu não tenho muita certeza disso. Quando me coloco por fora… Não sei se eu me respeitaria. Nem sei se aquilo foi um relacionamento…
- Não diga bobagens, eu te encontrei naquela época, vi como vocês se davam bem…! Você provavelmente foi a única pessoa com o qual ele se deu bem na vida, Ginny, você sabe disso… Seu filho vai ter que saber o que você fez e o quanto você se sacrificou por todos nós, porque simplesmente não é justo que ele tire as próprias conclusões sobre algo que aconteceu antes mesmo de ele ter nascido! - reclamou Hermione, firmemente.
Ginny não conseguia mais fingir que aquele assunto não estava machucando-a. Tentava mentir para si mesma que aquele era um fato superado, mas, no fundo, ela ainda não se conformava de ter sido a causa que Tom encontrara para morrer. Ser a responsável pelo fim de uma guerra inteira nem mesmo competia com a culpa de ter feito o amor de sua vida entrar pela última vez em batalha. Como tentativa de amenizar sua dor ela vinha seguindo, desde então, as últimas vontades dele, mas estava dando certo? Seu filho a odiava, nunca se sentira tão infeliz e, a culpa, que por tanto tempo ficara amortecida em baixo de sua pele, agora retalhava-a para libertar-se.
Estaria sofrendo tanto se, no dia de seu aniversário, dezenove anos atrás, tivesse resolvido ir até ele?
- E-ele devia ter me matado quando teve vontade - soluçou ela, por fim, sentindo como se todos os anos amenos ao lado do marido e do filho nunca tivessem existido. - Assim nenhum de nós dois teríamos que passar por i-isso…!
- Não diga uma coisa dessas - exasperou-se a amiga, levantando-se e passando os braços ao redor dela. - Ginny… Você não deve… Não tem nem um pouco de orgulho de ter ido até o fim? - perguntou, baixinho, tentando lembrá-la de sua suposta atitude heróica.
Ela fungou.
- Você teria orgulho se Ron achasse que devia morrer por sua causa? - perguntou Ginny, a voz trêmula.
- Por Deus, não…! Não foi isso que eu quis dizer… Eu quis dizer que ele se tornou uma pessoa melhor no final… Mesmo que tenha sido motivado pelo egoísmo, para fugir de um possível sofrimento, ele fez aquilo por você e por Richard. Você não vê? O garoto precisa saber quais foram as circunstâncias, Ginny… Ele precisa entender que os dois se sacrificaram para dar uma vida tranqüila para ele - argumentou Hermione, sabiamente.
Ginny concordava. Gostaria muito que o filho soubesse o quanto ela sofreu para poder criá-lo, realmente gostaria… Mas se ele tivesse tanto da personalidade dela como achava que tinha… Sim, talvez as coisas fossem melhores assim.
- Richard se culparia. Se culparia, como eu, de ser um motivo para… para Tom ter se matado. Se culparia pelo que eu tive que passar - expôs ela, quase calma, apesar de sentir os olhos molhados. - Prefiro que ele me odeie pelo resto da vida do que carregar a cruz da culpa aos dezessete anos, Hermione. É melhor poupá-lo disso. Ele não merece…
Hermione afastou-se um passo. Ginny olhou-a e viu um par de olhos indignados encarando-a.
- Você prefere que seu filho te odeie? Você não merece isso, Ginny! Mesmo que Richard se sinta culpado, eu percebo, por ter separado vocês dois tão tragicamente… - e agora o discurso da amiga ficava embargado ao mesmo tempo que seus olhos marejavam. - Você não tem que se martirizar sozinha, Ginny… Eu sei que sempre foi difícil para você, eu tenho certeza de que também estaria sofrendo se tivesse sido comigo, mas… Mas simplesmente não é justo! Vocês se gostam tanto, não pode deixar ele te odiar para sempre sem saber o quanto você está sofrendo!
A ruiva abanou a cabeça, limpando as lágrimas.
- Contaria ao seu filho algo que a fizesse sentir melhor, por mais que o fizesse infeliz? Me livrei destes egoísmos há muito tempo, Hermione. Não estou dizendo que eu vá encarar isso bem, mas… Eu não tenho esperanças de voltar a ser totalmente feliz como eu fui um dia; Richard, pelo contrário, tem a vida toda pela frente. Quero… - disse ela, respirando fundo - quero que ele se case e tenha filhos sem a sombra da culpa por algo que ele não fez. Isso é mais importante do que eu.
Hermione agora estava mais emocionada do que ela. Ginny estava sofrendo mais do que antes e, entretanto, sabia maquiar melhor suas emoções. Durante todos aqueles anos, Richard fora sua muleta para expiar a ausência do pai do garoto, mas não podia mais contar com isto, se ia escolher entre um dos dois. Teria mais paz consigo mesma se Richard permanecesse desconhecendo a verdade, e aquilo seria o suficiente para tocar sua vida, por mais infeliz que fosse.
- Ele não vai ser feliz te odiando, Ginny - falou Hermione, limpando os olhos, depois de quase um minuto de silêncio. - Disso eu tenho certeza.
Ela não tinha pensado por aquele lado.
Levantou os olhos para a amiga, mas Hermione olhava para o outro lado.
- Que foi? - perguntou, olhando por cima dos ombros, mas Hermione fez um sinal com a mão para que ela se calasse.
A amiga tirou a varinha do bolso.
- Você ouviu Ron fazer algum barulho depois que subiu? - perguntou Hermione, num sussurro, ainda com os olhos inchados, mas muito mais atenta do que Ginny.
- Não prestei atenção - respondeu ela, também em voz baixa. Ela procurou a varinha junto ao seu corpo, mas não achou. Provavelmente deixara-a lá em cima, mas não tinha certeza; fazia dias que não praticava magia.
Hermione estava agora olhando ao redor, parecendo nervosa porém atenta, procurando qualquer sinal de que havia mais alguém na casa. Olhou então em direção ao arco que dava para a sala e, antes de qualquer ação, virou-se para Ginny e pediu que ela esperasse em um gesto de mão. A ruiva assentiu, e pegou um comprido jarro de vidro sobre a pia, caso precisasse se defender.
A amiga desapareceu pelo curto corredor que dava para a escada e a sala e Ginny ficou observando o ponto onde ela desaparecera, apreensiva. Como seria possível que houvesse intrusos em sua casa? Se ela bem sabia, havia proteções de todo tipo ao redor da residência, por mais que toda a segurança estivesse menos rigorosa desde o fim da Segunda Guerra. Harry era o chefe dos Aurores, afinal! Era óbvio que precisavam se proteger!
Um estampido alto seguido do tiritar de vidro se quebrando veio da sala de estar. Ginny sentiu o corpo se petrificar de susto e pânico, como se todo o sangue de seu corpo tivesse congelado.
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II
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Uma outra exaustiva olhada no mapa do país repleto de anotações não serviu de nada. Haviam saído de Azkaban, ao extremo norte, havia três dias, e seus passos eram seguidos com momentos de atraso desde então. Haviam despistado-os nas montanhas ao norte da Escócia já nas primeiras horas de fuga, e haviam conseguido algumas horas de dianteira. Com velocidade espantosa, foram vistos nas proximidades de Hogwarts já ao final do primeiro dia. Estavam sempre chegando atrasados aos locais onde testemunhas diziam terem visto-os. Pouco haviam alarmado a imprensa para não haver tumulto, mas fora inevitável que a comunidade ficasse sabendo da fuga. Na última hora do segundo dia, já eram obrigados a intercalar dezenas de pistas falsas com aquelas que realmente tinham alguma valia, e isto estava levando-os a lugar algum.
Havia, porém, uma única certeza: o objetivo dos fugitivos era sua casa, em Ottery St. Catchpole, Devon.
A casa onde havia construído com Ginny uma vida, reerguido suas reputações, e onde haviam se tornado uma família. A família que ambos haviam perdido na guerra.
Harry fora feliz durante todo aquele tempo. Ginny havia aceitado-o e toda a calma que tivera valera a pena. Valera a pena descobrir o quão gratificante era zelar e proteger duas pessoas que ele amava. Valera a pena, afinal, descobrir que podia ser pai de alguém tão improvável… E orgulhava-se disso.
Diria que Richard passara a ser parte da vida dele antes mesmo que Ginny - estavam casados quando o menino nasceu, mas não significava que se dessem bem no início. Richard viera na hora certa, e a afeição que sentira pela criança era algo diferente de algo que já sentira por alguém: pela primeira vez precisavam dele, e não o contrário.
