(Aviso Importante)

Domo pessoal

Sei que só apareço no final, mas tenho um aviso a dar, algum tempo atrás avisei sobre uma re-revisão que ocorreria nessa fic, devido a alguns problemas que eu tive na postagem e edição dos capítulos.

A história em si não foi modificada, mas como os capítulos contam com bastante paginas, na hora de revisar alguma coisa sempre acaba passando (erros infames diga-se de passagem), mas ainda sim.

Eu arrumei tudo na medida do possível. Mas a modificação que mais vai chamar a atenção é quanto a Freya - irmã da Hilda, devido a fatos que vão acontecer posteriormente nessa fic, tive de mudar o nome dela para Flér (antiga denominação dada na dublagem pelo estúdio Gota Mágica), também para não confundir com a Freya de "A Grande Batalha dos Deuses" e com a Deusa Freya, que não ira demorar a aparecer.

Em suma, essa é a única mudança gritante. Quanto à história em si, aqui começa uma fase de transição, onde algumas coisas vão ficar mais claras, principalmente sobre o passado e os fatos que ocorreram na Saga de Asgard.

Por enquanto é isso, qualquer coisa aviso depois. Obrigada pela atenção.

Atenciosamente

Dama 9


Boa Leitura!


Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas as Valkirias e Amélia são uma criação única e exclusiva minha para essa saga.


Capitulo 23: Asas que tocam o gelo.

I - Mime e Amélia.

Mesmo ouvindo Siegfried dizer para usar seu quarto, não se sentiu à vontade para isso. Subiu as escadas em direção ao seu, parando em frente à porta. Respirou fundo, dando dois toques na porta. Ouviu um 'Entre' e girou a maçaneta.

Viu Anieri sentada em uma poltrona no canto do quarto, ela voltou-se em sua direção um tanto quanto hesitante.

-Ahn! Só vim pegar umas roupas; Mime balbuciou, sem saber o porque de estar se justificando, sendo que o quarto era seu.

-...; Anieri assentiu. -Ela acordou agora de pouco; comentou, tentando tirar aquela atmosfera estranha que se instaurara quando ele entrara e as palavras de Amélia voltaram a ecoar em sua mente.

-Como ela esta? -o cavaleiro perguntou, aproximando-se do guarda-roupa.

-Melhor, mas ainda esta fraca pela perda de sangue; Anieri respondeu. -A febre já passou e ela só esta dormindo agora;

-...; Mime assentiu silencioso, fitando a face pálida da jovem adormecida. -Ela não devia ter entrado na frente, aquela flecha era pra mim; ele murmurou, suspirando cansado.

-Não deveria falar isso; Anieri falou, voltando-se para ele com um olhar de reprimenda.

-Como n-...;

-Xiiiii; ela falou, fazendo sinal para ele abaixar o tom de voz que estava se alterando.

Levantou-se, dando um suspiro resignado, era melhor conversarem antes que o cavaleiro falasse alguma besteira que não devia. E pelo que conhecia dele, certamente isso não demoraria a acontecer.

-O que foi? -Mime perguntou surpreso, ao vê-la segurar em seu braço, puxando-o para dentro do banheiro.

-Tome um banho, se for preciso gelado. Mas esfria essa cabeça antes que você fale alguma besteira; ela completou, dando-lhe as costas, pronta para sair, mas antes que fizesse isso sentiu-o segurar em seu braço, fechando a porta antes que pudesse sair.

-Do que esta falando? -Mime perguntou, estranhando o tom de voz dela.

-...; Ela balançou a cabeça levemente para os lados, encostando-se na porta e fitando-o. -Não deveria se culpar por algo que não cabia a você impedir de acontecer; Anieri falou, tocando-lhe a face ainda marcada pelas garras da jovem.

Um baixo gemido escapou de seus lábios e tentou se afastar, mas ela apoiou a mão em seu ombro impedindo.

-Feche os olhos; a jovem pediu num sussurro.

-Como? -o cavaleiro perguntou confuso, apoiando uma das mãos na porta, soltando o braço dela.

-Apenas feche; ela repetiu.

Assentiu, fechando os orbes. Uma corrente gelada os envolveu, uma estranha onda de torpor pareceu lhe abraçar, fazendo-o apoiar a outra mão na porta sentindo-se atordoado.

Tocou-lhe a face novamente, vendo uma aura prateada envolve-los proveniente de seu cosmo. Aos poucos as marcas foram desaparecendo, restando apenas o sangue já seco.

