Capítulo 1

Como criar um problema, por Albus Severus

-Ok, vamos tentar novamente.

Levantei meu olhar cansado para a "coisa" a minha frente, tentando não expressar todo o desdém pelo seu empenho, muito embora o empenho dele fosse para algo em meu beneficio.

-Da um tempo, preciso respirar.

-Larga de ser mole, levanta dessa cadeira e vamos voltar a praticar. Ou vai querer perder a disputa?

Arfei irritado, e, mesmo me levantando, como ele queria, fiz questão de deixar claro que não apreciava a forma como a ajuda estava sendo despedida, com um leve levantar da minha sobrancelha direita.

-Quem disse que eu vou perder?

Ele sorriu de lado, um sorriso maldoso que eu conhecia, infelizmente, muito bem. Aquele era o sorriso-sinônimo de Albus Severus Potter para a frase "Você vai levar a pior e eu vou rir muito disso". Obviamente o sorriso me irritava menos que a frase completa, por isso Severus costumava empregá-lo com mais freqüência que as palavras.

-Só estou antevendo os fatos, já que eu conheço muito bem os dois duelistas em questão.

-A Rose treinou a semana inteira. – disse a garota de cabelos claros que acabara de entrar na sala (e se meter deliberadamente na conversa) - Acho bom se empenhar nisso se quiser mesmo ganhar a final do Clube de Duelos 2021.

-O que é isso, uma convenção de fãns da Rose Weasley? – rosnei, mas ela sentou na cadeira que a pouco eu mesmo ocupava, sem se importar com meu mau humor - Era tudo que eu precisava, realmente.

Ela cruzou as pernas, provocante. Não porque se insinuava para mim, ou para o primo, mas porque Dominique Delacore e Aquele-nome-que-não-pronuncio-porque-da-azar, era provocante por natureza. Ela fazia isso sem perceber, como sua mãe francesa, ou sua irmã mais velha, Victorie, já que obviamente ela não herdaria isso da sua parte Weasley. Puts!, falei.

Se não fosse minha melhor amiga, e não a conhecesse há anos, certamente cairia nos seus encantos, como boa parte dos caras do colégio... Mas eu tinha outras opções em Hogwarts, mais atraentes, mais charmosas e bem mais "vermelhas".

-Largue de besteiras, você sabe muito bem que nesse caso, especificamente, estamos deixando o sangue de lado em prol da Taça da Casas.

-Pois não parece. – disse, em resposta ao comentário – Já que faz exatamente uma semana que vocês dois ficam repetindo que eu não sou capaz de derrotá-la.

-Você acha que se não fosse estaríamos aqui tentando lhe ajudar? – perguntou o meu melhor "amigo".

-Eu, certamente, tenho coisas mais divertidas para fazer do que ver o Albus te derrubar vez após outra. – o olhar da loira se perdeu por um minuto, como que lembrando das minhas dificuldades no treinamento – Bom, na verdade não. – sorriu – Ver Albus chutar o seu traseiro é quase tão divertido do que ver minha irmã errar o feitiço de tintura no cabelo... A diferença é que acontece com mais freqüência.

Ok, não preciso dizer que sublimei o ultimo comentário de Dominique, preciso?

-Nós queremos que você ganhe, sabe disso. – interferiu Severus - É muito simples na verdade, se você ganhar o duelo final do campeonato, a Sonserina passa a frente na pontuação... – ponderou – Se você perder, vai ser quase impossível alcançar os caras.

Cruzei os braços.

-E desde quando você se importa? Se estivesse preocupado com isso, teria se inscrito no campeonato, já que é o nosso melhor duelista. E eu não precisaria estar aqui, treinando com você.

-Foi um acordo entre eu e o JS, já disse. Não ia ter graça uma final só de Potter... De novo. – sorriu, mais uma vez malicioso, só que esse sorriso em especial queria dizer "sou melhor que você nisso, e é genético" mas não era menos irritante que o anterior.

-Sempre me perguntei de onde você e o James herdaram esse convencimento todo, Al... Do tio Harry não foi, nem da tia Gina.