Não que Ginny não desempenhasse bem seu papel de mãe, mas ele também estivera lá quando o garoto ficara doente, quando aprendera a falar e a andar, quando ganhara a primeira coruja de estimação. Harry estivera lá em todos os aniversários, em todos os momentos bons e ruins, sempre que Richard precisara. Harry lhe comprara o primeiro livro, lhe ensinara Quiddish e lhe contara histórias de sua época de escola. Não deixara de contar nenhuma, e gostava do olhar admirado do menino quando terminava de narrar suas aventuras: orgulhava-se da idéia de que teria alguém para seguir seus passos quando estivesse em Hogwarts.
Se Richard tinha algum receio, não era Ginny quem ficava sabendo primeiro. Harry era o confidente, o outro homem da casa, em cujos conselhos o menino confiava.
E agora tudo aquilo estava ameaçado.
Harry tinha os olhos fixos entre a distância em que os fugitivos haviam sido vistos pela última vez e sua propriedade no vilarejo: era um centímetro no extenso mapa que tomava toda a parede.
Felizmente para ele, mandara Ron e Hermione deslocarem Ginny mais cedo naquele dia e não tirar mais os olhos dela. Estava apenas esperando que o alarme anti-Marca Negra fosse acionado em qualquer um dos pontos protegidos pelo Ministério para que finalmente os cercasse, e dessa vez não sairiam tão cedo da prisão.
Afastou o cabelo da testa e se endireitou. O gabinete central do departamento não estava quente, mas ele estava suando. Por mais que soubesse que eram mínimas as chances de seu plano falhar, alguns receios e arrependimentos passavam por sua cabeça. Devia ter se certificado em proteger Ginny antes, logo no primeiro dia. Arriscava ela e ao filho que esperavam simplesmente para não a preocupar em momento tão crítico de suas vidas, mas sinceramente não achava que um pequeno bando de Comensais da Morte inválidos e desarmados iriam lhes causar tanta preocupação. Infelizmente o adjetivo desarmados não lhes correspondia mais após a invasão à uma casa em sua passagem por Hogsmeade, e a julgar pelo estado como encontraram as vítimas, também não eram tão inválidos quanto achavam que eram.
Em todo o caso, o alvo principal estava sendo bem observado.
Richard não estava achando agradável ficar preso no Departamento dos Aurores, como Harry podia constatar pelo olhar fuzilante que o rapaz lhe lançava pelas costas. Seus braços estavam cruzados sobre o peito e uma expressão de ódio repreendido deixava seus lábios apertados e suas narinas infladas. Pelo menos era a mesma expressão das três últimas vezes que virara-se para olhá-lo.
Sabia bastante bem como o filho estava se sentindo na última semana e que o fato de fugitivos perigosos estarem procurando-o por causas relacionadas à sua recente descoberta pioravam a situação, mas não havia realmente nada a se fazer. Tinha certeza de que o tempo curaria os pensamentos confusos de Richard e não era porque o filho estivesse revoltado com ambos pelo terrível segredo que haviam lhe ocultado que deixaria de agir como pai.
- Potter - chamou uma voz à sua esquerda. Ele olhou para o colega. - Os Weasley vão responder assim que levarem sua esposa?
- Sim - respondeu ele. - Já deviam estar saindo, mas Ginny pode demorar um pouco para cooperar…
Ele olhou de esguelha para Richard, involuntariamente. O filho lançou-lhe um olhar de desprezo, mas ele não se importou. Ninguém diria a ele que o motivo de estar encarcerado no Ministério era por ser o único filho legítimo de Lord Voldemort, mas imaginava que o rapaz soubesse.
Às vezes desejava saber o que se passava exatamente na cabeça do garoto. O sentimento de traição era óbvio, mas o que mais ele imaginava? Sentia-se responsável pelos atos de seus pais biológicos, sujo por carregar tal sangue? Ou talvez culpa por se sentir atraído por alguns ramos menos ortodoxos da magia e raiva por não poder escolher sentir tais instintos?
Se fosse isso, Harry o compreendia perfeitamente. Já tivera pensamentos fortemente semelhantes e, neste caso, não dividiria com mais ninguém as implicações em ser pai daquele garoto em especial.
De certo modo ele sempre tivera a intuição de que um dia teriam problemas com Richard, por mais querido que este lhe fosse e por mais que confiasse na conduta do filho. A ausência de preocupações que o garoto lhes dera ao longo dos anos criou em Harry a impressão de que a primeira falha grave que cometessem não seria perdoada tão facilmente. Ele tinha essa impressão caso fosse um filho exemplar e de repente seus pais, seus maiores heróis, lhe falhassem. Infelizmente não teve experiências mais sólidas para comprovar seus receios.
Talvez fosse isso que Richard estivesse sentindo agora: vergonha. Vergonha de ser tão diretamente ligado com a pessoa que mais fizera mal a quem ele sempre tivera como espelho. Vergonha de ser parte daquilo que sempre repudiara.
E isso era algo que nada que Harry ou ninguém dissesse ou fizesse poderia ajudar. Era algo que o garoto teria que superar sozinho.
E Harry tinha certeza que ele tinha maturidade para isso.
A conversa baixa ao redor da sala calou-se abruptamente ao som estridente do alarme que soou de repente. Todos olharam para o grande mapa à sua frente, e Harry inclinou-se levemente em direção a ele: um círculo vermelho iluminado aparecera ao redor de onde todos estavam esperando que aparecesse.
Ele levantou-se. Ouvia os outros Aurores reunindo-se às suas costas.
- Pegamos eles! - disse alguém em voz alta, seguido de um coro de concordância.
- Dessa vez não escapam - ele ouviu dizer Kingsley Shacklebolt à sua esquerda.
- Vamos - disse ele, tirando a própria varinha do cinto. Virou-se e foi imitado pelos outros.
Antes que desse um passo em direção à porta, porém, um espectro branco azulado atravessou a parede e parou na frente de todos. O cachorro-patrono abriu a boca, e ao invés de um latido, disse com a voz de Ron, apressada e, ao mesmo tempo, sigilosa:
- Chegamos tarde demais! Vão pegar Ginny!
Harry sentiu gelar a espinha. Eles ainda estavam na casa, Ron, Hermione e Ginny!
Não! Não podia permitir que tocassem nela. Não podia correr o risco de deixar que fizessem mal a ela e ao bebê que ela esperava. Precisava agir agora!
Precisou antes, porém, lançar um último olhar de aviso a Richard, para que não saísse dali em qualquer situação, mas a sensação, quando o fez, foi proporcionalmente contrária.
Havia algo de errado com o garoto. O olhar que Harry recebeu foi tão pouco familiar que ele sentiu arrepiar os pêlos do braço. Era o mesmo olhar de caçador que vira várias vezes em outro par de olhos cinzentos.
E ele soube que os planos ficariam ainda mais conturbados.
Richard estava ao lado da porta. Harry previu o que estava para acontecer, levantou a varinha, mas não foi rápido o suficiente. Antes que pudesse terminar de pronunciar Expelliarmus, ele já havia saído.
Mesmo com a tentativa dos colegas de impedir o futuro iminente, milésimos de segundos depois, para desespero completo de Harry e de todo o Departamento dos Aurores, a porta se fechou e desapareceu, deixando apenas a parede branca onde estava.
O raio vermelho atrasado bateu na alvenaria e se esvaneceu numa nuvem de poeira cintilante, e Harry nem mesmo conseguiu enxergá-la tamanho era seu choque.
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Ginny não sabia onde os invasores estavam, pois não ouvira ruído algum desde que Hermione aparentemente fora nocauteada. Não sabia como eles podiam estar armados, mas provavelmente haviam furtado algumas varinhas da casa de alguém, ou não teriam conseguido cruzar a Grã-Bretanha em três dias, a pé.
Não tivera sinais de Ron desde que ele subira - esperava que não estivesse ferido. Hermione também não fazia mais barulho algum. A ruiva estava parada na cozinha, sentindo-se mal, enquanto, em algum lugar de sua casa, Comensais da Morte se locomoviam silenciosamente, prontos para pegá-la ao primeiro passo em falso.