Abriu os olhos, deparando-se com o olhar tranqüilo dela sobre si. Afastou-se, caminhando até o espelho. Levou a mão instintivamente ao local, vendo que não havia mais as marcas.

-Ainda não tenho muita pratica de fazer isso sem perder muita energia; Anieri comentou, passando a mão nervosamente pelos cabelos.

-A cura pelo cosmo; ele murmurou, olhando atentamente para o próprio reflexo.

-...; Ela assentiu.

-Porque f-...;

-Fiz isso? -Anieri o cortou, completando o que ele iria dizer. Mime assentiu. -Para você entender que existem coisas que podemos mudar e coisas que não cabem a nós fazer isso;

-...; Piscou confuso, sem entender o que ela queria dizer.

-Entrar na sua frente, foi uma escolha dela. Impedir isso, não dizia respeito a você; Anieri falou, aproximando-se dele. -Existem coisas que por mais que doam, precisam acontecer. Não existe nada nessa vida sem merecimento, agora você pode não entender isso, mas tudo tem um propósito; ela completou em tom enigmático.

-Mesmo assim, aquela flecha era pra mim, ela poderia ter morrido; ele falou, desviando o olhar.

-As coisas acontecem apenas quando devem acontecer Mime; Anieri falou, pegando-o de surpresa ao envolver-lhe a cintura com os braços, apoiando displicente a cabeça em suas costas.

Fechou os olhos por um momento, apoiando-se na pia. Sentia-se bem com ela e não negava. Era estranho como com apenas isso ela conseguisse lhe acalmar.

-Apenas feche os olhos e confie; ela sussurrou, elevando seu cosmo de maneira que novamente viram-se envoltos por uma luz prateada.

Os vidros do box ficaram embaçados, uma nuvem esbranquiçada começou a erguer-se do chão.

Sentiu sua mente turvar-se ficando tão branca quanto os azulejos nas paredes, era como se sua mente voasse para lugares longínquos, intocados. Voando por vales, planícies e dunas cobertas de gelo.

Era como se tais pensamentos tomassem a forma de um belo falcão de penas brancas, que tocava o gelo num suave rasante.

Sua respiração tornou-se calma e controlada, seguindo o toque ritmado de seu coração, como se nada mais importasse.

-Lembrança-

Passou a mão nervosamente pelos olhos tentando aparar as lágrimas, havia prometido a si mesmo que não iria se rebaixar a ponto de ficar chorando pelos cantos. Não havia como mudar aquela decisão do pai e só o que restava era aceitar.

-Mime; Falken chamou, saindo na frente da casa, vendo-o novamente sentado no chão, com a harpa em mãos. -Já não lhe mandei treinar? -o tutor perguntou, tentando manter-se firme diante da decisão de tornar aquele garoto seu sucessor como defensor de Asgard, mesmo que tivesse de ser duro, por vezes cruel com ele.

Sabia o que estava por vir, com Durval no poder e a verdadeira regente de Asgard longe da Terra Média, uma guerra interna estava se formando. Os príncipes do reino dos elfos haviam abandonado o conselho junto com os anões.

Os únicos que declaravam sua fidelidade inabalável a Asgard e a verdadeira família real eram ele, Alberich, Fenrir e a família Siegfried, que não apoiariam Durval nem sob pressão.

Precisavam de uma nova geração de cavaleiros fiéis que pudessem proteger a Terra Média quando não mais estivessem ali, por isso, Mime como seu herdeiro estava sendo treinado por si para ser o Guerreiro Deus de Benetnash, porém via que o garoto não gostava nem um pouco de lutar.

Não negava que isso por vezes lhe irritasse, não existia ninguém nesse mundo que quando provocado, não respondesse a isso com agressividade, era uma questão de instinto. Mas ele não, preferia apanhar ao ter de ferir alguém. Muito nobre, porém não lhe daria muitos retornos futuramente se não aprendesse ao menos a se defender.

-Mandou; ele respondeu indiferente, ao se levantar.

-E o que esta fazendo? -Folken perguntou, fitando-o com um olhar sério.

-Meditando; o garoto respondeu, em tom debochado. Para bom entendedor, meia palavra basta; ele pensou, ferino.

-Oras seu; o tutor resmungou, erguendo a mão para punir-lhe por aquilo, mas afastou-se rapidamente quando de trás do muro um tigre branco saltou, colocando-se entre ele e Mime.

