Capítulo 2
Como solucionar problemas, por Rose Weasley
Após o café seguimos a passos discretos para o local combinado, imaginando o quão terrível seria quando nossos pais recebessem as cartas que certamente lhes foram enviadas logo cedo, os convocando para uma reunião disciplinar sobre a educação dos seus filhos, no caso, nós.
Estávamos ferrados, e se havia alguma duvida sobre o assunto, essa seria qual de nós estaria em piores lençóis quando nossos progenitores descobrirem com "quem" estávamos quando nos metemos naquela confusão.
Só havia uma saída, que, na minha humilde opinião era uma tremenda furada já que dependia única e exclusivamente da capacidade intelectual da monitora e sardenta mor da Grifinória, Rose Weasley.
-Aqui, a estátua do Gárgula Enjaulado, foi aqui que a Rose marcou com a gente.
Me pus a observar a peça com certa repulsa, nunca tinha dado a devida atenção a obra nas poucas vezes que passamos por ali.
-Que bicho feio. - comentei, me virando na seqüência e dando de cara com Rose. Não ia perder a chance de soltar uma exclamação de espanto, ia? - Credo, sardenta! Vai me matar de susto desse jeito.
Ela levantou uma das sobrancelhas, e não se deu ao trabalho de responder a implicância, como sempre, apenas me empurrou para o lado com mais força do que o necessário e se posicionou a frente do gárgula.
-Banguela.
-Eu não sou banguela, sardenta... – comecei a reclamar, percebendo tardiamente que aquilo não era um xingamento e sim a senha para a passagem que se abria atrás da estátua.
Sem mais uma palavra Rose entrou pela porta reduzida, que a forçava a abaixar um pouco a cabeça. Após uma breve troca de olhares, eu e Severus a seguimos.
-Por que você usou o nome da aranha de estimação do Hugo como senha? – perguntou Severus, após a porta ter-se fechado atrás deles.
-Por que foi por conta dela que encontrei esse lugar... Ah, olha ela ali, dormindo...– a garota apontou o dedo na direção de uma aranha extremamente peluda e grande que descansava em um dos vãos da parede de pedra. – Banguela! Acorde anda! O Hugo estava lhe procurando... – comentou, e, como se entendesse tudo que a garota falara, o animal se levantou e sumiu por entre a escuridão das pedra a sua volta.
-Vamos logo com isso, - disse ela, seguindo para um pedestal que sustentava algo coberto com por uma toalha de mesa branca - Imagino que também estejam com pressa e eu tenho prova daqui à uma hora. Aqui está... – ela retirou a toalha com cuidado, revelando uma... penseira?
-O que é isso, penoso? – murmurei contrariado.
-Uma penseira, peçonhento, não está vendo.
-Na verdade, essa é uma penseirativa. – disse a ruiva, e sob um olhar de repudio do primo, acrescentou – Desculpa, mas não consegui escolher um nome melhor ainda...
-Nos não vamos precisar enfiar a cara dentro dela, vamos sardenta? – ela fez que não.
-Na verdade vocês terão que mergulhar dentro dela. – minha ulcera voltou a dar sinais de vida.
-Eu sabia que não ia gostar. – murmurei novamente, ao que Rose lançou um olhar curioso para o primo.
-Ele tem medo de água... – comentou o traidor que me prometera jamais dizer isso a ninguém.
-Deve ser por isso que não toma banho! – ela disse antes de soltar uma longa e irritante gargalhada.
-Eu tomo banho sardenta! – chiei – Só tenho problemas para mergulhar. Não que seja da sua conta, mas eu quase me afoguei uma vez... – muito embora eu ache a minha explicação bem plausível, digna de pena inclusive, ela não parava de rir. Depois nós os Sonserinos que somos seres incessíveis.
-Bom, o funcionamento é simples. – disse ela, quando a gargalhada começou a diminuir - Transfiram a lembrança do momento para qual querem voltar para cá, depois mergulhem nela, façam o que tem de fazer e voltem...