As coisas pareciam piores quando não se tinha noção do que estava acontecendo. A única coisa que sabia era que Comensais da Morte haviam escapado de Azkaban, e que Bellatrix estava entre eles. Não sabia quantos eram, nem o quão transtornados estavam por terem ficado dezoito anos na cadeia, cercados por dementadores. Não sabia o que estava enfrentando.
Um estampido abafado sobressaltou-a. Viera dos fundos. Ela olhou pela janela da cozinha, sem sair do lugar, mas não havia nada lá fora. Fora um gato derrubando a lata de lixo, ou havia gente aparatando em seu quintal? Qualquer que fosse a verdade, ela não via nada lá fora.
- Está esperando alguém, Weasley? - disse uma voz à sua esquerda, estranha e terrivelmente familiar. Ela olhou, rapidamente, para a fonte do som, eu viu um esquisito vulto da cor da parede. Estavam usando Feitiços Desilusórios.
Desde quando estavam ali? Quanto haviam ouvido?
- Não sou mais Weasley. Meu sobrenome agora é Potter - respondeu ela, lentamente, olhando para os contornos difusos do ex-colega, Dante Dawson. Por que é que fora deixar sua varinha no quarto? Não via muitas saídas para ela no momento.
- E diz isso com orgulho, não é mesmo? - disse outra voz, que vinha da sala em direção à cozinha.
O coração de Ginny bateu mais rápido. A voz estava mais rouca, mais adulta, mas ela reconhecera, e entristecia-se com o tom que lhe era dirigido. Encarou o homem que entrou despreocupadamente no aposento.
- Pensei que fossemos amigos, Adam - disse ela, sentindo a decepção secar sua garganta. De todos eles, nunca esperaria que Adam Goldenfire viesse lhe cobrar satisfações. Depois de Jack, era o único com quem se dera bem na Ordem das Trevas.
Adam era moreno, mais alto que Harry e mais baixo que Ron. Ex-auror, não era o tipo comum mal-encarado que endossava as fileiras de Comensais da Morte. Mas agora ele estava estranho, os cabelos compridos, ralos e sujos, o rosto magro e amarelado. O ar selvagem que Ginny costumava ver nos outros agora também via em Adam.
- Expelliarmus - respondeu ele, calmamente, apontando-lhe a varinha e fazendo o vaso que ela segurava voar para trás, e Ginny ouviu-o quebrando-se às suas costas instantes depois. - Amigos não mandam amigos para Azkaban.
Ela sentiu o amargo da própria consciência. Tentara livrar Adam da cadeia, mas fora possível apenas abater-lhe alguns anos de sua pena. Por mais que tivessem sido amigos, diferente dela, Adam matara pessoas enquanto trabalhava para a Ordem, e ela não fora capaz de mentir para o Ministério. O máximo que conseguira a favor dele era depor que Adam não era tão violento quanto os outros Comensais do grupo Cinco.
Agora, porém, lhe ocorria que só dissera o que via em sua rotina; nunca vira Adam em missão. Talvez ele não fosse tão inofensivo quanto sempre achara.
- O que foi o barulho, Dawson? - perguntou uma voz totalmente desconhecida, além de seu campo de visão. Dawson olhou para o lado enquanto era questionado. O Comensal desfez o feitiço que o camuflava, enquanto a outra voz acrescentava: - Pareceu aparatação.
- Não tem ninguém lá fora. Deve ter sido algo caindo - respondeu. Adam foi até a janela e observou atentamente, antes de fechar as cortinas. Dawson apontou-lhe a varinha, gratuitamente, e ela levantou as mãos, rendida. - Não receba as visitas na cozinha, Weasley. Que falta de educação…
Ele prendeu os pulsos dela nas costas com cordas com um gesto da varinha e fez um sinal para que ela se movesse. Ginny obedeceu, meio contrariada, porém conformada. Onde estava a cavalaria quando precisava dela?
Ouvia agora vozes baixas na sala. Atravessou o pequeno corredor que ligava a sala à cozinha, sendo vigiada de perto pelos dois bruxos, que vinham às suas costas. A sala estava mais escura do que antes, todas as cortinas fechadas. Ginny apenas conseguia ver as silhuetas dos móveis e sofás no cômodo, e havia mais dois vultos humanos entre eles.
- Você está grávida ou gorda, mesmo, Weasley? - debochou Dawson, desagradável como sempre. Ela ignorou-o e apertou os olhos para enxergar as pessoas que os aguardavam na sala. Um dos vultos era a silhueta alta e esguia de Bellatrix, ela tinha certeza, mas o outro ela não reconhecia. Parecia homem, forte, e em melhor estado do que todos os outros. - Você ouviu o que eu disse?
- Vai cuidar da sua vida, Dawson - respondeu ela, seca, sem se intimidar com sua desvantagem. Já que estava indo de mal à pior, não iria deixar idiotas daquele nível desdenharem dela.
Mas um breve estampido fez esquentar e arder sua bochecha. Cambaleou ligeiramente, mas equilibrou-se e parou, ofegante. O desconhecido estava com a varinha apontada para ela.
- Não ouse se dirigir a ele nesse tom, sua traidora porca… Você não tem o direito - disse-lhe, em voz lenta e cheia de desprezo, o homem. Ginny não conhecia sua voz.
- Traidora, eu? - perguntou ela, em voz baixa. Sentiu um sorriso inconformado entortar os próprios lábios. - Estive com ele até o fim.
- Não esteve com ele até o fim - disse o homem, despreocupadamente. - Nós estivemos - comentou, balançando a cabeça lentamente. Houve murmúrios de aprovação. - O que você estava fazendo naquela hora? Traindo-o com Potter?
Não. Estava trancada em um armário, pensou ela, desgostosa. Mas por que acreditariam nela?
O homem desconhecido andou, calmamente, entre os móveis. Parou em frente o espelho de parede que, Ginny percebeu, estava rachado num fractal disforme, e abaixou-se. Ginny olhou para o chão, e viu um vulto desfalecido. O homem levantou-se em seguida com uma varinha nos dedos e voltou a aproximar-se dela.
- Não está armada, não é? - perguntou-lhe, parecendo maldosamente satisfeito com isso.
- Estava segurando um vaso - disse Adam, como se achasse graça.
Eles riram brevemente, desdenhosos. Ela olhou mais uma vez para o corpo desacordado de Hermione, agora sem nada impedindo sua visão. Sentiu crescer o mal-estar - esperava que a amiga estivesse bem. Não estava se mexendo.
- Ela ainda está viva - disse-lhe o estranho, vendo para onde ela olhava. Deu um riso baixo. - Pelo menos por enquanto…
Ginny encarou-o.
- Quem é você?
Ela viu um sorriso se formar no escuro, por mais que não enxergasse suas feições claramente.
- Não se lembra de mim, GW? Acho que não se lembraria… Eu estava no grupo Seis na última vez que a vi… Mas você estava muito ocupada ostentando sua posição na cama do Lord das Trevas para reparar, não é? - provocou o homem, pegando uma mexa de cabelo dela entre os dedos.
- Tire as mãos de cima de mim - mandou ela, ríspida, afastando a cabeça. - Eu era a maior aliada dos grupos inferiores na Ordem das Trevas inteira; se não sei quem você é, provavelmente era porque sua competência não me impressionava!
O homem fechou a cara para ela. Aproximou-se dois passos e encarou-a de perto o suficiente para que ela sentisse o fedor de suor e sujeira que ele exalava.
- Você fala demais, GW… Caso não tenha percebido, está em desvantagem, e não viemos para uma visita amistosa… - ameaçou ele, em voz baixa, e continuou encarando-a por longos segundos.
Ela não abaixou os olhos. Se havia algo que ela não fazia mais era se rebaixar para que outras pessoas pudessem brincar de quem tinha mais poder. Ela nunca mais precisara se lembrar que fora uma Comandante, mas o seria de novo de precisasse.
- Por que eu estou discutindo com você? - perguntou ela, secamente. - A maior autoridade aqui é Bellatrix, e se a conheço um pouco, ela não concorda com essa idiotice.
O homem virou o rosto e riu gostosamente, como se tivesse ouvido a melhor piada em anos. Os outros dois homens também riram. Ela olhou para Bellatrix.
A silhueta moveu-se lentamente, indo parar próximo à porta, onde alguma luz entrava pelos vitrais da porta principal. Ginny então pode ver as feições da mulher, pela primeira vez em dezoito anos.