-Do meu avô paterno, provavelmente. – respondeu de forma retórica. Depois, voltou à atenção para mim, mais uma vez – Vou ser sincero, ok?

-Taí algo que não se vê todo dia, Albus Severus sendo sincero. - resmunguei contrariado. Ele não se importou, porém.

-Estou lhe ajudando porque eu não estou afim de aturar meu irmão falando no meu ouvido, pelo resto da minha vida, que a Grifinória ganhou da gente de lavada em seu último ano. – ele fez a reverencia inicial dos duelos – Por isso você vai ganhar da Rose, nem que eu tenha que virar todas as noites treinando com você até o dia da final, entendeu sr. Scorpius Hyperion Malfoy? Agora... – ele parou no meio da frase ao sentir, provavelmente, o bolso esquentar.

Enfiou a mão nas vestes e tirou de lá uma peça de prata, entalhada com suas inicias A.P. no topo e a marca da loja de logros mais famosa do mundo buxo na base.

Era o seu isquelular, um produto raro, produzido pelas Gemialidades Weasley, com tiragem super reduzida. Só haviam quatorze no mundo, pertencentes aos doze netos do patriarca da família Coelho, digo Weasley e mais dois "agregados", dos quais eu não fazia parte, e morria de inveja por isso.

Com um movimento rápido dos dedos, ele abriu o isqueiro revelando a pequena chama flamejante costumeira de um aparelho comum.

"Alô, Alô... 1, 2, 3 testando." Severus revirou os olhos ao reconhecer a face arredondada que começou a se formar entre as chamas.

-Mag! Isso não é brinquedo, sabia?

"Al, é você?"

-Quem mais? Foi o meu isquelular que você chamou.

"Desculpa, é que você está meio queimadinho, não reconheci". ela soltou uma risada aguda, achando uma graça excessiva da própria piada.

Sorri para Dominique, ela também tinha dificuldades em não gargalhar diante do respirar profundo que Severus inalara, buscando alguma paciência para agüentar a conversa com Margareth Drusley, sua parente trouxa e, segundo ele mesmo rotulara, rainha das piadas sem graça.

-O que você quer?

"Eu estava tentando falar com a Lily. Devo ter errado o 'número'..."

Pelo que eu sabia o tal isquelular não era ativado por números, e sim pelo nome da pessoa. Então, obviamente aquilo se tratava de outra piadinha "trouxa" da Drusley, que novamente ele preferiu ignorar.

-O que você quer com ela, Mag? Lily deve estar treinando quadribol.

"Treinando o que?"

-Ela está O-CU-PA-DA.

"Ih, calma estressadinho, achei o que ela queria na Internet, só isso." a imagem virou o olhar para trás "Papai está me chamando, tenho que ir. Diga a ela para me chamar assim que desocupar. Beijo."

-Louca... – resmungou Severus para a chama que se apagava sozinha – Eu tenho cara de coruja de recados por acaso?

-Era a sua prima trouxa de novo? – perguntei, como se não soubesse de quem se tratava.

-Prima do meu pai... - concertou ele, guardado o artefato no bolso - E de segundo grau. A única que considera a Margateth parente é a Lily... – na verdade, o único que não a considerava parente era ele, mas eu não quis entrar em atrito já que estávamos no meio de um treino de duelos.

-Fez até o tio George dar um dos nossos isquelulares para ela. – comentou Dominique, tirando a franja do olho com um balançar de cabeça.

-Vocês bem que podiam fazê-lo dar um desses para mim também. – falei magoado. E vamos combinar que ser preterido por uma trouxa era humilhante.

-Já tentei. – falou Severus - Quase consegui, mas eu teria que dizer seu nome completo para que ele ativasse a conexão. Não preciso dizer que não rolou, preciso?

-Isso é preconceito... – encenei minha melhor cara de ofendido - Bom, podiam ao menos convencê-lo a colocar essa belezinha a venda, ai eu comprava.

-Esquece, tio George já deixou bem claro que não vai comercializá-los. – disse Dominique se levantando da cadeira – Como ele mesmo diz, se o fizer isso vira sucesso e vai acabar com o "elemento surpresa". Às vezes acho que ele pensa que ainda estamos em guerra... – murmurou.

