Capítulo 4 - Sentimentos

Um pouco mais tarde na mesma noite.

Yuzuriha estava descendo as escadarias das doze casas, havia acabado de receber sua armadura, entregue pelo Grande Mestre. Agora ela era oficialmente Yuzuriha de Grou, uma amazona de prata que lutava pela Deusa Atena. Estava muito satisfeita e orgulhosa de si mesma por ter alcançado o seu objetivo, mas também ciente de que seu caminho estava apenas começando. Andava apressadamente, porém distraída, planejando o que deveria fazer futuramente.

Enquanto isso, Manigold observava o horizonte e refletia sentado no telhado da casa de Câncer. "Ah... aquela mulher... eu não devo mais vê-la!" Estava pensando na amazona desde que a deixou na entrada da sala do Mestre junto a Shion. A idéia de que o colega estava interessado nela não saía de sua mente. E isso o incomodava profundamente. Sentiu ciúmes ao ver o cavaleiro de Áries tocá-la, ao ver que ainda tinham cumplicidade e que aquele noivado estúpido dos dois (segundo ele mesmo) poderia não ter ficado somente no passado. Pensar nisso começou a ficar insuportável e a única maneira viável que pôde pensar para se livrar destes sentimentos foi se afastar dela completamente. Em sua vida não havia lugar para amor ou romances, então, ele iria ficar longe daquela garota antes que sua situação piorasse e tivesse que admitir para si mesmo o que estava sentindo, e isso era a última coisa que ele desejava.

Subitamente, o cavaleiro de Câncer se levanta e salta do telhado, caindo em pé no chão do pátio dos fundos da casa. Um guarda havia lhe dado o recado de que o Mestre desejava vê-lo imediatamente e ele já estava atrasado para cumprir esta tarefa. Assim que se virou para começar a subida em direção à Leão viu uma figura descendo as escadas. Ao reconhecê-la não conseguiu se conter; apesar do que havia acabado de decidir, não conseguia deixar passar uma oportunidade de aprontar alguma. "Sim, vou acabar com essa história e fazer ela se afastar de mim de uma vez por todas... mas de uma maneira divertida!" Um sorriso maroto surge em seu rosto e ele se esconde atrás de um pilar, aguardando a aproximação da vítima.

Yuzuriha já podia avistar a casa e, ao observá-la, esqueceu-se de todos os planos e começou a pensar no proprietário dela. Para bem próxima da entrada e suspira profundamente. Logo após, começa a caminhar para sair de uma vez daquele lugar, torcendo para não ter que encontrar de novo com Manigold e passar por mais alguma situação constrangedora. Assim que passa pelos pilares da entrada ela pode sentir alguém a agarrando por trás com força e tapando sua boca, impedindo que se mexesse ou gritasse. Apesar disso, seu primeiro impulso é tentar essas duas coisas, em vão. Havia levado um susto, pois estava desatenta e o agressor, quem quer que fosse, estava escondendo totalmente sua presença e seu cosmo. Além disso, como o santuário já estava em guerra poderia ser alguém nada agradável.

- Agora você será o meu jantar, garotinha! - uma voz sinistra fala em seu ouvido em um tom ameaçador.

A amazona tenta se soltar novamente enquanto força o olhar para ver quem a subjuga deste modo, mas não consegue enxergar o autor do ataque e tampouco se mover. De repente, uma familiar gargalhada é escutada por ela. "Ah, mas que cretino! Eu devia ter adivinhado!" Uma expressão de raiva surge em seu rosto e ela se controla para não gritar de ódio.

- Te assustei? - sussurra o cavaleiro em seu ouvido, tentando esconder toda a diversão e o prazer que estava sentindo com a situação.

- Mas é claro que não! - diz a amazona entre os dentes, ocultando com todas as forças o arrepio causado pela sensação do toque dos lábios do outro em sua orelha.

- Mentir é muito feio menininha... - continua ele, com uma voz sensual que faz com que o arrepio se espalhe por todo o corpo dela. - Se fosse um inimigo você já estaria morta nesse momento. - Aproveita a proximidade para aspirar o perfume que vinha do pescoço de Yuzuriha, o qual o deixava tonto de desejo. Estava se deleitando tanto com aquilo que já não conseguia mais se conter.

- Eu... não estou... mentindo... - a voz da garota sai interrompida pela respiração ofegante e os batimentos cardíacos acelerados. Já não conseguia mais disfarçar a sensação que a proximidade com Manigold lhe causava. Este, que não era nem um pouco tonto, percebeu na hora aonde tudo aquilo ia acabar. "Chega. Devo terminar com isso agora antes que seja tarde demais. Já me diverti o suficiente e não quero uma menina apaixonada grudada no meu pé."

- Acabou a brincadeira. - diz ele em um tom sério, largando-a e se afastando. Vira-se de costas e cruza os braços, calado.

"Mas o que esse idiota pensa que está fazendo?" A amazona não consegue decidir o que foi que a irritou mais: o ataque ou a interrupção dele. Furiosa, lança sua echarpe contra o cavaleiro, agarrando-o pelo pescoço.

- Por que você fez isso? - fala indignada. Seus olhos brilhavam de raiva.

O cavaleiro vira-se ficando de frente para ela e dá um puxão na echarpe, trazendo-a para perto dele e fazendo com que fiquem bem próximos. Então abre o seu sorriso característico.

- Sabia que posso considerar esse seu ato como uma afronta direta ao santuário? E consequentemente, posso te bater e machucar esse seu rostinho lindo... - diz enquanto fita-a com um olhar malicioso.

Apesar da raiva, o gênio difícil dela faz com que não consiga deixar passar uma provocação sem responder com outra maior ainda. Então puxa também a echarpe, quase colando seu rosto no dele.

- Ah, é mesmo? - diz em tom irônico. - Para isso você teria que me pegar primeiro! - completa, desafiando-o.