Os orbes azuis queimaram de ira e sabia que ele (ou ela) estava prestes a atacar, mas desde quando um tigre branco estava andando naquela região? Lembrou-se que a pouco mais de três anos Durval mandara matar todos que encontrassem na região, não concordou com isso, mas quem executou a sentença foram os capachos que o seguiam.

O garoto olhou assustado para o tigre, como se perguntasse o que ele estava fazendo ali, mas com um rápido olhar para o céu constatou que a lua cheia já se erguia.

-"Droga, como pude esquecer"; ele recriminou-se.

Sabia que ela deveria ter sentido seu cheiro naquela direção e ido atrás pensando ter acontecido algo.

-Mime, vá pra casa, é perigoso aqui; Folken avisou, alarmado.

-...; Negou com um aceno, sabia o que ele iria fazer se a deixasse ali sozinha.

-Vamos, estou mandando; ele avisou irritado, com medo de que a qualquer momento o garoto pudesse ser atacado.

-Não vou, você vai mata-la se eu for; Mime falou, aproximando-se mais do tigre.

-SAIA DAÍ; Folken berrou, mas para a sua surpresa o tigre voltou-se para o garoto com um olhar mais calmo.

Mime aproximou-se do tigre, afagando-lhe os pelos quase prateados da cabeça, ouvindo um baixo ronronado, enquanto o tigre sentou-se sobre as patas traseiras.

-Mime; Folken sussurrou, vendo o tigre voltar-se em sua direção com os orbes serrados, em tom de aviso.

-Ela não vai fazer nada, não se preocupe pai; o jovem respondeu, ajoelhando-se. -Ta tudo bem; ele sussurrou, vendo as orelhinhas felinas moverem-se com suavidade.

Ouviu um baixo miado do tigre, que mordeu levemente a manga de sua camisa, querendo indicar-lhe um caminho.

-Encontre com eles, depois nós conversamos; Mime sussurrou, para que somente ela ouvisse.

O tigre assentiu, afastando-se em seguida, não sem antes voltar-se com um olhar serrado para o homem. Desatou a correr em meio à neve, desaparecendo em seguida.

Ergueu-se do chão, respirando fundo. Como explicar para o pai agora? Voltou-se para ele e pela primeira vez em muito tempo, viu-o com um olhar brando.

-Venha comigo Mime, precisamos conversar; Folken falou, entrando novamente em casa.

Assentiu, seguindo-o um tanto quanto incerto sobre o que aconteceria depois.

-o-o-o-o-

Sentaram-se nos sofá na sala, a lenha na lareira trepidava, queimando e aquecendo o local. O silêncio ainda predominava entre eles até ser quebrado pelo cavaleiro.

-Desde quando conhece aquele tigre? -o tutor perguntou.

-Pai...; Mime começou, sem saber como explicar.

-Não se preocupe, só quero saber; Folken falou, tentando acalma-lo.

-Já tem algum tempo, um dia me perdi na floresta e encontrei com ela; o garotinho respondeu, hesitante.

-Ela? -ele perguntou, surpreso.

-...; Mime assentiu.

-"Não é possível, então ela esta viva"; Folken pensou, incrivelmente aliviado. -Ahn! Mais alguém sabe sobre isso Mime?

-Apenas Siegfried e Alberich; ele respondeu, achando estranho a pergunta.

-"Então o Alberich sabe sobre ela"; ele pensou intrigado. -Mime, vou lhe pedir uma coisa, agora isso pode parecer estranho, mas um dia você vai entender o porque; o tutor começou.

-O que é? -Mime perguntou, achando estranho a forma como ele falava.

-Não conte a ninguém sobre a existência desse tigre;

-Uhn? -ele murmurou confuso.

-Vou lhe contar uma coisa, assim você avisa Siegfried e Alberich também; Folken começou. -Há cerca de cinco anos atrás, vocês ainda eram muito pequenos. O Durval decidiu que os tigres brancos siberianos que viviam em Asgard eram muito perigosos;

-Mentira, a Amélia não é assim; o garotinho ralhou, revoltado.

-Amélia; Folken murmurou surpreso, tendo todas as suas suposições confirmadas.

-Bem...; Mime começou hesitante, pressentindo que falara algo demais.

-Nessa época...; Ele continuou, disposto a explicar o necessário para o garoto. -Ele mandou que seus subordinados exterminassem todos os tigres da região;

-O QUE? -Mime berrou.

Arqueou a sobrancelha ao ver uma chama azulada incendiar-se nos olhos do filho. Mime não gostava de lutar, mesmo em treinamentos consigo, ele preferia apanhar ao erguer a mão para si.