Seus cabelos estavam tão longos e desarrumados como sempre, mas agora eram predominantemente grisalhos. Sua pele estava mais seca e pálida do que nunca, e fundas olheiras tornavam sua aparência aterrorizante. Seus olhos eram fundos, inquietos e insanos. Mas quando falou, sua voz era controlada.
- Green sabe como nos levar de volta ao poder… Reergueremos a Ordem das Trevas. É assim que vai ser - disse Bellatrix, inexpressivamente.
- Green? - perguntou ela, confusa.
- Julius Green… prazer - disse o homem, com um sorriso sarcástico que começava a irritá-la profundamente, encostado no corrimão da escada.
Julius Green… Franziu a testa. Ela se lembrava do nome. Olhou para o homem com mais atenção. A claridade que entrava pela porta também iluminava seu rosto agora, e Ginny admirou-se com o quão diferente ele estava desde que estiveram em Basilisk Hall pela última vez.
Ele era um dos subalternos do grupo Seis. Ambicioso, Green trocara de cargos em tão pouco tempo quanto ela. Não fora um Algoz; seu estilo era muito mais sutil. Ginny lembrava-se dele.
Tinham exatamente a mesma idade.
Ele fora um dos dois supervisores quando era fora chefe do grupo Sete. Estava cotado para o cargo dela quando Ginny conseguiu-o… E agora ela tinha certeza de que ele havia entendido sua repentina ascensão assim que a vira na noite do baile com seu mestre.
Pelo modo como o sorriso dele alargou-se enquanto se encaravam, Ginny suspeitou que Green vira o reconhecimento aflorar em seu rosto.
- O engraçado, GW, é que consegui uma promoção na última hora - contou ele, lentamente, observando o efeito de suas palavras. - Estávamos reunidos pela última vez, em círculo… o Lord das Trevas reconheceu minha fidelidade, olhou para mim e disse: "aproxime-se, meu jovem. Faz parte do grupo Cinco agora"…
Ginny mirava-o, horrorizada. Havia um orgulho fanático na voz dele, e ao mesmo tempo um desprezo fulminante em seu olhar.
- Você não estava lá… Você nunca deveria ter pertencido ao grupo Cinco… Ele percebeu isso, e ele deu o cargo a quem realmente merecia! - afirmou Green, em voz baixa, satisfeita e visivelmente perturbada.
Ela não tinha realmente medo nem de Adam, nem de Bellatrix e muito menos de Dante Dawson… Mas estava com medo deste homem.
- Você está insinuando… que o Lord das Trevas se enganou quando decidiu me beneficiar, ao invés de você? - perguntou ela, cautelosamente, pensando bem nas palavras.
Julius Green desencostou-se da escada e hesitou antes de responder.
- Não. O Lord das Trevas não se enganava… Mas podia ser manipulado. E você sabia como fazer isso, GW…
Ela não respondeu. Sim, manipulava Tom constantemente, mas raramente em benefício próprio. Além do mais, sabia que só conseguia aquilo quando o amante se deixava manipular. Ginny nunca tivera realmente poder real sobre as decisões do mestre: apenas dava sugestões.
Aonde Green queria chegar? Queria que ela pedisse desculpas por ter se envolvido com Tom e atrapalhado o curso natural das coisas? Queria que ela admitisse que fora uma intrusa, uma estranha na Ordem das Trevas, e que nunca devia ter estado lá? Queria que ela confessasse que se não tivesse se envolvido, seu mestre ainda estaria vivo?
- Ajoelhe-se - ordenou Green, de repente, apontando-lhe as duas varinhas que segurava. Ela hesitou por alguns segundos, mas obedeceu. Quanto menos indisposições arranjasse com os invasores, mais chances tinha de ficar ilesa. E precisava ficar ilesa, pelo bebê que esperava… pela pequena Julliet.
Por mais que estivesse com um mal pressentimento.
- Crucio - disse Green, friamente.
Ela sentiu uma dor que não experimentava há muito tempo. Como se esticassem seu corpo até o limite, torcessem-no, perfurassem-no o serrassem-no em vários pontos. Não soube se gritara: não ouvia nem via nada. Apenas sentia uma dor, extensa em contínua como um choque elétrico.
Durou pouco. Ginny sentia o corpo latejar, mas ele não doía mais como se estivesse sendo puxado e esfolado. Sentia a poeira do carpete entrar em suas narinas.
- Isso foi por sua traição… Por ter feito ele achar que você era importante, por ter deixado ele morrer, e por ter corrido para os braços do Potter antes que fosse mandada para Azkaban, sua vagabunda - sussurrou a voz demente de Green, num rosnado, bem perto de seu ouvido. - Você não sente culpa?
Todos os dias, pensou ela, engolindo o choro. As palavras eram piores do que a maldição.
Mesmo assim, ela levantou o corpo o máximo que pode, ergueu a visão borrada e procurou Bellatrix.
- Você não contou a eles? Conte a eles qual foi o último desejo dele! Conte a eles por que foi que ele morreu! Você não está sendo fiel a ele, Bella! - disse, suplicante e acusadora, ao mesmo tempo.
A Comensal devolveu seu olhar. Ela parecia estranha, confusa e transtornada. Seus olhos entravam e saiam de foco, e Ginny achou que ela não havia ouvido.
- Cale a boca, GW! Não vai manipular Lestrange também como fazia…!
- Ele queria que continuássemos o trabalho dele, queria que fossemos até o fim! Era isso o que ele queria, o que ele sempre quis! - respondeu Bellatrix, de repente, numa voz rápida, alta, como se para calar pensamentos dentro da própria cabeça.
- Não! Você sabe que não é verdade! Ele falou com você na noite anterior, você sabe o que ele queria! - acusou, em voz alta, olhando fixamente para a mulher. - Ele confiava em você, Bella!
Bellatrix virou-se, negando com a cabeça, perturbada. Apoiou as mãos na mesinha ao lado da porta e não olhou mais para ela, como se não quisesse mais discutir.
Ginny respirou fundo. Bellatrix era o mais próximo que tinha de um aliado, mas não estava sendo de grande ajuda. O que haviam feito com ela? Mais dezoito anos cercada por dementadores e por Comensais da Morte fanáticos para embaralhar-lhe a cabeça, suas cartas sendo a única fonte de realidade, teriam sido o motivo do estado da ex-colega?
- Suas tentativas de confundi-la são patéticas, GW - disse Green, contente com o fracasso de sua tentativa, em meio ao silêncio. - Você não tem saída.
Ginny baixou a cabeça, sentindo-se derrotada. Já não estava na idade de reagir e não havia ninguém para salvá-la desta vez. Ron e Hermione estavam desacordados, e Harry não estava ali.
Uma idéia repentina fez gelar suas vísceras. E se o alvo não fosse ela? E se estivessem apenas mantendo-a de refém? Se eles queriam terminar o que Tom começara, então o objetivo era… matar Harry.
- Dawson, o irmão dela deve estar acordando. Por que não o convida a se juntar a nós? - disse o líder, em voz baixa, mas autoritária.
- Com prazer - respondeu o outro.
Ginny ouviu passos subindo a escada e desaparecer no andar de cima.
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III
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O relógio fazia o único som da sala, mecânico e contínuo. Fazia três minutos que todos estavam em silêncio. Apenas alguns ruídos abafados no andar de cima indicavam algum sinal de movimento.
Não lamentaria se dependesse apenas dela acabar com o confronto: ultimamente o desejo de reencontrar o grande amor de sua vida era terrivelmente atraente. Ginny, porém, sabia que morrer não era uma opção - não podia abandonar Harry, nem seus pais, nem Richard, e muito menos a criança que ainda não nascera e que dependia exclusivamente de seu ventre para sobreviver.
Havia mais coisas em jogo do que havia vinte anos atrás, onde não precisaria que sua família sofresse sua perda mais do que já sofria, sem amigos e sem quem realmente se importasse, exceto Harry. Mas há vinte anos ela não se importaria se ele sofresse.
E há vinte anos não tinha motivos para desejar morrer.
- O que é que vocês querem de mim? - perguntou, depois de um suspiro cansado. - Já teriam me matado se eu fosse o alvo.
Green caminhava lentamente ao redor da sala, em silêncio, enquanto Adam observava-a atentamente às suas costas, caso ela resolvesse correr, como via pelo reflexo do espelho sobre a lareira à sua frente. Bellatrix estava no mesmo lugar onde parara, momentos atrás, e agora se distraía observando os porta-retratos sobre a estante.