Manigold solta uma risada longa, divertindo-se, e responde:

- Por acaso isso é um desafio? Porque ser for mesmo, eu vou adorar ver você perdendo... - e ri mais um pouco. - E que tal se nós apimentássemos com uma aposta? - o olhar malicioso agora se torna maquiavélico.

Yuzuriha dá uma risadinha e retribui o olhar do cavaleiro.

- E quem é que disse que eu vou perder pra você?

- Então tá. Se eu ganhar, você vai desaparecer da minha vida e esquecer que eu existo. E se um milagre acontecer e você ganhar - faz uma expressão irônica, enfatizando o "milagre". - pode pedir o que quiser de mim.

- Olha, eu bem que tento sumir da sua vida, mas me parece que você não deixa isso acontecer... - responde no mesmo tom, dando uns tapinhas na bochecha dele. - Mas está ótimo pra mim, aposta aceita! - ela se aproxima do ouvido do cavaleiro e sussurra: - Afinal, o prêmio será o mesmo pra nós dois, ganhando ou perdendo.

- Hunf! Você errou feio ao me provocar! - dá um empurrãozinho nela para que se afaste um pouco. - Pois muito bem, eu tinha um compromisso com o velho, mas que se dane! Parece que tenho assuntos mais importantes a tratar no momento...

- Podemos começar? - completa com uma risada, estava se divertindo demais com aquilo. Logo após terminar a frase, um brilho forte surge e ela desaparece no ar. Agora Manigold apenas pode escutar as risadas de Yuzuriha. - Quero ver se você vai conseguir me encontrar! - fala entre risos.

- Vamos ver... - diz ele, levando uma das mãos no queixo. Após um instante, fecha os olhos e se concentra, enquanto um sorriso surge em seu rosto. - Você é boa nisso lindinha... mas eu sou muito melhor! - ergue o braço direito com o indicador apontado para cima. Um brilho azulado se concentra em sua ponta, enquanto várias luzes saem dele e voam para todas as direções. - Vão minhas belezinhas! Encontrem aquela garotinha pro papai! - as luzes se espalham pelo local, procurando pelo rastro da amazona. - Agora não há escapatória! Você perdeu! - diz ele quase gritando e rindo em seguida.

"Ah, mas eu não acredito que aquele safado vai ter coragem de usar esse golpe contra mim!" Ela fica indignada, pois conhece a técnica e sabe do que ela é capaz, sabe que não há como escapar mesmo. Então se antecipa, reaparecendo atrás do cavaleiro e pulando em suas costas.

- Seu trapaceiro! - agarra-se nele, o prendendo entre as pernas e um dos braços, enquanto usa o outro para enrolar sua echarpe no pescoço dele, apertando-o com força. - Não se mova ou vai perder a cabeça... - sussurra em seu ouvido. - Acho que não fui eu que perdi, não é mesmo? - solta uma risadinha.

- Tem certeza? - o sorriso irônico de sempre surge no rosto do cavaleiro, enquanto algumas luzes disparadas pelo golpe rodeiam a sua oponente e a acertam, atingindo-a diretamente na alma e arrancando esta para fora do corpo. - Sua bobinha... sabe muito bem que eu não meço esforços para vencer! - em alguns segundos, o espírito dela flutuava ao lado do corpo, este que agora se encontrava caído nos braços de Manigold. - Sabe que prefiro você assim? - fala olhando para o corpo e, em seguida, solta uma gargalhada.

Yuzuriha fica surpresa, alterna o olhar entre suas duas figuras e não consegue acreditar na audácia dele. "E não é que ele teve mesmo coragem de fazer isso!" Sua face toma uma expressão de tédio, ela cruza os braços e o encara.

- O que vai fazer agora, me matar? E se quer saber, você está trapaceando... nem vou considerar essa coisa ridícula que você fez como vitória!

- Que eu saiba você não criou nenhuma regra, não é mesmo? - fita-a com a mesma expressão carregada de ironia. - Eu não tenho culpa de você ser tão idiota e fraca... E se não admitir que eu venci, ficará assim pra sempre! Você pode escolher, mas saiba que estou tentado a ficar com seu corpo como meu troféu, hein? - ri debochando. - E ande logo, seu tempo está acabando.

- Se eu soubesse que você iria usar esses seus poderes idiotas, tinha te matado antes disso! - fala irritada. - E não vou admitir coisa nenhuma! Prefiro ficar assim pra sempre! Hunf! - fecha os olhos e empina o nariz, virando o rosto para o lado.

- Está bem então... você fez sua escolha! Agora eu e você vamos dar uma voltinha... - o cavaleiro solta o corpo desacordado no chão delicadamente e aponta o dedo para o espírito da amazona. "Parece que vou me divertir mais um pouco!" Logo após, um clarão surge no céu e os dois são sugados para dentro dele.

"Agora você vai me pagar... se está pensando que eu sou boba e que não conheço seus truques baratos, está muito enganado!" Pensa ela, enquanto é levada à força até o meikai.

Quando consegue enxergar alguma coisa, Yuzuriha se vê em um local escuro e horrível. A alguns metros deles pode ser observado um enorme buraco, de onde saem algumas luzes dispersas, e várias almas desfiguradas caminhando na direção desse buraco, se atirando dentro dele. Repentinamente, Manigold aparece ao seu lado.

- Sabe onde estamos?

- Sim, sei. - ela responde séria, sem sequer se virar para olhar no rosto dele.

- Então seja bem vinda ao meu parque de diversões! - diz ele em tom de brincadeira.

Pela mente ardilosa da amazona passam as mais diversas idéias. "Hum... eu poderia, quem sabe, jogar esse cretino dentro do yomotsu... Não, eu não teria coragem de fazer isso... as pobres almas que estão caindo lá dentro, além de sofrerem por toda a eternidade, ainda teriam que aturá-lo! Ah, mas ele vai ter o que merece... vai mesmo!" Ela então se vira para ele com uma face completamente assustada.

