Shattered

3

Losing what was found, a world so hollow
Suspended in a compromise
The silence of this sound is soon to follow
Somehow sundown

Harry não sabia exatamente como se sentir, ou como deveria se portar. Ele não sabia nem mesmo como conseguia se encontrar sempre em situações tão completamente bizarras e erradas como as que sempre parecia estar se metendo, mas não era de propósito, não era nem mesmo vagamente o que ele queria que acontecesse.

Depois do fim da guerra, o que ele queria era ter se casado com Ginny. Entrado no treinamento para auror. Provavelmente detestar o que fazia na maior parte do tempo, reclamar da vida para Ron e ouvir sermões de Mione. Brigar com Ginny porque tinha chegado tarde em casa, fazer as pazes com ela depois, e ter almoços de domingo n'A Toca.

Mas ali estava ele, sentindo-se fora de lugar, estranho e constrangido em um apartamento que não lhe dizia nada, com móveis caros e decoração planejada, cercado de coisas que ele nunca quisera ter.

Ele havia dado alta naquela manhã, liberado aos cuidados de Draco e Narcissa Malfoy, com o consentimento de Hermione, já que ele não tinha nenhum bruxo adulto que pudesse ser dado como responsável. Seu status como criatura mágica já havia sido registrado no Ministério, e ele tinha certeza de que haveria notícias sobre ele estampadas nas capas de jornais e revistas em menos de vinte e quatro horas. Malfoy havia trazido ele para sua casa – não a Mansão onde seus pais moravam, mas um apartamento elegante e obviamente caro, e também obviamente equipado para uma única pessoa morar.

Draco não havia lhe dito nada. Não havia dito como decidira aceitar que era sua metade, não lhe explicara o que esperava dele, o que queria de uma relação, como se comportariam um com o outro – nada.

Draco havia o trazido até ali, havia dito que se instalasse no sofá da sala até que ele tivesse tempo para comprar outra cama, e instalar mais um quarto, e então saíra, sem explicações.

Draco não parecia estar saltitando de alegria em ter um Harry Potter permanentemente em sua vida, e isso encheu Harry de uma tristeza tão imensamente dura, tão assustadoramente fria, tão implacavelmente completa que, desde que Draco havia saído, ele só tivera coragem de se sentar no chão, ao lado do sofá onde Draco havia dito que ficasse, e se sentir miseravelmente infeliz.

A verdade era que se ele tivesse dezoito anos e tivesse acabado de sair de uma guerra onde passara um ano sendo forçado a agir como torturador de um psicopata, tendo de abrigar tal psicopata em sua própria casa, ele também não ia querer um fardo como o herói de tal guerra pesando sobre seus ombros.

A verdade era que se ele fosse qualquer um ele não ia querer ter o peso dele mesmo jogado em suas costas.

A verdade era que mesmo depois de sete anos ouvindo que era importante e especial, Harry ainda acreditava muito mais nos dez anos com os Dursley que lhe diziam que ele era um incômodo, um fardo, um problema.

A verdade era que Harry achava que Draco estava lhe tratando como ele merecia ser tratado.

E isso o deixava tão completamente desolado, porque Draco merecia tão mais do que ele.

Talvez ele devesse simplesmente fazer com que Draco o rejeitasse.

Não saberia dizer quanto tempo ficara ali, encarando o padrão colorido do tapete em que estava sentado, quando ouviu o estalido de aparatação, e então viu Draco, parado no arco da entrada da sala. O loiro o encarou por alguns segundos, e então balançou a cabeça, como se quisesse se livrar de um pensamento incômodo, suspirou e encostou-se à parede às suas costas, demonstrando irritação.

Era tão óbvio que Draco não o queria ali. Não o queria, apenas.

"Por que você me trouxe até aqui?", se viu perguntando, mesmo sem ter tido a mínima intenção de falar o que estava pensando, e não conseguindo se conter.

"Você quer a verdade?", Draco indagou, olhos cinza encarando os seus em desafio, como se quisesse vê-lo negar.

"Sim.", respondeu com voz firme, seus olhos não conseguindo adquirir a dureza que continham sempre que encaravam os de Draco até algum tempo atrás, e parecendo apenas suplicantes, esperançosos, temerosos do que ouviria.