- Pensei que fosse óbvio - respondeu o líder do grupo, calmamente agora.
- Mas não é - respondeu Ginny.
O outro continuou andando e não respondeu de imediato.
- Acha que vamos reerguer a Ordem das Trevas sozinhos? A comunidade mágica nunca nos temeria o suficiente - disse o homem, por fim, inalterado.
- E acha que eu vou… - começou ela, desconfiada, mas parou.
Virou-se para encarar o homem que andava pela sua sala. Eles não queriam vingança, nem aliados - queriam um líder.
Um líder com tanto poder quanto o antecessor.
Ela sentiu o rosto empalidecer. Olhou para Bellatrix. A bruxa estava inclinada para um porta-retrato prateado, onde ela sabia haver uma fotografia de Richard, arrumado para o primeiro dia de trabalho no Ministério. A mulher sorria levemente, os pensamentos perdidos.
Durante todos aqueles anos, Ginny lhe escrevera. Lhe mandara cartas, fotos, para mostrar que o garoto estava bem, feliz, e que ela soubesse que sua ajuda não havia sido em vão. Quando fora que Bellatrix deixara de ver Richard como o garoto pelo qual seu amado mestre se sacrificara e começara a vê-lo como sucessor em potencial?
Mas não ia deixar que tocassem em seu filho. O que quer que pretendessem, ela não ia deixar!
Pelo menos eles pareciam achar que ele iria chegar a qualquer momento… Talvez a briga tivesse vindo em boa hora, e talvez fosse bom ela ficar quieta. Logo alguém viria checar por que Ron e Hermione não haviam voltado, e seriam resgatados. Richard nem mesmo precisaria chegar perto da casa.
Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, manter os invasores falando, para ganhar tempo. Antes que emitisse qualquer ruído, porém, Green falou, sério:
- Dawson está demorando.
Ginny viu pelo espelho o homem trocar um olhar com Adam. Bellatrix olhou em sua direção, porém seus olhos eram vagos, como se apenas tivesse percebido uma alteração no clima da conversa. A velha bruxa então tornou a se virar para as estantes cheias de fotografias, deslocando-se sem pressa para observá-las, uma a uma.
Agora que haviam mencionado, Ginny não ouvia mais nada no andar de cima. Será que Ron recobrara os sentidos e imobilizara o invasor?
- Goldenfire…
- Não vou lá em cima sozinho.
- Lestrange…
Bellatrix deu uma risada rouca ao ouvir seu nome.
- Como é que eu poderia ajudar? Cuspindo? - disse ela, desdenhosa, antes mesmo que Green propusesse algo, sem se virar de onde estava. - Por que não vai você?
- E deixar ela escapar? - retrucou o homem, e Ginny entendeu que ele se referia a ela.
- Não vamos deixar ela escapar - disse Bellatrix, calmamente. Ela virou-se dos retratos que estava olhando, e Ginny achou que ela parecia menos louca. - Faça o que quiser, eu não vou lá em cima.
- Que seja! Goldenfire, vamos subir. E você, Lestrange, nem ouse nos trair… - alertou Green, em voz baixa, apontando-lhe a varinha brevemente antes de virar e fazer um sinal para Adam. Os dois homens enfeitiçaram seus sapatos e Ginny viu-os subirem silenciosamente as escadas, com os cantos dos olhos.
Ela olhou para Bellatrix depois que viu os homens desaparecerem no patamar superior. A bruxa encarava-a, com o que parecia ser um meio-sorriso.
- De que lado você está? - perguntou ela, num sussurro.
- O que você quer dizer com isso? - rebateu a mais velha, evasiva, tomando o lugar do outro e passando a caminhar lentamente pelo cômodo, embora o fizesse na frente de Ginny e não às suas costas. Ela não tirara nenhuma varinha do bolso para fazer a guarda, o que era no mínimo curioso, tratando-se de Bellatrix; Ginny já presenciara a comensal em ação, e não era assim que ela agia.
- Você parece ter mudado muito desde a última vez que nos vimos - comentou Ginny, porque não gostava do silêncio que fazia quando se calavam.
Ela viu que a outra sorria quando ela tornou a entrar na frente do vitral da porta. Um sorriso estranho, nervoso.
- Azkaban faz isso - foi a breve resposta que obteve. Bellatrix continuou sua lenta caminhada, observando as coisas ao redor. Parou em frente a lareira e tocou um pequeno vaso decorativo sobre a moldura, e isso pareceu divertir a mulher, pois ela riu brevemente. - É claro que você não sabe disso… Esteve vivendo aqui, neste pequeno luxo, com fogo para te aquecer no inverno e flores para embelezar seu lar…
Ginny não estava animada para discutir quem levara a melhor nessa história toda. Ambas sabiam bem que ela tivera motivos para escapar da prisão, enquanto Bellatrix não tinha nem como tentar se defender. A diferença entre o modo como as duas serviram ao Lord das Trevas era gritante.
- Por que está obedecendo este cara? - perguntou, em voz baixa e intrigada, mudando de assunto. - Você é uma Comandante!
Bellatrix demorou para responder, e voltou a andar.
- Não comando nada dentro de Azkaban. Green sabia como sair, e é melhor do que nada.
Ginny continuou encarando-a.
- Bella… Você foi braço direito do Lord das Trevas. Você tem o direito, ao menos, de carregar uma varinha - sussurrou ela, arriscando a suspeita que vinha tendo.
A bruxa parou de andar, mas Ginny não conseguia ver seu rosto no escuro. Viu a silhueta da mulher estender a mão para tocar os utensílios da lareira, e ninguém disse nada nos segundos que se seguiram.
Uma voz masculina no cômodo sobressaltou-as.
- Não tem ninguém lá em cima - disse Adam, com uma voz nervosa. Os passos silenciosos dos homens livrou-os de serem anunciados. - Nem Dawson, nem o Auror…
- O que você fez, GW? - perguntou Green, parecendo alterado. Antes que ela olhasse pelo espelho, dedos violentos seguraram firmemente seus cabelos e sacudiu sua cabeça. - Como foi que fez isso? - quis saber, irracionalmente.
- Como é que eu vou saber, animal estúpido? - ganiu ela, sentindo a dor de ter vários fios de cabelo arrancados da cabeça. - Estou desarmada e amarrada, seu infeliz!
- Acha que sou idiota? Acha que não sei que colocou armadilhas pela casa? Onde está Dawson? - rugiu o homem, desvairado de raiva.
Antes que ela pudesse pensar em impropérios para responder, uma voz baixa, mas ao mesmo tempo muito audível, como se ressoasse dentro deles, fez-se audível na sala.
- Dawson fugiu como um cachorro: com o rabo entre as pernas. Ou melhor… tentou.
Pontuando a frase, um objeto vindo do andar superior tiritou no chão de tacos, fazendo um ruído solitário no silêncio profundo que se fez. Todos olharam para a varinha que rolou brevemente pelo chão, chocados demais para reagir. Ginny não reconheceu a varinha que parou ao encostar no tapete, então só podia supor que era a que Dawson estivera usando. Olhou para cima, além dos balaústres do pavimento superior, mas assim como os outros, não viu ninguém.
Ela tinha certeza de que os ex-colegas também estavam com a mesma sensação arrepiante de como se um fantasma do passado tivesse ecoado do além… Entretanto, logo depois do choque inicial, Ginny entendeu o que estava acontecendo.
A mulher experimentou uma felicidade que aqueceu seu peito por dois segundos antes de sentir a opressão agourenta daquela situação. Por mais que significasse muito para ela, ela desejava que aquilo não estivesse acontecendo.
Os dois Comensais despejaram feitiços contra o lugar onde suspeitaram ouvir a voz, mas os jatos luminosos apenas sacudiram a parede do átrio superior e derrubaram um quadro. Não, ele não se demoraria ali… Ela correu os olhos por todo o corredor do primeiro andar, mas não viu nada, tampouco. Podia estar em qualquer lugar…
Os invasores pareciam nervosos. Enquanto Adam dava voltas sem sair do lugar procurando ao redor, Green movia apenas os olhos, reflexivo. Bellatrix estava estática, ainda ao lado da lareira, como se uma mão de gelo segurasse-a pelo pescoço.
Pareciam perceber com quem estavam lidando, e pareciam saber que seus movimentos eram imprevisíveis.
Mas então Ginny sentiu a ponta de uma varinha cutucar-lhe a parte de trás da cabeça. Finalmente, estava servindo ao que havia sido proposto: ao papel de refém.