- Mani, por que você me trouxe aqui? Eu estou com medo! - fala em tom choroso e se agarra nele, escondendo o rosto em seu peito. Estava se contendo para não começar a rir, mas suas habilidades teatrais se mostraram magníficas naquele momento. Então ela sente a mão do cavaleiro tocar delicadamente seu queixo e levantar seu rosto, fazendo com que ela o fite diretamente nos olhos.

- Eu achei que se você viesse aqui e visse isso tudo com seus próprios olhos poderia saber mais sobre mim e entender como eu sou de verdade, pois o meu coração é idêntico a esse lugar. - diz ele seriamente, com uma expressão que ela nunca havia visto em seu rosto antes e que a pega totalmente de surpresa. A confusão toma conta de seus pensamentos e de sua face.

- O que? Você está falando sério? Pensei que havia me trazido até aqui para se divertir me torturando... - diz ela ainda olhando dentro dos olhos dele.

- Somente o fato de estar aqui já deve ser uma tortura para você. Afinal, esse lugar é torturante para qualquer um que não esteja acostumado a ser rodeado por sofrimento e desespero. - continua ele no mesmo tom calmo e sério. - Acho que agora você poderá entender melhor o que eu sou. Eu cresci aqui, respiro o ar desse lugar há muito tempo. Conheço tudo tão bem que me transformei numa personificação de tudo isso que você pode ver ao seu redor. - suas palavras são ditas com tanta convicção que a amazona pode visualizá-las no fundo dos olhos azuis do cavaleiro, como se estivesse vendo sua alma e constatando que tudo o que ele diz é a mais pura verdade. Sua face agora possui a mesma seriedade da dele e ela escuta atenciosamente as palavras, analisando-as, o que ele pode perceber apenas olhando no rosto de Yuzuriha. - Eu realmente pretendia torturá-la um pouquinho... - um meio sorriso surge em seu rosto. - Mas não há razão para eu fazer isso. Então, quero lhe pedir que não tente mudar o que eu sou, eu estou muito bem assim. - Manigold retira a mão do queixo dela devagar e ainda a fita com a mesma expressão séria no rosto.

A declaração sincera dele deixou-a atônita. Agora ela podia entendê-lo, saber por que ele era daquele jeito. Afinal, aquele era o lugar mais horrível que uma mente humana poderia imaginar, talvez até pior. Cada palavra pronunciada por ele fez com que ela se arrependesse do que ia fazer; não tem mais coragem nem a ousadia de querer ensinar qualquer lição àquele homem.

- Eu já estive aqui antes... eu sabia que... - fala tristemente, não consegue mais argumentar qualquer coisa sobre o que acabara de ouvir. - Olha, eu desisto... você venceu... vamos embora daqui.

- Então admite minha vitória? - o sorriso e o jeito maroto de sempre retornam à sua face e ele solta uma risadinha.

- Vou ter que repetir? - ela diz, virando os olhos.

- Está bem, está bem! - ri baixinho novamente. - Acredito que você entendeu... Tudo o que sou, minha vida e felicidade se resumem a isso. Eu não posso ser mudado... Eu nunca vou poder ser um homem... que possa amar... - apesar do tom melancólico, suas palavras transmitem sinceridade e determinação. O cavaleiro volta a apontar o indicador para o alto. - Agora se prepare, a viagem de volta costuma ter alguns efeitos colaterais! - fala brincando e ri.

- Efeitos colaterais? Mas do que você... - antes que ela pudesse terminar a frase, sua alma é tragada pelo poder espiritual dele, retornando ao mundo dos vivos. Em um piscar de olhos, a amazona estava de volta à casa de Câncer sentindo um forte impacto ao retornar ao corpo físico. Ao recobrar a consciência ela sente tontura e um leve enjôo. Pode visualizar Manigold em pé, escorado em um pilar a poucos metros. - Seu idiota! O que você fez comigo? Não precisava levar isso tudo tão a sério... - fala injuriada, enquanto esfrega de leve os olhos para clarear sua visão e levanta-se lentamente.

- Eu te ajudo. - o cavaleiro vai até ela e lhe estende a mão. - Agora acho melhor você ir andando, antes que seu namoradinho te veja aqui ou o velho arranque minha cabeça por estar tão atrasado. - diz em tom irônico. - E não se esqueça do que eu disse...

Yuzuriha se irrita com ele novamente. Pega em sua mão e dá um puxão, ficando em pé e fazendo com que os dois fiquem bem próximos.

- Escute aqui! Em primeiro lugar, eu não tenho "namoradinho" nenhum! - fala com raiva. - Em segundo, se você realmente não quer que eu me aproxime, por que vive entrando no meu caminho? Eu podia simplesmente ter passado por aqui sem termos nos encontrado se você não viesse com suas brincadeiras bobas de sempre! E em terceiro, eu acho que quem ainda tem que entender alguma coisa aqui é você. Pois eu já entendi perfeitamente: você quer que eu fique longe porque tem medo de me amar! - fala seriamente, sem alterar o tom de voz, enquanto o fita diretamente nos olhos.

- Eu sou sincero com você e é assim que me retribui? Saia agora daqui! Você é muito criança e boba demais para entender coisas de adultos. - Manigold fica espantado ao ouvir todas essas verdades; sabe que ela está completamente certa, mas jamais reconheceria. Então tenta esconder da melhor maneira que pode: afastando-a. Pega ela pelo braço e a arrasta em direção à saída da casa. - Já chega, você consegue irritar qualquer um! - diz ele tentando parecer bravo. Ela imediatamente percebe a encenação, então fala mordendo os lábios para não rir:

- Ai, calma! Ainda estou tonta... Espere! - puxa o braço, fazendo com que ele a solte e pare de andar.

- Pede pro seu namorado te ajudar! Me cansei de você, não quero nem saber se ainda está tonta ou não! - diz ele, ainda tentando encobrir o medo com a raiva.

