Viram a movimentação das águas antes dos moradores. Shaka foi o primeiro a perceber por ter os sentidos mais aguçados. Aioria procedeu com o trabalho de evacuação, para que pudessem lidar com a fera sem se preocupar com civis. Shaka, por sua vez, criou duas barreiras cósmicas para que a hidra não pudesse avançar ou retroceder, enquanto esperava o parceiro.

Quando Aioria retornou, Shaka ainda detinha a criatura.

"Terminou?"

"Foi um pouco trabalhoso, mas todos estão a salvo. Agora podemos lutar."

"Tome cuidado, Aioria. Esse monstro é capaz de matar apenas com o seu hálito venenoso."

"Entendi. Acho que não precisamos dos dois para lidar com uma criatura dessas. Apenas mantenha a sua barreira erguida para que ele não possa fugir."

"Certo. Quero ver como o cavaleiro de Leão se sai com esse problema. Pode ir tranquilo, Aioria."

"Finalmente! Agora fique quieto e assista!"

Aioria saltou para a água, na direção do monstro. Depois de passar pela barreira de Shaka, encarou a criatura, que devia ter pouco mais de dez metros. Queimou o cosmos e lançou um golpe fraco, apenas para chamar a atenção. Afinal, não achava justo atacar de surpresa.

Oito das cabeças guincharam de irritação e logo se atiraram feito loucas para cima dele. Aioria até pensou em destruir uma das cabeças, mas lembrou-se da lenda: quando uma cabeça era cortada, duas surgiam no lugar. E nove já era um número bastante problemático.

Logo Aioria notou que os ataques não podiam ser coordenados. Se fossem, certamente estaria perdido. Desviava sem problemas, mas, a cada baforada na água, surgiam peixes inertes ao seu lado. Permanecer na água não era uma opção. Saltou para as costas da criatura, fazendo com que as oito cabeças tentassem mordê-lo. A nona olhava para outra direção, e Aioria já estava ocupado demais para preocupar-se com ela.

"Hum... realmente", comentou Shaka.

"O que disse?", respondeu Aioria, movimentando-se sem parar. Queria atacar as costas do animal, mas não conseguia encontrar uma brecha.

"Nada. Eu só estava pensando alto. Sobre o que me disseram na taverna da primeira vila em que paramos."

"Disseram algo sobre a hidra e eu não soube? O que disseram?"

"Você estava muito barulhento no dia, por isso nem prestou atenção ao que as pessoas diziam em volta."

Aioria saltou sobre uma das cabeças e desviou de outra. A primeira cabeça foi imediatamente arrancada, criando duas no lugar. Fora sem querer, mas agora havia mais uma atacante. Aioria enxugou o suor e logo voltou a desviar dos ataques.

"Esqueça isso, Shaka! O que disseram?"

"Um marinheiro me contou que a hidra não tinha nove cabeças, mas oito; enquanto o amigo do bar comentava que a hidra tinha nove cabeças, de acordo com as notícias. Eu achei a história muito curiosa, porque esse marinheiro teve o barco destruído pela fera. Então por que ele teria errado na conta? Vejo que agora temos a resposta. Uma das cabeças não luta."

"Mas as outras, sim! Alguma ideia? Acha que uma tocha para cauterizar os pescoços funcionará?"

"Não para uma criatura desse tamanho. Mas se você tivesse lido os livros que comprei, já teria uma ideia muito clara do que fazer."

"Você só estava fazendo turismo!"

"Oh... Ainda pensa assim. Pois bem. Descubra a resposta sozinho, Aioria."

Foi uma investida não coordenada, mas que impossibilitou qualquer fuga. Aioria arrancou duas cabeças, fez surgir mais quatro, e as dez atacantes diminuíam cada vez mais suas chances de esquiva.

"Certo... Desculpe! Eu estava errado!"

"Foi bem rápido", sorriu Shaka. "Pois bem... O livro dizia que a tocha usada por Héracles era gigantesca... media vinte metros."

"Tudo isso?"

"Sim. A hidra, na verdade, possui mais de quarenta metros de altura. Mas nós não somos semideuses, nem podemos cauterizar os pescoços facilmente. Outra solução que o livro me deu foi a de cobrir os ferimentos com a pele da própria criatura. Pois quando a carne alcança a pele, pára de crescer."

"Por que você não me disso isso antes?"

"Você sabe por quê."

Aioria desviou a tempo de não ter o veneno espirrado no rosto. Entretanto, teve um pouco derramado no braço, causando uma intensa dor. O cavaleiro afastou-se da cabeça que o atacava, mas teve de continuar se movimentando.

"Só preciso da pele do pescoço..."

Avançou sobre a cabeça mais agressiva. Seu golpe decepou a cabeça com perfeição. Sem perder nem uma fração de segundo, segurou a carne venenosa da hidra e rasgou a pele, apesar de ter as mãos envenadas com o movimento. Às pressas, prendeu a pele à carne que já voltava a crescer. Teve um pouco de dificuldade para fixar o improvisado remendo, mas o pescoço não mais cresceu.

"Funcionou. Agora as outras..."

Aioria arrancou mais um pedaço de pele da cabeça decepada. Sentia as mãos queimarem com a substância, e perguntou-se se conseguiria chegar à última daquela forma. Saltou sobre o pescoço de outra cabeça com a pele numa das mãos. Puxou o punho, queimou o cosmos. Tomou o cuidado de dar o golpe de forma a direcionar o veneno para a direção oposta. Rapidamente cobriu o ferimento com a pele e costurou-o com uma tira de couro do próprio animal.