- É você, Richard? - perguntou Green, em voz alta o suficiente para se fazer audível. - Por que não aparece para conversarmos?
Não obedeça, desejou ela, com todas as forças, fechando os olhos por alguns instantes.
- Acho que podemos conversar normalmente assim - respondeu a voz do filho, imperturbável, do que podia ser de qualquer lugar. - E eu recomendo que se afastem da minha mãe.
Houve alguns segundos de silêncio enquanto Green considerava. Ele iria obedecer?
- Acho que não. Sabe, não quero machucá-la… Apenas estávamos aqui relembrando os velhos tempos… Falando de como a vida mudou quando ela deixou de se chamar GW e passou a se chamar Sra. Potter… - acrescentou Green, quase casualmente, mas Ginny via o quão maldoso o homem estava sendo.
Richard não respondeu. Pudera, pensou Ginny, ele devia estar ocupado tentando digerir a segunda pior informação que estava tendo aquelas semana. Ela havia contado-lhe que fora uma Comensal da Morte, não aquele Comensal em especial…
- Não me diga que não havia contado a ele, GW? - disse Green, fingindo espanto. Ela estava olhando fixamente para a mesinha à sua frente e recusou-se a olhar para seu seqüestrador. - O que mais você não contou?
- Harry, o Ministério da Magia e eu não vimos necessidade em contar várias coisas - respondeu ela, constrangida e decepcionada consigo mesma em admitir aquilo na frente do filho, mas conformada; cedo ou tarde ele teria que saber.
- Como com quem você dormia, por exemplo? - provocou o Comensal, achando que estava revelando algo.
Ginny não respondeu.
- Você chegou muito tarde se pretendia que essa notícia fosse novidade - respondeu a voz de Richard, seca. Ela sentiu-se mais envergonhada do que nunca.
Green fez breve silêncio, como se não fosse esta a resposta que esperava.
- Então você sabe que é filho…
- …de Harry Potter, sei - disse a voz do filho, levemente mais alta, como se desafiasse-os a discordar.
Houve mais cinco segundos de silêncio. Ninguém parecia respirar com a blasfêmia anunciada.
- Querendo ou não, garoto… Você é o último descendente vivo de Salazar Slytherin - disse Green, a aparente calma que antes havia na sua voz vacilando.
E então, uma risada fria e sarcástica de quem ouvira um piada tão ridícula que não conseguira ficar impassível ecoou na casa. A semelhança com a risada que o pai do garoto usava com mais freqüência era tão intensa que Ginny duvidava que nenhum deles tivesse relacionado com a situação de perigo em que todos se encontravam depois que a risada terminasse.
Foram raras as ocasiões que Ginny vira o filho rir assim, e em todas elas ele estava terrivelmente furioso.
- Desculpe - debochou Richard, ainda com uma voz divertida, tentando parar de rir. - "Descendente de Salazar Slythern"… Isso tudo ainda me é muito engraçado. Digo, essa supervalorização do passado de Hogwarts e tudo o mais… Ao que isso me dá direito, exatamente?
Os Comensais estavam se entreolhando, e Green parecia estar inchando de raiva. Ginny sabia que aquele sarcasmo humorado era mais sangue dela do que qualquer coisa, e sorriu.
- Espero que eu tenha herdado algum imóvel - continuou o rapaz, zombeteiro, ignorando a indignação com o pouco caso dele ao que os invasores consideravam tão importante. - Digo, qual a vantagem em ser herdeiro de alguma coisa se não houver lucro, não é mesmo? Não que meu pai, o meu verdadeiro pai, pretenda me deixar sem herança, mas… Descobrir que se tem direito a mais alguma coisa é sempre bem-vindo. Ou você estava se referindo àquela maldita tradição do legado?
Ninguém deixou de reparar que a voz tornara-se muito diferente na última pergunta. Havia um quê ameaçador por trás das palavras.
- Você pode desdenhar, Richard… - disse Green, parecendo fazer esforço para se controlar. Ginny sentia a ponta da varinha que ele lhe mirava tremer. - Mas o que você herdou foi um poder assustadoramente incrível. Um poder capaz de fazer qualquer pessoa, bruxo ou trouxa, se ajoelhar diante de você… E esse poder você só poderá descobrir quando se livrar destes paradigmas sobre bem e mal que enfiaram na sua cabeça durante todos esses anos. O Lord das Trevas foi um visionário, capaz de enxergar a ameaça que os trouxas representam para o nosso povo, que tem o direito de não precisar se esconder como animais. Você pode não entender o verdadeiro sentido dos ideais dele, mas foi tudo pela comunidade mágica. Tudo para nos dar direitos e mostrar ao mundo que não somos inferiores! E você herdou tudo o que precisa para continuar o que ele começou: poder, instinto de liderança e estratégia…!
- Alto lá, eu era a estrategista - interrompeu Ginny, tão indignada com fala que não conseguiu se conter frente à uma oportunidade para descontinuar o discurso. - E você realmente acredita nessa baboseira de que "os trouxas são inferiores, portanto vamos colocá-los onde merecem"? Isso era ladainha que ele inventou para fanáticos como você o apoiarem contra o Ministério, não houve realmente nenhum motivo altruísta para…
Green a atacou. A dor excruciante da maldição a pegou desprevenida. Sentiu os músculos dos braços presos distenderem, dolorosamente, enquanto a Cruciatus torcia seu corpo. Durou mais tempo do que a anterior, e começou a doer tanto que ela sentiu que desmaiaria assim que acabasse.
Tudo parou de repente, e ela escorregou para o chão. Confusa e sentindo a visão escura, ela ainda sentia seu corpo doer e latejar em vários pontos.
Aos poucos, começou a ouvir gritos e estrondos acima de sua cabeça. Aquilo tudo ficou em segundo plano, porém: uma dor que começara fraca e sintomática da maldição que recebera começou a ficar terrivelmente forte e alarmante. Seu abdome era o ápice.
Ela não podia acreditar, e não queria, mas tinha a forte impressão de que o trauma estava lhe causando um aborto. Desesperada, com lágrimas surgindo nos olhos, ela olhou desesperada ao redor, procurando alguma coisa - qualquer coisa – que pudesse ajudá-la, mas estava presa numa posição complicada e dolorosa.
- Aqui – disse, uma voz rouca, de repente, perto o suficiente para assustá-la. Alguém enfiou as mãos debaixo de suas axilas e puxou-a para trás do sofá, barricando-a contra o fogo cruzado. – Não acredito que pegaram minha varinha…
- Mione? – perguntou, a voz embargada de dor. – Você não estava desmaiada?
- Estava – respondeu a amiga, ainda com a voz meio áspera. Não deu mais explicações. – Você está bem?
Ela não conseguiu responder. Uma dor lancinante percorreu seu ventre, e ela não conseguiu fazer nada além de chorar.
- Meu Deus – murmurou Hermione, e algo aterrissou sobre o braço do sofá, e passou por cima delas, caindo do outro lado da sala com estrondo. Os gritos e estampidos eram altos demais, e Ginny não conseguia nem pensar direito com a dor que sentia. Uma cãibra em seu ombro apoiado no chão ardeu, e então percebeu que estava com os braços livres. Hermione jogou para o lado um caco do espelho em que batera ao ser atacada, e Ginny viu que havia uma mancha coagulada de sangue pela testa da amiga. Aparentemente apagara ao bater a cabeça, mas não havia sido estuporada. Acordara em algum momento e resolvera não demonstrar. Sorte para elas que Hermione havia prestado atenção no treinamento de quando entrara para o departamento de Aurores.
- O que está acontecendo? – sussurrou, febril, para a outra, mas Hermione não estava mais prestando atenção. Olhava por cima do braço do sofá quando Ginny olhou pela última vez, antes de precisar apertar os olhos. Seu ventre sofria espasmos terríveis e ela tentava com todas as forças não pensar no que achava que estava acontecendo. Precisou morder o lábio inferior para não gritar.
Então houve um grito alto, algo quebrou a mesinha de vidro ali perto, houve um clarão de luz e um som surdo de um corpo caindo ao seu lado. Tudo ficou quente, e então, escuro.
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Ginny piscou para a luz forte em seu rosto.
Sentia-se mal, meio insensível, meio enjoada. Seu corpo todo parecia pinicar desconfortavelmente e suas costas estavam frias e duras.
