Head over heels and it's making me nervous
Get on my knees and it's making me worse
There's no way out so I pay lip-service
If this thing is bigger than the both of us
If you could just walk for a mile in my shoes
If you don't lose your mind you got no mind to lose
Burnout - Def Leppard
Tudo estava acontecendo rápido demais!
Depois de semanas sem acontecer absolutamente nada, o que era estranho, mas fazia sentido de um jeito meio irônico.
De qualquer forma, Dean decidiu sentar no sofá surpreendentemente confortável de sua sala e maneirar um pouco, deixar tudo devagar o bastante para ser entendido, começando com algumas perguntas pra tal Daphne.
"Me solta AGORA!"
Aparentemente ela não gostou do plano. Talvez se não estivesse amarrada não gritasse tanto, mas como saber?
"Então você quer ir embora?" ele deu de ombros e esfregou os olhos, num misto de cansaço e tédio "Por que tão cedo? Eu tenho a noite toda"
"Pra fazer o que? Ficar me olhando?"
"Também, você fica bonitinha amarrada. Talvez mais tarde eu coloque uma mordaça, mas antes eu preciso que você me responda" ela travou o queixo e Dean resolveu acrescentar "Aí você pode ir embora."
"Sério? Sério?" era de se pensar que ela ficaria assustada, mas... "Você me amarrou numa cadeira no meio de uma Armadilha do Diabo, me deu um banho de água benta, me entupiu de sal, cortou meu braço com prata, me exorcizou duas, DUAS vezes e eu só tenho que te responder?"
Era mesmo de se pensar que ela ficaria assustada, mas na verdade Daphne parecia cada vez mais irritada. E era tudo um drama lascado! Tudo bem, ele não ia mentir, tinha amarrado a Patricia Arquette em miniatura em uma cadeira e colocou essa cadeira no meio de uma armadilha do diabo. O que ela esperava que ele fizesse, esses são tempos difíceis!
Mas a coisa do banho e entupir de sal, ah, por favor... Ela não estava exatamente seca e talvez tenha alguns problemas renais no futuro, mas ainda assim, que puta rainha do drama.
Dean girou a faca – a mesma que havia usado para fazer o corte no braço dela – entre os dedos e seja lá o que Daphne ia falar a seguir morreu em sua boca. Ela torceu o nariz e engoliu com força. Isso foi... medo?
"Se acalmou?"
Ela não respondeu.
"Eu não quero que você pare de falar, só quero que você diga as coisas certas!"
Ainda nada.
"Depois desses testes eu já sei grande parte das coisas que você não é, mas eu ainda preciso saber o que você é!"
"Pra que? Pra me matar?" engraçado como ela tinha medo demais pra ficar irritada de verdade, então sua voz saia completamente esganiçada.
"Bom... é!" os olhos dela quase saltaram do rosto "Quer dizer, depende exatamente do que você é."
"Eu sou humana!" ela parecia a beira das lágrimas "Sempre fui! Eu tenho mãe, pai, tinha uma irmã-"
"Jessica" ele completou com um tom de cinismo que ela não pareceu notar.
"É!" Daphne quase sorriu, aliviada "Você chegou a conhecê-la, não é? "
"Ela morreu."
Daphne desviou o olhar por um instante e pareceu que a conversa tinha acabado ali.
Ok. Esse foi um golpe baixo. Especialmente se o que ela tá dizendo é verdade, aí sim ele foi um puta dum escroto. Com um suspiro, Dean se apoiou nos cotovelos, inclinando o corpo na direção dela, ao mesmo tempo Daphne se afastou o quanto podia, fazendo o máximo pra tentar se fundir com a cadeira.
Dean parou e tentou analisar a expressão dela.
"Você tem medo de mim?"
"Tenho."
"Por que?"
Primeiro ela arqueou as sobrancelhas, numa expressão feita pra deixar os outros se sentindo como retardados, lançou um olhar rápido para as mãos amarradas, mas acabou deixando pra lá. "Porque eu sei o que você pode fazer."
