There is no peace here, war is never cheap dear
Love will never meet it, it just gets sold for parts
You cannot fight it, all the world denies it
Open up your eyelids and let your demons run
Beat the Devil's Tattoo – Black Rebel Motorcycle Club
"Meu Deus! Dá pra parar de reclamar a cada segundo? Não é como se você fosse o único com cabeça cheia!"
Dean lhe lançou um olhar com o canto dos olhos. Teria mais impacto se Daphne estivesse olhando para ele.
"Tem razão. Eu aqui reclamando, preocupado com uma coisinha tão besta como o Apocalipse!"
Daphne soltou uma exclamação inconformada "Eu também estou preocupada!"
"Claro que sim"
"Também tá na minha cabeça, lembra? Como todo o resto da sua vida, o que nem é justo, especialmente quando você já viveu mais do que eu!"
Não era bem a resposta que ele imaginava. "Literalmente ou já vi tanta merda que vivi mais que você?"
"Literalmente"
"Quantos anos você tem, afinal?"
"A idade do Sammy" ela arregalou os olhos e prendeu a respiração por um segundo, como se não pudesse acreditar que aquilo havia escapado, espiou com o canto dos olhos e encontrou Dean espelhando seu espanto, com um toque a mais de exagero.
"Sammy? Mesmo?"
"Viu? Eu disse. Minha cabeça tá muito cheia, as coisas estão se misturando. Eu não chamaria o Sam de Sammy! Quer dizer, ele seria meu cunhado e tudo mais, mas eu cheguei alguns meses atrasada então não faz sentido nenhum eu chama-lo de Sammy."
Dean arregalou os olhos. Alguns meses atrasada... Era bacana – revigorante até – ver uma garota tão a favor de humor negro, mas tem humor negro e tem isso.
Ele já estava quase sorrindo quando notou uma coisa importante, ela tinha a idade do Sam. A probabilidade de ela ser uma das crianças especiais do Olho Amarelo era tão alta agora que já tinha passado do teto do carro, mas era melhor deixar pra falar disso quando chegassem no Kansas. Então ele notou outra coisa.
"Ei, espera, espera aí. As coisas estão se misturando?"
"O que?"
"Você acabou de dizer 'as coisas estão se misturando', que coisas?"
De repente, Daphne ficou muito interessada na paisagem.
"Daphne?"
"Eu não quero falar."
"Por que não?"
"Você vai ficar com raiva"
"E por que eu ficaria com raiva?" mesmo sem olhar diretamente para ela, Dean sabia que Daphne estava mordendo os lábios e olhando pra cima tentando comprar tempo. Parte disso era culpa dele próprio, já que a pergunta soou como se ele já estivesse ficando com raiva.
"É melhor a gente esperar pra falar disso com a Missouri"
"É melhor a gente falar disso agora"
Quando o silêncio começou a ficar insuportável, Daphne tentou ligar o rádio, mas Dean afastou a mão dela com um tapa. Eles trocaram um olhar irritado.
Ela começou a batucar os indicadores olhando pelo para-brisa. Dean já havia desistido quando ela começou a falar.
"Eu tenho minha vida, minhas memórias, 22 anos delas pra ser exata. Agora eu também tenho toda a sua vida, suas memórias dentro da minha cabeça, mas obviamente, ela é pequena demais pra tudo isso, especialmente porque, como eu falei, você viveu mais do que eu."
"Então as memórias, nossas memórias, estão... se misturando?"
"Bom... É."
Aparentemente a cabeça de Dean também era pequena demais pra tudo aquilo.
"Ok... E isso significa?"
"Significa que tem coisas que eu já não sei mais com quem aconteceu"
"Sua vida deve ter sido bem escrota se você não consegue mais diferenciar."
Daphne lhe lançou um olhar daqueles. "Não..." suspirou "Quer dizer, o que aconteceu com seu pai e seu irmão é bem óbvio, os monstros também ajudam, mas tem outras coisas"
"Por exemplo?"
"Bom..." ela colocou o cabelo atrás da orelha "Eu me lembro de muita bebida e um bar"
Dean riu. "Até aí, sou eu mesmo"
Outro olhar daqueles, mas esse era mais pra você-não-deveria-se-orgulhar do que seu-triste-triste-monte-de-bosta. "Eu estava dançando em cima de uma mesa de sinuca, outras pessoas estavam lá comigo e todos estavam se tocando. Acho que fui eu quem convenceu todo mundo a subir, porque quando o segurança chegou pra expulsar todo mundo, ele me agarrou pela roupa e me jogou na rua. Lasquei um dente no asfalto."