"Granger me forçou. Fez até com que eu fizesse um Voto Perpétuo para garantir que eu daria uma chance a essa... relação. Ela me chantageou, a mim e a minha mãe, para que eu fizesse o Voto, e é por isso que eu te trouxe até aqui, para dar uma chance a algo que eu sei que nunca vai dar certo. Porque eu não consigo nem mesmo me ver gostando da sua presença, e as chances de eu passar a te amar são tão pequenas que eu não consigo compreendê-las. Mas ou eu tentava, ou Granger ia acabar dando um jeito para que eu fosse preso. Então, Potter, aí está a verdade. Você consegue aguentá-la?"

Harry baixou o olhar enquanto Draco ainda estava falando. Engoliu em seco, e puxou o ar tremulamente, sua visão turva de lágrimas que ele não queria deixar cair.

Se era o que Draco queria, por que ele não dava isso a ele? Se ele fosse rejeitado, tudo acabaria de uma vez por todas.

"Você realmente não me quer, não é?", sussurrou, esperando a resposta direta e cortante que acabaria com tudo aquilo.

Ele nunca fora suicida, mas estava falando da felicidade da única pessoa no universo que parecia importar para ele naquele momento. Se livrá-lo da sua presença era tudo que Draco poderia querer, era o que Harry faria. Era simples.

"Agora?", Draco perguntou, dando de ombros e não esperando resposta para prosseguir, "Não. Eu não te quero."

Harry fechou os olhos, não querendo que as lágrimas que ameaçavam sufocá-lo encontrassem caminho para escapar. Sentiu como se toda a terra tivesse estremecido, como se o ar já não fizesse sentido, como se não fosse mais necessário.

Riu, baixinho e dolorido, erguendo o olhar apenas um pouco, encarando Draco que o observava de cima, superior como sempre quisera ser.

"Sabe,", ele começou, sua voz um mero fio quase inaudível, fazendo com que Draco temesse o que estava acontecendo pela primeira vez desde que Granger o chantageara, "se eu fosse você, eu não ia me querer também.", ele terminou em uma voz trêmula, como se estivesse lhe faltando o ar.

Seu corpo pareceu estremecer inteiro, e Draco se aproximou hesitante, assustado e temeroso. Harry fechou os olhos involuntariamente, seu peito subindo e descendo de maneira pesada, como se respirar estivesse se tornando cada vez mais árduo, e então caiu completamente no chão com um baque surdo.

"POTTER!", Draco gritou, cobrindo os poucos metros entre eles em apenas alguns passos, caindo de joelhos ao lado de Harry, que estava com a pele gelada, "Potter, acorda!", ele disse urgentemente, sacudindo o corpo de Harry que continuava sem resposta alguma.

Desesperado, Draco olhou em volta, como se procurasse alguma resposta nos móveis da sua sala, com medo e assustado verdadeiramente.

Quando haviam lhe dito que a vida de Potter dependia dele, ele jamais havia pensado que era algo assim, tão literal. Ele ouvira sobre histórias de amor-veela, mas jamais pensara que o mais imbecis dos mitos a respeito daquela espécie fosse justamente o que seria verdadeiro.

Morrer por ver seu amor recusado.

Só aquele miserável do Potter ia ter uma sorte dessas.

Puxou o corpo que ficava mais gelado a cada segundo para seu colo, apertando-o contra si em uma pose estranha, ajoelhado no chão, a cabeça de Potter contra seu peito, mantendo-o sentado com suas mãos passadas por seu peito.

"Potter, acorda, seu idiota! Eu jurei que ia tentar, e eu vou, Potter! Acorda!", ele dizia com uma fúria impensada no ouvido de Harry que simplesmente não reagia.

O desespero começava a tomar conta de Draco, não apenas pelo Voto que certamente o mataria, mas pela vida que estava sendo perdida ali, em suas mãos, mais uma vez, pela sua recusa em enfrentar a situação com a seriedade que merecia. Justo ele, que jurara não ser mais a criança idiota que fora por tantos anos. Justo ele que sabia e entendia o que Potter passara. Ele, que ouvira sua mãe contar com lágrimas nos olhos quando vira Harry morrer e voltar, lutar até o fim por tanta gente que nem mesmo merecia.

Uma lágrima caiu de seus olhos, e ele abraçou Harry com mais força contra si, balançando-o levemente, como se fosse uma criança.

