Capítulo 4
Conflito de gerações
"Albus Potter" o penoso omitiu descaradamente o segundo nome, na tentativa de não dar um nó na cabeça do pai, afinal, pelo que eu sei o nome foi em homenagem a um professor que o cara odiava, que veio a salvar a vida dele depois, ou algo assim.
Mas, pelo visto, aquilo não adiantara muita coisa.
-Quer que eu acredite nisso? – perguntou o herói do século, após uma longa e humilhante gargalhada do grupo – Eu não teria um filho na Sonserina.
Severus sempre me disse que o pai nunca se importou por ele ter entrado para a Sonserina, mas, pelo visto a versão mais nova do cara parecia ter suas restrições.
-Eu tive meus motivos. – respondeu ele, seco. E, aqui de ante mão eu relato que o tal motivo começava com James e terminava com Potter, com um acréscimo de Sirius no meio. Uma vez Severus me contou que o cara o irritara tanto na primeira viajem que fizeram à Hogwarts, que no momento da escolha da casa ele pediu, com toda a força, para que o Chapéu Seletor que o colocasse o mais longe possível do irmão.
A Grifinória seria a primeira opção do Chapéu, mas diante do pedido desesperado do garoto, ele acabou por colocá-lo na Sonserina, o que, dentro de Hogwarts era o mais longe que Severus conseguiria estar de James.
Alheio a tudo isso, porém, o jovem sr. Potter voltou-se para o grupo.
-O que vocês acham?
-Balela. – disse o lufa-lufa.
-Difícil... – opinou a oriental.
-Até parece. – comentou o ruivo – Foi à história mais sem pé nem cabeça que eu já ouvi. E olha que sendo irmão dos gêmeos eu já ouvi muitas.
Gêmeos? Não lembrava do Severus ter tios gêmeos.
-E você, Luna? – perguntou o sr. Potter à garota loira que me barrara logo na entrada – O que me diz?
Só então percebi que aqueles grandes olhos azuis que piscarem despreocupadamente eram de amiga aluada dos Potter, alguns (muitos) anos mais nova, mas, ainda sim com sua estranheza inconfundível.
-Viagens no tempo são possíveis, não são? – ela deu de ombros.
-Ah, Potter, por que a demora? É claro que eles estão mentindo, acabe logo com essa ladainha, eu não tenho a noite toda.
-Cala a boca, Smith. – ordenou a sra Potter, cujo qual eu não lembro o primeiro nome agora – Luna está certa, Harry, viagens no tempo são possíveis. Então, é perfeitamente possível que esse rapaz seja seu filho. Ele lembra bastante você...
Involuntariamente Severus sorriu para a mãe, eu tive que acompanhá-lo, aquele bando de varinhas apontadas para a minha cabeça estavam, como sempre, ativando a minha ulcera. Além do que, ela lembrava a minha Luna.
-Hermione... Você ainda não deu sua opinião.
A mãe da Rose trazia o mesmo semblante pensativo que a filha costumava expor quando em meio a uma prova.
-Se ele é seu filho, - encarou a sósia – imagino que você seja a minha filha? – Rose fez que sim, parecendo encabulada – Qual é seu nome todo?
-O que?
-Você me ouviu... Qual seu nome todo? Nome e sobrenome...
-Mas mãe... Isso não é prudente.
Ela lançou um olhar severo para a garota, cruzou os braços e começou a bater o pé direito no chão. Até eu fiquei com medo.
-Estou esperando, mocinha.
Rose procurou Severus com o olhar.
-Eu disse o meu, não disse? – ele respondeu a pergunta muda.
Ela acenou positivamente, e deu um longo respirar antes de soltar a "bomba". Essa eu queria ver!
-Rose Weasley.
Tentei captar o máximo de expressões possíveis. O sr. Potter arregalou os olhos, enquanto a sua futura esposa levou a mão à boca, parecendo segurar o riso, coisa que o lufo não tentou nem de longe, já que soltou uma longa gargalhada.
Enquanto isso, a loira se quer parecia estar ouvindo a conversa e a oriental sorriu de lado na direção do pai de Rose que, por sua vez trazia a testa enrugada e o semblante confuso, como uma criança que tenta entender uma poção muito complexa.
Mas foi a reação da mãe de Rose quem mais me surpreendeu. Ela descruzou os braços, e soltou um leve e baixo "oh", antes de dizer.
-Eles estão falando a verdade, Harry.
-Eles o que?
-Eles estão falando a verdade, Ron. – repetiu ela, sem paciência com o ruivo.