Ela não esperava uma resposta imediata, já havia aprendido que isso era praticamente impossível de arrancar de Dean, então imaginou se poderia arriscar uma nova tentativa de ligar o rádio, mas desistiu. Não queria dar o gostinho de não conseguir de novo.
"E então?" perguntou quando cansou de esperar.
Dean enrolou o quanto sentiu que poderia, ignorando completamente o fato de que seus dedos não paravam de batucar o volante. Na verdade ele já havia reparado que seus dedos pareciam ter tomado vida própria há algum tempo, mas não há momento melhor para entrar no espírito de negação do que agora.
"É, era eu."
"Quem diria... Você era bem soltinho aos 14"
"Cala a boca. Vem cá, o que você está fazendo aqui?"
"Como assim?" ela não parecia realmente se importar, Dean notou em meio a sua importante missão de ignorar que não conseguia ficar parado. Seus dedos finalmente estavam apenas repousando no volante, mas sua perna se balançava de um jeito nervoso.
"Não tem que voltar pra escola?"
"Não"
"Namorado?"
"Não desde Nate Garner... Ele morreu num acidente de carro e eu ainda não consegui superar" desviando os olhos de Dean ela tirou os tênis e puxou os joelhos para junto do peito.
"Sério?"
"Não. Ele é um idiota, hoje mora no East Village com um cara que se chama 'Fabio'" ela desenhou as aspas no ar "Eu bem que queria ter atropelado ele."
Dean voltou os olhos para a estrada e teve que sacodir a cabeça porque ele não ouviu isso. Não importa o que ela diga, ele nunca ouviu isso.
"Tudo bem, e sua família? Devem estar preocupados com você"
Ela arqueou as sobrancelhas "Ah é, claro..." então riu, baixando os olhos "Eu posso ligar pra eles."
"Problemas no paraíso?"
"Se isso for você fazendo piada com a minha religião, vai pro inferno."
"Uau! Isso é forte vindo da noviça rebelde"
"Vai se foder"
Dean sorriu. Nunca entendeu porque achava mais fácil conviver com as pessoas se elas estavam ficando irritadas com ele. Também não conseguia entender qual era o problema com ele, se sua perna pulasse mais um pouco, se soltaria do corpo.
"Como é que você não tinha certeza se tinha lascado um dente ou não?" perguntou numa tentativa de distrair a própria perna, então percebeu como isso era idiota, mas não tinha como retirar as palavras.
"Estudei num convento." ela deu de ombros "Aquelas freiras sabem o que estão fazendo com aquelas réguas de 50 centímetros"
"Uau. Obsceno."
Ela virou com a boca aberta e dedo em riste – provavelmente aprendeu a pose com as freiras ninjas – mas parou no meio do caminho, franzindo a testa.
"Meu Deus, parece que você vai explodir!" exclamou.
"Não vou não" Dean devolveu tão rápido que quase não entendeu as próprias palavras.
"Se você apertar mais o volante, vai deslocar um dedo"
"Não dá pra você voltar a ser aquela refém assustada e calada que estava com raiva por ter sido amarrada? Era bem mais fácil!"
Ela bufou e se afundou no banco de braços cruzados. Não demorou nem um minuto para que voltasse a encara-lo com uma concentração desnecessária.
"O que foi?" ele quase gritou.
"Jesus Cristo, acende logo um cigarro! Você vai acabar distendendo um músculo desse jeito!"
Eles se encararam, pareciam estar fazendo muito isso.
"Eu não fumo"
"O que?"
"Eu não fumo! Você sabe que eu não fumo"
Daphne pareceu pensar nisso por um instante, então se aproximou e o cheirou.
Ela realmente se inclinou no banco, apoiou uma mão no ombro dele e inspirou, próxima de seu pescoço.
Que porra foi essa?
"Que porra foi essa?"
"Suas roupas cheiram a cigarro"
"Não cheiram não. Ei! Para de mexer no porta-luvas, porra"!
Dessa vez ele não teve tempo de afastar as mãos dela no tapa, ela já sorrindo triunfante.
"Eu sabia!" exclamou, agitando um maço de Marlboro "Se você pensar bem, era estranho que você não fumasse na realidade original, fumar é a epítome de todas as coisas bad boy que você tanto apoia"
"Isso nem deve ser de verdade" Dean reclamou, e não. Ele não estava emburrado "Deve ser algum tipo de erva que eu guardei aí dentro pra disfarçar, só isso"
Daphne, que franzia a testa, olhou para cima arqueando as sobrancelhas de leve, considerando a possibilidade. Abriu o maço e puxou um dos cigarros de lá de dentro.
