Shattered
4
And finding answers is forgetting
All of the questions we call home
Passing the graves of the unknown
O momento em que acordou foi o instante exato em que entendeu o comportamento de Potter: era o que o médico havia explicado.
Aquele ali, aquela pessoa que havia cozinhado e feito listas de compras no dia anterior não era Potter. Aquele ali era a pessoa que ele queria que seu companheiro de vida fosse, e aquele havia se tornado Potter.
Draco não sabia como se sentir com aquela revelação. Por um lado, compreendia que era a maneira da natureza veela garantir que a metade do veela ficasse com ele para sempre – quem não iria querer ficar com a pessoa perfeita? Por outro, ele se sentia cruel. Ele estava roubando a personalidade de Potter. O médico havia dito que algo assim era possível e que, conforme a relação dos dois progredisse, Potter voltaria a ser... Potter, uma vez que os instintos veela estivessem certos de que ele não deixaria Harry. Mas como ele tinha certeza absoluta de que jamais se apaixonaria por Harry, ele estava prendendo Potter em um relacionamento em que ele jamais conseguiria ser ele mesmo.
Como explicar isso a Potter sem que ele se sentisse rejeitado?
Ele não sabia nem mesmo por onde poderia começar.
Potter dormia encolhido em seu lado da cama, como se não estivesse acostumado a ter espaço. Com um suspiro pesado, Draco sentou na cama, escorado à sua cabeceira, e os joelhos erguidos, passando a mão pelos cabelos finos em um gesto de exasperação.
Ele era um Slytherin. Ele precisava ser prático. A verdade era que não havia saída dessa sua situação – não havia manipular alguém para vencer algo, nem tampouco fugir de ago, e apenas se esconder até que as coisas voltassem a dar certo. O resto da sua vida estava deitado ao seu lado, dormindo encolhido, com uma das mãos debaixo do travesseiro, e a respiração pesada e contínua.
Deu-se um momento para ver Potter. Harry. Seu veela, que o amaria para sempre e mais do que tudo. Balançou a cabeça, entre inconformado e incrédulo que, entre todas as pessoas no mundo, Harry fosse ter a ele, ao garoto irritante que tentara ser um inimigo na escola, que fazia piada com a morte de seus pais, que tentara fazer com que ele caísse de uma vassoura durante um jogo, vestindo-se de Dementador, como seu amor verdadeiro. A pessoa que o faria feliz, e que seria feliz ao seu lado.
Não fazia sentido.
Com um suspiro, Draco deixou seus olhos correrem por Harry. Ele havia deixado seu cabelo comprido depois da guerra. Pelo que Draco havia entendido, Harry havia caçado alguma coisa, em uma missão super secreta durante todo o ano, e seu cabelo não havia visto um corte desde o fim de seu sexto ano. Ele gostava do cabelo mais comprido em Harry – parecia menos com um ninho de passarinho assim.
Ele também era magro – demais, ao ponto de ser preocupante para alguém que se preocupasse com ele. O pulso que ele podia ver, que estava agarrado ao lençol, ao lado de sua cabeça, era fino e parecia quebradiço, em sua pele pálida.
Ele lembrou Granger contando que Harry havia ficado internado em coma, e mesmo antes disse, havia passado por um período de depressão, que ninguém sabia explicar.
Isso seria uma causa razoável para a sua magreza e palidez. A pele de seu rosto estava esticada ao máximo sobre seus ossos, como se ele não tivesse comido há dias, e Draco sentiu algo de preocupação em si, pensando que ele teria de fazer Harry comer mais.
Seu olhar continuou percorrendo pequenos detalhes em Harry, as cicatrizes mal visíveis em sua mão, Eu não devo contar mentiras. Ele lembrava-se daquela cicatriz, ele havia rido dela quando soubera que Umbridge fazia Harry escrever linhas com uma Bloody Quill, achava que a punição já devia ter vindo mais cedo.
Na época em que ele ainda acreditava que Harry Potter era o inimigo. Antes de ele virar um torturador, e quase ser preso, e quase virar um assassino.
Antes de tudo aquilo.
Quando se deu conta, seus olhos não estavam mais presos à pele de Harry, mas sim a seus olhos, que o encaravam, silenciosos, abertos, e naquela gama de verde que apenas Harry Potter parecia possuir. Em algum ponto durante a sua análise, Harry havia acordado, e agora o observava com uma intensidade equiparada à sua.
"Isso deve ser tão absurdo pra você quanto é para mim.", ele disse, apenas para dizer alguma coisa, quando o escrutínio de Harry se tornou demais.
Ouvindo uma risada baixa, enquanto Harry se virava na cama, deitando-se de costas, e o encarando quase de cabeça para baixo, ele voltou a olhar para o moreno, que tinha um sorriso quase maldoso nos lábios.
"Não tão absurdo quanto foi para Ginny. Eu entrei em coma quando ela me beijou."