- Eu já disse que não tenho namorado nenhum! - fala ainda se controlando para conter o riso. - E, além disso, você é um idiota! - a amazona já não consegue mais se segurar e abre um sorriso, pois sabe exatamente o que o outro está tentando fazer. Então se aproxima e cola seus lábios nos dele, o tomando em um beijo cálido e arrebatador enquanto o abraça com força.

O corpo do cavaleiro estremece por inteiro. Seu primeiro reflexo é o de empurrá-la, mas já não tem mais forças para fazer isso. Era como se o beijo dela lhe inoculasse um veneno que o paralisava, então apenas corresponde e a abraça ternamente. "Por que essa garota me deixa assim? Por que eu não consigo lutar contra essa sensação? Afinal, eu já enfrentei coisas muito piores que... o amor!"

"Ah, eu sabia! Ele já está apaixonado por mim, só não queria admitir! Eu posso até sentir... Mas eu também não consigo mais resistir a ele... Agora é tarde demais!" Pensa ela enquanto aumenta a intensidade de suas carícias, o beijando desesperadamente e pressionando seu corpo contra o dele. Logo após, agarra seus cabelos e acaricia sua nuca. Está tomada pelo desejo e não pensa mais em relutar.

Manigold sente um calor espalhar-se por seu corpo. Seu coração acelera ao sentir as carícias audaciosas de Yuzuriha. Tê-la assim o faz perder totalmente o controle. Já não pode fazer mais nada além de ceder aos instintos e retribuir do mesmo modo, agarrando o corpo em seus braços, sentindo a pele macia dela se arrepiar com o seu toque. "Ah, essa menina mexe realmente comigo... eu vou enlouquecer desse jeito! Mas... eu não posso continuar com isso, não posso deixar que vá mais longe... ou ainda terei muitos problemas no futuro!" Apesar de seu corpo e seu coração implorarem para que continue, o cavaleiro consegue reunir todas as suas forças e a empurra de leve, afastando-a dele. Olha para o chão, sua respiração está completamente ofegante. A garota abre os olhos e observa o rosto dele com a respiração acelerada e a face corada.

- O que foi? - diz ela, enquanto toca a face dele delicadamente.

- Vá embora. - ele responde sério, tirando a mão dela de seu rosto e jogando-a para o lado.

- Cale a boca. - fala ignorando completamente a atitude dele. - Depois eu que sou a criança... Não adianta mais, eu já percebi a sua encenação! - volta a se aproximar dele, o puxando e tomando seus lábios novamente. O relutante canceriano reúne todas as forças que ainda lhe restam e afasta Yuzuriha dele novamente.

- Eu já disse pra você ir embora! - diz ele alterando seu tom de voz. Está em desespero, pois já não pode mais se aguentar de tanto desejo. Em seguida, pega ela pelo braço e leva até a beira da escadaria, largando-a lá e virando-se de costas. - Se você quer beijos, lhe aconselho a ir até a 1ª casa, pois o guardião de lá irá adorar.

- O que? Você vai mesmo insistir nisso? - responde ela indignada. - Não seja idiota, você sabe que não é isso que realmente quer!

- Saia daqui, eu já disse que não quero mais vê-la na minha frente!

A amazona se irrita e começa a se sentir ofendida com a insistência dele em rejeitá-la. O puxa pelo braço, fazendo-o se virar de frente para ela.

- Se eu for embora agora você nunca mais vai me ver! - fala em tom ameaçador.

A situação fica cada vez pior para o cavaleiro, que luta contra seu pior inimigo: o coração. Concentra-se como nunca havia feito antes e usa toda a frieza que consegue para responder. Era a coisa mais difícil que já havia feito em toda a sua vida.

- Vá, é isso mesmo que eu quero. - fala baixo, mas determinado.

A teimosia dele a deixa furiosa. Agarra-o pela gola e o puxa, fazendo com que seus rostos se aproximem.

- Tudo bem, se é isso que você realmente quer, eu farei. Mas antes, você vai dizer olhando nos meus olhos que não sente nada por mim!

Seu olhar treme ao encará-la, tinha certeza que as palavras que iria dizer lhe machucariam mais do que qualquer coisa.

- Eu não sinto nada por você. - pronunciar esta simples frase lhe causou uma dor profunda, mas tenta se consolar pensando que assim foi o melhor para os dois. - Agora vá, tenho coisas mais importantes pra fazer do que ficar aqui brincando com você. - enquanto fala ele se solta e vira-se caminhando em direção à casa de Câncer.

Yuzuriha o observa, estreitando os olhos de raiva. "Eu não posso acreditar que ele está mesmo fazendo isso comigo... quem esse maldito pensa que é?" Leva uma das mãos à testa, tentando se acalmar. "Preciso ficar calma, não posso perder o controle de novo..." Respira fundo e se concentra. "Ah, me acalmar coisa nenhuma! Não vou permitir que ninguém me trate desse jeito!" Começa a correr em direção à casa, um brilho intenso a rodeia e ela desaparece no ar.

Manigold continuava caminhando, já estava quase na saída de Câncer. Sentia-se pior a cada passo que dava, sua vontade era de se virar e voltar correndo para os braços da mulher que deixou para trás, mas o seu bom senso não permitia que fizesse isso. Ele sabia que um envolvimento amoroso acabaria com seus planos e com os dela também; tudo pelo que lutaram e passaram até hoje iria ser prejudicado. O conflito entre o coração e a razão estavam destruindo sua alma.

A amazona reaparece na frente dele após uma luz intensa, está muito magoada e descontrolada de ódio. Isso faz com que ele pare de caminhar e direcione seu olhar para ela, que já o encara com os olhos cintilando de fúria.

- Você é um covarde idiota! Nunca mais irá me ver! - completa acertando-lhe um tapa na cara. Depois passa ao lado dele dando-lhe as costas, e caminha de volta para onde estava, sumindo na penumbra.