"É... Ervas."
"Eu não disse?" ele sorriu e por um instante até seus milhares de tiques pareceram diminuir.
"Claro, não tem lugar melhor do que um maço de cigarros pra guardar seu remédio de glaucoma"
Ok, agora ele se perdeu.
"Isso é maconha, Dean"
Um olhar meio atravessado confirmou os fatos, mas sem chance de abrir essa lata de vermes, ele simplesmente não queria saber. Mesmo. Então arrancou tudo das mãos dela e guardou de volta no porta-luvas.
"Dean?"
Um rosnado foi o único sinal de que Dean havia ouvido.
"Você guardou tudo pra mais tarde?"
Dean descobriu que Daphne não tinha nenhum problema pra dormir, mesmo enquanto ele dirigia a 50 km/h acima da velocidade permitida e ouvia Blue Öyster Cult. Alto. Com uma ocasional cantoria pra acompanhar.
Na verdade ela era uma ótima companhia de viagem, comia pouco, cheirava bem, não ocupava espaço, dormia como uma pedra, se fosse muda seria perfeita.
Já era madrugada quando ele decidiu encerrar o dia, Daphne estava desmaiada no carona fazia tempo e – apesar de ele nunca, nunca admitir – gostava mais de quando eles estavam discutindo. O sinal brilhante de "há vagas" nunca foi tão bem vindo.
Fez uma curva abrupta para a direita, entrando no estacionamento do motel e Daphne deslizou pelo banco até sua cabeça cair no ombro de Dean. Ele foi tomado por uma onda de paz e sentiu todos os músculos das costas relaxando, na verdade ficou tão estupidamente relaxado que suas mãos quase caíram do volante.
Seria engraçado se o carro não tivesse quase atravessado a parede do motel.
"Até dormindo, cara..." ele resmungou para si mesmo enquanto desligava o motor "Construída por freiras ninjas do inferno pra me perturbar"
Como é que ela fazia essa coisa da... 'influência' sentimental mesmo enquanto dormia?
A porta rangeu como sempre, mas Daphne ainda não acordou, então Dean saiu do carro e não conseguiu conter o sorriso quando ouviu o barulho da cabeça dela batendo no banco.
"Ai..." o gemido saiu abafado contra o estofamento.
"Vamos parar pela noite, vou pegar um quarto pra gente" sem esperar qualquer resposta, ele foi até a recepção onde um adolescente cochilava com os pés cruzados sobre o balcão.
Dean demorou um instante para decidir como ia acordar esse aqui – e mesmo que atirar pra cima tenha passado por sua mente – decidiu bater na pequena campainha. O garoto abriu os olhos lentamente, mas os arregalou em seguida quando focou o rosto de Dean.
"Como posso aju-" ele limpou a garganta e sua voz saiu menos esganiçada "Como posso ajuda-lo?"
Dean quase girou os olhos. Um balconista com medinho de cicatriz era tudo que ele precisava agora. "Um quarto, duas camas."
Só me dá a porra da chave, eu não quero conversar.
Era inacreditável a dificuldade do moleque de passar a droga da chave do quarto por cima do balcão enquanto olhava para qualquer lado que não fosse o de Dean, então quando os olhos dele pararam de pular de um lado para o outro, focados em algo além do ombro de Dean, o mesmo se sentiu na obrigação de virar e olhar também.
Lá estava o Impala, um pouco mais judiado do que ele gostaria, mas ainda era o Impala. Sem mais. Um pouco pra direita, Daphne se espreguiçava como fosse a melhor coisa que já aconteceu em sua vida, esticando desde as mãos até a ponta dos pés, fez sua blusa subir um bocado. Daquela distância quase não dava pra ver que o rosto dela estava amassado de sono.
Que porra era essa agora? Esse mundo realmente estava perdido se aquele balconista de merda achava que podia ficar encarando sua garota daquele jeito. E também seria melhor pra ele tirar os olhos de Daphne.
"Ô, cara, ei!" Dean reclamou, abrindo os braços.
O balconista pulou e seu rosto ficou congelado em algum lugar entre um sorriso e cagando-de-medo "Foi mal... Mas sua irmã é muito gostosa!"
Tomando um segundo para pensar, Dean olhou novamente para Daphne, que pegava a mochila de dentro do carro – se ele não soubesse a idade dela, chutaria uns 12 anos pelo tamanho, e isso não ajudou em nada o caso do atendente piranha –, e de volta para o rapaz. "Ela parece ser minha irmã?"