"Mas se você viu mesmo as minhas" ele limpou a garganta e desenhou aspas no ar "memórias..."
"Eu vi!"
"Deveria saber que eu mato o sobrenatural, não machucaria humanos."
"É... eu sei."
"Então, se você é humana, por que está com medo de mim?"
O joelho de Daphne começou a balançar e ela mordeu os lábios, tentando segurar as palavras. "Você acha que eu sou humana?"
"Não. Eu não acho."
"Então que chance eu tenho?"
Dean recostou-se no sofá, afundando o corpo nas almofadas e não deixou de notar como ela estreitava os olhos na direção dele. Ela só fazia isso quando ele demonstrava qualquer tipo de conforto.
"Mas você tá certo." ela continuou, flexionando os dedos, as cordas estavam começando a cortar sua circulação "A Jessica morreu. Você estava lá, não estava?"
Dean ignorou a pergunta e se adiantou, enfincando a faca no encosto da cadeira, ao lado dos olhos dela, que se fecharam no mesmo instante. "Como você entrou na minha cabeça daquele jeito?"
"Eu não sei..."
"Como viu minhas memórias?"
"Eu não sei!"
"Como me trouxe aqui?"
"Não!" ela não só abriu, como arregalou os olhos "Eu não fiz isso!"
"É..." ele riu "Não fez."
Daphne baixou a cabeça, e voltou a fechar os olhos com força, murmurando para si mesma. Dean já estava prestes a avisa-la que presa naquela armadilha, não havia jeito nenhum de aquela papagaiada funcionar, mas percebeu que as palavras pareciam dizer outra coisa.
"Você está rezando?" ela não respondeu, continuou de cabeça baixa "Acha que se vomitar uma Ave Maria pra cima de mim, eu vou ficar com peninha e te soltar?"
"Meu Deus!" Daphne exclamou "Eu nem sei como isso aconteceu! Não é como se eu passeasse por aí vendo memórias alheias!"
"Ah, então você vai tentar me dizer que não fez nada?"
"Não" ela suspirou, tentando encontrar as palavras certas "é que eu... Eu tenho... habilidades" Dean esperou que ela continuasse "Eu posso saber o que as pessoas estão sentindo se quiser, às vezes sem nem mesmo tentar se o sentimento for muito forte, ou eu estiver perto o bastante"
"Então você ficou me monitorando o tempo todo durante nossa conversa?"
Daphne arqueou as sobrancelhas de um jeito meio incrédulo ao ouvir a palavra 'conversa', Dean podia entender, talvez 'conversa' realmente não fosse a palavra certa. Ah, se ele se importasse...
"Na verdade não. Eu tive que aprender a 'desligar' essa coisa, sabe?"
"Não"
"Cala a boca. São como sussurros constantes, pressionando a minha cabeça o tempo todo... Se eu não aprendesse a bloquear, teria ficado maluca. Mas você? Você gritava"
"Se bem me lembro, quem estava gritando lá era você"
"Não é literalmente..." ela deixou o pescoço pender pra trás, num misto de irritação e cansaço "Lembra quando você tinha uns 22 anos? Você estava com o Sam numa floresta, na verdade ele estava atrás de um arbusto e você estava esperando seu pai voltar enquanto vigiava a parte de baixo do corpo de um negócio muito bizarro... Mas seu pai não conseguiu pegar a parte de cima e ela voltou voando – o que a propósito foi assustadoramente nojento – e você acabou com-"
"A Manananggal" Dean completou, meio abobalhado.
"Isso! Mas antes de você conseguir matar a parte de cima, ela acabou te pegando, perto das costelas e ninguém notou. Quase desmaiou de dor pelo menos duas vezes e ainda assim ninguém notou. Você estava gritando, de dor, de medo, até de raiva por ninguém notar, mas não saiu nenhum som da sua boca... É exatamente disso que estou falando."
Ele nunca, nunca havia contado isso pra ninguém.