-Os únicos a terem um desses, sem serem sobrinhos diretos do tio George são a Margareth e o Teddy. – acrescentou Severus guardando o isquelular no bolso - Ela a pedido da Lily, e ele a pedido da Victorie, claro.

-E porque a sua irmã faz tanta questão de manter contato com a trouxa?

Ele deu de ombros.

-Mag é uma de suas melhores amigas. E a mulher do primo Duda tem medo de corujas... Foi a melhor opção para se falarem enquanto ela está em Hogwarts já que o celular não funciona por aqui.

-Celoque?

-Deixa pra lá... Onde paramos, ah sim... Anguard, Scorpius! - e se postou novamente na posição de ataque

Por que esses malas desses Potter tinham que ser tão empenhados? E por que eu fui me tornar amigo de um deles? Achei que ele já tinha esquecido que estávamos treinando e eu poderia sair de fininho, tomar um belo banho e ir dormir, saco!

Meu pai me avisou tanto para não me tornar amigo dele... Mas eu, teimoso, fui lá e o contrariei, como sempre... Bem feito Malfoy, muito bem feito.

-Ai! Albus! Seu &¨%$¨*& - xinguei meu melhor palavrão quando um dos feitiços me desarmou ao acertar meu pulso – Se você me aleijar, ai mesmo que não vai rolar duelo nenhum.

-Se eu te aleijar não adiantaria rolar duelo nenhum, Scorpius. Eu estou pegando bem mais leve que a Rose vai pegar quando estiverem frente a frente.

Dominique riu baixinho e eu sabia bem o motivo, minha inimizade gratuita pela prima sabichona deles era conhecida por toda Hogwarts. E o carinho era recíproco, ou seja, ela não perderia a chance de me azarar sem tomar uma detenção por isso.

-Aquela louca sanguinária precisava era de uns amassos, isso sim.

-Não os seus, espero. – alfinetou Dominique – Isso só deixaria o humor dela pior, sabe.

-Claro que não estou falando de mim. Isso acabaria com o meu humor. Eternamente. E, além disso, existem opções melhores na sua família.

Os olhos azulados brilharam com algo que eu imaginei ser curiosidade.

-Quem, por exemplo?

Dei de ombros enquanto voltava a treinar os movimentos com Severus.

-Você, por exemplo. – reposta obvia, embora inverídica, mas foi o suficiente para apagar a chama da curiosidade em seu semblante, ser chamada de bonita era algo muito trivial para Dominique.

-Ah... Mas, como não sou uma opção...

-Não é mesmo. Nenhuma das Weasley, na verdade. – isso era verídico, pelo menos do meu ponto de vista.

-Ora, por que? – gracejou ela novamente – Seu pai ia adorar te ver entrando para a minha família.

Pela primeira vez naquela noite, meu sorriso involuntariamente sarcástico apareceu.

-Há opções melhores para irritá-lo... Entrar para a família Potter, por exemplo.

Mal terminei a frase e já senti a falta de ar nos pulmões, ao ter as costas arremessadas contra a parede.

-&$$%#*$%¨"&! Severus! Era brincadeira! A sua irmã também não é uma opção, ok!

Ele levantou os braços, num sinal fingido de desculpas.

-Eu não disse nada...

CRETINO!

O treino continuou, e embora eu estivesse com raiva dele, não consegui acertá-lo nenhuma vez. Já meus dedos e pulsos não podiam dizer o mesmo, a graça de Severus era me desarmar em segundos acertando a "raiz do problema".

-Cara, você é lento demais para a Rose... – disse, a certa altura.

Fiquei ofendido, claro, mas um Dominique concordou em silencio com o comentário do primo, parecendo preocupada. Talvez ele estivesse com a razão. E se ela fosse tão rápida quando Severus eu certamente seria massacrado naquela final.

-E não temos tempo hábil para melhorar isso... – ele concluiu, ainda pensativo - Eu tive uma idéia... – murmurou, fazendo com que eu e Dominique levantássemos os olhos curiosos em sua direção - Podíamos produzir uma poção que lhe desse mais velocidade, o que acha?