"Potter... Harry, acorda. Acorda, acorda, acorda.", ele repetia a palavra como um mantra, recusando-se a acreditar que iria perder aquela guerra assim, logo na primeira batalha.

Sem planejar, agindo guiado por um instinto que não sabia de onde vinha, Draco puxou o rosto de Harry para o seu, e tocou seus lábios nos dele, lágrimas molhando seus rostos. Não soube dizer por quanto tempo esteve naquela posição, apenas mantendo seus lábios unidos, até notar que as lágrimas não eram apenas suas, e que olhos verdes encaravam os seus quando os abriu.

Afastou-se devagar, assustado com a intensidade da devoção que via naquele olhar, e então viu Potter sorrir de maneira quase imperceptível, e fechar os olhos mais uma vez, mas sua respiração estava normal, e seu corpo já não estava gelado desta vez.

Fechou os olhos em alívio, e respirou fundo, inconscientemente puxando Harry para mais perto de si. Depois de alguns minutos, levantou-se, trazendo o corpo do rapaz mais baixo consigo, e colocou-o sobre o sofá, conjurando uma manta e colocando-a sobre Harry.

Correu as mãos pelos cabelos, exasperado e esgotado emocionalmente. Passou as costas de uma das mãos pelo rosto, secando as lágrimas que nem mesmo sabia porquê havia derramado, e foi até seu quarto, andando quase sem rumo, sem tentar pensar sobre o que poderia ter acontecido.

A verdade era que Draco não sabia como amar alguém.

Não daquele jeito.

Quando ele dissera a Potter há alguns minutos que não o queria, que não se via sendo capaz de amá-lo, não estava tentando ser cruel, ou ruim, ou provocar a morte de alguém que, por mais que não gostasse de admitir, salvara sua vida tantas vezes, de tantas formas diferentes. Ele estava apenas e unicamente dizendo a verdade. Ele não sabia cuidar de alguém. Querer ter alguém por perto e tentar fazer coisas para que essa pessoa ficasse ali. Até mesmo Pansy ele conseguira afastar, e essa era uma tarefa que, até o meio do seu sexto ano de escola, ele teria considerado impossível. Ele não sabia cativar, ele não sabia mostrar cuidado, ele não sabia... amar. Amava seus pais, é claro, mas aquele amor do qual não se fala, do que apenas se sabe, e já é suficiente. Não saberia nem mesmo por onde começar a mostrar que queria bem alguém como Potter, que havia tido a vida mais miserável que Draco conseguia imaginar.

Depois da guerra terminada, ele se permitira pensar sobre Potter sem inveja pela fama, ou pelo reconhecimento e, por Merlin, ele jamais iria querer uma vida daquelas.

Ele só conseguiria fazer aquele garoto, homem, herói, o que fosse, sofrer. Ele não saberia cuidar dele, ou se deixar ser cuidado. Ele não saberia abraçá-lo quando precisasse, ou dizer a coisa certa. Ele não saberia tratá-lo como um igual, ele iria acabar destruindo aquela pessoa que nem mesmo conhecia por não saber, simplesmente não saber como ser diferente.

E não sabia como consertar aquela situação, porque, se recusasse Potter, ele morreria. Se ficasse com ele, o faria infeliz, e seria infeliz, ele tinha certeza.

Não havia como ganhar.

Por toda a sua infância, ele pensava que sempre seria invencível. Os dois últimos anos haviam mudado aquela perspectiva, mas, com o fim da guerra, ele realmente se permitira acreditar que as coisas seriam diferentes, que seriam normais, que ele voltaria a ganhar. Mas pelo visto não havia mais ganhar.

A menos que contasse Potter como ganhar algo, mas no momento, tudo que conseguia ver Potter trazendo era sofrimento.

Não era nem mesmo dez da manhã ainda, e ele já se sentia exausto como se tivesse vivido três dias seguidos, sem fechar os olhos por um segundo que fosse. Depois de deixar Potter em seu apartamento, havia saído, apenas porque não sabia como ficar naquele mesmo ambiente com aquele homem. Andara pelo Beco Diagonal, e pela Londres trouxa nas proximidades de sua casa, até ter coragem suficiente para voltar, e tentar encarar... bem, tentar encarar o resto da sua vida.