A Manananggal realmente é nojenta, um monstro que se alimenta de bebês ainda na barriga da mãe, fazendo que o corpo ou o rosto da criança nasça deformado... Ela parece uma mulher em torno de 40 anos, muito bonita, mas aí separa o corpo no meio e a coisa fica muito tensa. A parte de baixo fica escondida na floresta enquanto a parte de cima voa até as casas com asas enormes de morcego. Se ela não conseguir juntar as duas partes até o amanhecer, ela morre. Não significa que a desgraçada não esperneia bastante.
Dean cuidou dela sozinho enquanto John ia atrás de uma pista errada, quando o velho chegou, brigou com ele e Sam por terem enrolado tanto na hora de enterrar os restos. Sam disse que mal podia esperar pra cair fora dali. Dean achou que era da floresta e não podia concordar mais, no dia seguinte, Sammy contou que foi aceito em Stanford.
Ele ainda tinha a cicatriz da Manananggal, até Castiel arranca-lo do inferno, isto é.
"Como você- Quem te cont- Você viu."
"Eu não te trouxe aqui, Dean..." Daphne disse séria "Mas acho que isso tudo acontece pra eu poder te ajudar."
"Como?"
"Isso eu não sei ainda."
xo0ox
Dean se acomodou no chão, em frente às pernas de Daphne e teve um prazer quase mórbido em demorar quase 40 minutos para cortar as cordas que a prendiam.
"Então... Você"
"Eu"
"uma civil que nunca sequer deu um soco em alguém em toda sua vida-"
"Ah, você acha que só porque eu tinha uma irmã, que a gente se dava super bem? Socos foram distribuídos!"
"Nem um soco. E que só descobriu que o bicho papão existe de verdade por ser bisbilhoteira,"
"Você sabe que não foi de propósito!"
"que rezou uma Ave Maria quando achou que eu ia machucar..."
"Você bebe, eu rezo, cada um faz o que pode pra se acalmar- AI! Cuidado com essa faca!"
Daphne o fuzilou com os olhos, mas Dean deu de ombros. Foi só um cortezinho. Mais um.
"Eu não entendo como você poderia me ajudar. Acho que o melhor que você pode fazer é ficar longe."
"Mas, Dean-"
"E pra quem é que você estava rezando? Não, cara, sério. Foram as minhas memórias que você viu? Por que, não sei se você notou, mas todos os anjos que eu conheço são um grande bando de filhos -"
"Você pode me ensinar!"
"da puta! Espera, o que?"
Dessa vez, a ponta da faca cortou o joelho dela. Dessa vez, não foi de propósito.
"Aaaii! Dá pra você parar de me cortar?" ela choramingou, esfregando o machucado, mas Dean levantou num pulo, preocupado com coisas mais importantes que uma hemorragiazinha de nada.
"Você quer que eu te ensine o que?"
"A caçar, fazer exorcismos, aprender a falar o nome daquela coisa gosmenta que você matou na floresta..."
"Manananggal. E você está louca."
"Dá pra você me soltar? Eu sou daquelas que tem que gesticular pra falar."
Com um movimento fluído, Dean terminou de cortar as cordas. Daphne franziu o cenho.
"Por que não fez isso antes?"
"Olha, Diana..."
"Daphne."
"Tanto faz. Eu sinto muito pela Jessica, você não faz idéia o quanto, e por isso mesmo não posso virar babá de uma garotinha. Não quero o seu sangue nas minhas mãos."
Daphne levantou, massageando os pulsos, o olhar distante. Dean se afastou, esperando o que ela faria a seguir, observando cada um de seus movimentos: o jeito com que ela flexionava os dedos, ou afastava o cabelo do rosto. Demorou até que ela falasse de novo.