-E teve certeza disso quando a garota disse o sobrenome, foi?
-É... foi.
Em poucos segundos, o rosto dele se tornou tão vermelho quanto a cor dos seus cabelos... Eu não entendia porque o cara tinha ficado tão bravo. já estava praticamente da cor dos cabelos.
Foi quando ele soltou a pérola:
-E com qual dos meus irmãos você está pretendendo dormir, heim?
-Ron! – exclamou a irmã dele, tão surpresa quanto o resto de nós – Da onde você tirou essa idéia absurda?
-Ora se ela acha natural a filha ser ruiva e com o nosso sobrenome, imagino que já tenha em vista um bom pai, não é? – continuou ele.
O tal do Smith não conseguia parar de rir. E eu também não, só que eu tinha a decência de fazer isso "por dentro". Bom, não era bem decência, na verdade era auto-prevenção.
-Eu sabia que não devia ter aberto minha boca... – murmurava a sardenta para o primo.
-Fica calma. – ela pareceu se surpreender com algo – Que foi?
-Meu isquelular. – murmurou, levando a mão ao bolso.
-Aqui?
Ela deu de ombros e mandou que nós ficássemos de olho no grupo, enquanto ela tentava atender o isqueiro por de trás das costas do primo.
-Vamos Hermione, qual deles é? Vocês já estão tendo um caso é isso? Há quanto tempo?
-Ron, por favor, pare de besteiras... – dizia a futura sra. Potter – Harry, diga alguma coisa...
-Sem chances, eu não vou me meter... – devo admitir que eu também não me meteria.
-Eu estou esperando uma resposta Hermione!
-Ronald Bilio Weasley! – trovejou ela - Eu vou falar isso pela primeira e última, então trate abrir bem os seus ouvidos e entender direitinho: eu não tenho NA-DA com nenhum dos seus irmãos!
A chama do isquelular reconheceu os gritos assim que foi acessa.
"Rose? Ué, você está em casa?"
-Shiii! – ela fez sinal para que ele falasse baixo, o que não era exatamente necessário já que todos estavam prestando atenção na discussão. – Não. – sussurrou.
"Mas eu estou ouvindo a mamãe berrando... É ela, não é?"
-Hugo, cala a boca e me escuta. Eu não sei como você está conseguindo falar comigo, mas eu preciso que nos ajude...
-Se não anda dormindo com nenhum deles, então com quem pretende ter uma filha Weasley?
-Com qualquer um! Um primo distante, quem sabe! Mas de preferência alguém que não me obrigue a ter que conviver com a sua estupidez! Seu grosso!
"Ajudar?"
-Meu experimento, estamos dentro do meu experimento.
"Que experimento, louca?"
-Vá até a estátua do Gárgula Enjaulado, a senha é "Banguela" e... – ela fechou rapidamente o objeto assim que Severus lhe cutucou. O pai voltava a olhar-nos.
-O que estão fazendo?
-Nada. – respondeu Severus, abrindo os braços, enquanto Rose jogava o isquelular dentro das vestes, novamente – Só apreciando a paisagem...
Acho que o sr. Potter teria se dado ao trabalho de conferir, se a conversa entre os pais de Rose não estivesse mais animada.
-É o Percy, não é?
-O que?
-É o Percy. Vamos, pode falar, eu agüento.
-Eu não tenho nada com o Percy, seu retardado!
-Então é um dos gêmeos? – ela bufou contrariada e virou-lhe as costas - Você está fugindo da discussão, Hermione!
-Com quem eu durmo ou deixo de dormir não é problema seu, Ronald! Muito menos com que eu ainda vou dormir!
-Sabe sardenta, - cutuquei – essa viajem no tempo imprevista pode ser até proveitosa... Acho que você não vai chegar a nascer, viu...
A garota fez uma careta na minha direção, depois olhou as próprias mãos fingindo preocupação e disse.
-Hum, não estou me desintegrando... Acho que não vai ser dessa vez que você se livrar de mim, Malfoy.
Bastou dizer meu sobrenome para o grupo todo virar os rostos em nossa direção. E olha que ela nem disse tão alto assim.
Até os pais dela preferiram parar de brigar para me encarar com olhares nada acolhedores.
-Malfoy? – murmurou a japa.
Severus bateu com o pé no meu, um código para que eu me preparasse, ele não pretendia prolongar mais aquela situação.
-Ah, gente... Olha o preconceito vai. O que tem demais ser um Malfoy?
Todas as varinhas se levantaram novamente em minha direção.
-Pergunta idiota. – disse Severus – Vai!