Achava isso uma atitude passiva demais para alguém que tinha como destino tornar-se um guerreiro deus, mas o que viu lhe deixou interessado. Todos têm um ponto fraco, que quando provocado pode cometer milagres; ele pensou.

-Isso mesmo; Folken falou, veemente. -Por isso, se esse tigre for pego por ai, por algum dos partidários do Durval, possivelmente vão mata-lo;

-Mas não podem; Mime falou, chocado. -Não vou deixar isso acontecer; o garotinho falou, com os punhos serrados.

-Então terá de se esforçar mais em seus treinamentos, sendo um fraco não poderá fazer nada; o pai aproveitou a deixa. Seria interessante ver o que ele poderia fazer, agora que tinha um motivo pelo que lutar.

-Não me importo, mas não vou deixar nenhum daqueles vermes se aproximarem da Amélia; ele avisou, com uma chama intensa queimando nos orbes carmesim.

-Então, volte a treinar; ele mandou, agora mais sério.

Surpreendeu-se ao ver o filho levantar e seguir para fora, realmente disposto a isso. Fitou-o demoradamente, viu que algo mudara. A possibilidade de alguém ferir aquele tigre aos poucos começava a despertar uma fúria que não existia antes nele.

-o-o-o-o-

Longos anos já haviam se passado, muitas coisas haviam acontecido nesse meio tempo. A morte prematura de Angélica que abalou toda a ordem dos cavaleiros, principalmente dos Alberich.

Sabia que não era certo pensar assim, mas se pudesse, ele mesmo mandaria aquele infeliz do Durval para o inferno. Quantas famílias ele já não destruirá por aquela ambição infame?

Novos guerreiros deuses da ordem de Durval foram convocados, entre eles estavam Loki, Fenris e Urs. Asgard não precisava de três idiotas, que só esperavam o momento certo para apunhalar pelas costas seu regente.

Hilda a verdadeira princesa de Asgard não estava na Terra Média. Há alguns anos, quando a garota completara seis anos, fora tirada por ele, Alberich e Siegfried de lá, já prevendo que Durval tentaria mata-la para ter o trono absoluto, mas seus planos foram frustrados e isso teve uma retaliação.

Prova disso fora à morte de Fazolt e Alexandra. O que fora uma perda irreparável, mas agradecia as Deusas do Destino o fato de que pelo menos Amélia houvesse sobrevivido e agora tendo por volta de dezesseis anos já estivesse treinando com Lílian para ocupar o lugar que lhe era de direito na ordem dos Guerreiros Deuses como uma Valkiria, representante da família Fazolt.

-Pai; ouviu Mime lhe chamar de dentro da casa. Respirou fundo, precisava fazer aquele garoto expandir seu cosmo de uma vez. Não sabia quando uma guerra iria começar e não poderia mais depender dos outros para que uma atitude fosse tomada, então, teria de agir sozinho, fazendo com que pelo menos o filho, fosse fiel a Asgard e por aquilo que deveria lutar.

Caminhou para dentro da casa, vendo-o de costas para si, em frente a uma escrivaninha. Ele tinha o relicário nas mãos, o mesmo que guardara com sigo, desde o dia em que o trouxera para viver em Asgard como seu filho.

-Mime; chamou, vendo o garoto se assustar e virar-se em sua direção.

O relicário caiu no chão, fazendo um baixo barulho de prata tilintado.

-Quem são? -Mime perguntou com a voz tremula. Apoiando-se na beira da escrivaninha, sentindo as pernas tremerem.

-Seus verdadeiros pais; Folken respondeu, de maneira fria.

-Me-us pa-is? -o garoto perguntou, assustado.

-o-o-o-o-

-Eu matei seus verdadeiros pais, Mime;

Aquelas palavras ecoavam de maneira aterrorizante em sua mente. Porque? -ele se perguntava, sentindo as lágrimas correrem por sua face furiosamente.

-Puff! Que patético, você chora na frente daquele que matou seus pais; o tutor falou, sem esconder o sarcasmo, embora ter de fazer isso lhe partisse o coração.

-É MENTIRA; o garoto berrou.

-Não, não é. Ele também era um fraco como você. Fico me perguntando como quer protege-la sendo tão covarde e fraco assim? -ele desdenhou.

-CALA A BOCA; Mime gritou, com os orbes queimando em fúria.

-"Isso, continue assim"; Folken pensou, sentindo o cosmo do filho elevar-se de maneira surpreendente, nem nos últimos onze anos de treinamento o vira eleva-lo daquela maneira. -Essa é a verdade, fuja dela e só provara que estou certo;

-JÁ DISSE PARA CALAR A BOCA; ele berrou, com apenas um golpe, fora muito rápido.

