Chagamos em quinze minutos, o endereço que Mercedes me deu não fica muito longe da casa de Rachel. Deixo a chave do carro com o manobrista e entramos no restaurante. Sentamos em uma mesa mais reservada. Ela pede um suco de laranja e a acompanho. Enquanto esperamos, abro o cardápio, mas não conheço nenhum dos pratos descritos. Acho que ela nota minha cara de desespero e o toma da minha mão.
- É sua primeira vez? – Rachel pergunta claramente colocando duplo sentido em seu tom de voz.
- Pra falar a verdade, sim. E sendo mais sincera ainda, não fazia idéia de onde te levar e pedi socorro pra Mercedes. Ela quem indicou o restaurante, disse que tinha vindo aqui certa vez com você. – respondo envergonhada.
- Você fica uma gracinha com as bochechas vermelhas de vergonha. – ela sorri pra mim – Se importa se eu escolher por nós duas? Prometo não exagerar...
- Claro. Confio em você.
Ela olha o cardápio por dois minutos e faz o pedido ao garçom que traz o nosso suco. Não consigo ouvir o que ela escolheu, mas não me importo. Tomamos nossa bebida em silêncio, sem deixar de nos encarar nem por um minuto. Vejo seu olhar ir de tímido a sexy em segundos. Ela está me deixando louca e nem ao menos estamos próximas o suficiente para nos tocarmos. Incrível. Meu cérebro parece estar prestes a virar sopa.
- Como passou a tarde? – pergunto tentando estabelecer uma conversa, já que estou a ponto de derrubar a mesa e agarrá-la.
- Tentei não pirar. Quer dizer, depois que nos despedimos na escola não teve um momento em que não tenha pensado em você. E no que aconteceu na sala do coral. – ela sorri encabulada, baixando o olhar. – Depois acabei surtando na hora de escolher o que vestir. E você?
- Eu surtei desde o instante em que me separei de você. Pensei em você a tarde toda. Vou ter trabalho pra arrumar meu guarda roupa quando voltar pra casa, ele está todo em cima da minha cama. – ela ri da minha desgraça.
- Isso está mesmo acontecendo, Q? Quer dizer, nós éramos inimigas, viramos amigas e agora o que, estamos apaixonadas? – não seguro o riso e ela me olha assustada. – O que foi?
- Já ouvi isso hoje – respondo entre risos.
- Como assim?
- Então, eu estava surtando... Quase tendo um ataque nervoso... – engulo seco – Liguei pra Mercedes e contei tudo pra ela.
- E como ela reagiu? – Rachel não está nervosa, só curiosa.
- No começo ficou confusa, foi quando disse exatamente o que acabou de dizer. Depois entendeu e deu o maior apoio. Acho que não temos que nos preocupar com os nossos amigos. Eles vão entender. – ela concorda com um aceno. – Rach, contou algo para o seu pai? Ele pareceu saber de alguma coisa.
- Não com todas as letras, mas andei fazendo perguntas e contando sobre você. Eles são gays, tem radar para essas coisas. Acho que já sabem, apesar de também não perguntar nada. Mas com eles não vamos ter problemas.
- Já com a minha mãe... – sou interrompida pelo garçom que trás nossos pratos. Ele nos serve e se retira.
Olho desconfiada para o meu prato. Não saberia como descrever o que tinho a minha frente. Rachel me olha, tentando conter o riso. Está bem montado e colorido, mas é um pouco estranho.
- Hei, baby, tente olhar com um pouco menos de desprezo pra comida. – ela ri – Prove antes de rejeita-lo, ok?
- Não é desprezo. E vou experimentar assim que me disser o que tem aqui. Gosto de saber o nome do que estou ingerindo. – brinco.
- Tudo bem, senhorita desconfiada. – ela zomba – Você está prestes a comer Pilaf de legumes – ela nota que ainda estou receosa – Que nada mais é do que arroz e legumes com um tempero um pouco diferente do que você está acostumada. Agora coma e diz o que acha. – ela termina de falar e dá uma garfada de comida, me incentivando.