O que aconteceu depois foi muito confuso para ser narrado, mas vou tentar.
Com dois feitiços rápidos e perfeitos, Severus acerto Smith e a oriental de uma vez só, os jogando longe, enquanto Rose conseguiu conjurar uma corda que amarrou a loira. Eu derrubei o pai dela, com muito gosto, mas a mulher dele parou meu feitiço seguinte com bem pouco esforço.
A mãe de Severus lançou-se num duelo com Rose, de dar inveja, mas a sardenta levava alguma vantagem.
Já ele tinha alguma dificuldade para se esquivar das investidas do pai.
Eu e a tal "tia Hermione" passamos um tempo nos avaliando, andando em círculos, incertos se deveríamos dar o primeiro passo ou esperar o oponente.
-Não vai querer entrar num duelo comigo, Malfoy... – murmurou ela.
-Eu não tenho muita escolha, sra Weasley... – ela olhou-me irritada – Desculpa, - sorri cínico – Força do habito...
Claro que fiz só para alfinetar, eu nunca havia se quer visto a mãe de Rose pessoalmente, a não ser na estação, de muito longe.
-Mande-os abaixar as varinhas. – ela continuou, tentando negociar uma trégua.
-Não acredito que vão me obedecer... – comentei, os olhando de relance.
Foi o suficiente para a minha adversária lançar um feitiço que me jogou longe. Por sorte eu já sou pós-graduado em saber cair, com todas as vezes que Severus já me derrubou nos treinos, se não, tenho certeza que teria batido a cabeça de mal jeito e perderia o que aconteceu a seguir.
Assim que bati com o corpo no chão, a mãe de Severus conseguiu fazer o mesmo com Rose, a arremessando bem perto de mim. Segundos depois o pai desarmou o filho com um "expelliarmos" indefensável. Juro que até eu fiquei de boca aberta, eu nunca havia visto Severus ser desarmado daquele jeito tão simplório.
E quando eu já achava que meus dias como filho de um milionário excêntrico, daqui a duas décadas, estavam contados, um milagre aconteceu...
Um milagre lindo, diga-se de passagem. Com cabelos avermelhados que lhe chegavam ao ombro e eram adornados com algumas tranças, pernas alvas e charmosas e uma saia que eu detestava por não ser curta demais.
Isso mesmo, ninguém mais do que Lily Luna Potter em pessoa apareceu na nossa frente, acompanhada pelo primo ruivo sardento e gigante. E pasmem!, seu irmão mais velho, James Sirius Potter, também conhecido por JS, que, assim que pisou no chão, já abriu um escudo para nos proteger do feitiço que o pai lançara.
-A cavalaria chegou! – falou Hugo, levantando a irmã do chão, para em seguida tomar a frente no combate com a mãe, enquanto Lily fazia o mesmo com a sua.
Severus já havia recuperado sua varinha e eu tão pouco não tardei para ficar de pé. A situação seria favorável, se os demais integrantes da Armada não estivessem começando a surgir na sala, entrando por portas que eu não sabia de onde vinha.
-Corram! – gritou JS, ainda duelando com o pai.
Foi o que fizemos e, obviamente eu fui o primeiro a sair pela porta que daria para o armário de vassouras. Felizmente, não houve surpresas desagradáveis, a porta deu diretamente para um corredor.
Não posso dizer exatamente como JS conseguiu retardar o grupo para nos alcançar mais a frente, só sei que houve uma forte luz, antes dele sair correndo também.
Nosso grupo se separou mais adiante, sob um comando de mão do Severus, para tentar despistar a tal Armada. E quando eu me dei conta, apenas a minha Luna ainda corria ao meu lado.
Em uma das curvas que fizemos, ela me puxou para um vão de pedra, na tentativa de despistar os que ainda nos seguiam. O espaço era apertado, o que nos deixou a milímetros um do outro.
Ouvimos o caminhar dos perseguidores, em seguida, suas vozes. E, como Deus não facilita a minha vida nessas horas, a dupla que nos seguira eram ninguém menos que o pai e a tia dela.
Estávamos ferrados.
-Tenho certeza que vieram por aqui, Hermione.
-Eu também, Harry. Mas pelo visto eles nos passaram a perna.
-É impressão minha ou você ficou feliz?
-Não, sua impressão está certíssima.
-Peraí, Mione, você não acreditou naquela historia absurda de filhos, acreditou?
-Não vou discutir o obvio com você ou com o Ron, Harry. Mas aqueles são nossos filhos... Eu sei.