"Bom, não... Mas tipo, sua cara tá toda-" algo na expressão de Dean fez com que ele calasse a boca, o que foi muito saudável "É que você pediu duas camas, cara, e eu achei-" percebendo que estava se enterrando cada vez mais, ele engoliu a seco "Quarto 8."
Dean assistiu Daphne ajustar a alça da mochila no ombro e se remexer por alguns instantes antes de perguntar "O que foi?" e franzir a testa, preocupada.
"Quarto 8"
Ela abriu a boca mais uma vez, mas bocejou antes que pudesse falar mais alguma coisa. Dean passou o braço em volta dos ombros dela e começou a reboca-la na direção do quarto, mas Daphne se sacodiu para longe.
"Uau. Você é quase um raio de sol pela manhã depois de acordar, hein?"
"Desculpa" ela o espiou pelo canto dos olhos "As coisas ficam mais... intensas quando eu to com sono. E eu mal acordei"
"Intensas como?"
"Tão intensas que eu sinto a raiva rolando pra fora de você em ondas – tsunamis! E me faz imaginar que você matou o cara lá de dentro" ela apontou e Dean acabou olhando na direção da recepção, encontrando o idiotinha com um olho comprido em sua direção "Quer dizer, pelo que eu percebi, não seria uma grande perda para o mundo mas- AI!"
Ela quase parou de andar, mas Dean continuou e praticamente a arrastou junto "O que foi?"
"Você me bateu?"
"O que? Não."
"Bateu sim! Você me deu um tapa na bunda!" quando ele não se deu nem o trabalho virar para ela, Daphne notou o olhar mortal na direção da recepção e as ondas de raiva e o tesão adolescente fizeram bem mais sentido – porque francamente, ela estava achando que o balconista era gay e que Dean era homofóbico. "Isso era você marcando território?"
E isso fez a cabeça dele virar tão rápido que poderia ter descolado do pescoço "O que?"
"Porque se for, eu até que fico meio feliz, quer dizer... Eu meio que esperava que você fizesse xixi em mim"
Dean franziu a testa, pensativo, então deu de ombros – mais com a expressão do que com os ombros realmente – e correu os dedos pelo cabelo dela "Bom, gata, se esse é o seu fetiche..."
Ela estapeou a mão dele pra longe "Idiota."
A primeira coisa que Dean viu quando acordou, foi Daphne sentada na cama vizinha a sua, agarrando o travesseiro ao peito com tanta força que os nós de seus dedos estavam ficando brancos.
Ele não tinha certeza se ela estava tentando esconder o rosto também ou se seus olhos estavam tão arregalados que ocupavam todo o espaço do nariz e da boca. Por que parecia.
Dean olhou em volta e, apesar de não achar que encontraria nada, sua mão agarrou a faca que guardava embaixo do travesseiro. Mas realmente não tinha nada lá além de uma cortina medonha e uma janela de vidros sujos.
"E qual é o seu problema?" ele perguntou enquanto se erguia do colchão preguiçosamente.
"Com o que você estava sonhando?" a voz dela soou abafada já que tinha enfiado meio travesseiro na boca.
"Filhotes pulando em nuvens de algodão" ele disse bem mais concentrado em esfregar os olhos do que em responder realmente "Por que?"
"Esses filhotes tinham duas cabeças e cuspiam fogo? Porque eu acho que nem isso explicaria"
"Explicaria o que?" e assim que a pergunta saiu de seus lábios, ele entendeu o que estava acontecendo.
A droga da garota era psíquica, conseguia saber o que os outros estavam sentindo, às vezes até sentia também. E com os sonhos que Dean andava tendo ultimamente, não era de se estranhar que Daphne tenha ficado abalada, quer dizer... Não dá pra experimentar as sensações de uma ida ao inferno e ficar completamente ileso.
Ela puxou o ar lentamente, até sua respiração estava tremida "Você estava tão..."
"Você tentou entrar na minha cabeça de novo?" Dean não queria ter parecido tão puto, mas ele estava.
"Não!"
"Já falei pra você ficar longe daqui!" ele apontou para a própria têmpora.
"Era sobre o inferno?"
Mesmo que seu silêncio tenha sido toda a confirmação do mundo, Dean fingiu não notar e só levantou.
"Pega suas coisas. Temos que cair na estrada cedo."
No carro, a tensão era tão grande que deixava o ar pesado.
"Você está com fome?" Daphne perguntou, sua trigésima tentativa de iniciar uma conversa. Ela não queria ser chata, mas o peso do ar começava a fazer seus ombros doerem.
"Dá pra parar de tentar puxar assunto? Você é horrível nisso."
Daphne tamborilou os dedos na perna, passando alguns instantes observando a paisagem pela janela.