- Pois é isso mesmo que eu espero! - o cavaleiro grita com raiva, levando a mão até o seu rosto no local que ela havia atingido. Depois volta a caminhar, com as dolorosas palavras dela ecoando em sua mente. - Um dia ela irá entender... - fala baixinho para si mesmo, tentando trancar as emoções em um lugar profundo do coração. Continua seguindo seu caminho, indo em direção ao salão do Mestre.

Yuzuriha corria em direção à saída da casa, queria sair daquele lugar o mais depressa possível. Seus olhos estavam cheios de lágrimas de raiva e mágoa, mas ela usava todas as suas forças para não deixar que nenhuma gota delas rolasse por sua face.

...

Passados alguns minutos, Yuzuriha já está quase chegando a Áries. Está um pouco mais calma, mas os efeitos da briga com Manigold ainda perturbam seu coração. A amazona caminha apressadamente e, ao avistar a casa, se lembra de Shion e de que não irá conseguir passar por ali tão facilmente como passou por Gêmeos e Touro. Fica preocupada, pois tem certeza de que o amigo ainda lhe fará perguntas sobre o episódio constrangedor em frente ao salão do Mestre, e ela não quer ter de lhe dar maiores explicações sobre aquilo para evitar um novo vexame. E também porque não está em condições de inventar qualquer história ou de disfarçar o que está sentindo. Então continua caminhando, torcendo para que ele não a veja passar. Mas ao se aproximar da entrada, sua esperança de passar despercebida se esvai, pois pode ver claramente o guardião parado na porta esperando-a, com uma expressão de preocupação no rosto que ela pode notar de longe. Então apenas respira fundo e continua a caminhar, enquanto se esforça ao máximo para esconder tudo o que está sentindo.

- Olá Shion. - o cumprimenta normalmente, na esperança de que ele não perceba o transtorno que acontece em seu interior.

- Yuzuriha... você está bem? Eu pude sentir a oscilação de seu cosmo à distância... - diz ele serenamente, enquanto segura o braço dela com delicadeza.

A situação estava pior do que ela podia imaginar. Além das preocupações anteriores, agora ela teria que pensar em uma desculpa para o circo que aconteceu na casa de Câncer, pois aparentemente ele havia notado aquilo também. Isso a faz engolir seco.

- Sim... estou bem, sim.

- Você não me engana Yuzu, eu a conheço desde pequena e posso ver que há algo errado com você. - sorri carinhosamente e coloca a mão no ombro dela. - Vamos, entre e tome um chá comigo, assim você se acalma e me conta o que está acontecendo.

- Ah... eu não esconderia algo grave de você... está tudo bem mesmo! - sorri disfarçando, mas o rubor em sua face a denuncia. - Mas aceito o seu convite, afinal faz bastante tempo que não conversamos. - conclui que é melhor não recusar, pois pode preocupá-lo ainda mais.

- Vamos então? - Shion estende a mão a ela em um gesto de cortesia.

- Sim. - a amazona aceita a gentileza e o acompanha até o interior da casa.

O cavaleiro a guia até a cozinha e gentilmente puxa uma cadeira para que ela se sente a uma singela mesa para duas pessoas. Depois se põe a preparar a bebida, permanecendo em silêncio até se aproximar dela com uma caneca de chá de camomila.

- Aqui está. Beba, é bom para acalmar um coração agitado. - fala calmamente e se senta na outra cadeira, fitando-a com um olhar preocupado.

- Obrigada. - ela agradece com um leve sorriso no rosto, pega a caneca e toma alguns pequenos goles.

Os olhos do ariano não se desviam do rosto dela, nem mesmo enquanto bebe o chá. Ele a analisa silenciosamente enquanto dá um tempo para que se acalme. Yuzuriha fica constrangida ao notar seus olhares; olha em seus olhos e desvia em seguida, não conseguindo encará-lo. Permanece calada e apenas toma alguns goles da bebida de vez em quando.

Shion leva a mão até a boca e pigarreia levemente, enquanto larga a caneca sobre a mesa. Depois se dirige a ela observando-a ainda mais atentamente.

- Yuzu, você sabe que eu não sou de me intrometer em sua vida, mas sempre fomos muito próximos e estou realmente preocupado... - faz uma breve pausa enquanto ela o fita aguardando. - Por favor, me conte o que está acontecendo entre você e Manigold.

Ela quase se engasga com o susto que toma ao ouvir isso. Arregala os olhos e abre levemente a boca; com o rosto corado, fita-o totalmente surpresa. Após um instante, ao lembrar que ele a observa com atenção, ela disfarça e responde a sua pergunta.

- O que poderia estar acontecendo? - dá uma risadinha e tenta despistá-lo. Porém, o seu charminho não o convence.

- Me diga, ele está lhe forçando a algo? - pergunta preocupado. - Me desculpe por ser tão indiscreto, mas depois do que presenciei hoje na entrada do salão do Grande Mestre... E, além disso, você está tão nervosa que mal consegue disfarçar sua insegurança e desconforto diante de minhas indagações. - os olhos dela se arregalam novamente enquanto escuta as palavras do cavaleiro. - Por favor, me conte o que está acontecendo, não tenha medo... - fita-a com sofreguidão. - Nós crescemos juntos, já fomos até noivos... Pode não parecer e talvez eu não saiba direito como demonstrar, mas me preocupo muito com você. - repousa sua mão sobre a dela, que estava em cima da mesa. - Não importa o que seja, saiba que eu a protegerei! - completa agoniado.

A amazona sente um baque ao ouvir tais palavras. Não pode se abrir com o amigo e se sente mal por estar escondendo e mentindo para ele. Mas contar-lhe a verdade estava fora de cogitação, então ela respira fundo e tenta se recompor.