-Sabe? – se eu estivesse vendo algo, diria que o sr. Potter estava sorrindo para a amiga, mas eu tinha coisas melhores com o que me preocupar, como por exemplo o cheiro gostoso que provinha dos cabelos da ruivinha – E você acha que a menina é filha sua com o Ron, não é?
-Bom, provavelmente não já que aquele retardado nem ao menos cogitou a hipótese de ser ele o pai.
-Ficou magoada?
Não houve resposta a essa questão.
-De qualquer forma, quando disse que sei que ela é minha filha é por que eu sinto, então, se não for com ele será com um dos irmãos... O que nos leva a uma outra questão...
-Que seria?
-Se a minha filha é prima do seu filho, e o sobrenome dela é Weasley, isso significa que você e a Gina...
-Meu filho não estudaria na Sonserina, Hermione, muito menos seria amigo de um Malfoy. – respondeu ele, cortante. Ao que Lily me encarou, com certo pesar nos olhos – Além do mais eu estou namorando a Cho, lembra? – não houve resposta para essa pergunta tão pouco, o que pareceu deixar o sr. Potter um pouco irritado – Eles não estão por aqui, vamos embora.
-Ok. – pude ouvir a mãe da sardenta dizer, num tom de contentamento, ela realmente tinha ficado feliz por nós termos escapado.
Pensei em sair na seqüência, mas Lily me segurou pela cintura e balançou a cabeça em negativa quando a encarei. Então, retornei meu tronco para a parede, voltando a ficar de frente para ela que, com a atenção ainda presa aos movimentos do "inimigo" não percebeu que suas mãos continuaram enlaçando a minha cintura, e eu, obviamente, não reclamei.
E ficamos assim, por mais alguns segundos.
-Desculpe. – disse ela quando achou prudente conversar.
-Por que?
-Pelo que meu pai disse. Ele não pensa assim... Não hoje, quero dizer, não no futuro.
Sorri de lado.
-Sei que sei pai não liga do Severus ser da Sonserina, mas garanto que ele preferia um outro melhor amigo para o filho.
-Talvez, mas isso não tem haver com você. Papai só gostaria que o Al pudesse receber o amigo em casa, sem problemas.
O comentário me remeteu a única tentativa que eu e Severus fizemos de nos encontrarmos nas férias. Eu fui para a casa dos Potter, teoricamente escondido, dizendo que visitaria o meu padrinho Blaise. Mas assim que botei o pé na residência, meu pai apareceu, me fazendo pagar o maior mico da minha vida ao me arrastar pelas orelhas até em casa. Até hoje não sei como ele descobriu tão rápido. Eu se quer cheguei a ver o senhor e a senhora Potter direito.
-Quer me convencer agora que o seu pai gosta de mim?
-Não é para tanto. Mas posso garantir que ele não desgosta de você só porque é um Malfoy.
Era a minha deixa.
-E será que ele se importaria se o Malfoy aqui fosse mais que um melhor amigo do filho dele? – perguntei, enquanto deixava minhas pernas se acomodarem melhor por entre as dela. Então aproximei um pouco meu rosto – Talvez... Quem sabe... Um genro.
-Está pensando em pedir o Albus em namoro? – gracejou ela, enquanto abria o sorriso mais lindo da face da terra.
-Não exatamente... – aproximei meus lábios do dela, e já estava quase agradecendo mentalmente a sardenta por existir e ter feito aquela confusão toda, quando ela desviou a cabeça, levando a atenção pro seu bolso.
-O isquelular... – comentou sem graça, o "atendendo".
E adivinha quem era o empata? Isso mesmo, Rose Weasley, quem mais? A sardenta mor sabia como ser inconveniente! Aff
-Oi prima.
"Lily, conseguiu despistá-los?"
-Sim, conseguimos. Scorpius esta comigo.
"Ah, saco, achei que tínhamos perdido esse ser loiro não pensante no meio do caminho."
-Eu também te amo, Rose. – gracejei.
"Rose? Desde quando eu sou Rose para você, Malfoy?"
-Deixe me ver... Desde que eu tive que duelar com a sua mãe por culpa de um experimento idiota que você inventou. Depois disso eu sou praticamente da família, querida! – falei a última frase olhando bem nos olhos da Potter, com um sorriso cheio de segundas intenções.
Afinal, ser amigo de Severus não me transformava em parente da sardenta, mas namorado da Lily me deixaria mais próximo disso e eu teria que me acostumar com a idéia.
Rose praguejou baixinho, enquanto Lily sorria de volta para mim.