"Você reparou que o dia está-"
"Daphne!" Dean quase gritou "Se você só pensar em comentar do clima, eu jogo esse carro de um penhasco."
Ela mordeu os lábios, encarando o painel com uma atenção desnecessária.
"Você estava em modo de transmissão"
"O que?"
"Não foi culpa minha, eu não fiz de propósito, mas você estava em modo de transmissão. Dava quase pra ver o que você estava sonhando"
"Agora você pode ver sonhos?"
"Bom... Não. Mas seria muito legal"
Dean a encarou, tentando discernir se Daphne estava falando sério ou não. Sobre a parte de ele estar em 'modo de transmissão', não sobre a parte de ser legal ver sonhos. Isso, com certeza, era só ela agindo como uma palhaça.
Ela voltou o olhar para ele e sorriu com o canto dos lábios, encolhendo um pouco os ombros.
"Então, você não estava me espionando?"
"Eu te disse que quando estou com sono tudo fica mais intenso"
"E por que você não me deu uma dose daquele seu Lexotan natural?"
"Como assim?"
"Quando você estava dormindo, me fez relaxar tanto que eu quase bati o carro"
"Se eu estava dormindo, Dean" ela disse com aquele ar de obviedade "não sei como fiz."
"Se você estava dormindo, não pode ser tão difícil assim" ela fez uma careta e ele riu "Ah, qual é, cara. Você estava desmaiada, caiu no meu ombro babando e-" Dean enfiou o pé no freio sem qualquer aviso.
"O que foi?" Daphne perguntou sem olhar pra ele, apertando os olhos bem fechados, com as duas mãos espalmadas no painel, esperando mais alguma coisa acontecer.
"Me faz fazer alguma coisa."
"O que?"
Ele agarrou o braço dela "O que eu to pensando agora?"
"Eu não sei" ela devolveu meio acuada, tentando se soltar.
"O que eu estou sentindo agora, Daphne?"
"Eu não sei!"
"Você tá com medo?"
"Não."
"E por que não?"
"Eu confio em você" foi o que ela disse, com a voz quase sumindo.
"Por causa das minhas memórias? Ter visto o que eu já fiz te faz confiar em mim?" ele puxou a Colt da parte de trás da calça e apontou o cano para o rosto dela "Ainda acho que isso deveria ter feito você ficar longe de mim"
"Você não me assusta" ela reafirmou, com o queixo empinado para frente, mas Dean podia sentir o tremor de suas mãos.
Na verdade ele sentia mais do que isso. Podia jurar que sentia a pulsação dela contra seus dedos, mas não conseguia ter certeza já que o próprio coração batia tão forte, tão rápido que quase doía no peito.
Ele estava com medo. Muito medo. Irracional, de fazer os joelhos tremerem e a visão ficar turva.
Soltando o braço dela bem devagar, Dean sorriu e secou o suor das palmas das mãos nas laterais da calça jeans. Nada. Não sentia mais nada, só uma sensação estranha que o fazia pensar se aquilo havia realmente acontecido, mas aconteceu.
"É pelo toque" Dean concluiu, com um sorriso convencido.
Daphne piscou algumas vezes antes de seus olhos realmente entrarem em foco "O que?"
"De agora em diante, você vai deixar essa mãozinha cheia de dedos bem longe de mim." ele voltou a ligar o carro, tão satisfeito consigo mesmo que não percebeu a expressão abismada dela.
"Você ameaçou atirar em mim só pra provar uma teoria?"
"Eu fiz o que precisava fazer pra descobrir uma coisa importante."
"Você apontou uma arma pra minha cara!"
"Bom..." ele deu de ombros "É!"
Dean estava tão acostumado a ter um irmão, um garoto, que era tão completamente passivo-agressivo que acabou esquecendo que não era exatamente Sam que estava sentado no carona. Era uma garota. E normalmente, garotas dentro do Impala estavam no banco de trás. Na horizontal, nunca apresentaram qualquer problema ou tiveram reclamações.
"Seu idiota!" antes de perceber que aquilo realmente era uma garota insatisfeita – dentro do Impala ainda por cima! – Dean já estava levando murros no braço "Imbecil! Estúpido!"
"Ei, ei!" ele reclamou enquanto tentava se proteger "Eu to dirigindo aqui!"
Ela bufou com ódio e deu um último soco – o mais forte – antes de se afastar para o outro extremo do banco, se afundando junto à porta com os braços cruzados.
"O que? Agora você não vai mais falar comigo o resto da viagem?"
"Quando a gente chegar na casa da Missouri, eu vou contar tudo pra ela!"
Ah... Mulheres.