-Me perdoe filho; ele sussurrou.

Seu corpo ficou pesado, fazendo com que caísse sobre os próprios joelhos. Um circulo vermelho formou-se no abdômen do lado direito. Aos poucos a visão começou a turvar-se e momentos depois, seu corpo caia sem vida sobre o chão coberto de neve.

Afastou-se, com um olhar frio e indiferente. Sabia que não era um fraco e não iria permitir que mais ninguém lhe dissesse isso. Aos poucos as lágrimas cessavam a queda.

-Mime; alguém chamou se aproximando.

Viu sair por entre as arvores, uma garota da mesma idade que a sua, cabelos negros que caiam sobre os ombros e orbes acinzentados. Ela estava vestida com uma típica roupa de treinamento. Haviam combinado na noite passada de treinarem juntos pela manhã, mas não esperava que aquilo fosse acontecer.

-Amélia; ele sussurrou, vendo-a olha-lo surpresa, ou melhor, olhar surpresa para quem estava atrás de si.

Seus olhos ganharam um brilho de angustia e tristeza ao fitá-la. A jovem aproximou-se dele, sentira seu cosmo expandir-se furiosamente há poucos minutos atrás, mas pelo visto chegara tarde demais para impedir que os dois se confrontassem.

-Calma; ela sussurrou, abraçando-o fortemente.

Não queria chocar, não deveria, embora soubesse disso, simplesmente não conseguia evitar descarregar toda a dor que sentira nos últimos anos, ao pensar na possibilidade de que se houvesse morrido junto com os pais, tudo teria sido melhor.

-Fim da Lembrança-

-Calma; ouviu alguém sussurrar atrás de si, abraçando-o fortemente.

Segurou-se com mais força na borda da pia, só agora notando as grossas lágrimas que caiam de seus olhos. Não sabia o porque, mas simplesmente se lembrara de tudo aquilo.

-Não precisava ser daquela forma; ele falou num fraco sussurro, respirando pesadamente.

O espelho do banheiro adquirira uma fina camada de umidade tornando-se fosco. A temperatura ali dentro parecia ter caído radicalmente, pois via uma tênue fumada escapar de seus lábios cada vez que soprava o ar.

-Não; Anieri falou.

Estava tão ou mais chocada do que o cavaleiro. Nunca pensou que pudesse acontecer algo assim quando seus cosmos estivessem na mesma sintonia e entrassem naquele estado de completa letargia, despertando as mais profundas lembrança que tinha e que juravam estar enterradas, como a momentos atrás.

Agora entendia o que fizera com que ele fosse tão serio, por vezes arrogante e frio, mas ainda sim, ter aquela tristeza estampada em seus olhos.

-Mas quem sabe tinha de ser assim; ela completou.

Virou-se para ela confuso. Agora simplesmente não sabia mais se desejava uma resposta para entender o que estava acontecendo.

-Entenda que por mais difícil que as coisas sejam, para tudo existe um lado positivo; Anieri falou, abraçando-o fortemente, sentindo-o enlaçar-lhe pela cintura.

-Como eu queria acreditar que é assim tão fácil; Mime falou, dando um suspiro triste.

-Não é, mas fazer a diferença só depende de nós; ela sussurrou, acariciando-lhe levemente os cabelos.

-Mas...;

-Sabe, antes de você chegar, estava pensando numa coisa; Anieri começou, sentindo-o apoiar o queixo em seu ombro, respirando com mais calma agora.

-No que? -Mime perguntou, fechando momentaneamente os olhos. Já desistira de tentar explicar o que estava acontecendo, agora só restava viver aquilo que estavam sentindo, sem buscar pela teoria.

-Como seria ter uma vida normal? -ela respondeu.

-Uhn? -ele murmurou confuso.

-Quando eu tinha seis anos meus pais morram; a jovem começou, dando um baixo suspiro, apoiando a cabeça sobre o ombro dele. -Folken era irmão da minha mãe, legalmente meu tutor, naquela época Durval já estava no poder e começou a eliminar todas as Valkirias em potencial; a jovem explicou, respirando pesadamente.

-Anieri; o cavaleiro murmurou, afastando-se parcialmente para fitá-la. Dando-se conta do ponto que ela queria abordar.

Ela assentiu. Não existia uma vida sem confiança e agora, mais do que nunca, sentia necessidade de confiar nele.