"Peçonhento de uma figa, se por acaso você estiver com alguma mão na minha irmã, trate de tirá-la nesse exato minuto!"
Eu obedeci por reflexo, não esperava que Severus entrasse na conversa também. Ele deve ter percebido o olhar de agrado que a irmã me dera e já começara a imaginar besteiras.
-Ele não está com nenhuma mão em mim, Albus... – mentiu ela – Bom, agora que já despistamos nossos pais, o que faremos?
"Me dá esse negocio aqui, Al. É por isso que eu chamei, prima, sigam para a cabana do Hangrid. James disse que ele talvez não esteja lá."
-Tem certeza disso, sardenta?
"Não." respondeu Severus.
-Como assim, "não"? Vocês são filhos dos caras, caramba!
"Bom, essas não eram exatamente as histórias que mamãe contava pra gente antes de dormirmos, peçonhento..." chiou, ainda nitidamente irritado por eu ter ficado sozinho com sua irmã.
"Parem de brigar vocês dois, não temos tempo para isso." disse a sardenta "Em meia hora na cabana do Hangrid. Caso percebam algum movimento nos encontramos próximo ao salgueiro lutador."
-Certo. – ela desligou o aparelho.
-Temos que ir realmente? – perguntei, fazendo biquinho.
-Claro que sim, Malfoy. – ela esticou o pescoço para avaliar o corredor – Vamos, o caminho está livre.
A segui de perto, o mais perto que era possível, se é que me entendem. Mas enquanto nos esgueirávamos pelos corredores, a ruivinha achou por bem fazer mais um contato via isquelular.
-Mag? Você está ai?
O olhar preocupado apareceu por entre as chamas.
"Sim Lily, o que houve?"
-Preciso de sua ajuda.
"Hum, não me parece que está precisando de ajuda, não prima..." falou a trouxa com um sorriso maliciosa nos lábios "quem é o loirão que está ai atrás de você, heim? Gatinho. Não me apresenta?"
Estufei o peito satisfeito, pelo menos a tal Mag tinha bom gosto, apesar de trouxa.
-Mag, me escuta, estou metida numa enrascada, e das grandes.
"O que foi, os meninos descobriram que vocês estão saindo junto?"
-Não estamos saindo juntos, Mag! – "ainda" completei mentalmente – Meu problema não tem nada haver com ele... – "ainda" voltei a completar mentalmente - Escute, preciso que faça uma pesquisa para mim, sobre a "Armada Dumbledore", preciso saber quem são os integrantes, como funcionava, época em que existiu, cada detalhe da historia deles, entendeu?
"Armada Dumbledore... Certo. Mundo bruxo, né?"
-Isso. Era um grupo de estudantes de Hogwarts.
"Ok. Vou começar a pesquisar agora, qualquer coisa te chamo."
Elas desligaram o aparelho após uma despedida rápida, eu a olhei intrigado.
-Me tira uma dúvida, essa tal Mag não é a prima trouxa de vocês?
-Sim, você a conhece?
-Severus já falou dela... Mal, obviamente.
Ela riu.
-Al adora fingir que a detesta e a Mag adora pegar no pé dele por isso.
-Sei... Mas, voltando ao assunto em questão. Não seria mais fácil pedir para um dos seus primos? O que uma trouxa vai conseguir saber sobre essa tal Armada?
-Não acredito que os livros de história falem algo sobre a AD, pelo menos não algo que nos ajude... Já a Mag vai pesquisar na Internet para mim.
-Internet? O que é Internet?
-Um sistema de informações interligado no mundo todo... - continuei sem entender muito bem, percebendo minha incompreensão, ela acrescentou - ...por computadores.
-Eu costumo matar minhas aulas de estudo dos trouxas, ruivinha. Não tenho a menor idéia do que seja "computador".
-É muito útil, loirão, - sorri para o novo tratamento - confia em mim.
-Um sistema trouxa? Eu duvido. Até porque, você acha que vai ter algo sobre o nosso mundo nele? – questionei descrente.
-Pode postar que sim. Google tudo sabe. – disse, com um sorriso tão lindo que eu nem me preocupei em perguntar o que era Google, afinal.
Chegamos na cabana em poucos minutos, Rose e Severus já estavam lá, com caras estranhas, sem expressão. Pareciam preocupados, embora eu nunca tivesse visto tal expressão no rosto do meu amigo.
Sentei ao lado dele, certo de que Severus queria conversar, e aguardei. Ele só relaxou um pouco quando Rose e Lily se afastaram até um caldeirão enorme que o antigo guarda caças do colégio tinha, aparentemente pretendiam acendê-lo para fazer um chá ou coisa parecida.
