"Você está bem?"
Os braços estavam completamente enfaixados por conta dos ferimentos. Aioria olhou para as mãos, doloridas, e sorriu.
"Eu já estive pior. E o grosso da missão já está feito."
"Como espera lutar neste estado? Prefere que eu termine o trabalho para você? Não estou ferido."
"Não... Eu gostaria de terminar isso, Shaka. Eu só peço que você tire a barreira que dá acesso à vila."
"Mas... isso colocaria a vila em risco. Não é você quem dizia que a prioridade é a segurança da vila?"
"Sem dúvida, essa é a nossa prioridade. Mas não há perigo, eu garanto. Vamos até lá na margem. Quero terminar isso agora."
"Bem... Não sei o que pretende, Aioria, mas se está tão decidido..."
"Agora é a minha vez de dar uma de misterioso. Venha, vamos acabar com isso."
Shaka seguiu-o sem reclamar. Estava curioso com o que o colega tinha em mente, até porque Aioria parecia um pouco diferente de antes. Pararam numa venda, onde um homem tinha uma fileira de peixes à mostra, cada um com um preço. Aioria escolheu o mais gordo e bonito.
"O que pretende fazer com esse peixe? Ele é demais para nós dois", comentou Shaka.
"Não é para nós. Venha."
Pararam à margem. Aioria gritou para o mar.
"Ei, grandalhão! Eu trouxe um presente para você! Venha pegar!"
As pessoas em volta estranharam a atitude do rapaz, e Shaka achou pelo menos inútil.
"Acha que ele virá, depois de você arrancar várias cabeças?"
Mas ondas surgiram na água à medida que a enorme hidra surgia do fundo. A cabeça fitou Aioria e o peixe, sem atacar. Este sorriu.
"Eu sei que é pouco. Mas este é o meu agradecimento por você ter me ajudado ontem, amigo."
Os moradores saíram correndo e gritando quando a cabeça aproximou-se, abrindo a bocarra repleta de dentes pontiagudos. Entretanto, apenas o peixe foi mordido e engolido. A hidra ergueu um pouco a cabeça para mandar a comida goela abaixo e logo se aproximou de novo de Aioria, que lhe tocou o focinho.
"Eu tenho a resposta que procura, amigo. Ouça-a através do meu cosmos."
Como se o compreendesse, a hidra fechou os olhos e esperou tranquilamente. O cosmos fluiu através dela, enquanto Aioria comunicava-se mentalmente. Depois de alguns minutos, a cabeça encostou a testa nele, gentilmente.
"Shaka, desfaça a barreira."
"Vai libertá-la?"
"Ela me prometeu que nunca mais voltará à costa dos humanos. E eu acredito nela. Por favor, faça isso. Se algo acontecer, eu me responsabilizarei inteiramente. Confie em mim, por favor."
"Essa não é a nossa missão."
"Nossa missão é eliminar o perigo. Você está vendo algum perigo por aqui?"
Aioria encarou-o, sério. A pacífica cabeça continuou encostada no cavaleiro, de maneira dócil. Shaka encarou-o e respondeu:
"Não. Não há nenhum perigo, contanto que ela fique longe dos humanos."
Com um movimento de braço, a barreira foi desfeita. Aioria sorriu para o animal.
"Agora você está livre. Vá e não volte mais para a costa, garoto. Busque uma maneira de ser feliz, longe daqui."
A onda cobriu Aioria por completo, que não se importou. O veneno já tinha se diluído na água à noite. Shaka aproximou-se para vê-la partir.
"A hidra não tem nove cabeças", disse Aioria.
"Isso não está escrito nos livros."
"Os livros estão errados. A hidra tem apenas uma cabeça. Entretanto, quando esta é cortada, nascem duas. A nova cabeça é agressiva, porque precisa proteger a cabeça original. Provavelmente essa pequena sofreu bastante para chegar às nove cabeças..."
