Era noite. Chegaram cedo à vila que seria, provavelmente, o próximo alvo, e descansavam no quarto que tinham alugado. Por conta das despesas de viagem, acabaram no mesmo cômodo, para desgosto do cavaleiro de Leão. Shaka meditava no chão, enquanto Aioria cuidava da própria armadura, limpando cada peça com cuidado.

Quando terminou, deitou-se na cama e deu um profundo suspiro. Shaka parou e fitou-o.

"Você virou cavaleiro por causa da paz e da justiça na Terra?"

"No começo, não. Era porque eu queria ser como o meu irmão. Não o meu irmão que traiu o Santuário. Mas como ele era antes."

"Aioros de Sagitário era conhecido por sua benevolência e coragem, além das técnicas de alto grau de dificuldade. Ele era um verdadeiro exemplo a ser seguido por outros cavaleiros de Athena, não é verdade?"

"É raro você lembrar disso. Ninguém costuma lembrar dele assim."

"Pode ser que você também não."

"Eu lembro todos os dias."

"Disso eu não tenho dúvida... Mas não me refiro a isso. Quando alguém diz a você que seu irmão foi um traidor, você não tenta defendê-lo com esse passado glorioso que ele teve. Por quê?"

Aioria sentou-se com as pernas cruzadas sobre a cama e olhou para o colega.

"Porque quando faço isso, as pessoas dizem que ele só estava fingindo, e que a traição dele é a prova inquestionável de infidelidade."

"E o que você acha sobre isso? Você acha que seu irmão de fato tentou matar Athena?"

"Todos dizem que ele tentou. Se eu dissesse o contrário, estaria duvidando do próprio mestre do Santuário."

"Mas você acredita nisso?"

"Eu continuo não querendo acreditar. Eu só queria que as pessoas esquecessem isso, sabe? Cada vez que alguém lembra que Aioros de Sagitário traiu o Santuário... A velha cicatriz dói, porque eu não consigo aceitar. Quando eu era pequeno, acompanhei meu irmão em muitas missões... E ele nunca demonstrou infidelidade, em momento algum... Meu irmão não era bom apenas em fachada, e disso eu não tenho dúvida. O que aconteceu naquele dia... Eu realmente não sei. Só tinha sete anos na época."

"Achei que você pudesse me fornecer mais informações sobre o que houve. Mas estou vendo que não."

"Shaka, você acredita que meu irmão Aioros foi o traidor?"

"Eu acredito que Aioros seja de fato um traidor. E acredito que Aioros também foi um esplêndido cavaleiro. Só acho que aconteceu algo além da nossa visão... Algo que o levou a essa traição. Mas eu acho muito empobrecedor dizer que Aioros é tudo o que dizem. Afinal de contas, como você disse, ele teve um passado perfeito."

"E você acredita no que todos dizem? Que eu possa ser um traidor só por ter o sangue do meu irmão?"

"Você nunca demonstrou sinal disso. É verdade que Aioros também nunca demonstrou sinais de que trairia o Santuário, mas eu não acho que devamos fazer julgamentos com base no berço. Se isso fosse verdade, eu, que nasci miserável e passando fome, jamais teria chegado ao posto de cavaleiro de ouro. Por esse motivo, não o vejo como um traidor, nem como alguém que possa nos trair."

"E você respeita o meu irmão?"

"Se ele saísse do túmulo, seria o meu dever de cavaleiro pô-lo de volta na terra. Mas isso não muda o fato de ele ter sido um grande cavaleiro."

Aioria respirou fundo e soltou todo o ar num suspiro. Olhou para baixo, relembrando o fatídico dia.

"Eu devia estar furioso por você dizer que mataria o meu irmão... Mas não estou. Já faz muitos anos que não ouço alguém falar que meu irmão foi um grande cavaleiro. Na verdade, é a primeira vez desde aquele dia..."

"Eu não tenho por que falar mal de seu irmão. Eu já estive numa missão com ele uma vez."

"Isso é verdade, Shaka?"

"Foi com certeza muito mais tranquilo do que com você."

"Desculpe se eu sou direto demais para cumprir a missão!", respondeu Aioria, fechando a cara.

Shaka riu.

"Eu aprendi muito com o seu irmão. Ele não era um cavaleiro como os outros. Ele tinha muito conhecimento, e refletia profundamente sobre o mundo que o cercava. Mesmo assim, era um homem com opiniões diferentes das minhas, e nós nos respeitamos desde o início da missão. Você gostaria de saber como foi?"

"Sim, é lógico."

"Era uma missão de resgate, perto da minha casa, na Índia. Havia rumores de um monstro no rio Ganges, e eu mesmo o tinha visto."

"Ah... Eu lembro disso. Ele viajou sozinho, porque queria que eu treinasse uns golpes novos. Até pedi para ir com ele, mas acho que a missão era arriscada demais para ele me levar."

"É... na época, eu também era muito novo. Você e eu temos a mesmo idade, afinal. Meu mestre era a voz que eu conhecia no templo: o próprio Buda. Quando o seu irmão apareceu na minha vila, perguntou para cada morador sobre o monstro. Eu fui o único a vê-lo, por isso ele me levou na missão, dizendo para ficar um pouco atrás. Mas ficou bastante surpreso quando descobriu que eu já possuía o cosmos."

"Você já tinha cosmos naquela época?"

"Sabe tão bem quanto eu que pessoas desenvolvem o cosmos em ritmos diferenciados."

"Mesmo assim... É incrível."

"Seu irmão me contou então sobre a deusa Athena e sobre o Santuário dos cavaleiros. E quando ele me falava da deusa, era como se falasse da própria filha. Era impossível negar o sentimento que ele tinha com ela."

"Ele falava mesmo muito nela..."

"Foi ele quem me sugeriu fazer o treino para tornar-me um cavaleiro de Athena. Eu lhe contei sobre o princípio da vida e da morte, que tinha aprendido no templo. E ele me respondeu que a morte era tão natural quanto a vida, e que o trabalho de um verdadeiro cavaleiro é buscar o equilíbrio entre as formas de vida para que todas possam ter o direito de sentir alegrias e tristezas. Para ele, esse era o conceito de justiça."

"Equilíbrio...?"

"Sim. Ele passou a me contar muitas histórias sobre o Santuário enquanto investigávamos. E quando o monstro apareceu..."

Shaka sorriu e ficou alguns segundos em silêncio.

"O que foi, Shaka? Conte o resto."

"Vou contar depois de a nossa hidra aparecer. Será mais interessante assim."

"O que uma história tem a ver com a outra?"

"Tudo a ver. Mas está tarde agora. Acho melhor nós dormirmos. Se a hidra aparecer amanhã de manhã, estaremos bem descansados para lidar com ela."

"Mas Shaka...!"

O colega ignorou-o. Arrumou sua cama para dormir e enfiou-se sob o cobertor. Aioria, sem ter como arrancar o final da história do outro, deu-se por vencido e também foi dormir.