Respiro fundo e faço o mesmo. E Rachel tem razão. É bom. O tempero é forte, mas delicioso. Mal engulo e coloco mais comida na boca. Ela ri de novo.
- Acho que você gostou...
- Nossa, o tempero realmente é diferente de tudo o que eu já comi. É delicioso.
- Esse tempero diferente chama-se garam masala. É uma mistura de várias especiarias – ela explica enquanto eu continuo comendo. – Sabia que ia gostar. Como é sua primeira vez, achei que seria bom começar com algo não muito diferente. Assim se quiser voltar algum dia, já vai estar mais familiarizada – ela não consegue perder essa mania de falar demais.
- Rachel, baby, adoro quando explica as coisas desse jeito, mas sua comida vai acabar esfriando.
- Estou falando demais outra vez, né? – pergunta encabulada.
- Sim... – ela parece um pouco decepcionada – Querida, adoro o som da sua voz. Mas temos bastante tempo pra conversar, não fica chateada comigo. – ela volta a sorrir.
- Tudo bem. Vamos terminar então. Você escolhe a sobremesa.
A gente termina de comer. Escolho petit gateau de sobremesa. Ainda está cedo. A companhia não poderia ser melhor. Rimos de tudo, sem motivo algum.
- Hei, e quando jogamos raspadinha no Sr Shue. A cara dele foi a melhor. – ela lembra.
- Verdade. Foi o que me animou aquele dia... – fico um pouco incomodada com a lembrança.
- Ow, me desculpe Q. – ela segura minha mão que está sobre a mesa – Tinha me esquecido...
- Está tudo bem, Rach. – aperto com um pouco mais de força sua mão – Já me sinto melhor.
- Nós nunca falamos sobre isso. Posso te fazer uma pergunta? – aceno concordando – Você em algum momento se arrependeu? Quer dizer, eu perguntei isso a minha mãe quando a encontrei pela primeira vez...
- Um pouco. Às vezes me pego pensando como teria sido se eu tivesse ficado com ela. Mas ai me lembro que ela está bem, com alguém que vai cuidar bem dela. Não sei se é arrependimento, só aquela sensação que a gente tem de 'e se... ' sabe?
- Entendo. Você teve que amadurecer rápido demais, Quinn. E não cuidaram bem de você... Mas agora eu estou aqui. – ela termina de falar com seu melhor sorriso de 1000 wats. Não tem como não sorrir também.
- Já que estamos nesse assunto... Ficou magoada quando a Shelby achou melhor se afastar?
- No começo eu não entendi. Mas depois percebi que era melhor assim. Agora eu sei quem ela é, e pra mim basta. E sei que ela está feliz em poder recomeçar com a Beth. – o que ela diz me faz pensar e constatar algo.
- Sabe, ainda bem que não ficou magoada ou teríamos mais um grande problema.
- Qual?
- Imagina se você tivesse mantido contato com a Shelby... Como nós explicaríamos para a pequena Beth que a mãe biológica e a irmã dela estão juntas. A pobrezinha ficaria confusa.
A situação é tão absurda que nós rimos sem controle. Só paro quando sinto meu abdômen doer. E ela também. De todas as suposições que eu fiz sobre esse encontro, nenhuma chegou perto do que está sendo. Nunca me diverti tanto e falai tanta bobagem. Nunca me senti tão à vontade com alguém como me sinto com ela.
Parando para pensar, depois de tudo o que foi dito, nada acontece por acaso. Não mesmo. Foram sucessões de acontecimentos paralelos em nossas vidas que nos trouxeram exatamente a esse ponto. Acredito que todos os meus relacionamentos anteriores serviram pra eu estar aqui agora e ter certeza de que ela é a pessoa com quem quero estar o resto da minha vida. Porque ninguém é tão perfeita pra mim quanto ela. Com todos nossos defeitos e qualidades. Acho também que a evolução de todos os sentimentos que já nutrimos uma pela outra, desde o ódio extremo até agora, serviu pra provar que nada é capaz de nos separar. Pois já fomos de um extremo ao outro. E chegamos vivas aqui...