"Eu e a Jessica tínhamos uma ligação diferente." ela lançou um olhar na direção de Dean, esperando que ele a interrompesse, quando isso não aconteceu, continuou "Claro que a gente brigava o tempo todo, mas... Quando uma precisava, a outra sempre sabia." seu sorriso foi nostálgico "Um dia eu não conseguia parar de pensar nela, como se soubesse que ia acontecer alguma coisa, quando liguei, ela me convidou pra ir até Stanford, ver que estava tudo bem e conhecer o namorado perfeito dela" ela riu baixinho "Eu queria ir na mesma hora, mas acabamos combinando pra semana seguinte. Fazia quase um ano que a gente não se encontrava. Dois dias depois acordei no meio da noite, com o corpo queimando, mas não tinha nada, não sei quanto tempo durou, mas acabou do mesmo jeito que começou, sem qualquer aviso, mas eu soube."
"Soube o que?"
"Que ela tinha morrido." sem conseguir encara-lo, Daphne sentou no sofá e esticou as pernas "Não foi minha culpa, na verdade não foi culpa de ninguém, mas eu me senti tão mal por não estar lá, por ter ficado tão longe da minha irmã tanto tempo... Se eu tivesse simplesmente ido até lá, talvez ela ainda estivesse viva. Não vou ignorar o que eu estou sentindo e deixar isso acontecer de novo."
Dean sentou na ponta oposta do sofá. "Talvez ela ainda estivesse viva..." ele concordou "Ou vocês duas estivessem mortas"
Em vez de dar o chilique que ele – francamente – estava esperando, Daphne lhe lançou um olhar pelo canto dos olhos, torcendo os lábios pra não sorrir.
"Você não acredita em mim, não é?" ela começou a coçar o nariz bem devagar, tentando esconder a boca e o sorriso, ele só arqueou as sobrancelhas "Senti uma onda de descrença, desculpa. Não queria ser intrometida."
"Você pode provar?"
Todo o humor sumiu de sua expressão "O que? Que sabia que ela tinha morrido?"
"Não, mente brilhante, que ela era sua irmã!"
O queixo dela caiu "É brincadeira, né? Era só isso que você queria?" não, não era só isso, mas seria um bom começo "É só olhar na minha bolsa!"
Bolsa? Ele estava ocupado conduzindo um interrogatório! E fazendo isso parecer fácil! Claro que nem percebeu que Daphne tinha uma bolsa. Mas lá estava, no chão, perto da porta.
Dean virou o conteúdo da bolsa em cima da mesa e fingiu não ouvir a exclamação indignada de Daphne, nem o muxoxo de 'Vai quebrar meu óculos'.
A carteira dela era de couro preto com uma silhueta de uma garota em branco. Ele tinha certeza de já ter visto aquele mesmo desenho em para-lamas de caminhão. Sem dizer nada, só lançou um olhar para ela pelo canto dos olhos.
"O que?" ela perguntou em tom queixoso "Foi um presente!"
No R.G. o nome era Daphne Ann Moore, com uma foto da própria de tranças, os lábios numa linha tensa e os olhos mirando um pouco a direita da câmera.
"Você tá esquisita nessa foto."
"Eu tinha 15 anos, vai se foder."
"Ah, ficou bocudinha agora que não tá mais amarrada, é? Eu posso resolver isso" Dean pegou uma das cordas e balançou na frente do rosto dela.
Daphne levantou as mãos, com as palmas viradas pra frente e girou os olhos, se afundando no sofá "Continua olhando..."
Muito satisfeito consigo mesmo, Dean voltou a atenção para a carteira e encontrou uma foto dobrada, mas já conseguiu reconhecer os olhos azuis. O cabelo loiro estava mais curto e mais claro do que ele se lembrava e o rosto queimado de sol, mas era Jessica, sem qualquer dúvida. Ao lado dela estava Daphne, com o cabelo castanho todo cacheado, o rosto tão moreno quanto o da irmã, cheia de sardas no nariz. O sorriso de ambas era enorme, e surpreendentemente semelhante ao da outra. Não havia como negar que eram irmãs.
"Você tinha sardas?"
Ele perguntou só pra começar uma conversa relativamente normal. Mesmo. Uma tentativa de ser bem educado, mas ela franziu o nariz.
"Na verdade eram cicatrizes de catapora... Mas sumiram."