-Naquela época por segurança, as garotas que sobreviveram, foram tiradas do país e eu fui mandada a Ellesmere, uma ilha no Canadá para ser treinada como amazona. Depois só retornei a Asgard duas vezes, uma foi na Batalha dos Deuses quando Durval morreu e depois quando os guerreiros deuses morreram e Hilda nos convocou;

Fitou-a em silencio, sem ousar interrompe-la...

-Eu sempre me perguntava como seria ter uma vida normal. Sem tantas injustiças, sem tanta incerteza e ambições que apenas destruíram tantas famílias; Anieri falou, quase num sussurro. -Durante muito tempo achei que ser escolhida pra ser Valkiria não era nenhum dom para se exaltar glorias e sim uma maldição que teria de carregar;

Um baixo suspiro saiu de seus lábios, queria ir até o fim com isso...

-Mas ai quando voltei para Asgard, vi que nem todas as pessoas que vivem aqui eram arrogantes e petulantes, que viviam apenas voltados para suas próprias ambições, sem se importar com o sofrimento alheio. Conheci pessoas que realmente mereciam alguém para lutar por elas.

-...; Ele assentiu compreensivo, entendendo a que ela se referia.

-Ai, passei a ver as coisas de outra forma. Que todos nós temos a vida que nós construirmos. Para termos uma Era de paz, temos de lutar por ela. Por isso, muitas coisas às vezes podem ser cruéis, mas precisam acontecer, só assim aprendemos e evoluímos... Amadurecemos; ela completou, num sussurro.

-Entendo; Mime murmurou, estreitando mais os braços em torno dela, ouvindo-a suspirar.

-Não se culpe por ela ter entrado na sua frente; Anieri continuou, apoiando a cabeça sobre o peito dele. -Quando gostamos de alguém, não medimos limites para protege-lo, incluindo entrar na frente de uma flecha; ela completou.

-Anieri; ele chamou num sussurro, tocando-lhe a face, erguendo-a delicadamente pelo queixo.

Sentiu a face aquecer-se, não estava acostumada a vê-lo com aquele olhar. Os obres carmesim tinham um brilho indecifrável e hipnotizante. Os dedos dele correram com suavidade entre as mechas esverdeadas e o braço em torno de sua cintura, estreitou-se mais, aproximando-os, colocando seus corpos e aumentando aquele calor reconfortante existente entre eles.

-Não me importaria de entrar na frente de uma flecha; o cavaleiro sussurrou, abaixando a cabeça, sentindo a respiração dela se descontrolar e ambos os corações baterem no mesmo ritmo acelerado.

-Mime; ela sussurrou, engolindo em seco.

-Contanto que você estivesse atrás; ele completou, roçando-lhe os lábios com suavidade.

Sentiu a respiração dele em sua face, a muito já desistira de lutar contra o que vinha sentindo, mal se deu conta quando a ansiedade sobrepujou a razão e entreabriu os lábios.

Deixou a mão prender-se entre os fios esverdeados, detendo-se na nuca, aproximando seus lábios ainda mais, antes de toma-los num beijo intenso. Apreciando aquele momento como se dali a alguns segundos o mundo fosse simplesmente acabar.

Acariciou-lhe os lábios com a ponta da língua, com suavidade. Tirando-lhe um tímido gemido dos lábios, antes de intensificar o beijo, deixando que as línguas buscassem ávidas, uma pela outra, acariciando-se. Deixando-se envolver por aquele momento que nada mais importava.

Dois toques na porta, fez com que se afastassem parcialmente.

-Tem alguém batendo; Anieri falou num sussurro enrouquecido.

-Deixa bater; Mime respondeu, beijando-lhe novamente, sentindo-a passar os braços em volta de seu pescoço, buscando por apoio.

-Anieri;

Afastaram-se, ouvindo a voz de Nora chamando pela jovem na frente do quarto.

-Ahn! -a jovem começou, sem saber o que dizer. -É melhor você tomar um banho e descansar; Anieri falou, recriminando-se internamente por não ter nada melhor para dizer. -Acredite, isso vai lhe fazer bem; ela completou, vendo-o entreabrir os lábios como se fosse dizer algo.

Desvencilhou-se dos braços dele, abrindo a porta para sair.

-Anieri, espere; Mime pediu, segurando-lhe o pulso.

Virou-se para ele, com cautela.

-Podemos conversar depois? -Mime perguntou, hesitante. Não poderiam simplesmente fingir que as coisas já estavam resolvidas.