-Trapacear, você quer dizer. – consertou Dominique e sob uma concordância muda do primo, continuou – Estudamos a Poção Acelera outro dia não foi? Ela me parece uma boa opção.

-Foi exatamente no que eu pensei. – ele abriu um sorriso discreto, embora eu continuasse com o meu olhar desconfiado – Isso é claro se você concordar, Scorpius... Mas talvez prefira ser humilhado na frente de todo colégio pela Rose, se for assim, vamos respeitar, claro.

-A poção leva uma semana para ficar pronta, e os ingredientes são bem raros, esqueceram?

-Por isso temos que começar a fazê-la hoje mesmo. – ele sorriu arteiro – Que tal visitarmos o estoque do Múmia?

Pegos!

Eu ainda não acredito que nós fomos pegos em flagrante dentro da sala do Múmia, digo, professor de poções Marvolo Marcondes.

Ainda bem que Dominique não tinha ido conosco, se não era capaz de perdermos tantos pontos que acabaria com qualquer possibilidade da Sonserina ganhar a Copa das Casas.

Mas após a reunião disciplinar na sala do novo diretor, devo admitir que perder a disputa das casas ficou em segundo plano nas minhas preocupações. Agora havíamos criado um outro problema bem maior e mais complicado para resolver que a minha incapacidade de vencer o Clube de Duelos.

O diretor informou que enviaria cartas a nossos pais os convocando para comparecer ao colégio. E só de imaginar o que meu pai fará comigo assim que pisar em Hogwarts, minha ulcera já começa a dar sinais de vida.

Se não fosse isso eu jamais estaria ali, nos jardins do colégio, olhando para a cara da monitora da Grifinória, enquanto seu primo lhe implorava que nos ajudasse.

-Pelo amor de Merlin, Rose, eu faço o que você quiser!

Rose era ruiva, como seu irmão e a maioria de seus primos, tinha os cabelos revoltos e sardas em excesso no rosto. Não era nem alta nem baixa, nem magra nem gorda. Na minha opinião ela era até comum demais, e me passaria totalmente despercebida se não fosse a mania de ser melhor do que eu na maioria das coisas.

Felizmente Severus era o seu parente mais querido, porque se dependesse do nosso carinho mutuo, ela não ajudaria nem a pau!

-Ajudar você é uma coisa, Al, mas eu não entendo por que tenho que ajudá-lo também. – resmungou me apontando com o queixo.

-Porque nós dois estamos metidos na mesma enrascada... – como sempre, alias - Ah Rose, por favor... Você tem idéia do que o meu pai vai fazer comigo quando souber o que eu e ele aprontamos?

-Tenho. – respondeu secamente – E você devia ter pensado nisso antes de fazer o que fez...

Era a minha deixa. Soltei um leve resmungo de desagrado antes de interferir.

-Vamos embora, Severus, - disse frio - ela não vai ajudar. Eu te disse que esse negócio de "família" e "sangue" é tudo balela.

Meu comentário surtiu o efeito desejado, a sardenta levantou-se do banco em que estava num pulo.

-E desde quando você entende de "família", Malfoy? Você não vê seus pais nem no Natal.

Dei de ombros.

-É verdade, mas pelo menos não fico escutando essa historinha de que ter família vale a pena... No fundo, quando a gente precisa, eles pulam fora como qualquer um... – virei-me mais uma vez para meu amigo – Eu te avisei, Severus. Anda, vamos embora logo, eu não quero ser visto conversando com a sardenta mor.

Virei às costas e me pus a andar, eu sabia que Rose não se importaria com aquilo, para ela tanto fazia o que eu pensava sobre ela ou sua família.

Foi o olhar de decepção (previamente ensaiado) que Severus lhe lançou que a baqueou. E vê-lo virando-lhe as costas sem lhe dar nem ao menos um sorriso foi demais para a garota.

-Certo! Eu ajudo! – berrou, antes que nos afastássemos demais - Só não sei como. – completou quando voltamos a encará-la.

Severus abriu um sorriso arteiro.