- Ela acordou – disse uma voz estranha, e pareceu ecoar como se viesse de dentro de uma galeria deserta.
A luz forte em seus olhos de repente cessou, e ela viu a silhueta de um rosto surgir em sua frente. Ela apertou os olhos, mas não conseguia enxergar quem era.
- Ginny – disse a pessoa. Ela piscou. – Ginny? Você está bem?
Era a voz de Harry, ela percebeu. Agora que sabia disso, via os cabelos arrepiados recortados contra a luz, e tudo fez sentido.
- Harry…
Mas antes que pudesse saber o que dizer, um jorro nauseante de compreensão havia atingido seu estômago. Estava atrás do sofá com Hermione, Richard estava duelando com os fugitivos, alguém havia sido nocauteado, e ela estava com a terrível impressão de que estava sofrendo um aborto. Foi quando tudo explodiu.
Ela sentiu a pressão cair quando tentou se sentar, e mais de uma mão a forçou a continuar deitada. Arregalou os olhos para Harry (agora enxergava-o) e por um momento conseguiu apenas ofegar, já que não conseguia encontrar as palavras.
- O que aconteceu? O que aconteceu? Onde está Richard? Onde está Mione? Vocês pegaram eles…?
- Calma. Respire. Não- não há perigo agora – disse Harry, tentando parecer calmo, mas Ginny percebeu que havia algo errado. Ele estava suando, e estava pálido como a morte. As mãos que ele colocara sobre as dela quando ela tentou se levantar tremiam, e estavam geladas. Havia vozes agitadas ao seu redor.
- Harry… - começou ela, agora mais efusiva. – Por favor!
Ele hesitou antes de dizer qualquer coisa. Então olhou além por um instante, pareceu engolir em seco e falou, por fim.
- Ok. Eu quero que escute, que fique calma, o estamos tomando conta de… de tudo. Você não está bem… - disse, olhando para ela com grande preocupação naqueles olhos verdes. – Você… você sofreu um…
Mas ele parecia incapaz de continuar.
- Eu sofri um aborto, não foi? – ela sussurrou, sentindo uma parcela daquela sensação aterradora e surreal que era a de perder algo que é muito querido. O som pareceu diminuir de volume, como se houvesse água em seus ouvidos.
Ele assentiu com a cabeça, parecendo péssimo. Mas por mais que Ginny estivesse desolada com a informação, não era totalmente surpreendente. Ela pressentira aquilo, e depois daquela grande explosão, de certa forma sabia que não havia como o feto ter sobrevivido.
- O que mais? – perguntou ela, a voz falha. – Me conte tudo, por favor.
Ele apertou mais a mão dela.
- Dawson e Goldenfire estavam mortos quando chegamos – continuou Harry, parecendo partilhar do mesmo sentimento que ela. Agora que começara, tinha que continuar. – Lestrange e Green gravemente feridos. Hermione…
- Sim? – perguntou ela, sentindo um calafrio terrível passar as unhas por sua espinha, porque Harry parara para engolir em seco. – Hermione…?
- Ela também estava gravemente ferida – murmurou ele, e pareceu custar-lhe um esforço enorme. Suas mãos tremiam mais do que nunca. – Ela… Nós não chegamos a tempo, Ginny…
Mas ela não estava mais ouvindo. Agora realmente o som estava em segundo plano, e havia um zumbido seco, engraçado em seus ouvidos. O que eles estava dizendo? Como assim não haviam chegado à tempo? Hermione… Hermione estava morta?
Não era possível. Ela estava bem, estava viva! Ela dissera "meu Deus" e se abaixara quando um corpo fora atirado em sua direção! Estava bem ao seu lado quando houve o clarão ensurdecedor!
Ela não estava mais enxergando Harry. Havia apenas um borrão tremeluzente de uma silhueta novamente. O sal das lágrimas fizeram arder em brasa seu rosto, mas ela nem deu importância.
- Meu filho, Harry – disse, ouvindo sua voz vir estranha, irreconhecível, da mais profunda miséria. – Onde está meu filho?
Agora o marido não conseguia mais disfarçar sua dor, e mesmo sem conseguir vê-lo, Ginny sabia que ele estava chorando.
- Não sabemos… A maldição saiu de sua varinha, Ginny… Com certeza foi um acidente, mas… Ele desaparatou. Com a Capa da Invisibilidade. Não sabemos… Ele não quis… Ah, Ginny! Ele está sendo procurado.
Procurado. A palavra se repetiu na cabeça dela até que ela tivesse ânsias de vômito. Procurado! Seu filho, seu garotinho, procurado! Como um criminoso… como um assassino! Não!
A desorientação era maior que a dor. Aquilo não fazia sentido, não podia fazer. Ela não podia acreditar. Não queria acreditar. Seu filho, seu único filho agora… foragido. Como um animal acuado. Como eles se atreviam?
Só porque eles sabiam que o garoto era filho de Lord Voldemort. O que mais eles sabiam? Não sabiam nada. Nada! Richard não era um assassino, ele apenas voltara para ajudá-la e…
E era tudo sua culpa.
Vazio. Ela nem se lembrou do quanto gritara antes de perder os sentidos.
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Ela acordou sentindo-se estranhamente pesada. Estava num quarto, e era totalmente branco. Havia apenas um lençol sobre ela, mas não sentia frio. O ambiente era morno, impessoal, desagradável.
Já estivera ali antes algumas vezes. Era o St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos.
Achava que seu caso era acidente.
Um barulhinho à sua esquerda a fez virar a cabeça. Harry estava ali, mas ele estava ocupado e não parecia ter percebido que ela acordara.
Ele estava com um pedaço de pergaminho nas mãos. Ao lado da cadeira onde ele estava e em frente a uma janela, num criado mudo, havia um copo d'água e um envelope de aparência velha e apenas duas palavras na superfície. Ela sabia quais eram, mesmo sem conseguir enxergar àquela distância.
Harry parecia abatido. Seus ombros estavam caídos, e ele fixava a carta que um dia o homem que (mais) amara escrevera para ela, antes de morrer. E seus olhos estavam vermelhos.
Ela desejava perguntar onde Harry encontrara aquilo, mas não conseguiu dizer nada. Apenas continuou olhando-o, até que ele levantasse os olhos e encontrasse-a acordada.
O marido pareceu gelar por um segundo quando fitou seus olhos, mas em seguida soltou o ar, aliviado. Ele levantou-se, pousou o pergaminho sobre o envelope, e aproximou-se.
- Por um momento achei que não estivesse respirando – disse ele, em voz baixa, e passou uma mão pelo seu rosto, carinhosamente, embora a sensação fosse estranha. – Como se sente?
- Desolada – respondeu ela, em voz rouca. De repente pareceu custar um esforço enorme de seu rosto mexer a boca. – Tive a esperança de que tivesse sido um sonho muito ruim.
Ele repuxou os lábios no que poderia ser um sorriso, mas que na verdade era desprazer. Negou com a cabeça.
- Como está Ron? – perguntou ela, a pergunta vindo tão espontaneamente quanto a idéia aterrorizante.
Harry suspirou. Não olhava para ela, mas pegou sua mão esquerda entre as dele.
- Está mal. Os garotos ainda não sabem… Seus pais estão com eles. Mas cedo ou tarde… - Ele deu outro suspiro e seus olhos pareceram muito brilhantes por trás dos óculos. – Isto está sendo muito difícil, sabe?
Ela apertou a mão dele em resposta. Ginny sabia. Era como perder um membro do corpo.
- Quanto tempo eu… - começou ela, mas parou. Estivera desacordada? Em estado de choque? Não se lembrava de nada.
- Você esteve catatônica por algum tempo, depois apagou por algumas horas. São quase duas da manhã – respondeu Harry, numa voz baixa tão cheia de cansaço que ela quase podia sentir. Ele parecia tão velho agora. Havia alguns fios brancos nos milímetros de barba que crescera em seu rosto durante aquele período de tempo. Talvez estivesse crescendo há três dias. Não era esse o tempo que se passara desde que os Comensais haviam fugido? – Mas não passou nem um dia aqui. Está sentindo dor?
- Não – negou ela. Não estava. Pelo menos não fisicamente. Aquela que triturava seu coração era como uma lembrança realista da mesma dor que sentira há muitos anos. Ela sabia conviver com aquela dor melhor do que ninguém.