-Vamos poder interferir? Peraí, você esta dizendo que conseguiu desenvolver uma penseira que nos permite voltar no tempo e mudá-lo? É isso?
-Sim, essa é a idéia, não é? Voltar no tempo e impedir que o zelador lhes de o flagrante. – ela cruzou os braços – Foi para isso que pediram a minha ajuda, lembra?
-Sim, mas... – voltei a encarar o objeto com certo ceticismo no semblante - Qual as chances de alguma coisa dar errado?
-0,01%, se utilizarmos um ser com capacidade intelectual na média, ratos comuns, por exemplo... No seu caso acredito que o risco seja bem maior. – lancei-lhe um olhar gélido. Ela sorriu de volta – Há algumas observações, claro...
-Que seriam?
-Bom meu experimento não está pronto ainda, há alguns problemas quanto a precisão do horário em que minhas cobaias caíram e...
-Cobaias? Que tipo de cobaias?
-Ratos, Albus. Por que?
-Como você tirou a memória de um rato para por na penseira?
-Não tirei a memória deles, eu os enviei para alguma memória minha mesmo...
-Ah...
-Bem, retomando a questão, o horário pode ser alterado um pouco, por conta das ondulações que o líquido da penseirativa faz ao mergulharmos nela... Vocês tem de entrar totalmente na penseirativa, e não só os rostos, como seria em uma penseira comum. Por isso tomem cuidado para não causarem muitas ondulações no liquido, porque isso pode jogá-los para algumas horas antes, e vai ser um saco esperar... Entenderam? – acenamos positivamente - Mais alguma pergunta, rapazes? – acenamos negativamente – Certo, vocês vão e eu fico aqui observando, quando acabarem o serviço eu os puxo de volta.
-E como vou saber que não vai me largar lá e só puxar o seu primo?
-Vai ter que aprender a conviver com a duvida, Malfoy. – ela sorriu, cínica, mais uma vez.
-Ok. Vamos, peçonhento, vamos terminar logo com isso.
-Não estou muito certo se quero entrar nessa coisa, penoso...
-Por Merlin, Scorpius! Se nossos pais receberem a carta do diretor nós estamos ferrados. Só que eles já receberam, então, temos que impedir que isso aconteça voltando no tempo... Já discutimos o plano um milhão de vezes.
-Eu sei, penoso. Mas...
-Mas o que? – interferiu a garota - Está com medo?
-De uma penseira que foi alterada por você, sardenta? Imagina... Por que eu teria medo? – irritei-me – É lógico que eu estou com medo.
-Quer que eu repita a lista de atrocidades que um comensal da morte sabia realizar? E que seu pai já foi um? – comentou o meu amigo da onça preferido.
-Ok! Eu vou. – respirei profundamente – Põe logo o momento na penseira, vamos terminar logo com isso.
Acenando positivamente, Severus levou a ponta de sua varinha a sua testa, e lentamente puxou o fio prateado das suas lembranças até a água que jazia, límpida, no objeto. No mesmo instante já foi possível enxergar o corredor que dava acesso ao estoque pessoal de itens do professor de poções.
-Você primeiro... - disse ele, esticando a mão, e me dando passagem – Só para ter certeza que não vai me abandonar lá sozinho.
Revirei os olhos irritado, já que era exatamente isso que eu pretendia fazer. Afinal de contas, entramos naquela confusão toda exclusivamente por culpa dele.
Dei dois passos na direção do objeto e olhei desconfiado para o liquido. Abaixei o tronco levando a cabeça um pouco mais próximo e devo ter demorado muito tentando cheirar a substância porque Rose se irritou profundamente com minha atitude.
-Anda logo! – berrou ela, levando a mão com toda a força para me empurrar.
Só que eu tenho o instinto de sobrevivência mais aguçado do mundo mágico, sabe, e senti a ação quando ela estava a milímetros de distância de mim. Tirei o corpo da frente de supetão, o que a deixou sem apoio.
Na busca desesperada por equilíbrio, ela segurou nas minhas vestes. Eu, por minha vez, puxei as de Severus para também não cair.