Draco ficou espantado durante um segundo, e então gargalhou alto, imaginando a cena, ouvindo Harry rir baixo a seu lado. Olhando para o outro rapaz mais uma vez, Draco balançou a cabeça.
"Ela te beijou? Vocês não estavam juntos?"
Harry deu de ombros, olhando para as paredes do quarto, antes de suspirar.
"Antes da guerra, sim. Mas quando tudo acabou, quando essa... herança da minha mãe começou a se manifestar, a ideia de voltar a namorar Ginny me parecia errada. Não era... certo.", seus olhos voltaram a fixar os de Draco, que sorriu amargamente.
"O certo sou eu.", ele disse, encarando Harry com a expressão séria.
Harry deu de ombros mais uma vez.
"Pelo jeito, é."
O silêncio permeou o quarto durante mais alguns momentos, e então Draco suspirou.
"Bem, pelo menos você tem bom gosto.", ele sorriu de leve, e viu Harry compartilhar seu sorriso, e durante aquele segundo, ele conseguiu vislumbrar um futuro para os dois.
Eles poderiam dar certo. Ele só precisava tentar, porque a natureza de Harry o faria tentar, de todas as maneiras possíveis.
"Eu não sei o que nós estamos fazendo aqui, Harry. eu não sei como essas coisas funcionam, e eu estou incomodado com o fato de que você vai poder mudar pra me fazer gostar de você. por mais que nós dois nos detestássemos na escola, eu não acho justo com você que você tenha que agradar a mim. Não é justo isso tudo.", ele disse, falando de uma vez, e tentando ser honesto, porque honestidade era só o que ele conseguia pensar em usar naquela situação.
Ele viu Harry suspirar e olhar para o teto, ficando em silêncio durante alguns segundos que pareceram uma eternidade.
"Eu não acho justo com você, Draco, que você tenha que ficar comigo.", ele voltou a encarar Draco mais uma vez, seus olhos não deixando que os de Draco fugissem, "Ontem, quando você me rejeitou, parte de mim estava esperando aquilo. Parte de mim queria aquilo. Eu nunca fui suicida, mas você é...", ele engoliu em seco, como se não quisesse continuar, mas ao mesmo tempo não conseguisse se impedir de falar, "Você é só o que importa. Ron, Hermione, todo o resto, eles importam para mim, mas só depois de você. e se você não me quisesse aqui, não haveria motivos para ficar.", ele se sentou na cama, mais perto de Draco do que havia estado até então, e respirou fundo mais uma vez, antes de inclinar a cabeça para o lado, como se analisasse Draco antes de prosseguir, "Se você não me quiser, não há motivo para ficar, e eu não te condenaria. Se você acha que seria mais fácil sem Harry Potter na sua vida, sem a preocupação de me ter ao seu lado, eu entendo, e não te condeno. Eu acho que você tentou, nenhum Voto pode dizer que não, e ninguém pode te condenar, se eu não o fizer. Você só precisa dizer, e eu saio de sua vida, e você pode seguir seu caminho, sem mim."
Draco quase sentiu o mundo parar naquele instante, como se cada palavra de Harry pesasse toneladas. Ele tinha a vida de Harry em suas mãos. Literalmente, e sem falhas. Ele havia tentado, e se ele dissesse a palavra, estaria tudo terminado.
Ele tinha, ali, naquelas palavras de Harry, a permissão para se desfazer dele – de acabar com a sua vida de maneira completa, e os olhos verdes lhe diziam que cada palavra era verdadeira.
E a imensidão daquilo, a dimensão do que Harry era para ele, e do que ele era para Harry foi o que o convenceu de que eles podiam dar certo. Eles dariam certo se ele pudesse acreditar, e se esforçar, mesmo que apenas um pouco mais.
Nunca, ninguém, havia confiado nele daquela maneira. Ninguém jamais depositaria sua vida em suas mãos daquela maneira entregue e sem preocupações, dando-lhe permissão para esquecê-lo, e deixá-lo morrer. Ninguém nunca havia oferecido tanto, e pedido nada em troca, e colocado a sua vida, os seus desejos, e as suas necessidades antes de todo o resto – nem mesmo seus pais haviam feito isso por ele, mesmo que o amassem verdadeiramente.
Mas mesmo o amor deles empalidecia diante do que Harry era. Do que ele era para Harry. Ele era tudo.
E nada, nunca, havia feito com que ele se sentisse tão... completo, tão necessário.
Harry precisava dele para viver.
Ele estendeu a mão, pegando uma das mãos de Harry nas suas, e apertando-a com firmeza. Ele sentia que talvez devesse beijar Harry, ou mesmo dizer alguma coisa, mas ele não conseguia. E por isso apenas sorriu, levantando da cama com a mão de Harry ainda entre a sua, e o guiou até a cozinha, onde ajudou Harry a preparar o café da manhã.
Ele faria tudo dar certo.
Era a sua única opção.
R E V I E W !