Quando Dean deu por si, estava na frente da casa da Missouri. Ele estacionou e encarou Daphne, examinando os detalhes que de repente pareceram importantes, porque ele tinha quase certeza de que tudo que aconteceu desde que eles saíram do motel, as reclamações, a luta por quem controlaria o rádio – o argumento de que 'o motorista escolhe a música' não teve o efeito desejado – e até mesmo essa idiotice sobre 'contar tudo pra Missouri' foram todas distrações propositais.
Se ela realmente tivesse visto suas memórias, tinha que saber que ele odiava aquele lugar e não tinha intenção nenhuma de falar com a Missouri a não ser que fosse estritamente necessário, vida ou morte, e essa situação não era nada disso, então ele precisava de uma distração, isso era óbvio.
Só que agora, olhando pra ela, Daphne estava muito preocupada com as pontas do cabelo e não parecia ter a capacidade de montar um plano tão intrincado. Ela o encarou, pensativa.
"O que foi?" ele perguntou.
Em resposta recebeu apenas uma mão estendida e um olhar ilegível.
"Você quer dar as mãos?" ele insistiu, tentando disfarçar que estava se sentindo completamente desconfortável com um sorriso desagradável.
Daphne apenas esticou mais o braço na direção de Dean, o olhar se acentuando, mas ainda sem oferecer qualquer explicação.
"Sério, eu sei que tenho te tratado bem e tudo mais, mas a regra de não ter momentos de Crise Feminina ainda se aplica." ele parou um instante "Mesmo que você seja uma mulher."
Quando ficou claro que ela não diria absolutamente nada extremamente mal humorado, apenas deu de ombros desceu do carro, Dean sentiu um arrepio doloroso percorrendo sua espinha.
"Tudo bem, agora você só tá fazendo isso pra me assustar!" Dean falou alto o bastante para que ela o ouvisse enquanto ele próprio batia a porta do carro.
Com um suspiro sofredor, Daphne virou de frente para ele.
"Eu só to tentando fazer isso ficar mais fácil pra você, mas é você quem sabe!"
"O que?"
Mas ambos já estavam diante da porta e as chances de receber uma resposta caíram até 0 e ainda mais pra baixo.
"Acaba logo com isso." o tom mal humorado que ele estava esperando vir dela antes tingiu sua própria voz.
Ela girou os olhos e levantou a mão para bater na porta que abriu antes mesmo que os nós de seus dedos tocassem na madeira.
"Dean Michael Winchester!" Missouri Mousley cuspiu, transformando o nome num palavrão "O que pensa que está fazendo aqui, menino?"
Com toda a sinceridade do planeta, Dean não tinha a mínima ideia do que estava fazendo ali, ficou bem claro que não tinha pensado em como explicar a porra toda quando decidiu embarcar nessa viagem retardada de Daphne. Mas ao ver a fúria no rosto de Missouri, ficou bem óbvio o que ele precisava fazer: cair fora o mais rápido possível. A mulher já estava brandindo a colher de pau e ele nem abriu a boca ainda.
Um passo para trás, mas a mão de Daphne espalmada em suas costas impediu que Dean saísse correndo.
As feições de Missouri começaram a suavizar enquanto a vidente observava o caçador, antes de sua testa se franzir em dúvida.
"O que está acontecendo aqui?" ela perguntou autoritária como sempre.
"Sra. Mousley" Daphne chamou, cuidadosamente, agarrando a parte de trás da jaqueta de Dean "Nós podemos explicar se-"
"Daphne Ann Moore" Missouri interrompeu, ainda encarando Dean que começava a se remexer, desconfortável "Tenho certeza de que suas explicações são ótimas, querida... Só quero saber o que ele está fazendo aqui. Isso não está certo."
"Nem me diga" Dean resmungou e se contorceu quando Daphne lhe deu um beliscão.
A garota abriu a boca, mas Missouri falou antes que ela pudesse "É isso mesmo, querida, tem razão."
Dean arqueou as sobrancelhas como uma acusação, e Daphne encolheu os ombros. Apesar de a situação demonstrar que não fazia diferença nenhuma, os dois acharam melhor não falar nada.
Lentamente, a vidente então se aproximou um passo e pegou a mão de Dean – que só não pulou porque a mão de Daphne em suas costas começava a deixar suas pernas meio moles, mas ainda não tinha feito seu coração desacelerar – e fechou os olhos.
Uma vidente agarrando sua mão e A Pequena Órfã agarrada em sua jaqueta. Isso era patético. Patético pra cacete.