Mas não foi o suficiente, nós três nos desequilibraram juntos e caíramos no chão. Só que o chão demorou demais para chegar.
Senti o baque surdo que as minhas costas fizeram assim que bateram contra o piso de pedra do colégio.
Segundos depois, o pouco ar que consegui puxar foi tomado de meus pulmões novamente, quando Severus caiu sobre mim.
-Da para sair de cima de mim, penoso? Você não é tão leve assim, sabia? - reclamei, assim que minha voz voltou.
-Certamente sou mais leve que você. - chiou ele, se levantando - Se tivesse alguma leveza não estaríamos metidos nessa enrascada toda.
-Ah sim, a culpa é minha agora?
-Lógico que a culpa é sua. – ele estalou as espaldas assim que ficou de pé – Onde está a Rose?
Olhamos ao redor, estávamos dentro de um pequeno armário de vassouras, mas nada da sardenta.
Severus abriu a porta lentamente, avaliou o corredor e saiu.
-O que aconteceu? – perguntei o seguindo.
-Entramos na penseirativa. – concluiu.
-É, estamos no corredor certo. - comecei a andar, mas Severus me parou subitamente.
-Tem alguma coisa errada... – comentou ele, ao olhar a luz do luar que entrava por uma das enormes janelas.
-Claro que tem, eu tenho um amigo maluco que só me mete em encrencas absurdas e ainda coloca a culpa em mim.
-Não estou falando disso. Que horas eram quando tentamos invadir a sala mesmo?
-Era uma da manhã, mais ou menos.
-Droga. – ele encostou no parapeito da janela, e observou o céu – Como pensei, não são mais de oito horas da noite ainda.
-O que?
-Chegamos muito cedo. – ele deu um soco no meu ombro – E a culpa é sua, peçonhento de uma figa. Você deve ter balançado demais a penserativa antes da gente entrar nela.
Pensei em dizer que a culpa era da priminha maravilhosa dele, que ao tentar me empurrar se desequilibrou, caiu e nos empurrou para o objeto. Ou que a culpa era dele e do seu complexo de inferioridade em relação ao irmão, motivo pelo qual o fez bolar aquele plano brilhante para me fazer ganhar o Clube de Duelo.
Pensei em inúmeras respostas, mas desisti de continuar a discussão ao escutar um murmurinho de conversa se aproximando. Corremos, sem nos lembrar que havia um armário de vassouras perto de nós, mas, felizmente, achamos um outro na primeira curva, o que foi uma tremenda sorte já que armários de vassouras não costumam ser tão próximos, existe no máximo uns dois ou três por andar.
-Precisamos reunir a AD. Agora.
-Já alterei o horário e a data nas moedas, todos devem ir para a sala assim que possível
-A entrada da sala precisa é aqui do lado, vamos indo logo então.
-Vão vocês dois primeiro, eu preciso ir ao banheiro.
-Certo.
Ouvimos o grupo se separar e quando não era mais possível ouvir os passos, saímos com cuidado do armário.
-Tudo limpo... – disse, saindo do pequeno cômodo – Temos que pensar o que vamos fazer até o horário do flagrante. Alguma idéia?
Voltei meu olhar para Severus, e algo na expressão perdida dele me deixou bastante preocupado.
-Penoso? - ele continuava pensativo – Severus... – nada - Potter! - gritei, finalmente conseguindo alguma atenção – O que foi?
Ele balançou a mão como quem diz para deixá-lo pensar em paz. Ignorei.
-Bom, temos cinco horas de espera pela frente, acho melhor procurarmos um lugar melhor para nos esconder que esse armário de vassouras e...
-Scorpius... – parei de falar na mesma hora em que ouvi meu nome – Eu acho que... Talvez tenhamos que esperar um pouco mais do que cinco horas.
-Por que, não são por volta de oito horas da noite?
-Sim, são 7:54 para ser mais exato. Mas não exatamente da noite de ontem...
-Não exatamente da noite de ontem? O que você está querendo dizer com "não exatamente da noite de ontem"?
