"O maior erro que você pode cometer
É o de ficar o tempo todo com medo de cometer algum."

Rin sentia a boca seca. As mãos tremiam e os pensamentos surgiam e vagueavam pela sua mente a mil por hora. Logo quando havia desistido de conseguir qualquer conexão com seu passado, quando já não sustentava mais esperanças vazias de alguma maneira encontrar Kagome ela surge a sua frente como um anjo enviado pelos céus.

Kagome por outro lado olhava desconfiada a jovem moça que a tratava com tanta informalidade e mantinha um sorriso quase insano no rosto. Em sua cabeça forçava a memória, assim como um robô procura informações em seu banco de dados. Com exceção dos olhos que acompanhavam a euforia desmascarada da garota, o resto do corpo não apresentava nenhum outro sinal de movimento.

Enquanto as duas se encaravam em uma analise sem fim algo estranho aconteceu. Rin conseguiu quebrar a paralisia que a impedia de se mexer e saltou em direção á Kagome agarrando-lhe o pescoço em um abraço sufocado de saudade.

Tomada pela emoção do reencontro, a jovem ria e chorava, e em sua felicidade falava de maneira tão apressada que as palavras pareciam se atropelar em sua boca. Kagome ficou paralisada por alguns segundos analisando a situação confusa em que estava. Uma estranha que parecia conhecê-la simplesmente pulou em seu pescoço chorando, rindo e falando em outra língua, e ela que achava que nessa Era não existiam coisas tão estranhas...

Em um ato quase defensivo, tentou empurrar a garota da forma mais delicada possível, afinal mesmo sem se recordar de um dia tê-la visto, não queria ser rude com ela, mas por mais que se esforçasse a menina não desgrudava de forma alguma do seu pescoço.

_Por favor... você esta me sufocando!- usou uma última tática.

_Rin, o que esta acontecendo?

Ao ouvir a voz familiar ela enfim soltou Kagome, se ajeitou da melhor e mais comportada maneira possível, e olhou rapidamente para os seus irmãos.

Sayuri e Rako mantinham olhares confusos e as sobrancelhas arqueadas como se buscassem no ar uma explicação para a cena estranha.

Sem nem ao menos respondê-los, ela tornou a olhar para Kagome. A euforia falava mais alto que o bom senso.

_Não acredito que te encontrei! Meu Deus, isso parece um sonho!-sem perceber acabara falando em inglês.

Rin se aproximou de novo e pegou nas mãos de Kagome, mas ela as puxou e se afastou um pouco assustada.

_Me desculpe, não sou boa em inglês. - disse meio desconcertada.

Rin continuou sorrindo e balançou a cabeça enquanto enxugava o rosto e ria da própria falha. A animação havia sido tamanha que passou a falar em inglês sem se dar conta. Sayuri aproveitou o momento. Puxou seu braço e sussurrou.

_Rin, quem é ela?O que esta acontecendo?- perguntou quase aflita.

Era impossível falar com ela no estado eufórico em que estava. Rin via em Kagome sua porta de volta para casa. Precisava dela. Sem responder a pergunta da irmã, ela puxou seu braço e se aproximou dela novamente.

Um pouco assustada pela aproximação da garota desconhecida que se mostrava cada minuto mais entusiasmada, Kagome colocou a mão no ombro do filho e andou para trás se afastando enquanto puxava o menino junto.

_ Kagome, não se assuste, sou eu a Rin!- Disse ao perceber a apreensão da sacerdotisa.

Eu... eu não te conheço!- argumentou mais uma vez tentando sair da situação delicada em que estava.

_Droga Kagome, sou eu Rin! Era feudal, Naraku, Sesshoumaru... isso te diz alguma coisa?

O rosto de Kagome mudou como se houvesse levado um choque. Rin viu a compreensão passar pelo seu olhar. Sua expressão tão clara quanto a água cristalina de um rio.

_ MEU DEUS...RIN? É VOCE MESMO?- perguntou abismada.

Em resposta, Rin sorriu ainda mais, correu e se jogou no pescoço de Kagome novamente. Dessa vez ela não foi indiferente ao abraço, muito menos tentou soltá-la. Simplesmente abriu os braços e retribuiu o gesto com forca. As duas riam animadas e falavam tão rápido ao mesmo tempo que ninguém conseguia entender, nem mesmo elas.