Dean assentiu. Ele imaginou o que Sam diria de tudo isso. Não o escrotinho estressado, mas o Sam Sam, o de verdade.
Por mais que tentasse, não conseguiu imaginar qual seria a reação dele. A voz de sua mente só ficava dizendo 'Dean!' em um tom reprovador.
Tudo bem, agora ele acreditava, mas não sabia o que fazer com a garota. Não dava pra leva-la junto, ele já tinha problemas demais sozinho, mas deixa-la ali? Um cara bêbado acabou de ataca-la, e um cara idiota acabou de tentar exorciza-la. Duas vezes.
"Ahm... Tem como me arrumar uma blusa?" Daphne perguntou, fazendo Dean sair de seus devaneios.
"O que?"
"Por mais que eu saiba que era necessário, não significa que a água benta não me encharcou, sabe? To com frio."
A sensação de que uma idéia deveria ter se formado tomou conta da mente de Dean, como uma palavra que você não consegue lembrar apesar de senti-la na ponta da língua.
"Tudo bem... Pega suas coisas que eu te levo em casa pra pegar umas roupas."
Quando ela não se moveu, ele levantou o olhar "O que foi?"
"Você tá falando sério?"
Dean deu de ombros "To"
"Por que não parece que você tá falando sério"
"Olha, se eu não vou conseguir me livrar de você tão cedo, também não vou ficar te emprestando roupas"
Ela estreitou os olhos e inclinou o corpo pra frente.
"Daphne? Você está tentando entrar na minha cabeça?"
"Não"
"Sai da minha cabeça!"
"Você é um saco!"
"E você mente tão mal que dói. Fisicamente dói." o que no momento é ótimo. Não a dor. Dor má. Ela não saber mentir que é simplesmente perfeito.
xo0ox
Dentro do carro Daphne estava encolhida no canto oposto do banco, um pouco mais e ela estaria pendurada pra fora da janela.
"Cuidado pra não molhar o estofamento"
"D-desc-culpa se o m-meu sofrim-mento te incomod-da"
"É. Incomoda mesmo."
Eles ficaram em silêncio por alguns minutos antes de Dean ligar o rádio e imediatamente franzir o nariz para a música.
"Que porra é essa?" resmungou mais alto do que gostaria.
"Paula Cole e n-não tem nada de errado com ela" Daphne falou para o vidro, esfregando os braços para se aquecer.
"Você conhece isso?" deslizando os dedos pelo painel, ele ligou o ar quente e encontrou os olhos dela grudados em sua mão.
"É a música do Dawson's Creek"
Ele piscou.
"Música do que aonde?"
Ela não respondeu, só girou os olhos de um jeito cansado.
"Então onde tenho que ir?"
"Estou ficando em um hotel, é só virar a..." ela olhou em volta e franziu a testa "Na verdade eu não sei. Onde estamos agora?"
"Você não sabe?"
"É meio difícil aprender o caminho quando você tá amarrada no banco de trás, Dean."
"Ah é... Bons tempos."
O silêncio ficou pesado antes que Dean falasse de novo "Então, vai me explicar por que você mora num hotel?"
Com uma espiada pelo canto dos olhos, Daphne apenas deu de ombros e esticou os dedos na frente da saída de ar.
"Por mim tudo bem, você sempre pode ir andando" Dean comentou indicando a rua pelo para-brisa.
"Só porque você é o mocinho não significa que eu tenho que gostar de você, sabia?"
"Como assim?"
"Eu sei que você é o mocinho, eu vi, mas no momento? Não gosto de você. E sei que você não se importa comigo, então pra que saber por que eu moro num hotel? Eu simplesmente moro."
Depois disso os dois ficaram sem qualquer vontade de conversar.
Daphne olhava pela janela, parecia ter parado de tremer, mas sua expressão estava azeda. Ocasionalmente os olhos dela se desviavam até Dean e o examinavam, mas se ele ameaçasse se mexer, a inspeção parava.