-Está tudo bem? – perguntei quando achei prudente fazê-lo.
Severus demorou a me responder, e quando o fez, apenas acenou levemente com a cabeça.
-Olha cara, se está chateado porque eu e sua irmã ficamos sozinhos, eu juro que não...
Ele me cortou com um movimento de mão, acenando negativamente.
-É pelo que seu pai disse? – tentei mais uma vez.
Mas antes de obter a resposta a porta da cabana se abriu, dando lugar ao vazio, e depois se fechou.
Com um virar da capa que os cobria, James deixou que ele e o primo Hugo aparecessem.
-Nossa, vocês demoraram... – comentou Lily, arrumando a mesa com a ajuda de sua varinha.
O olhar severo que James me deu demonstrava que ele não gostara da minha presença, mas foi para o irmão que ele destacou seu pior semblante ao falar:
-Muito bem, pode me dizer que merda você aprontou agora, Albus Severus?
O mais novo apenas levantou uma sobrancelha, sem no entanto responder-lhe.
-A culpa foi minha, James. – disse a sardenta saindo em defesa do primo predileto – Eu insisti para que Al me ajudasse no meu experimento.
O mais velho olhou-nos desconfiado.
-E o que ele faz aqui, então? – me apontou.
-Albus o trouxe junto... Eles não se desgrudam, lembra?
-Você está mentindo, Rose. – sentenciou o cara, após alguns minutos a avaliando.
Não era muito difícil saber quando Rose mentia, ela sempre ficava mais vermelha que seus cabelos e suas sardas pareciam gritar em seu rosto.
-Isso tudo é culpa do Albus, confessem.
Bom, era, no fundo era culpa dele sim. Mas não havia como o irmão saber disso, e, muito embora fosse verdade, a acusação magoou Severus.
-A culpa é sempre minha, não é JS? – questionou em tom baixo, tentando manter a frieza na voz.
-Sim, a culpa é sempre sua... E depois que você se juntou com esse cara tem ficado ainda pior.
Confesso que ponderei a necessidade de me meter após ter sido citado, mas optei por permanecer calado. Minhas pretensões futuras com a ruivinha dependiam do "engolimento" de certos sapos. Mas é complicado escutar uma inveracidade como aquela, qualquer um que nos conheça um pouquinho saberia que a má companhia aqui era o Severus, não eu.
-Fique tranqüilo, maninho... – respondeu ele, cínico – Ainda falta muito para eu tirar o seu posto de idiota mor da família.
-Ora, seu!
-Calem a boca, os dois! – berrou a ruivinha, antes que James revidasse – Não interessa de quem é a culpa, JS. Você veio porque quis. – rosnou – Se era para ficar jogando a ajuda na cara do Albus eu e o Hugo teríamos resolvido isso sozinhos...
-Teríamos? – perguntou o galalau ruivo, sem, no entanto, que os primos lhe dessem atenção.
-Temos que pensar numa solução. – voltou a chiar a minha baixinha predileta - Não é hora para brigas, entenderam?
Os dois obedeceram, mas o silencio entre os irmãos não simbolizava a paz, porém.
-Al, sério, isso tudo tem haver com o rolo que se meteram de madrugada? – perguntou Lily.
-Mais ou menos. – respondeu Severus, pós um segundo de silencio que me pareceu décadas – Nós... – mais uma vez ele hesitou, até que, sob um olhar de concordância de Rose, Severus soltou toda a história - ...queríamos impedir que carta do diretor chegasse as mãos dos nossos pais.
-Então é verdade que eles foram convocados para uma reunião sobre o...
-...nosso "futuro acadêmico", sim Hugo, exatamente. Como não dava mais tempo para abater as corujas no ar, pensamos em voltar no tempo e impedir que nos flagrassem.
-Então eu ofereci o meu experimento para que eles o testassem... – completou a sardenta, que certamente alterou esse ponto da história diante do olhar assassino que James voltava a lançar para o irmão – Já havia feito os testes com cobaias e dera tudo certo, não sei o que aconteceu para termos voltado tanto no tempo.
James já tinha levado a mão à testa a balançando de um lado para o outro.
-Muito bem, Rose, você inventou isso, como saímos daqui?
-Bom, basta quem ficou do outro lado nos puxar de volta. – houve um silencio constrangedor entre os três novatos – Alguém ficou do outro lado, não foi?
-Ah, bom, maninha, você não falou nada sobre isso...