- Shion, eu agradeço a sua preocupação comigo e quero que saiba que também lhe tenho muita consideração, mas você me conhece... sabe que eu sei me defender. - fala calmamente e sorri. - Jamais alguém me forçaria a fazer algo que não quero. E além do mais, você conhece o Manigold... sabe bem como é jeito dele e que também somos amigos há bastante tempo. Realmente, não há motivos para se preocupar! - segura a mão dele apertando levemente, enquanto o fita com um olhar terno.

O cavaleiro fecha os olhos ao sentir o toque dela em sua mão. Apesar de não terem nada além de uma grande amizade e carinho um pelo outro, ele sempre nutriu alguns sentimentos a mais por ela, que mantinha adormecidos, pois conforme o caminho que resolveram seguir, não podia jamais declará-los. Mas a proximidade entre os dois trazia-os de volta à tona.

- Sabe... talvez se vivêssemos em tempos de paz... nós poderíamos ter sido felizes juntos. Quero que você me perdoe por ter escolhido esse caminho, por ter decidido me tornar um cavaleiro. - abre os olhos e a fita com expressão de culpa, enquanto coloca a outra mão sobre a dela, pressionando-a de leve. - Yuzu, eu sinto muito por não estar mais presente em sua vida.

As palavras dele fazem um frio subir por sua espinha.

- Shion, você não tem culpa de nada... eu também escolhi o mesmo caminho. - fala um pouco alterada. - Me desculpe... eu não queria que se preocupasse... não queria lhe trazer problemas... - olha para o chão, virando a cabeça um pouco para o lado.

Ele sabe que ela esconde alguma coisa mais grave, mas conhece seu gênio difícil e resolve não insistir mais. Levanta-se da cadeira, dá a volta na mesa e fica na frente dela. Então pega em sua mão e a faz se levantar para que ele possa envolvê-la em um abraço quente e carinhoso.

- Cuidar de você jamais seria um problema para mim...

Yuzuriha fica paralisada por um instante ao sentir o calor que vinha do cavaleiro. Mas logo o abraça também e fecha os olhos, já não agüenta mais a sensação de culpa que a atormenta. Então ela sente a mão dele tocar seu queixo e erguê-lo um pouco e, logo após, os lábios dele em sua testa, dando-lhe um leve e delicado beijo. Permanece imóvel, em silêncio e com os olhos fechados. O ariano a envolve ainda mais nos braços, encosta a face em sua cabeça e aspira o perfume de seus cabelos, como se isso fosse suficiente para amenizar a saudade que sente dela.

Enquanto isso tudo acontecia, um irritado Manigold adentra a casa de Áries caminhando apressadamente. O Mestre havia lhe dado uma missão e ele não estava com a mínima condição de pensar em resolver problemas naquela noite. "Tomara que eu não encontre o Shion agora... certinho do jeito que ele é vai querer me passar um sermão por causa do que aconteceu antes e não estou com paciência pra isso." Pensa ele, com uma expressão de tédio no rosto. Apesar de estar de mau humor, continua andando e começa a cantarolar distraindo-se.

O canceriano passa pela porta da cozinha e vê a cena entre Shion e Yuzuriha de relance, mas absorto como estava, acaba dando mais alguns passos. Então pára se dando conta do que viu e arregala os olhos. Volta alguns passos, de costas mesmo, e olha para dentro da porta. Vê os dois abraçados e fica indignado.

- Ah... eu sabia! - fala baixo, mas em um volume que pode ser ouvido por eles.

O cavaleiro de Áries apenas se afasta um pouco para olhar em direção à voz, mas mantém-se abraçado à amazona. Estava tão entretido que nem notou que alguém havia adentrado a casa. Já ela, leva um grande susto. Arregala os olhos e dá um passo para trás, afastando-se ainda mais de Shion.

- Manigold? - o ariano fala baixo, mas com tom de surpresa e susto na voz.

- Aposto que já veio reclamar pra ele, né? Depois vem com aquele papinho pra cima de mim... - responde ele, mas olhando para a amazona. - Vocês dois se merecem mesmo, o esquisito e a chatinha! - cruza os braços e se escora na soleira da porta, com uma expressão de ironia e um sorriso torto no rosto para esconder todas as emoções que sente.

- Como é que é? - ela estreita os olhos e o fulmina com o olhar, falando baixo com a voz carregada de raiva.

Shion se afasta dela sem entender nada, mas não perde sua postura imponente e toma a frente da situação.

- Eu não sei o que está acontecendo entre vocês, mas não permitirei que adentre a minha casa para insultar a mim ou a Yuzuriha. - fala em tom sério e firme, mas mantendo a expressão serena.

- Ta bem, ta bem... não precisa dar uma de macho alfa pra cima de mim! Não estou ofendendo ninguém, somente falando a verdade. - ironiza ele. - Mas lhe dou um conselho meu amigo... segure essa aí ou ela vai se atirar pra cima do cavaleiro da casa seguinte! Vive correndo atrás de mim, mas como tenho consideração por você, a mandei pastar! - fala em tom brincalhão e ri, mas por dentro está mexido por ter visto a cena entre os dois. Para se preservar, ele esconde os sentimentos atrás de uma máscara de infantilidades e idiotices.

- O queee? - grita a amazona, ficando vermelha de ódio.

- Manigold! Todos aqui conhecem a sua fama. Não venha colocar a culpa de seus flertes e infantilidades em cima de Yuzuriha! - aumenta um pouco o tom de voz para impor-se. - Eu mesmo vi o que fez com ela. Carregá-la daquela maneira diante de todo o santuário... - fecha os olhos e balança a cabeça negativamente. - Como pôde expô-la a esse ridículo?

- Tenho certeza que ela adorou! - responde ele a fitando com malícia.

Ela apenas fica boquiaberta, não sabe mais o que responder a essas afrontas. Está se segurando para não pular nele e estrangulá-lo.

