O AMOR DO PIRATA

Capitulo 3

- Acorda. Acorda, Rukia.

Abriu os olhos rapidamente ao ouvir a voz de sua mãe, mas depois recordou com tristeza que dia era. O dia em que iria embora de sua casa para sempre.

- Disse às criadas que te acordassem cedo - continuou Hisana -. Mas devia saber que não me dariam ouvidos. Esta casa esteve um caos durante todo o mês com os preparativos da tua viagem. É um milagre consigam fazer algo direito. Os criados estão tão excitados que parece que vão viajar contigo. E, ah!, como sentem inveja da Retsu. Sentirei falta dessa querida amiga. Foi mais mãe para mim do que a própria, mas agora tu precisas dela mais do que eu. – Interrompeu o que dizia e olhou para a filha, com os olhos úmidos de lágrimas -. Ai, Rukia, esse mês passou muito rápido. Agora vais começar uma vida própria.

-Mas você disse que nós nos veríamos novamente, mamãe - replicou Rukia, tirando suas esbeltas pernas da cama.

- Sim, mas isso não modifica o fato de que hoje te vais.

- Eu e Retsu ainda vamos ter que viajar até Saint Malo, onde está o barco, e tu e papai nos acompanharão até ali. Sabias que este dia chegaria, mamãe.

- Ah, por que Byakuya elegeu um homem que vive do outro lado do mar? - perguntou Hisana retorcendo as mãos. Depois sacudiu a cabeça, resignada -. Bem, já é fato. Agora deves preparar-te porque sairemos dentro de duas horas. Ah, onde estão essas criadas?

Rukia riu.

- Talvez na cozinha, falando da minha viagem. Parece que crêem que Saint Martin será um lugar muito interessante para se viver. De qualquer jeito posso vestir-me só. Esqueces que o fiz sem criada durante todos estes anos na escola?

Finalmente as criadas chegaram, e depois de receber uma reprimenda de Hisana, afobaram-se para escolher as roupas que Rukia usaria na viagem até o porto de Saint Malo. Uma das criadas saiu do quarto para procurar água para o banho, e durante as duas horas seguintes todos correram de cá pra lá, ocupando-se dos últimos detalhes.

Assim que Rukia e Unohana se aprontaram para sair, vestidas com roupas quentes, porque era outubro e a temperatura era baixa a essa hora da manhã, Hisana se reuniu a elas na entrada da casa e surpreendentemente, Byakuya foi o último a chegar.

A grande carruagem que Byakuya tinha comprado especialmente para a viagem a Saint Malo era impressionante. Puxado por seis cavalos negros como o carvão era suficientemente grande para transportar todos os baús, e inclusive o pequeno baú que continha o dote de Rukia em ouro.

Ela se reclinou no assento de veludo, com sua mãe ao seu lado e fechou os olhos. O último mês tinha sido caótico, e ela e quase todos os criados tinham trabalhado noite e dia em seu enxoval. Seu vestido de noiva levou muito tempo para ser feito, mas era uma formosa prenda, uma obra-prima, e todos os que tinham trabalhado nele se sentiam orgulhosos dos resultados.

O vestido era de renda de cor branca, que quase se confundia com a alva pele de Rukia, forrado por um caro tecido, exceto nas mangas que cobriam diretamente os braços e se alargavam ao chegar ao final do mesmo. Era um belo traje, com a cintura bem ajustada, decote quadrado e ampla saia. Rukia usaria as pérolas brancas que Byakuya tinha lhe presenteado ao completar dezenove anos e o longo véu usado por sua mãe no dia do casamento.

Unohana tinha supervisionado pessoalmente o empacotamento do vestido de noiva numa caixa a parte para que não amassasse muito. Sentia que revivia o passado, porque vinte e dois anos antes tinha feito preparativos similares para o casamento de Hisana.

O pequeno barco de três mastros estava ancorado a vários dias, esperando os passageiros que partiriam para Saint Martin. Renji Abarai, capitão do "Hihiou Zabimaru", estava na coberta, com o cenho franzido contemplando o porto.

Sentia-se inquieto.

O conde Ichimaru tinha contratado Renji para ir à França, receber sua noiva e a criada; e levá-las à Saint Martin. A primeira vez que Gin falou com ele, Abarai pensou em se recusar a prestar esse serviço ao conde, com a desculpa de não transportar mulheres. Mas Ichimaru lhe fez um oferecimento demasiado tentador.

Esta moça devia significar muito para o conde. No entanto, tinha numerosas dificuldades. Renji teria que isolar às mulheres de sua tripulação de homens rudes.

Ademais, considerava que as mulheres traziam má sorte a bordo de um barco, e os supersticiosos as culpariam de qualquer inconveniente. Por outro lado, esperavam ser muito bem tratadas, com excelentes comidas e um lugar cômodo no barco. Renji sabia que esta seria a pior viagem de seus vinte anos no mar.