Juro que até eu tive vontade de bater no cara. Porque agora ao invés de três, éramos seis idiotas presos naquela lembrança.
Se bem que... olhei para o meu lado e contemplei o olhar discreto que Lily me dava... Eu não podia reclamar.
-Como vamos sair daqui agora? – choramingou a sardenta.
-Sem pânico, gente. Nossos isquelulares estão funcionando, se esqueceram? – disse Severus, acendendo o seu próprio – Dominique. – chamou, mas obviamente ela demorou a atender – Dominique! – gritou mais forte, o que eu sabia, causava um aquecimento maior na peça que estava sendo contatada.
"Aii! Caramba, Al, eu estava ocupada."
-Na aula de Adivinhação? Duvido.
"Claro que não era na aula de adivinhação. Estava com o..." tossiu, ao perceber que ele estava cercado de gente, já que as primas começaram a rir "Ah, deixa para lá. O que você quer, afinal? E por que você e o Scorpius não estão na aula de adivinhação? Alias, eu não os vejo desde o café da manhã e..."
-Alerta vermelho, Weasley! – berrei, enfiando meu rosto na lateral de Severus para que ela pudesse me enxergar também – Precisamos da sua ajuda, urgente!
"Hum, para você se lembrar que eu sou uma Weasley é que a coisa deve estar feia mesmo. Muito bem, o que tenho que fazer?"
-Aqui, passe as coordenadas para ela, Rose. - Severus esticou o aparelho para a sardenta – Pronto, resolvido o problema. – falou, diretamente para o irmão que apenas bufou de lado.
Encostei em uma das cadeiras da mesa, o cheiro da bebida que as meninas haviam feito estava realmente agradável, e ao notar meu estomago roncando, percebi que deveríamos estar quase na hora do almoço.
-Quer chá? – a ruivinha perguntou se aproximando, aceitei com um sorriso e ela se pois a me servir de costas para o grupo.
Tenho certeza que a ação fora milimetricamente calculada para que pudesse falar comigo sem que os irmãos percebessem. Porque eu duvido que ela seja o tipo de garota que serve um cara, mesmo afim dele.
Mas antes que pudesse tentar me dizer algo, as vestes voltaram a esquentar e ela atendeu o isquelular já sabendo de quem se tratava.
-E então Mag? Conseguiu algo?
"Está bastante difícil, Ly, mas achei um 'Blog da Ling'. Uma garota de descendência japonesa que afirma que a mãe é bruxa. Tem citações dessa Armada Dumbledore no site."
Em segundos a atenção de todos já havia se voltado para a conversa que ela travava com a prima trouxa. A não ser Rose, que ainda conversava com Dominique.
-Averiguou a veracidade?
"Claro que sim... Ela cita o nome do seu pai completo! E dos seus tios Weasley também. A história está bem resumida, mas bate."
-Oi Mag, é o Hugo. Me diz uma coisa, ai nesse site cita algum Malfoy,? – perguntou o galalau ruivo lançando um sorriso cínico na direção da prima.
"Ah, oi Hugo, ... Malfoy? Sim, cita sim... Ahã, ela diz ser uma 'raça' de seres desprezíveis e traiçoeiros..."
-Ah, muito obrigado. Realmente ela sabe do que está falando, gente... O site é confiável. - Cara, aquele garoto estava começando a me irritar.
-E garanto que se ela procurar por Bronw vai estar escrito, vacas com anomalias celebrais. – respondeu Lily.
"Bronw, Bronw..."
-Não, Mag, não precisa... Só me fala sobre a Armada.
"Ok, prontos para a bomba? Seus pais encabeçavam esse grupo!"
-Nós já sabemos disso... – comentou James.
"Ah, achei que era surpresa... Bom, vou ler um pedaço, peraí: ... liderados por Harry Potter, o grupo tinha como intuito aprender Defesa Contra as Artes das Trevas (DCAT) na prática. Iniciou-se da impossibilidade de aprendizado da parte prática da disciplina, ministrada pela profª regente da disciplina: Dolores Umbridge. Ao invés de praticar os feitiços, era apenas permitido, em aulas, a leitura de livros sobre o assunto (Umbridge era irredutível quanto a proibição de prática de feitiços pelos alunos)."
-Mas eles estavam a beira de uma guerra! – chiou a minha Luna, indiguinada – essa mulher era maluca?
"Provavelmente. Continuando: '...O principal objetivo da Armada de Dumbledore foi lutar contra Voldemort e seus Comensais da Morte. Os participantes treinavam na Sala Precisa."