-...; Anieri assentiu. -Nos vemos depois; ela completou, saindo do banheiro e fechando a porta atrás de si.

II - Confusões.

Passou a mão pelos cabelos nervosamente, afastou parcialmente as cortinas de seda, vendo a noite estrelada lá fora. Ouviu um leve ressonar vindo do sofá, olhando de soslaio por sobre o ombro, viu-o dormindo com uma expressão serena na face.

Balançou a cabeça levemente para os lados. Realmente, existiam pessoas que eram imãs para problemas; ela pensou, lembrando-se de tudo que delicadamente o 'obrigara' a lhe contar.

Voltou-se para a janela, dando um baixo suspiro. Sem vê-lo acordar, vendo-a ali e se levantar, indo em sua direção.

-Uhn! Em que esta pensando? -Anteros perguntou, com a voz sonolenta, enlaçando-a pela cintura, apoiando o queixo em seu ombro.

-Nada importante; Carite respondeu, desvencilhando-se dos braços dele. Era melhor voltar para o quarto e dormir; ela pensou, lembrando-se que apenas levantara para tomar um copo de água e acabara se detendo ali por mais tempo.

-Carite; Anteros chamou, dando um pesado suspiro.

Sabia perfeitamente que ela tinha todos os motivos do mundo para se afastar. Tanto que só lhe deixara ficar ali depois de usar a sua melhor carinha de carente e isso quase não foi suficiente, se não, teria sido expulso a vassouradas, porque ela ficara realmente irada.

-Boa noite Anteros; a sereia falou entrando no quarto, fechando a porta em seguida.

-Boa... Não sei pra quem; ele completou, num muxoxo contrariado.

Sentou-se novamente no sofá, recostando-se melhor no encosto. Quando achava que as coisas estavam melhorando, uma bomba caia sobre sua cabeça, provando o contrário. O pior de tudo, é que essa parte da história não contara ainda para a irmã; ele pensou, engolindo em seco.

Se Carite já surtara consigo ao saber de estava diretamente relacionado com o desaparecimento de Freya, imagina Aishi, que já colocara até os cavaleiros de ouro atrás da Deusa e não duvidava que os príncipes da Terra Média também moviam seus cavaleiros para isso.

Passou a mão nervosamente pelos cabelos, maldita hora que fora pisar em Asgard, há cinco anos atrás; ele pensou, fechando os olhos momentaneamente.

-Lembrança-

Oculto pela neve e sombras daquele lugar, apenas observou-a aproximar-se de cada uma das lapides, viu as mãos delicadas tocarem cada uma das safiras, fazendo uma aura prateada envolver as armaduras. Na ultima, que jazia sem safira, uma nova surgiu.

Ela retirou parcialmente o capuz que cobria-lhe a face, revelando a imagem de uma bela jovem de melenas douradas e orbes violeta. O brilho em seus orbes era como dissessem 'dever cumprido'.

A jovem afastou-se rapidamente, passando pelos portões tortos pelo tempo e desgastados pela neve. Desaparecendo entre as arvores, na entrada de um bosque não muito longe dali.

Afastou-se, seguindo-a. Atrás de si uma explosão de cosmo aconteceu, para momentos depois, ser revelado o verdadeiro milagre, à volta dos Guerreiros Deuses de Asgard.

-o-o-o-o-

Ela estava sentada na beira de um lago e estranhamente a sua volta, tudo era verde e florido, diferente do resto da região que era branco e quase sem vida. O leve vestido branco que usava, esvoaçou com o vento, levando até si, uma suave essência de flores silvestres.

-Pensei que Harmonia confiasse em mim para essa missão e não precisasse de mensageiros para me vigiar; a voz imponente da jovem ecoou por todo o local.

Ela levantou-se, virando em sua direção. Por um momento vacilou diante daqueles orbes violetas, tão doces e intimadores, que o deixaram sem ação.

-Ela confia; respondeu, quase num sussurro. -Mas eu não; Anteros completou, com o típico olhar frio e equilibrado.

Ela balançou a cabeça levemente para os lados, sorrindo, um sorriso com um 'Q' de malicia, que definitivamente não combinava com os lábios finos e bem traçados.

-Você deve ser o Anteros; ela falou, mais para si do que para ele, enquanto encostava-se no tronco de um frondoso pinheiro, brincando distraidamente com uma mecha ondulada dos cabelos dourados.

-E você? Freya, eu suponho; ele falou, não que não soubesse disso, mas falara apenas para deixar claro, quem era o dono da ultima palavra.