Mas ver Potter ali, no chão, parecendo perdido, e então o encarando como se ele fosse a resposta para tudo o tirara do eixo, o deixara sem rumo, sem chão. Ele não podia ser o porto seguro de ninguém quando não conseguia nem mesmo ser ele mesmo.

Caiu na cama de costas, olhando pela porta aberta para o sofá na sala, e seu habitante silencioso.

Fechou os olhos cansado, tentando não pensar no que teria de fazer quando os reabrisse.

Porque simplesmente não sabia.

x

Acordou com o cheiro de algo... bom. Subitamente deu-se conta de que não comia nada desde a tarde anterior, e levantou ainda sonolento, se perguntando se sua mãe havia mandado algum elfo doméstico invadir seu apartamento de novo, como já havia feito antes. Na cozinha, parou abruptamente na porta, olhando a cena e sentindo que entrava em alguma outra dimensão.

Potter estava de avental, cozinhando. Panelas em cima do fogão, e coisas sendo cortadas em tábuas em cima da pia, e a mesa no processo de ser posta. Ao vê-lo, o moreno parou o que estava fazendo, corando e baixando o olhar, torcendo as mãos, parecendo repentinamente nervoso.

"Eu... Eu decidi fazer almoço. Eu sei cozinhar, meus tios, eles... Ahm... Quer dizer, se você não quiser que eu use a cozinha, ou algo assim, eu posso... posso limpar tudo.", ele parou de falar, obviamente constrangido, as mãos brincando com as pontas de um avental claramente conjurado e simples, e Draco fechou os olhos, achando a cena inquietantemente doce.

Harry Potter era... adorável, inseguro, e cozinhava.

Nas poucas vezes em que imaginara alguém com quem passaria o resto da sua vida, ele imaginara alguém assim, doce, e calmo, e caseiro, e submisso, de uma maneira que sua mãe jamais fora e que Pansy era irritante demais para ser.

Ele sorriu de leve, e balançou a cabeça, decidindo que se teria de fazer isso, então pelo menos aproveitaria a situação enquanto pudesse.

"Não tem problemas. O que você está fazendo?", perguntou.

Harry deu um sorriso inseguro e respondeu, voltando a se concentrar na comida enquanto falava.

Draco sentou-se à mesa, e esperou.

Naquele universo surreal em que entrara, sentar e esperar parecia a única solução cabível.

Almoçaram juntos, e Harry colocou os pratos na pia lavando-se sozinhos, com um feitiço que Molly Weasley o ensinara.

À tarde, sem saber muito bem o que deveria fazer, Draco sentou-se na sala, e leu. Harry andou pelo apartamento, arrumou algumas gavetas, reorganizou armários na cozinha, fez uma lista de compras e, por fim, depois de preparar o jantar, chamar Draco, e arrumar a cozinha novamente, tomou banho e ficou parado à porta da sala, sem saber para onde deveria ir.

Draco notou a insegurança do outro, e levantou do sofá, conjurando travesseiros e cobertas.

"Boa noite.", disse quando passou pelo moreno, que parecia querer dizer algo, mas perdera a coragem quando Draco o encarou. Respondendo um "boa noite" baixinho, Harry deitou na cama improvisada, e fechou os olhos.

Draco, por outro lado, depois de tomar um banho e pôr seus pijamas, não conseguia fechar os olhos. A cada vez que o fazia, a imagem do rosto pálido de Harry surgia em seus olhos, como se gravada na parte interna de suas pálpebras a fogo. A pele gelada, a respiração difícil, tudo voltava à tona como se estivesse acontecendo naquele exato instante. Depois de mais de uma hora tentando adormecer sem conseguir, levantou tentando não fazer barulho, e foi até a sala, onde Harry dormia calmamente.

Sentindo-se idiota e um pouco aproveitador, abaixou-se lentamente e pegou Harry no colo, fazendo o moreno se mexer, incomodado. A passos rápidos, voltou ao quarto, e colocou Harry ao seu lado, cobrindo-o novamente e pegando outro cobertor para si.

Adormeceu enquanto olhava o rosto de Harry, sentindo-se em paz pela primeira vez desde que descobrira que Harry Potter era parte veela.


Own, que amor esse Harry donzela.

Será que isso dura? xD

Sejam amores e

R E V I E W !