- Isso é ótimo, querida – disse ele, gentil como sempre. Ele inclinou-se e deu um beijo em sua testa. – Descanse um pouco. Acho que preciso avisar alguém que você acordou.
Ela assentiu. Quando ele estava saindo, porém, ela tornou a chamá-lo.
- Harry. – Ele parou na porta. – Onde achou a carta?
Ele fez uma expressão estranha, como se estivesse constrangido e terrivelmente infeliz ao mesmo tempo.
- No bolso de Hermione – disse ele, por fim. – Me desculpe.
- Eu não me importo – respondeu. Ele continuou olhando-a por mais algum tempo, então saiu do quarto, fechando a porta de leve.
Ela não se importava mesmo. Não mais. Estava com Harry havia dezessete anos e ele sempre estivera ao seu lado. Não havia nada que precisasse esconder dele, e Ginny sabia que teria que ter alguém ao seu lado para suportar aquela crise. Não deveriam ter segredos.
Ginny suspirou. Bellatrix fora manipulada, Hermione estava morta, sua gravidez estava interrompida e Richard estava em algum lugar, fugindo pelo que ela e Harry haviam se esforçado por anos e anos para que nunca acontecesse. Sua família estava destruída. Mesmo que conseguisse engravidar de novo aos trinta e sete anos, sua vida com Harry sofrera danos irreparáveis. Havia Ron, que devia estar completamente destruído, e havia os filhos deles, que ainda não sabiam que a mãe não voltaria para a casa. Havia Richard, que mesmo que fosse absolvido do julgamento pelo qual deveria passar se fosse capturado ou se entregasse espontaneamente, sempre conviveria com a terrível culpa de não ter conseguido controlar seus poderes e ter matado duas pessoas, talvez quatro, e entre elas a própria madrinha.
Sua vida estava destruída.
Talvez tudo tivesse sido sua culpa. Tudo tinha relação com o que fizera no passado. Nunca deveria ter se envolvido com O Lord das Trevas. Ele mexera com forças maiores quando se envolvera com ele; Ginny nunca deveria ter sido capaz de retirá-lo de transe de crueldade em que estivera mergulhado a vida toda. Ele não deveria ter sido capaz de ter um filho, de ter amado alguém e morrido por isso. Aquilo abalara as linhas do destino. Havia o Bem e o Mal, e ela nunca devia ter se metido a mediar esses dois planos.
Estava pagando por sua arrogância, afinal. Infelizmente, quem estivesse próximo a ela também sofreria seus castigos.
Estranhamente, o amargo daquela situação era seco. Não havia lágrimas. Sentia-se vazia, sem-sentido. Sentia-se morta.
Ela tentou virar-se de lado. Havia um suor febril em suas costas, onde estava deitada que estava incomodando-a. Precisou, porém, segurar o aparador do leito para conseguir se virar. Não houve dor, mas uma sensação estranha de desequilíbrio. Ela olhou para a mão direita, que usara para segurar na lateral da cama e sentiu a respiração vacilar.
Aquilo não era uma mão. O que sustentava aquilo também não era um braço. Era um plástico queimado e repuxado que terminava em uma garra de três dedos destruídos.
Ginny ficou encarando aquilo com choque por quase um minuto. Queria ter certeza de que não era uma alucinação.
Por fim sentou-se. Um pensamento terrível a fez gelar. Havia uma possibilidade, uma possibilidade terrível… Quando sentira a explosão, quando tudo ficara quente e branco…
Deus, não!
Ela levantou-se da cama alta, por mais estranhos que estivessem seus movimentos. Quando os dois pés tocaram o chão, ela se desequilibrou perigosamente. Tentando não pensar e não olhar para baixo, ela pulou como podia em direção ao criado mudo próximo de onde Harry estivera sentado momentos atrás. Ela segurou-se rapidamente no móvel, e a carta que estava ali em cima escorregou para o chão. Felizmente ela conseguiu segurar o copo antes que virasse a caísse no chão. Ele transbordou um pouco e molhou o envelope. Se fosse um daí atrás ela teria se importado com isso, mas não naquele momento.
Naquele momento, tudo o que interessava estava bem na sua frente.
Ginny fitou o próprio reflexo no vidro da janela, lívida. Seu coração bateu forte por um momento, depois hesitou.
Aquele não era seu rosto. A metade direita toda parecia pertencer a qualquer outro ser que não humano. Era uma cera disforme, lisa e esticada sobre seus ossos. Sua boca estendia um sorriso sádico, torto e terrível, e seu olho seria um eterno rasgo fundido na pele. Seu cabelo havia queimado daquele lado, mostrando um grosseiro couro cabeludo com o que parecia ser os vestígios de uma orelha derretida e fios vermelhos se arrepiando no topo.
Ela queria gritar. Queria exteriorizar o pavor que estava sentindo, mas não conseguia. Conseguia apenas tremer.
A maldição de Richard destruíra a metade direita de seu rosto, tronco, braços e pernas. Devia estar se esvaindo em sangue quando encontraram-na e por isso haviam tratado-a com ditamno para salvar sua vida, e aquilo a transformaria num ser horrível, numa aberração ambulante para sempre. Uma aberração que não conseguiria nem mesmo segurar a varinha direito.
Não… Não podia ser verdade!
Ela queria quebrar aquele vidro, queria virar o criado mudo, a cadeira… Queria quebrar todo aquele quarto de hospital. Queria gritar. Queria se machucar, o suficiente para não enxergar, ouvir nem falar nunca mais. O suficiente para nunca mais pensar.
Queria, realmente queria.
Mas não conseguia… Não conseguia nem respirar.
De repente seu reflexo ficou mais forte, mais descarnado e aterrorizante. O cabelo que pendia na frente do lado intacto de seu rosto balançou um pouco, mostrando seu olho bom. Estava úmido e havia transbordado.
Ela olhou para baixo. Uma luz dourada, irregular, vinha de cima do criado mudo. Ela olhou para o envelope onde ainda se podia ler "Para GW" em nanquim preto. A lágrima que escorrera de seu olho pingara sobre a parte inferior do "G", e corroia o pergaminho. Continuou corroendo enquanto ela olhava. E por baixo, ouro, brilhante e incandescente.
Estava ficando louca, pensou. Perdera o juízo. Enquanto isso, o envelope ia desaparecendo, se consumindo sozinho bem ali na sua frente, e lá dentro havia um objeto de ouro que emitia um brilho dourado. Como um animal que tinha a carne decomposta e os ossos expostos.
Então ela viu o objeto de ouro. Ele foi se tornando visível, aos poucos, e Ginny enxergou pontinhos verdes e roxos, brilhando como pequenos faróis coloridos. O esqueleto de ouro foi tomando forma, e Ginny viu uma estrela.
Uma estrela de cinco pontas. Dourada. Pontilhada de ametistas e peridotos.
Ela arregalou o olho esquerdo.
O Pentagrama de Ouro. Aquele objeto pelo qual ela e Tom entraram uma vez em Hogwarts e vasculharam as dependências de Dumbledore. Aquele objeto que dera poderes fantásticos a tantos outros bruxos ao longo da história. Aquele objeto que teria impedido Tom de morrer se ele não tivesse colocado-o dentro daquele envelope e deixado para ela.
Fazia dezessete anos que não o via.
Ela ergueu a mão mutilada onde só restava o polegar, o indicador e o médio, e alisou a luz etérea que o Pentagrama emanava. A luz dourada tocou a palma de sua mão, e ela pode ver uma sombra do que foram todos os seus dedos ainda no dia anterior, para seu espanto. Como um fantasma translúcido, deixando novamente sua pele vistosa e aveludada. Talvez não se lembrasse de sua mão assim no dia anterior; ela olhou para a mão esquerda e viu algumas marcas de idade.
Aquele objeto fascinante estava trazendo uma memória bem mais antiga. Talvez de dez, quinze anos atrás. O espectro de mão que a luz dourada mostrava era jovem, muito mais jovem do que o resto de seu corpo.
Ela olhou novamente para o objeto, que irradiava uma luz quente, acolhedora e feliz. Hesitou. Então tocou-o.
O chão tremeu. Houve um farfalhar ruidoso em seus ouvidos e a luz que emanava do Pentagrama de Ouro ficou tão clara e ofuscante que ela apertou seu olho bom para protegê-lo.
Então um choque dentro de sua cabeça apagou todos os seus pensamentos.
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Editado: revisado e sem problemas de formatação ;)
Capítulo dois no ar. Corram, corram!