- Q, você está se sentindo bem? – ela pergunta preocupada.
- Não poderia estar melhor. – dou meu melhor sorriso. – Só estava te olhando e lembrando tudo o que já passamos. Desde as raspadinhas na cara até agora. Acho que não temos mais o que provar uma a outra. Depois de todos esses anos, sei que nada nem ninguém pode nos separar.
- Uow, Quinn. Isso foi realmente profundo – o olhar dela é de pura ternura. – Você tem razão. Aconteça o que acontecer, nada é pior do que uma raspadinha na cara. – e ela volta a rir descontrolada.
Como alguém pode ser tão irritantemente encantador até quando faz péssimas piadas? Olho para o relógio. São quase dez da noite. Não acredito que a hora passou tão rápido. Mas a noite ainda não precisa acabar. Não sem antes...
- Rachel, preciso ir ao banheiro. – claro que não preciso pedir para ela me acompanhar. Está implícito na frase. Afinal de contas, que mulher vai ao banheiro sozinha quando está com uma amiga?
E ela sabe disso. Já está de pé me esperando. A sigo, já que não faço idéia de onde fica. Nós entramos. Eu realmente preciso usar o banheiro. Enquanto isso ela se olha no espelho, mexe um pouco na franja, ajeitando. Abro a porta do box e peço que feche o zíper pra mim. Claro que não precisava ter aberto, mas... Ela chega perto de mim devagar e sobe o zíper. Tenta sair para me dar passagem, mas sou mais rápida (obrigada por isso, Sue Silvester!), viro e fecho a porta, encuralando-a. Rachel não tem saída, está prensa entre a porta e meu corpo. Ela me olha surpresa, seus olhos fixos nos meus e um sorriso safado no rosto. Aproximo minha boca da dela, só pra sentir seu corpo tremendo e um gemido escapar de sua garganta. Ela fecha os olhos e agarra minha nuca.
- Esperei a noite toda por isso! – e a beijo.
Agora um beijo de verdade. Nada parecido como o de hoje cedo. A agarro pela cintura e trago para junto de mim. Ela passa a língua gentilmente pelos meus lábios.
- Morango. Gosto disso – ela sussurra e continua a me beijar.
E como beija bem. Rachel consegue ser agressiva e doce ao mesmo tempo. Ela segura meus cabelos com certa força, e isso me deixa louca, me fazendo gemer. E ela gosta disso. Tudo se encaixa tão bem... É como ter certeza de que ela foi feita especialmente pra mim.
Nossas bocas se separam, pois meus pulmões estão desesperados, implorando por ar. Com certeza os dela também, nunca a vi ofegante desse jeito na vida.
- Nossa! – é a única coisa que somos capazes de dizer no momento.
Saímos do box do banheiro e paramos de frente ao espelho. Arrumo meu cabelo enquanto, de rabo de olho a vejo limpar meu batom do canto da boca. E como é sexy. Me controlo para não agarrá-la de novo.
Pago a conta, pego o carro no estacionamento e saio dirigindo. Bem devagar. Sem presa alguma de chegar seja lá pra onde eu devo ir.
- Queria que essa noite durasse pra sempre – a ouço dizer do meu lado. Uma de suas mãos acomodadas na minha coxa.
- No que depender de mim, serão muitas como essa. Até melhores... – falo com o tom certo de promessa na voz.
- Gosto da idéia.
Seguimos o resto do caminho em silêncio. Estaciono na porta da casa dela, mas não destravo a porta. Ela não faz questão de tentar abri-la. Ainda a um ponto a ser discutido.
- Rach, a Mercedes já sabe. E, pra ser honesta, não quero esconder dos nossos amigos. Mesmo porque, a maioria já parece estar bem desconfiada. Então... como vai ser?
- Para falar a verdade, estava pensando nisso também, baby. E acho que já sei como podemos contar para eles, no melhor estilo Glee de ser.
- Me deixou curiosa. Diz o que tem em mente.
Ela explica sua idéia, e como sempre, é brilhante. Combinamos de ir mais cedo para a escola. Vai ser interessante, e estou louca para ver a cara do pessoal.