Os irmãos se olharam sem compreender a conversa das duas. Pareciam náufragos perdidos em meio a uma ilha estranha tentando decifrar a linguagem complicada dos nativos que balbuciavam palavras estranhas enquanto pulavam eufóricos.

Em um ato de desistência, Rako deixou cair o saco de doces que estava segurando e jogou as mãos para o alto como se pedisse trégua.

_ Agora eu não entendi porra nenhuma.- disse mais para si do que para os outros.

As duas se soltaram do abraço eufórico. O rosto de Rin transformado em uma mistura de lagrimas e sorrisos que se confundiam pelo exagero.

_ Não acredito que seja você, quer dizer... o que você esta fazendo aqui?como veio parar aqui? Desde quando?

Rako se colocou entre as duas. Sayuri o imitou.

_ Desculpa, mas nós perguntamos primeiro, irmãzinha. O que diabos esta acontecendo?

_ É Rin, fala logo, estamos confusos aqui.

Rin respirou fundo e pensou em uma resposta rapidamente. Ainda sentia o corpo vibrar pela emoção e adrenalina do reencontro. Disse a primeira resposta que lhe veio a mente, e que não era tão distante da verdade

_ Ela é uma amiga que conheço desde que era criança, antes de...bom...antes de ir morar com vocês, ela...meio que freqüentava a minha casa

Rako franziu as sobrancelhas ainda confuso, já Sayuri permaneceu calada ao lado deles

_Você...esta...esta dizendo que tipo assim...vocês então...são amigas?- falava pausadamente devagar como se tentasse entender algo como física quântica.

Rin revirou os olhos impaciente. Por Deus, ela encontrou alguém de seu passado, o que era tão estranho e difícil de entender nisso?

Kagome deu um passo para o lado e olhou para eles meio envergonhada de interromper.

_ Rin...o que...- ela a interrompeu.

_KAGOME, esses são meus irmão, Rajo e Sayuri. –praticamente cuspiu as palavras de tão depressa que falou. Tinha medo de que ela dissesse algo que lhe pusesse em maus lençóis.

_Como assim ir...?

_FUI adotada- quase gritou.- Olha, nós temos muito o que conversar, podemos...não sei, dar uma volta pelo festival?

Kagome pareceu compreender que a garota não queria conversar na frente deles e sorriu apesar de ainda se sentir confusa.

_ Bom, podemos claro. Mas talvez seja melhor conversarmos na minha casa. – Rin sorriu aliviada por ver que ela tinha entendido. - O templo é logo ali, podemos tomar um chá enquanto falamos já que temos MUITA coisa pra conversar...

_ E coloca Muita nisso...

Rin se voltou rapidamente para os irmãos que tinham um olhar desconfiado.

_ Olha, podem ir para o hotel, talvez eu demore um pouco na casa dela, mas assim que puder eu volto. Tudo bem assim?

_ Não Rin, não esta tudo bem!- Rako explodiu nervoso.

Rin olhou pro seu irmão. Os sorrisos da corrida á loja de doces trocados por um esgar nervoso e um olhar desaprovador. Agora ele parecia tão serio quanto Sayuri, que diferente do habitual estava calada.

Rako começou a falar em inglês para a mulher que estava ali não pudesse entender.

_Você ficou louca Rin? Não pode simplesmente ir pra casa de uma estranha!

_Rako, eu já disse, ela não é uma estranha, é minha amiga!

_ Amiga? Você não vê ela a anos Rin, ela nem te reconheceu até você falar quem era.

_ Claro eu era criança e ela adolescente. Eu cresci e mudei bastante, ela não.

_ Tudo bem! Eu entendo. Mas isso não muda o fato dela ser uma completa estranha agora e...

Rako abaixou a cabeça e fechou os olhos como se não quisesse continuar a frase, Rin colocou a mão no ombro dele e apertou levemente.

_É o que? Anda diz.

Ele levantou o rosto olhando diretamente nos olhos dela.