-Certamente; a jovem respondeu, com um olhar enigmático. -Harmonia me falou de você;

-Imagino; Anteros respondeu, vaga e calculadamente.

-Disse que você tinha um poder interessante; Freya comentou, casualmente e com um olhar inocente, que definitivamente também não combinava com ela, a julgar pelo que tinha em mente.

Aproximou-se com um olhar felino, que o fez recuar um passo.

-Aonde quer chegar com isso? -Anteros perguntou, com a voz vacilante.

-Gostaria que me fizesse um favor; Freya começou, fitando-o demoradamente, como se os orbes violeta pudessem vasculhar o mais fundo de sua mente, alma e coração.

-Favor? -ele perguntou, arqueando a sobrancelha, vendo-a apenas menear a cabeça, concordando. -Que favor?

-Quero uma de suas flechas; ela respondeu, com uma expressão carregada.

-O que? -Anteros perguntou surpreso.

-Isso mesmo, apenas uma; Freya falou, parando em frente a ele.

Prendeu a respiração, surpreso. Não sentira ela se aproximar daquela forma, sabia que estavam num jogo perigoso, que o primeiro a vacilar, teria de ceder, então, todo cuidado era pouco agora.

-Impossível, não vou lhe dar isso; ele exasperou, afastando-se perturbado.

-Por favor; ela pediu, num sussurro sedutor, dando um passo a frente.

Arregalou os olhos surpreso, ao ver no momento seguinte os cabelos dela tornarem-se negros e lisos, os orbes violeta cintilaram um brilho mais intenso e diferente, só conhecia uma pessoa com esse olhar.

-Ariel; ele sussurrou, sentindo as costas tocarem o tronco de uma arvore, impedindo-o de recuar mais.

Piscou freneticamente os olhos, vendo que estavam apenas os dois ali e o que antes era a deusa do amor, tornara-se alguém completamente diferente a seus olhos.

-Anteros; ela sussurrou, parando em frente a ele, tocando-lhe delicadamente a face.

-Onde esta a Freya? -ele perguntou, com a voz tremula.

Sua mente simplesmente o impedia de pensar direito com ela ali. Conseguia sentir com perfeição o toque suave da pele acetinada, a essência de lírios misturado à água do mar.

-Por favor, apenas uma flecha; ela pediu, com a voz suave e sedutora, sussurrando entre seus lábios.

Serrou os orbes em busca de um ultimo resquício de racionalidade, mas essa morreu no momento que sentiu os lábios dela sobre os seus. Quentes e macios, deixando-o completamente desarmado entre seus braços, que o envolveram num estado letárgico, que qualquer pensamento racional, seria imediatamente obliterado.

-Fim da Lembrança-

-"Droga"; ele pensou, deixando-se cair deitado novamente no sofá.

Carite tinha toda razão ao querer afasta-lo. Suspirou cansado, lembrando-se do que ela falara ao pedir que fosse embora.

-Lembrança-

-Você fez o que? -ela exasperou, massageando as tempôras. Andando de um lado para outro da sala.

-Carite, veja bem...; Ele começou, tentando aproximar-se dela, mas a jovem voltou-se para ele com os orbes queimando em pura ira, fazendo-o recuar.

-Seu irresponsável, sabe no que isso pode acarretar? -a sereia perguntou, ainda processando tudo o que ele lhe contara.

-Eu sei, mas...; Anteros tentou se justificar, porém sabia que não havia desculpa pela atitude que tivera.

-Vá embora; ela mandou, caminhando até a porta e abrindo-a.

-Carite; ele falou, surpreso. Ela estava realmente o mandando embora.

-Vamos, anda; Carite falou, visivelmente impaciente.

-Mas...;

-Não vou ficar servindo de estepe pra você Anteros, então é melhor ir embora; ela mandou.

-Como? -ele perguntou confuso.

-É evidente o que você ainda sente algo por Ariel e ficar se distraindo com outra pessoa não é a melhor alternativa e pode ter certeza, não levo vida pra ficar servindo de estepe, enquanto você não decidir o que quer da sua própria vida, é melhor que não me procure; ela completou, com um olhar frio, que não admitia contestação.

-Fim da Lembrança-

-"Definitivamente, eu mereço"; ele pensou, pousando a mão sobre os olhos, suspirando pesadamente.

Mas havia um ponto que nem a sereia e a irmã iriam entender, Freya não queria ser encontrada. Só esperava que ainda houvesse tempo de resolver as coisas, antes que sua situação ficasse pior do que já estava.

Continua...