Ele estava detestando a atenção, mas estava num raro momento de bondade, daquelas que o faziam sentir culpado se ele ignorasse, então se ela quer olhar, que olhe.
Mas ele abriu o porta luva e puxou umas das fitas de lá, e sem nem mesmo ver o nome, empurrou no toca-fita. Só pra deixar claro que não importa muito o que está acontecendo naquele exato momento, ele ainda é o chefe. E foda-se a Paula Cole.
A música que deveria ter explodido nos alto falantes em guitarras familiares, melodias clássicas e vozes que não poderiam vir de uma pessoa sem um saudoso mullet – ou algo ainda pior se passando por cabelo – foi substituída por... por...
"Que porra é essa?" Dean perguntou encarando o rádio, realmente esperando que ele lhe explicasse que tipo de brincadeira doente era aquela.
"Isso é Duran Duran?" Daphne parecia não saber se deveria achar graça ou ficar preocupada, mas um sorriso irritante brincava em seus lábios.
"Não!" Dean exclamou resoluto, mas "Quem é Duran Duran?"
"Bom... Esses caras" ela indico o rádio e deu de ombros.
Se Daphne ficou compadecida com a expressão de dor que contorceu o rosto de Dean, não demonstrou nem um pouco. Na verdade pareceu achar a coisa toda extremamente divertida.
"Ah cara... Eu odeio esse lugar" ele gemeu, pegando a fita e a atirando pela janela.
xo0ox
"É aqui?" Dean espiou pelo vidro.
"É sim" Daphne assentiu, descendo do carro. Ela já estava perto da porta quando se virou "Você não vem?"
Ela estava certa. Ele deveria descer do carro e segui-la, entrar no hotel pra ter certeza de que ela estaria bem – por puro instinto e ato falho já que era impossível Daphne estar correndo algum risco – e até pra convencer a maluca a não levar um monte de cacarecos inúteis e 7 malas imensas, mas... Tinha alguma coisa o incomodando, como se ele devesse ter uma idéia óbvia. A palavra na ponta da língua. O nome que você quer lembrar e não consegue.
"Olha..." ela suspirou, girando os olhos "Eu vou entrar, a porta vai ficar aberta, tudo bem? Não vá a lugar algum sem mim"
É isso! A brincadeirinha dela no final deu um estalo na mente de Dean e era tão óbvio que ele teve vontade de bater a cabeça no volante.
Mas ao invés disso, ele sorriu.
"Pode ir, sem pressa."
Daphne franziu a testa um instante, confusa e desconfiada, e Dean se apressou em acrescentar "Eu sei que disse 'sem pressa', mas dá pra pular a parte de tentar entrar na minha cabeça e ir logo?"
"Você é tão escroto!" ela reclamou alto enquanto desaparecia para dentro do quarto.
Quase ao mesmo tempo, Dean deu marcha ré até a rua e os pneus cantaram enquanto ele ia embora. Ele não olhou pelo retrovisor, mesmo quando ouviu os gritos de Daphne pedindo que esperasse e voltasse.
Era o melhor para ela. Era o melhor para ele. E afinal, os Winchester sempre funcionam melhor sozinhos mesmo, certo?
Os olhos dele se voltaram para o assento vazio do carona, então esfregou o rosto e pegou outra fita no porta-luvas.
Def Leppard. Talvez nem tudo estivesse perdido.
N/A.:. Depois de quase uma década, mais um capítulo (para as fãs das outras fics que estiverem sapeando:: já vou atualizar... Não me torrem)
Eu poderia tentar explicar o pq de tanta demora, mas ai... Foram tantas coisas que vocês provavelmente pensariam que é tudo mentira! Isso é, se alguém ainda lê essa bodega... Se sim, obrigada, e se possível, mande review!
Mudei o formato e em vez de travessão coloquei aspas por pura preguiça de arrumar aqui no FF, ficou muito ruim? Pq eu posso voltar, se não ficou péssimo, vou deixar assim mesmo, okz?
Acho que é só por hoje...
Besos, chicas