-Eu sei... - acho que nessa hora ela percebeu que havia sido manipulada - Pensei em testar aquele seu experimento.

-O que? Negativo, Al! Nem pensar! Sem chance!

-Prima, você não vai me fazer ajoelhar para implorar, vai? – até que seria engraçado.

-Eu não conclui o experimento ainda, Al.

-Você disse que estava praticamente pronto... E é tudo que nós precisamos agora... Por favor, Rose. Por mim...

Chegara o momento crucial. Daquele silencio profundo em que ela estava sairia a resposta as nossas aflições. Se Rose negasse a ajuda, eu sabia que Severus desistiria da idéia e nossos pais nos matariam. Se aceitasse, tinha certeza que meus problemas estariam apenas começando.

-Rosieee... – alguém a chamou ao longe, num tom meloso e ela acenou alegremente para Frank Longbotton, o namorado perfeito que já a esperava na entrada do castelo.

Foi impressionante como a expressão dela mudou ao voltar a nos encarar. A dela e a de Severus que, muito embora Longbotton lhe tivesse acenado sorridente, apenas se limitou em cumprimentá-lo com a cabeça, de forma sisuda.

-Certo, eu os ajudo... – disse a sardenta, dando-nos a resposta que eu sabia, me traria muitos problemas, mas que pelo menos me manteria vivo... eu acho - Vou falar com o Frank agora, mas me esperem na estátua do Gárgula Enjaulado, na ala sul, assim que terminar o café da manhã... – e dizendo isso se retirou.

Abri um sorriso discreto enquanto Severus trazia o rosto sem nenhuma expressão. Imaginei que fosse o fato do namorado de Rose ser um dos melhores amigos do seu irmão, e que isso o afastara bastante do cara. Mas mesmo assim resolvi perguntar.

-Algum problema?

Ele negou com a cabeça, antes de estalar os dedos das mãos.

-Primeira etapa do plano completa. – falou Severus quando começamos a andar na direção do salão comunal – Viu, foi até fácil.

-Fácil foi, mas isso não quer dizer que vá dar certo, penoso. – respondi usando o apelido pelo qual o tratava vez ou outra. Não sei se vocês sabem, mas Albus, o primeiro nome dele, é também o nome de um tipo de Corvo.

-Quer parar de ser pessimista pelo menos uma vez na vida, peçonhento? - preciso explicar o meu apelido?

-E eu não tenho motivos para ser pessimista?

-Não, você devia era estar feliz porque que ganhamos um tempo extra graças ao escândalo das Chaves de Portal Coorporativas.

-É verdade. Proibiram qualquer viajem por Chave de Portal enquanto estiverem investigando os abusos...

-E exatamente por causa dos nossos políticos e suas viagens instantâneas pagas indevidamente pelo Ministério, nossos pais estão tendo de vir de Expresso. O que nós dá exatas oito horas para reverter a situação. O experimento da Rose é a nossa única saída, peçonhento. O que temos a perder?

-Nossas vidas. Em menos de oito horas, quero dizer... E de uma forma mais dolorosa, provavelmente.

-Seu pai já foi comensal, sabe. Eu duvido que um erro de cálculos da Rose vá te causar danos piores do que ele.

-Talvez, mas a possibilidade dela acertar é praticamente nula e a de eu conseguir fugir do meu pai por alguns anos é até bastante plausível...

-Você confia pouco na Rose. – ele parou ao avistar dois tufos vermelhos parados no meio do corredor que seguíamos.

O casal de ruivos parecia estar em meio a uma discussão. O rapaz, que era uns bons centímetros mais alto que eu, apesar da idade inferior, tentava convencer a garota sobre alguma coisa.

-Hugo, é obvio que eu não vou chamar a vaca da Brown para a minha festa de quinze anos. Nós duas não somos exatamente melhores amigas... - "inimigas mortais" seria mais bem empregado, nesse caso.

A jovem Potter e a loira se odiavam e até eu sabia o motivo. A tal garota havia roubado um possível namorado da Potter... Ed Wood era o nome dele, se não me engano.