- É mesmo... gostou tanto que, no momento você entrou, estávamos conversando sobre reatar nosso noivado - responde ele com um leve sarcasmo na voz e puxa a garota pela cintura, abraçando-a. -, justamente para que eu fique mais presente ao lado dela e a proteja de suas intempéries. - Se vira para ela e fala em um tom carinhoso: - Não é mesmo Yuzuriha? Diga a ele... - a fita com um olhar cúmplice que demonstra calma e tranquilidade, mostrando que apenas a defende. Mesmo assim, ela arregala os olhos e fica pasma, não consegue dizer uma palavra sequer. - Se estivermos vivos após a guerra, marcaremos nosso casamento. - o olhar penetrante do ariano permanece sobre os olhos dela e ele sorri levemente.

O sorriso que estava no rosto de Manigold desaparece no ato, dando lugar a uma expressão séria. Não consegue disfarçar seu descontentamento com a notícia, por mais que tente.

- Ah, que bom para os pombinhos, pois já estou cansado dessa garota! - fala sarcasticamente. - E nem precisa responder, já sei o que vai dizer. - vira-se de costas para eles.

Yuzuriha continua calada e direciona seu olhar para o canceriano.

- Ótimo, agora sei que manterá distância, não é mesmo Manigold? - diz Shion, voltando seu olhar para ele.

- Você deveria dizer isso pra ela, que vive correndo atrás de mim. - responde secamente sem se virar.

- Sei... como se eu não a conhecesse... ou melhor, como se não conhecesse a sua fama! - fala em tom desconfiado.

- Quer saber? - o cavaleiro de câncer se vira para os dois. - Vocês me irritam! Prefiro mil vezes ir cuidar dos problemas dos outros do que ficar aqui escutando um namoradinho ciumento reclamando. Só tenho uma palavra pros dois: Adeus!

A amazona está profundamente irritada, mas não responde às ofensas. Faz um grande esforço para se controlar e constata que ele merece mesmo uma lição pelo que fez com ela, então aceita a proteção de Shion, apesar de isso não ser realmente de seu agrado. Apenas permanece em silêncio fitando o canceriano.

- Agradeço por se retirar Manigold. Pode passar e boa sorte em sua missão! - diz o ariano em um tom sério e imponente, enquanto o fita ainda abraçado à Yuzuriha.

- Menina, espero que tudo o que aconteceu hoje sirva como um bom motivo para que você não se aproxime mais de mim. - após falar isso, volta ao seu tom debochado de sempre. - Afinal, não sou pro seu bico! - dá uma risadinha. - E também já estou de saco cheio de vocês dois, continuem aí com os seus beijinhos idiotas e melosos... - se vira e começa a caminhar.

As palavras dele a fazem corar de raiva. Mas ela respira fundo e se contêm, apenas respondendo friamente:

- Eu prometi que você não me veria mais.

O canceriano continua caminhando e não fala mais nada. "Melhor assim, que saia de vez da minha vida. Anime-se Manigold, fique feliz... tem várias escolhas melhores pra você por aí!" Pensa ele tentando se consolar, enquanto segue seu caminho para sair da casa de Áries.

Shion segura a mão de Yuzuriha e dá um beijo carinhoso.

- Acredito que agora ele não irá mais atormentá-la. - fala carinhosamente com um sorriso bondoso no rosto, enquanto acaricia a face dela com a outra mão.

- É... acho que sim. - responde ela com um sorriso melancólico. Está satisfeita por ter se segurado e feito Manigold de bobo. Tem certeza que ele aprendeu a lição, pois apesar de ter tentado ao máximo esconder, ela viu em seus olhos o quanto ficou incomodado com o que presenciou.

- Agora vamos terminar nosso chá? Assim pode me contar como anda o Mestre Hakurei. - o cavaleiro de Áries aparta-se dela ainda fitando-a com seu olhar manso e pacífico.

- Shion eu... - olha para o chão. - Me desculpe por tudo isso... eu não queria lhe trazer problemas... E quero que saiba que o que ele disse não era verdade! - diz ela envergonhada, com um tom de voz triste.

- Yuzu, não se preocupe. Eu lhe conheço bem e há muito tenho ciência de sua decisão. Somos... amigos... não é mesmo? Você pode contar comigo para o que precisar. - a fita com um olhar carinhoso.

- Sim, claro que somos! - levanta seus olhos e sorri levemente para ele. - Obrigada...

Shion sorri para ela e fala calmamente:

- Eu sinto muito por ter feito aquilo, mas percebi que as intenções de Manigold não eram muito... castas.

- Ah... é... - ela fica constrangida e se atrapalha nas palavras, pois tem consciência de que as intenções dela também nunca foram nada inocentes. - Não se preocupe... está tudo bem...

- Vamos então? - diz ele se virando para a mesa

Ela balança a cabeça afirmativamente e os dois voltam a se sentar.

Alguns momentos de silêncio se seguem, enquanto refletem sobre o que acabara de acontecer. Yuzuriha sorve o chá com os olhos baixos e Shion a olha de soslaio sem que ela note. O cavaleiro sente seu coração apertar ao fingir que não percebeu os olhares dela na direção de Manigold. Apenas suspira fundo e toma alguns goles de seu chá.

...

POV Yuzuriha

Assim que me despedi amigavelmente de Shion e deixei a casa de Áries, depois de conversarmos sobre algumas amenidades, comecei a refletir sobre tudo o que havia acontecido enquanto caminhava para longe das doze casas. Eu estava realmente confusa... Dois amigos de infância, duas pessoas tão diferentes... Eu sentia algo pelos dois e precisava decifrar o que eram esses sentimentos e todas essas sensações, que eram novidade para mim. Andei um pouco e me deparei com um jardim de flores, um lugar calmo e tranqüilo, então me sentei em um banco de pedra e decidi que aquele era o momento de eu pensar e descobrir o que estava acontecendo comigo. Claro que nada disso iria mudar o rumo que eu já havia dado para a minha vida; nada nem ninguém iria me desviar do caminho que escolhi. Juntei uma flor que estava caída ao chão, encolhi as pernas, apoiei meus braços sobre elas e comecei a raciocinar, enquanto balançava e brincava com a florzinha.