_ Rin, seu passado...é uma confusão, lembra o que os médicos disseram? Sua mente criou uma grande fantasia para fugir da realidade, então...sei lá...como tem certeza de que pode confiar nela? Você nem se lembra direito do seu passado.

Apesar de compreender a cisma do irmão, ela se sentiu frustrada. Tinha esquecido desse pequeno detalhe. Quando criança, nos primeiros meses na nova casa, ela tentou a todo custo dizer o que tinha acontecido, mas é claro que ninguém acreditava. Então os médicos começaram a dizer que aquela fantasia foi a forma que o cérebro dela havia encontrado de superar o trauma do abandono. Era mais fácil acreditar em uma hipótese assim do que na verdade surreal que ela apresentava.

_ Rako...eu entendo que você esteja preocupado, mas eu me lembro o suficiente pra saber que a Kagome não é nenhum perigo pra mim. Simplesmente preciso falar com ela, essa pode ser minha chance de entender, minha única chance! Por favor confie em mim, eu sei o que estou fazendo!

Olhou confiante para os irmãos. Rako gemeu frustrado e a abraçou e deu um beijo em sua testa. Sayuri continuava sem dizer nada mas fitava a irmã intensamente. Os dois se afastaram, mas antes de virar Rako falou baixo.

_ Me coloca na discagem rápida e...tenta não demorar muito.

Rin sorriu e balançou a cabeça dois se viraram e foram pode voltar a atenção á Kagome. Ela segurava a mão do garotinho que olhava quieto e atento tudo a sua volta.

_Quem é esse menino?- perguntou curiosa ao ser dar conta de que esquecera da presença dele.

Kagome sorriu orgulhosa e olhou para o menino com um olhar cheio de ternura e amor.

_Yamaru, meu filho.

Rin cruzou os braços sorrindo um pouco espantada. Com certeza havia muito o que pôr em dia.

_ Essa historia que você e contou é...incrível. Nunca iríamos imaginar que Naraku fez algo assim! Te mandar para o futuro? Ainda mais em outro país? Quando Jaken nos contou o que aconteceu, acreditamos que ele tinha te escondido em algum lugar mágico ou algo nesse sentido. Que bom que pelo menos você teve a sorte de encontrar essas pessoas tão legais no seu caminho. Sabe a sorte que teve não e?Essa era pode ser muito perigosa.

Rin balançou a cabeça confirmando. Ela e Kagome já estavam a um bom tempo sentadas sobre os joelhos conversando enquanto tomavam chá. Rin contou as partes mais importantes de tudo que aconteceu desde o momento em que foi transportada por Naraku, fazendo Kagome se impressionar a cada novo fato.

_ Eu realmente acreditei que não te encontraria mais. Encontrá-la naquele festival foi um milagre

_Concordo. – disse tomando mais um gole.- O Sesshomaru tem que saber que você esta aqui.

Rin parou a xícara a meio caminho da boca ao ouvi-la mencionar o nome que durante anos havia sido motivo de tristeza. Abaixou a mão e respirou fundo buscando coragem para a pergunta que ia fazer. Há anos se perguntava qual a reação do lorde das terras do oeste com o seu desaparecimento.

_O Senhor Sesshoumaru...ele...bem...ele tentou me achar? Ou me esqueceu?- sentiu uma pontada de medo da resposta.

Kagome colocou as xícaras vazias sobre a bandeja e se levantou sem responder. O medo da menina apenas crescendo com a atitude dela. Será que tinha se esquecido dela? Por isso Kagome hesitava em lhe responder?

Acompanhou com os olhos e o coração apertado de expectativa a amiga. Resolveu segui-la em seu trajeto e em questão de segundos estava próxima a ela.

_Se ele te procurou? Rin é a única coisa que ele tem feito desde que você desapareceu. De vez em quando ele manda o Jaken para a vila pra saber se nos descobrimos algo novo sobre seu paradeiro.

Kagome começou a lavar a louça enquanto Rin permanecia ao seu lado ainda tentando absorver as palavras que pareciam flutuar soltas em algum lugar acima da sua cabeça.

_Você tem visto ele desde então?