-Você não ouviu a conversa? Se aqueles três falavam do que eu acho que falavam... – ele fez uma pausa maior do que a necessária, apenas para me deixar mais nervosos – Vamos ter que esperar alguns anos até a noite em que fomos pegos acontecer...
-O que? Peraí Severus, não podemos ter voltado alguns anos no passado. Isso é loucura!
-Eu sei disso! Mas é que, aquela voz... – ele balançou a mão de um lado para o outro, ainda pensativo – Você tem razão, é impossível... Eu devo ter entendido errado.
-É! – concordei rapidamente – Agora vamos pensar no que fazer durante essas cinco horas que vamos ter que esperar.
-Bom, estávamos no salão da Sonserina, treinando duelos a essa hora... O que você acha de fazermos uma visitinha relâmpago ao zelador? – sorriu maquiavélico - Talvez consigamos resolver as coisas em bem menos tempo, se o fizermos tomar algum sonífero, o que acha?
São nessas poucas horas que eu costumo agradecer ao fato de gostar de contrariar meu pai, e ter me tornado amigo de um Potter.
Andamos alguns corredores, mas no meio do caminho percebemos que não estávamos com a poção sonífero no bolso, tínhamos que voltar ao dormitório, passar desapercebido por nós mesmos e só então sair à caça do inspetor de Hogwarts.
No caminho de volta cruzamos com algumas pessoas, tentando (e conseguindo) passar desapercebido na maior parte do caminho, sem topar com ninguém conhecido.
Mas foi deveras estranho andar mais de três corredores sem esbarrar em nenhum familiar do Severus. Não encontrar com um deles praticamente o tempo todo era impossível. Por isso, quando avistamos os cabelos lisos e avermelhados da irmã dele se aproximando de nós, respiramos aliviados.
Até que Severus se lembrou que a Lily deveria estar, naquele momento, em seu treino de quadribol e não em um corredor que ficava do lado oposto do castelo.
Ele parou de repente, incerto sobre o que pensar.
-O que foi dessa vez? – perguntei, assim que percebi sua estagnação.
Mas Severus continuava olhando assombrado na direção onde a falsa Lily vinha, ao perceber que não era a sua irmã quem ele observava.
Antes de termos qualquer reação, porém, fomos inadvertidamente puxados para fora do campo de visão da tal garota ruiva. E quando dei por mim, estávamos novamente dentro do armário de vassouras inicial, com mais uma terceira pessoa que eu não cheguei a identificar.
-Rose? O que diabos você esta fazendo aqui? – perguntou Severus ao reconhecer que fora a sardenta quem nos puxara de repente - Não precisava entra na penseirativa, nós podemos resolver isso sozinhos e...
-Eu não entrei na penseirativa, Al, eu cai nela, junto com vocês... Só que consegui segurar na borda por algum tempo. Quando meus braços não agüentaram mais e eu caí vocês já tinham saído daqui... Seus loucos, deviam ter mais cuidado, alguém pode vê-los!
-E qual o problema? Estávamos no salão comunal da Sonserina nesse horário.
-Não, não estavam... Acredite em mim.
Algo no olhar sério que ela dava para Albus fez com que minha ulcera desse uma fincada aguda. Tive medo de pedir maiores explicações.
-Rose, - balbuciou Severus - aquela garota, a ruiva... Ela...
-É, aquela garota é quem você está pensando que é sim. Eu também a reconhecia, das fotos... – ela respirou fundo.
-Não pode ser, Rose.
-Não sei como, Al, mas nós voltamos no tempo. Estamos em Hogwarts ainda, mas na época de nossos pais...
O grupo ficou mudo por um instante, o que me incluía. Só que o silencio não tardou a ser quebrado pela minha gargalhada, afinal, aquilo era uma piada, não é?
-Muito boa, sardenta. Muito boa mesmo... – disse abrindo a porta do armário – Eu quase cai... Mas agora vamos deixar de piadinhas bobas, porque precisamos de ajuda para sair daqui...
Minhas palavras foram finalizadas pela ponta de uma varinha que encostaram em meu pescoço. Atordoado, encarei os olhos azuis de quem me ameaçava.