"Seus braços vão cair antes de chegar à última cabeça", observou Shaka. "Você tem certeza de que quer trabalhar sozinho?"

Pensou um pouco. Era trabalho demais, e Shaka não estava sem razão. Entretanto, aquelas barreiras eram absolutamente necessárias.

"A prioridade é a segurança da vila", respondeu. "Eu aceito a ajuda que não coloca isso em risco. O que dá para fazer nesse sentido?"

O sorriso calmo de Shaka quase virou um riso.

"Manter a barreira é um esforço mínimo. O seu forte é a velocidade, mas lidar com esse couro venenoso exige mais do que isso. Você só precisa de alguns braços a mais. Eu posso fornecê-los para você."

"É o suficiente", respondeu o parceiro. "Conto com você, Shaka!"

O cosmos de Shaka espalhou à sua volta. Parecia uma ilusão, mas eram vários braços com a armadura de Virgem, como se Shaka tivesse centenas de braços espalhados no espaço. Aioria não esperava receber a ajuda de braços, no sentido literal.

"Que mau gosto..."

"Se quiser, eu posso recolhê-los", sorriu Shaka. "Mas terá de lidar com a hidra sem a minha ajuda."

"Não... Eu posso conviver com essas coisas...", respondeu, meio enojado.

Ainda havia couro para aproveitar das cabeças decepadas. Aioria mergulhou rapidamente na água, contando com a proteção de sua armadura. Chutou o gigantesco pescoço e atirou o seu Lightning Plasma. A carne desintegrou-se, e o couro foi cuidadosamente cortado em pedaços, ideais para cobrir os pescoços. E as várias mãos fornecidas por Shaka agarraram as bordas envenenadas para Aioria.

"Agora vá", instruiu Shaka. "Não se preocupe com os pescoços decapitados."

"Agora é que vai ficar divertido", sorriu Aioria. "Cuidado para não ser ofuscado pelo meu golpe, Shaka!"

Saltou para um dos pescoços, queimando o cosmos. Esperou pelo momento correto de atacar, de maneira a proveitar melhor o seu golpe. Reuniu o cosmos e criou uma bola de luz, da espessura dos pescoços. Era o Lightning Bolt. Como um tiro de canhão, seu golpe arrebentou três cabeças do enorme corpo. Os braços de Shaka passaram ao lado dele, jogaram os pedaços de pele sobre as bases decepadas, e logo passaram a costurar os ferimentos.

"Os braços estão..."

"Assim como Iolaus cauterizou os pescoços da hidra, meus braços hão de deixá-lo mais tranquilo", comentou Shaka. "Pode estourar as cabeças à vontade. Pelo menos nisso, eu sei que você é muito bom."

O cosmos atravessou mais um pescoço. Aioria deixou que os braços viessem costurar os ferimentos. No entanto, uma das cabeças arrancou um dos braços criados por Shaka, a fim de proteger o colega. Aioria rapidamente ajudou o outro braço a fechar o pescoço.

"Oh... Essas cabeças até que são inteligentes", comentou Shaka, surpreso. "Farei mais braços, não se preocupe."

Aioria saltou na direção da cabeça que atacara o braço e estourou-a com um único soco. Aproveitou o pescoço para saltar contra a do lado, mas foi subitamente atacado com uma cabeçada no estômago. O monstro ainda tentou mordê-lo, mas o cavaleiro conseguiu desviar. Notou que a cabeça que não lutava mexeu-se e empurrou a irmã para o lado, causando uma pequena confusão naquele meio. Uma cabeça começou a brigar com a outra, abrindo uma brecha perfeita para atacar.

"É agora. Fique esperto, Shaka!"

"Eu já estou pronto", respondeu o companheiro.

Concentrou todo o cosmos para aquele ataque. Lançou, ao mesmo tempo, cinco bolas de Lightining Bolt, uma para cada cabeça que brigava. Precisou afastar-se para não se machucar com a chuva de veneno que causou a morte de vários peixes na água. Parou nas costas do animal e finalmente pôde se concentrar na cabeça restante. Contudo, saltou das costas do monstro e se machucou um pouco na água, quando subitamente a hidra mergulhou e escondeu-se. Voltou para a margem, surpreso.

"Ela fugiu... E com a água envenenada assim, não posso fazer nada para trazê-la de volta."

"Por que não a matou?", perguntou Shaka. "Ela era a mais fácil de todas, e você poderia ter derrubado nesse ataque. Ou seis ataques ao mesmo tempo está fora do seu alcance?"

"Eu podia ter feito, Shaka. Mas por que eu devo atacá-la, quando ela me ajudou? Eu consegui a brecha para dar o golpe quando ela atrapalhou as demais cabeças."

"Agora eu vou ter de manter essa barreira até terminarmos de matá-la."

"Eu sinto muito por isso. Mas eu gostaria de esperar um pouco, Shaka."

"Esperar?"

"Sim. Eu quero saber o que essa criatura vai fazer agora."

"Você é o que ficou me apressando o tempo todo para cumprirmos a missão. Por que quer esperar agora?"

"Porque eu não gosto de atacar quem não faz mal a ninguém. Por favor, Shaka. Vamos esperar até amanhã."

"Hum... Eu não me importo com isso. Mas você terá de me ajudar com essa barreira."

"Não tem problema."

Aioria olhou para a água envenenada em volta. Retraiu os braços, notou que sua pele estava bastante avermelhada. Precisava descansar um pouco antes de continuar com a missão.