"Shion é calmo, gentil, bondoso, se preocupa comigo... tem inúmeras qualidades... Se nós dois não tivéssemos seguido o caminho das lutas e continuado com o noivado arranjado por nossas famílias, ele seria um homem perfeito para se casar comigo. Eu o admiro por tudo o que ele é, tenho muito carinho por essa pessoa maravilhosa que sempre esteve ao meu lado. Eu o amo... assim como amava o meu irmão. Não sei o que ele realmente sente por mim, mas imagino que suas reações perante às afrontas do Manigold tenham sido mesmo apenas para me proteger. Ele não poderia estar falando sério naquele momento... com certeza não. Ele é meu amigo, alguém que eu gosto de ter por perto, sua companhia me faz bem." - dou um longo e profundo suspiro - "Já o outro... aquele idiota!" - nesse momento, comecei a apertar com força a flor que estava em minha mão - "Só de lembrar dele eu já sinto raiva... Sim, ele desperta em mim os mais variados sentimentos, dos melhores aos piores. Eu nunca tive tanta vontade de bater em alguém como nessas últimas horas que passei perto daquele homem. Manigold é totalmente o oposto de Shion: infantil, rude, desvairado, grosseiro, irritante... o jeito como ele me trata é ridículo, absurdo! Como eu ainda posso considerar a idéia de ver aquela criatura de novo na minha frente algum dia? Eu devia mesmo nunca mais olhar na cara dele, nunca mais lhe dirigir uma palavra sequer, nem para xingá-lo. Mesmo se ele não houvesse me tratado mal, aquele jeito irônico dele me tira do sério, eu não agüento passar mais do que alguns minutos em sua companhia sem que a ira tome conta de mim. Sim, ele é tudo isso, tem todos esses defeitos... e eu não consigo ficar longe dele! Eu não sei o que é isso... uma corrente invisível, um campo de força de atração, sei lá o que... Mas alguma coisa me prende àquele homem. Alguma coisa nele desperta uma sensação em mim que eu não consigo controlar. Estar perto dele me faz mudar: eu perco a linha, o controle, a seriedade... não sou mais eu mesma. O instinto toma conta do meu corpo e, em apenas um segundo, eu esqueço tudo o que eu devia fazer e só penso no que eu quero no momento, no que o meu corpo pede, ou melhor, ordena à minha mente. Por que ele causa tudo isso em mim? Por que eu não consigo odiar e afastar aquela criatura da minha vida? Por que eu penso tanto nele?"- a esta altura, a coitada da flor já havia virado pó.

Eu parei, respirei fundo... e concluí o que estava na minha frente há tanto tempo e eu não enxergava. Eu não queria admitir, não aceitava e não concordava com isso, mas não havia mais nada que eu pudesse fazer. "Eu amo aquele desgraçado!"

Cerrei os punhos com força e soltei um grito de raiva. Aquilo não podia estar acontecendo comigo. "Logo... ele?" - levei as mãos à cabeça, esfregando-as na minha testa, numa tentativa de amenizar a dor de cabeça que, eu já estava prevendo, iniciaria neste momento. "Sim, ele mesmo. Eu o amo! Amo todos aqueles defeitos horríveis que ele tem... amo aquele jeito idiota, infantil e as brincadeiras bobas que ele faz comigo... amo o jeito como ele me toca e me pega, como se nunca mais fosse largar... amo a maneira como ele me olha e todas as coisas que eu posso ver escondidas por trás de seus olhos azuis lindos quando ele está olhando pra mim... amo tudo que tenha a ver com aquele cretino!" - após esta constatação, só me restou cobrir o rosto com as mãos e balançar a cabeça negando.

"Não adianta, não posso mais negar... não posso enganar a mim mesma. Eu não consigo afastá-lo de vez simplesmente porque estou completamente apaixonada por ele. Não há mais o que eu possa fazer sobre isso. Ver sua figura me causa um frio na barriga. Seu toque faz uma corrente elétrica percorrer todo o meu ser e o meu corpo suplicar pelo contato com o dele. E quando ele me beija, eu me perco totalmente, é como se estivesse flutuando... todas as células do meu corpo imploram para estar junto daquele homem... para sermos um só."

Eu sabia que o Manigold não era a melhor escolha para mim e não era a pessoa que eu deveria amar, mas o que eu podia fazer? Ele era... diferente. Isso mesmo. Ele não se parecia em nada com os outros, era especial, se destacava. Eu o enxergava colorido em meio a um mundo preto-e-branco. As outras pessoas podiam não entendê-lo, mas eu entendia... eu enxerguei o anjo que havia escondido por trás do demônio. Eu pude ver o que ele sentia por mim, tudo o que ele ocultou atrás daquela máscara de infantilidade e orgulho. Eu tentei ignorar e esquecer o que eu vi e senti, mas já não era mais possível. Agora tudo havia mudado... e pensar nisso começou a doer.

"Eu o quero... quero mais do que tudo! Eu o desejo tanto, que talvez até fosse capaz de abandonar todos os meus planos por causa dele... Ah, mas o que eu estou pensando? Devo ter enlouquecido! O amor é uma coisa, o dever que eu tenho é outra... Não posso esquecer tudo o que prometi! É... melhor assim. Eu já admiti pra mim mesma o que sinto e... pronto! Não preciso fazer mais nada sobre isso. Vou continuar o meu caminho e deixar isso pra lá... Exatamente. Droga! O problema vai ser eu conseguir fazer isso, afinal, aquele doido não me ajuda nem um pouco nessa tarefa... Aaahh! Eu estou perdida!"

- Eu estou perdida! - lamentei-me em alto e bom som, logo após deixar cair as mãos que cobriam o meu rosto. Mas somente após o meu rompante eu pude notar que não estava totalmente sozinha naquele lugar como pensei que estaria.

Continua...