Particularmente, lhe fizeram um favor. Eu sempre achei a irmã caçula do Severus areia demais pro caminhãozinho do Wood... E de qualquer outro cara que não assinasse Malfoy no sobrenome, embora eu jamais pretenda assumir isso em voz alta. Confessar para mim mesmo já foi deveras complicado.

Já fazia alguns meses que a presença de Lily Luna me causava um vazio estranho no estomago, mas foi só no último fim de semana em Hogsmed que percebi do que meu mal estar se tratava. A imagem dela beijando Michael Finnegan me remetera a cenas macabras onde eu matava o carinha com requintes de crueldade... Tive que admitir para mim mesmo que aquilo era ciúmes e, sendo assim, tive que admitir também que eu estava realmente afim da Potter.

Por sorte Severus é mais ciumento do que eu, e como ele é um ardiloso de uma figa, o pseudo-namoro da Lily e do Finnegan foi pro espaço dois dias depois, quando ela pegou o cara de conversinha com uma garota corvinal. Não me pergunte como, mas eu tenho certeza que o episodio foi armação do penoso.

-Priminha querida, eu sei que vocês duas não se dão muito bem, mas... - ele sorriu, abraçando-a pelo ombro - ...você não faria esse enorme favor? Por mim?

-Por você? Por que eu faria algo por você, Hugo?

-Vejamos... Por que eu te passo cola nas provas?

-Hugo Weasley! Estou decepcionadíssima com você... – paramos próximos a eles, mas os dois estavam tão entretidos na discussão que não perceberam - Querer beijar na boca daquela retardada da Laura Brown é uma coisa, mas me jogar na cara a facilidade de compreensão das matérias que você herdou da tia Hermione, já é demais!

-Só pensei que você faria um esforço em aturá-la na sua festa de quinze anos, já que eu sempre me esforço por você em todas as provas. Consegui até um kit-anti-feitiço-anti-cola na loja do tio George para você usar...

Ela fechou a cara, e não pude conter o pensamento que ficava uma gracinha com aquele biquinho nos lábios.

Graças a Merlin que Severus não lê mentes... ainda.

-Kit-anti-feitiço-anti-cola, Lily? – ela se sobressaltou ao escutar a voz do irmão – Eu até ficaria decepcionado com a minha irmãzinha se eu mesmo não usasse um desses.

-Você usa um desses? – perguntei surpreso – Vem cá, quantos artefatos das Gemialidades Weasley você usa e não me conta?

-Você quer a lista por ordem alfabética ou de importância? – respondeu, antes de voltar-se para o primo. – E ai Hugo, como andam os treinos?

-Fala, primão! Andando solito por ai, é... – o garoto tinha mania de fingir que eu não existia... Não que eu me importasse, claro, mas às vezes era irritante - o que andou aprontando, heim, fiquei sabendo que esteve na sala do diretor ontem de madrugada.

-Que horas você ficou sabendo disso? – espantou-se Severus, não era para menos, o dia mal tinha começado.

-Agora a pouco, no dormitório - deu de ombros – As notícias correm rápidas por aqui, esqueceu?

-Bando de fofoqueiros...

-Segredo não é algo muito comum em Hogwarts, Al. – disse Lily.

-Percebe-se... – ele deu um beijo na sua testa, ela era um pouco mais baixa que Severus, por isso ele não precisou se esforçar muito - A Mag estava lhe procurando ontem...

-Ah, eu sei. Tinha esquecido meu isquelular no quarto, – por que Severus nunca esquecia esse tipo de coisas no quarto? Assim eu podia pegar emprestado algumas vezes e, quem sabe, falar com a ruivinha... Pare de pensar besteiras, Malfoy! - Mas ontem tivemos treino, e eu não costumo levá-lo também. - Se bem que com aqueles olhos amendoados me encarando seria meio difícil não pensar besteiras – Como vai, Malfoy? Se preparando para enfrentar a Rose?

Eu devo ter demorado um pouco para entender que o assunto era comigo, já que a menina repetiu meu sobrenome.

-Ah? Sim, estou sim. Seu irmão anda me ajudando.