_Para ser sincera não. Depois do que aconteceu a você só o vi duas vezes. – Enxugou as mãos com o pano. – Inuyasha o viu mais do que eu. Ele disse que apesar de continuar frio como sempre algo está estranho.

_Estranho?

_Sim. Como se ele estivesse mais solitário.

Mais uma vez se sentiu surpresa com as informações. O coração palpitou mais alegre. Não que ela estivesse feliz pelo seu Senhor estar triste, mas algo dentro dela se alegrou em saber que ele sentia falta dela. Não precisava ser do tamanho da saudade que ela sentia dele, só um pouco já bastava. Apenas um pouco poderia fazer as lembranças doces do passado retornarem, principalmente as de quando corria feliz atrás dele. Naquela época, sabia que ele não a achava tão importante como ele era para ela. Na verdade, isso nunca importou tanto. Contanto que ele permitisse que estivesse do seu lado tudo estaria bem. Sempre seria feliz.

Ela sorriu com a possibilidade de ter de volta aquela alegria. Mas tinha uma voz sussurrou em sua mente: "Não vai ser como antes. Nada pode ser como antes. Você mudou, tem uma família agora".

O sorriso se desfez segundos depois. Era verdade que não seria tão fácil retomar a vida de onde parou.

Balançou a cabeça para afastar a enxurrada de pensamentos que a afligiam. Precisava resolver um problema pó;r vez. Primeiro iria voltar a era Feudal e reencontrar seus amigos e senhor. Depois pensaria em algo.

_Kagome, o Yamaru e filho do Inuyasha não e?

_ Sim. Nos casamos um tempo depois que o Naraku foi derrotado.

_Derrotado? Quer dizer que ele está morto?

_Sinceramente espero que sim. Deu muito trabalho encontrar e acabar com ele. Outro dia te conto como aconteceu.

_ vocês vivem aqui?

Kagome confirmou balançando a cabeça. Fez sinal para que Rin a seguisse e saiu andando pela casa. Passaram pela sala onde ela checou o filho brincando no vídeo game. Foi ao quarto e abriu o armário em busca de algo.

_Vivemos aqui, mas estamos sempre indo até a outra era. Geralmente passamos nossas férias na casa da Sango e do Mirok. Eles também se casaram.

_Hum...e onde está o Inuyasha? Não esta aqui não e?

Kagome fechou a porta do guarda roupa com mais de forca que o necessário fazendo a madeira gemer ante o exagero. O rosto lívido transtornado pela raiva.

_Não, aquele Baka não esta aqui! baka, baka, baka ,baka!

Fechou os olhos enquanto repetia irritada a palavra. Rin sorriu sem graça concluindo ser a melhor opção não falar mais dele.

_Você disse que... vai sempre ate a outra era, então... vai me mostrar como se faz?

Como em um passe de mágica ela voltou a sorrir.

_Claro que vou, só me deixa trocar de roupa.

Minutos depois estavam em frente ao poço come ossos. Kagome sentou na borda e fitou a convidada mais uma vez antes de pular.

_Tem certeza que esta tudo bem deixar o Yamaru sozinho?-Rin perguntou preocupada.

_Esta tudo bem Rin. Ele é mais esperto e forte que os meninos normais graças ao sangue Yokai que tem. Logo a minha mãe chega em casa e também não pretendo demorar. Quanto ao poço não tem segredo, é só se jogar. Entendeu?- ela acenou e Kagome voltou o olhar para o fundo do poço. -Te vejo do outro lado.

Por um segundo ela acreditou que iria escutar o baque do corpo de Kagome chegando no fundo, afinal sua mente era treinada a esperar o obvio. Mas não houve barulho.

_KAGOME?-Gritou tentando se convencer.

A única coisa que ela ouviu foi o eco da sua própria voz. Subiu na borda e olhou para a escuridão que se desvelava a sua frente. O coração batia disparado e as mãos suavam frio devido ao nervosismo. Seu passado estava literalmente a um pulo de distancia. Respirou fundo, segurou coragem e se lançou na escuridão que a abraçou como a um ente querido e esperado.

Ela se jogou literalmente em direção ao seu passado para que assim pudesse escrever seu futuro.