"Pequena?"
"É só um filhote. Você me disse que a hidra possui quarenta metros de altura. Nós enfrentamos apenas o filhote. Ela estava vagando por aí porque a mãe dela foi morta por Héracles. Como não encontrou a mãe no mar, passou a procurar na costa. Enquanto procurava, as demais cabeças atacavam qualquer um que pudesse representar uma ameaça a ela. Mas... Se ela permanecer apenas com aquela cabeça, a original, não vai fazer mal a ninguém. Afinal, todos têm o direito de viver."
"Mas isso vai tirar as vidas dos peixes que ela comer daqui por diante. Seu ato de bondade não é justo na visão desses peixes. Chama isso de justiça?"
"Matar para sobreviver é natureza. Os animais sobrevivem matando os outros, e não é possível fugir disso. Mas nem sempre precisamos matar, Shaka. Justiça é pouparmos a vida do próximo quando há uma maneira menos violenta de resolver o problema. A hidra também tem o direito de lutar pela própria vida, e é isso que ela pediu para mim quando me ajudou. Se tanto a hidra quanto os peixes terão o direito de lutar pela própria vida, então será justiça. Meu irmão sempre dizia isso para mim."
"Seu irmão?"
"Sim. Você sabe, ele me ensinou a ser um cavaleiro de Athena. Aprendi isso com ele."
'Eis o final da história', pensou Shaka. 'Eu não contei, mas Aioria fez exatamente como o irmão Aioros...' Sorriu e deu meia volta. Aioria foi atrás, meio irritado.
"Ei! Eu estou falando com você e é assim que me responde? Virando as costas e indo embora?"
"É que você é muito barulhento", respondeu Shaka, de bom humor.
"Me desculpe por ser mais comunicativo que você!"
"Você é tão comunicativo quanto um papagaio."
"Eu juro que esta é a última vez que faço uma missão com você, Shaka!"
"É mesmo? Eu não me importaria de trabalhar com o irmão do grande Aioros novamente."
Aioria parou, estupefato. Não esperava ouvir aquilo de um colega. Shaka acabara de reconhecer o valor de seu irmão, apesar de todos o chamarem de traidor. Definitivamente não era como aqueles que o menosprezavam por ser o 'irmão do traidor'. Se ele não fosse tão irritante, até poderiam ser amigos. Sorriu e continuou andando ao lado do parceiro.
"Ok, eu retiro o que disse. Mas alguém precisa ser comunicativo quando trabalha com um sujeito quase mudo!"
"Eu não sou quase mudo. Você não pode fazer suposições baseadas na quantidade de bobagens que fala."
"Bobagens? Quem é o irritante aqui?"
"Heh."
"Você está rindo do quê?"
"Realmente, foi muito mais fácil fazer a missão com o seu irmão."
"Eu sei que não sou bom como ele!"
"Não é nem essa a questão. Ele não era tão barulhento."
"Mas sou eu quem ele deixou para o mundo!"
"Quanto a isso... você tem razão", sorriu Shaka. "Mas eu me pergunto se tudo vai ficar bem daqui em diante."
"O que quer dizer?"
Shaka parou, voltado para Aioria.
"Eu não acho que você vá nos trair um dia, Aioria. Mas todos do Santuário acham. Se eu fosse você, repensaria no modo de agir para não atrair más opiniões. Eu não quero lutar contra você um dia."
"Como se isso fosse acontecer."
"Eu não sei. Eu posso enxergar o mundo à minha volta sem ver... Mas não posso ver o futuro."
Shaka continuou a andar, com ar de mistério. Aioria seguiu com ele, sem dar mais atenção ao conselho do parceiro. Estava contente por ter encontrado uma pessoa que respeitava o seu irmão.
Não... Não lutaria jamais contra Shaka.
Jamais.
FIM
Notas: Obrigada por lerem até o final! *_* Espero que tenham gostado da fic!