Por sorte, fazia uma semana que estavam atracados no Porto de Saint Malo e sua tripulação tivera permissão para andar pela cidade desde então. Já teriam tido suficientes mulheres para sentirem-se satisfeitos durante um tempo. Mas durante o próximo mês no mar era possível que se rebelassem.

Logo Renji viu uma grande carruagem que vinha de uma rua lateral e entrava no porto. Seguramente era a noiva e sua família, pensou com apreensão, olhando todos os baús empilhados no alto da carruagem. Teria que reunir a sua tripulação e partir no dia seguinte, se o vento permitisse. Mon Dieu! Por que tinha aceitado o contrato?

Rukia olhou pela janela da carruagem e viu os barcos ancorados no porto. Tinha tantos navios, de diferentes tamanhos, que se perguntou qual seria o "Hihiou Zabimaru". Byakuya tinha dito que era um pequeno navio de três mastros, mas tinha muitos que coincidiam com essa descrição. Teria que aprender mais sobre barcos, já que o conde possuía muitos, e "Hihiou Zabimaru" era só um deles.

A carruagem se deteve, Byakuya desceu e perguntou a um marinheiro que passava onde estava ancorado o "Hihiou Zabimaru". Resultou que estava precisamente na frente dessa embarcação. Byakuya subiu pela passarela e falou com um homem corpulento que estava na coberta. Depois de uns minutos, voltou e subiu novamente à carruagem.

- O capitão deve reunir sua tripulação, então teremos que passar esta noite numa pousada. Agora baixarão os baús e os subirão a bordo, o que tardará um pouco.

Byakuya foi generoso, porque geralmente não perdia tempo dando explicações à família.

A hospedaria onde se alojaram era bastante decente. Rukia tinha um pequeno quarto para ela, e essa noite desfrutou de um belo banho. Hisana lhe disse que, lamentavelmente, não poderia banhar-se bem durante a viagem, de maneira que desfrutou da fragrante espuma durante duas horas.

Na manhã seguinte, antes que saísse o sol, o capitão do "Hihiou Zabimaru" chamou Rukia pessoalmente. Byakuya apresentou rapidamente o capitão Renji Abarai para sua filha, e saíram de imediato para o barco.

Rukia chorou, como sabia que choraria, e também Retsu e Hisana quando se despediram. Também deu um rápido beijo na face de Byakuya, mesmo que ele parecesse incomodado com tal gesto. Mas, afinal, era o único pai que tinha conhecido, e não podia deixar de gostar dele apesar da sua severidade. No entanto, seria bom se Byakuya pudesse dizer que a amava, ainda que fosse essa única vez.

Dessa forma se despediu de Byakuya Kuchiki, um homem que jamais voltaria a fazê-la sofrer. Mas estava difícil se separar de sua mãe, e o impaciente capitão Abarai resolveu esse problema, avisando para se apressassem, já que o barco tinha que sair do porto e aproveitar a brisa da manhã que os levaria até o mar.

Com uma última olhada chorosa para sua mãe e a sua amada França, Rukia se virou e subiu lentamente pela passarela. Essa manhã não tinha tido tempo de arrumar o cabelo, somente o amarrou de forma simples com uma fita, a longa trança caía em suas costas, e era belo ver os brilhantes fios iluminados pelo sol.

Houve um momento de ansiedade enquanto o capitão Abarai e sua tripulação a olhavam hipnotizados. O capitão não pensava que o conde Ichimaru se casaria com semelhante beleza. Mon Dieu, o conde era um homem muito afortunado.

O capitão Abarai gritou ordens à esquerda e à direita, e a tripulação se dispersou de má vontade. No entanto, muitos seguiam observando às mulheres, de modo que o capitão teve que as levar para seu camarote e as deixar ali. Brindava-lhes sua própria cabine para o resto da viagem, porque era a maior do barco e o conde Ichimaru tinha feito questão de que sua noiva estivesse bem acomodada. Não era um cômodo muito satisfatório, mas não havia outro possível.

Além das mulheres, transportavam também uma fortuna em ouro que era o dote de mademoiselle Kuchiki. Renji não compreendia por que monsieur Kuchiki mandava tanto ouro. A formosa mademoiselle era o maior prêmio que podia aspirar qualquer homem. Não precisava que lhe adicionassem uma fortuna.

O ouro que levava Renji Abarai podia converter em pirata a qualquer homem. A mademoiselle por si só era tentação suficiente. Mas o capitão tinha dado sua palavra, e era uma questão de honra. Levaria sã e salva a mademoiselle ao conde Ichimaru, ou daria a vida por consegui-lo.

==============Fim do Capítulo 3==============