"Santo Deus..." Missouri murmurou, arregalando os olhos e se voltando para Daphne pela primeira vez, como se a tivesse notado somente agora "O que ainda estão fazendo aqui fora? Vamos entrar, vamos!"
E simples assim, Missouri já tinha desaparecido porta adentro.
"Ela é bem rápida, né?" Dean comentou, afastando a mão da garota que ainda estava em suas costas e dando meia volta em direção ao carro.
"Aonde você vai?" Daphne perguntou, agarrando a manga da jaqueta dele dessa vez.
"Qualquer lugar que não seja aqui."
"Por que?" ela gemeu as palavras e Dean respirou fundo para não fazer nada que se arrependesse mais tarde.
"Sabe por que?" só então ele percebeu que guinchou Daphne até o carro, ele tentou afasta-la, mas pra alguém tão anãzinha, ela tinha braços bem fortes "Ela. Me. Odeia."
"Ela não te odeia, Dean!"
"Claro que odeia, você não estava aqui?"
"Sério? Você quer discutir sobre os sentimentos alheios comigo?"
Contra isso, Dean não tinha argumentos. Ele baixou o olhar para a guia.
"Não..."
"O que vocês ainda estão fazendo aí?" Missouri ralhou de dentro da casa "Andem logo, eu não tenho todo o tempo do mundo."
Dean ainda teve tempo de sussurrar "Viu? Ódio?" antes de entubar e guinchar Daphne de volta até a porta.
"E então?" Missouri começou, uma vez que todos já estavam acomodados na sala aconchegante "Como aconteceu?"
Quando ninguém disse nada, a vidente encarou os dois jovens sentados lado a lado. A moça, Daphne, não tirava os olhos de Dean, como se apenas encara-lo por muito tempo fosse lhe dar algum tipo de visão sobre o que passava na cabeça do caçador.
Só que Missouri sabia que no caso dessa garota em especial, aquilo era verdade.
"Eu não sei..." Dean soltou de repente, olhando para qualquer lugar que não fossem os rostos das mulheres que o cercavam "A bola de cristal aqui me obrigou a vir porque achou que a senhora poderia nos ajudar a descobrir."
Missouri sorriu por Dean tê-la chamado de 'senhora' e depois riu por Daphne tê-lo chutado pelo 'bola de cristal'.
"E você, Daphne, você viu tudo, não é? As memórias dele?" a vidente perguntou calmamente, antes de tomar um gole de chá.
"Vi."
"Mas você está esquecendo não é?"
Daphne congelou. A boca aberta como se fosse dizer alguma coisa, mas as palavras lhe fugiram completamente.
"Esquecendo o que?" Dean perguntou, franzindo a testa.
"Nada." Daphne disse tão rápido que nunca enganaria ninguém, mesmo que não parecesse tão chocada.
"É, nada." Dean imitou, sarcástico "Você tá mentindo!"
"Não to não!"
"Daphne" Missouri chamou, fazendo os dois calarem a boca "você poderia nos dar licença, querida?"
Ela levantou torcendo os dedos nervosamente, mas sorriu ao olhar para a vidente. E Dean não gostou daquilo, nem era por ele já estar se sentindo um lixo sem a influência sentimental externa, aquele sorriso dizia 'confio em você', uma coisa que Daphne não parecia sentir perto dele, e se isso já não fosse ruim o bastante, ele ainda sabia que as duas estavam se unindo contra ele.
Sempre no lugar errado, na hora errada...
"Não tem nada de errado aqui, menino!" Missouri disse assim que Daphne saiu "A não ser o fato de que você não pertence a esse lugar."
Dean engoliu a seco, sem conseguir parar de girar o anel em volta do dedo, criando coragem para encarar Missouri.
"Como eu faço pra voltar?"
"Você se meteu em uma bagunça muito grande dessa vez, Dean" ela suspirou.
"Você diz isso pra mim? E o pior é que eu deixei um irmão gigante que reclama feito uma velha pra encontrar um projeto de Dr. Phil com complexo de Madre Teresa! Eu nunca ganho uma folga."
Missouri riu.
"Você é realmente diferente dele."
"De quem?"
"O Dean que eu conheço. O dono desse corpo."
Dean apoiou o rosto na mão, seu dedo contornava a cicatriz de um jeito distraído, ele não parecia notar o movimento.
"O que aconteceu comigo? Com ele. Comigo?" ainda não parecia certo "O que aconteceu?"
"Eu lembro quando você era criança..."
"Tá, eu sei... tinha jeito de pateta! Não vale repetir as piadas que você já fez" ele sabia que estava parecendo uma criança, mas mesmo assim se afundou no sofá e cruzou os braços.