-O lugar onde caímos... – comentou Severus.
-A senha é Banguela. - ouvi a sardenta falar para Dominique.
"Ok. Bom, estou meio longe dessa estátua, agora, vou levar uns minutos para chegar lá... "
-Certo, ficaremos aguardando, prima. – ela fechou o isqueiro assim que terminou a conversa com a minha parceira de casa – O que eu perdi? – ela me perguntou, sentando-se na cadeira onde eu estava encostado.
-A prima trouxa deles achou informações sobre a Armada na tal in... – gaguejei, o nome não me é familiar.
-Internet.
-Isso. A ... – quase que chamei a Lily de ruivinha, e pelo olhar que Rose me dava cheguei a pensar que ela esperava por aquilo - ...sua prima tentou me explicar o que era. Ma não consegui entender.
-Pense na rede de flu. Todas as chaminés interligadas pelo mundo.
-Sim...
-Imagine que você pudesse colocar qualquer informação na rede de flu através delas e, essas informações seriam vistas por qualquer pessoa em todo mundo... É mais ou menos assim que a Internet funcional, os computadores, no caso, seriam as chaminés.
Sorri, imaginando o que algumas pessoas que eu conheço colocariam nessa rede.
-Deve ter muita besteira para se ver.
Rose riu.
-Sim, tem sim. Mas também tem coisas interessantes se você souber procurar direito.
Enquanto isso, a trouxa continuava a explanação.
"Para se comunicar com os outros membros, Hermione Granger criou um sistema de moedas, parecidas com galeões; quando Harry ativasse a sua, todas as outras mudariam também, dizendo a data e a hora da reunião na Sala Precisa, e esquentariam para que os membros soubessem quando seria a próxima reunião."
-A mamãe é o máximo, não é? – vangloriou-se o rapaz.
-Tio George disse que foi daí que ele tirou a idéia dos isquelulares. – completou James.
"...O grupo foi desfeito quando, ao ser denunciado por uma de suas integrantes, foi descoberto e reprimido pela diretora Dolores Umbridge, fato que resultou também na fulga do diretor anterior Albus Dumbledore.
Na época, Dumblendore fora acusado de estar criando um exercito de jovens para atacar o Ministério(...) – Hey Al, seu nome foi em homenagem a esse cara, não foi?"
-Meu nome foi em homenagem a dois dos maiores diretores que Hogwarts já teve, Mag. – disse ele, tentando esconder o orgulho ao encarar o irmão – Palavras do papai.
-Grande coisa... – murmurou James desencostando da enorme poltrona em que escorava e olhando por uma das frestas da janela – Droga. – praguejou.
-O que foi?
-O pai. Ele e os padrinhos estão vindo para cá. Que droga! Por que eles tinham que aparecer justo agora!
Severus olhou na direção do caldeirão.
-A fumaça deve ter os alertado. – concluiu – Eles devem estar achando que é o Hangrid quem está aqui.
-Ai, não, eu não vou agüentar outro duelo com a mamãe, gente. Ela quase decepou os meus dedos há pouco.
-Acalme-se, Hugo... São seis contra três agora. – ponderou a irmã, ao que ele lhe abriu um sorriso arteiro.
-Bom, contra dois... – disse colocando a mão em um dos bolsos e tirando a sua tão querida aranha de lá – A Banguela da um jeito no papai rapidinho.
-Você não vai jogar a Banguela nele, Hugo! Eu não acredito que a trouxe!
"O que diabos está acontecendo, Ly?"
-Assim que der explico, prima. Tenho que desligar agora. - e foi o que ela fez, antes mesmo que Mag conseguisse se despedir – É melhor nos escondermos. James, cabem três pelo menos na capa, você, o Hugo e o Scorpius, que são os maiores. Eu a Rose e o Albus vamos nos esconder. Andem!
E não é que em meio segundo já havíamos obedecido às ordens dela?
Ela tratou de apagar o fogo do caldeirão e se enfiou dentro de um armário, enquanto Rose e Severus buscaram o abrigo embaixo da cama, tão obvio que chegava a ser genial.
James me puxou para junto de uma das paredes e nos cobriu com a capa, tivemos que nos abaixar um pouco, para que nossos pés fossem cobertos também, mas não houve problemas.
A não ser, talvez, o olhar torto que o amante de aranhas me dava. Quase pensei em sair dali e procurar um lugar próprio para me esconder, mas não havia mais tempo.
Minha ulcera ouviu o clique da porta, e em seguida o ranger. E eu voltei a praguejar o dia que conheci Severus, mentalmente.