-Você tem sorte de tê-lo do seu lado... - ela sorriu amavelmente para o irmão - As únicas pessoas que já vi baterem a Rose num duelo são o Al e o JS.

-É, estou sabendo. Sua prima Dominique gosta muito de me lembrar desse por menor, sempre que possível.

Houve um curto silencio, em que eu tive uma sensação desconfortável de ter meu olhar sendo avaliado por Severus.

Ele desconfiava, sei disso, mas jamais tocara no assunto e eu não seria idiota de fazê-lo, tampouco. Acho que se Severus tivesse certeza que eu era afim da irmã dele, ele arrumaria uma forma bem dolorosa de me eliminar e eu não estou afim de pagar para ver... não mesmo. O cara dormia no mesmo dormitório que eu, caramba.

-Estou morrendo de fome, vocês não? – ela enroscou o braço no braço do irmão e começou a andar, o puxando discretamente para a frente. Eu e o irmão da sardenta fomos seguindo-os de perto – Podíamos fazer algo diferente hoje, o que acha? Vocês podiam tomar café na nossa mesa.

-Eu adoraria, Lily, mas acho que o Scorpius não vai gostar da idéia. - ouvi o tal do Hugo murmurar um "ainda bem", mas achei melhor não dar atenção... Eu já comentei que ele é bem mais alto que eu? - Não é mesmo, peçonhento?

Eu não acredito que ele me chamou de peçonhento na frente da irmã! ¬¬

-Realmente tomar café da manhã na mesa da Grifinória me soa um pouco suicida.

-Tenho certeza que seria muito bem recebido, Malfoy.

"Não por mim" murmurou mais uma vez o sardento ao meu lado, enquanto entravamos no salão.

-Mesmo assim, prefiro não me arriscar. Mas obrigado pelo convite.

-De nada... Mas é uma pena que não venham, as meninas estão reclamando que você anda esquecendo da gente... - continuou a ruiva para o irmão, na tentativa vã de convencê-lo, muito embora ela soubesse bem qual era o motivo que o afastava de lá.

E realmente, ao avistar-nos, uma garota de pele morena, começou a acenar sem parar, se eu não me engano se tratava de Roxenne, a caçula do dono do Gemialidades Weasley.

Após acenar de volta, Severus parou de andar no ponto em que deveríamos nos separar e seguir para a mesa de nossa casa.

-Na verdade estou me esforçando para que o JS esqueça que eu existo, Lily... Diga para a Roxenne que não é nada pessoal. - sorriu - Mas se quiserem culpar alguém, culpem a Rose.

-Eu não tenho culpa do JS ser um implicante dos infernos, Al. - a sardenta mor apareceu do nada, me dando um tremendo susto.

-Mas tem culpa de ser boa em duelos. – respondeu Severus – Se não tivesse se classificado, ele não estaria numa fase mais irritante que o normal...

-"Fase mais irritante que o normal"? - comentou o galalau ruivo - Não há como Fred e James ficarem piores do que já são, cara... No dicionário ilustrado, verbete "irritante" há a foto deles dois, sabia?

Severus riu. O tal Hugo tinha o dom de conseguir isso dele.

-Há sim, primo... Pode apostar. – respondeu Severus, e eu concordo plenamente – Eu estou pensando inclusive em me suicidar, caso a Rose ganhe o duelo. Vai ser insuportável... Mesmo.

-Na verdade, Al, isso é culpa sua que sempre me obrigou a te ajudar nos treinos.

-Falou, "mini cópia ruiva da tia Hermione"... – ele cruzou os braços, fingindo mágoa – Pode por na minha conta, é sempre culpa do Sonseriano mesmo.

Ela revirou os olhos, sem no entanto contrariá-lo.

-Vem cá, - Rose pareceu se dar conta de algo - você e sua sombra loira ainda não comeram? Andem logo com isso, tenho prova no segundo tempo.

-Ok, ok... Estamos indo...

Ele beijou a bochecha de Lily (céus como eu tenho inveja dele por isso) e se despediu dos primos com um aceno de mão, enquanto eu me reservei o direito a um aceno de cabeça quase imperceptível.

-Te vejo daqui a pouco. – completou para Rose.