Logo que as palavras saíram de sua boca, Dean se arrependeu. Não era uma boa irritar a pessoa que poderia te ajudar, especialmente quando essa pessoa era a Missouri. Mas ele também não ia sair por aí se desculpando, apesar de ter respirado aliviado quando ela começou a rir.
"Eu te disse isso?" ela riu ainda mais "Ah, querido... Você deve ter aprontado alguma coisa muito grande pra ouvir isso!" pensou por um momento e estreitou os olhos "Você tentou colocar os pés na minha mesa?"
"Você me chamou de pateta antes!" Dean se defendeu, levantando as mãos.
Ele nem mesmo notou que suas reclamações quebraram o clima tenso. Afinal ele estava reclamando, de coração.
E não era exatamente simples aceitar que Missouri não o odiava mais, ou melhor: o odiava menos. Na verdade não tinha nada ali que fosse simples de aceitar.
"Tenho certeza que você mereceu qualquer coisa que eu tenha dito" Missouri afirmou, sem qualquer reprovação em sua voz.
"Então eu não era uma criança pateta?"
"Não muito."
"Ah."
"O que aconteceu, Dean?"
Dean contou, não a parte de Sam ter ido pro lado Negro da Força, nem de ele próprio ter dado a partida no Apocalipse, muito menos a coisa toda com o Capeta. Talvez ela já soubesse, talvez não, ele só não queria falar disso em voz alta. Mas explicou que havia discutido com o Sammy e que foram dormir com raiva – uma coisa péssima segundo a Oprah – e como no dia seguinte Dean encontrou a coisa de olhos brilhantes que o jogou ali.
Missouri não disse nada durante a explicação, apenas assentiu com uma expressão grave.
"Sobre o que você e o Sam estavam brigando?"
"Ah... As coisas de sempre" fogo, morte, sangue de demônio, Lúcifer "Sammy achando que é o culpado de todos os males do mundo."
Ele não estava mentindo, não totalmente, foi só uma maquiagem pra uma verdade muito, muito feia. Tão feia quanto o Schwarzenegger grávido. Se Missouri percebeu, não disse nada.
"Eu não sei o que fez isso, mas é algo antigo e poderoso..." ela refletiu um instante e tomou um gole de chá. "Imagino que esse tipo de coisa não seja fácil de fazer e talvez por isso, deixou sua marca em você. Não é algo que eu já tenha visto antes."
"E o que eu posso fazer? Pra voltar."
"Eu não sei."
Claro que não sabe... Por que deveria?
"Não me venha com essa atitude, menino! Eu já percebi que você é diferente, isso não significa que eu não possa mudar de ideia e te acertar com uma colher, me ouviu?"
"Sim, senhora." a resposta foi tão rápida que foi dita quase antes de ela terminar a ameaça.
Missouri lhe encarou, séria. "A menina lá fora."
"Daphne?"
"Isso..." mais um gole de chá "Mantenha-a por perto. Ela vai te ajudar."
"Ah sim. Claro..." como se ele pudesse manter a maluquinha afastada mesmo que quisesse "Obrigado. Você sabe... Por não me bater com a colher."
Missouri riu, apesar de ele não estar brincando.
Daphne foi chamada para a sala de interrogatório em seguida, e saiu com os olhos meio arregalados, como se tivesse acabado de tomar um choque, mas ainda tinha presença de espírito o bastante pra dar uma risada amarela quando Missouri fez uma brincadeira. Nem uma vez foi ameaçada com a colher de pau do destino.
E não disse sobre o que elas conversaram.
"Vão para algum lugar a salvo" Missouri disse como forma de despedida "A jornada vai ser longa, mas tudo indica um bom final."
Daphne sorriu ainda de um jeito meio tremido, mas Dean estava se sentindo injustiçado demais pra não ter vontade de girar os olhos. Missouri o abraçou.
"Tenha fé, menino..." ela suspirou "E paciência com a menina. Ela só quer te ajudar."
Aparentemente Missouri já estava a par dos planos dele de dispensar Daphne por ali mesmo já que foi pessoalmente acompanha-los até o carro. Que bom.
"Pra onde agora?" Daphne perguntou enquanto o Impala voltava para a estrada.
"Dakota do Sul."
N/A.: É. Eu não morri, foi muito pior, eu arrumei um emprego!
Mas já me demiti, então as coisas parecem estar melhores! =D Minha reação alérgica já tá passando e tudo mais
Dessa vez, acho que nos veremos em breve de verdade, não do jeito que eu costumo falar!
E vocês sabem que eu volto mais rápido quando tem mais review... Então, né? Acho que vcs entenderam
