Shattered

5

Reason clouds my eyes, with splendor fading
Illusions of the sunlight
A reflection of a lie will keep me waiting
With love gone for so long

Os dias passaram mansos, durante pelo menos uma semana. Harry era uma pessoa fácil de se conviver, e se havia algo de não natural naquela calma tão imensa, naquelas concordâncias tão fáceis, e em todas as vezes que ele havia cedido a Draco apenas porque o loiro dizia que não concordava com algo, Draco preferia não analisar mais profundamente, e simplesmente se deixar levar.

Se deixar levar era o que ele podia fazer, e nada lhe parecia mais fácil ou mais razoável.

Harry parecia estar se esforçando tanto, que dava uma certa agonia em Draco não tentar mais. Ele tentava perceber os detalhes em Draco, as coisas de que ele gostava, e do que ele não gostava. Ele ouvia, por longas horas, sem interromper, e sem comentar, quando Draco falava de sua infância, de todas as vezes que ele desejava ter um pai mais presente, ou uma mãe que lhe visse como um adulto. De como se sentira tolo quando percebera que Voldemort apenas queria que ele morresse em sua missão, em como ele via agora que a pessoa a quem ele e sua família chamavam de Lorde era apenas um psicopata.

Falava sobre como desejara ser amigo de Harry uma vez, e como a mágoa de ser rejeitado havia se transformado em ódio infantil, e como ele havia se arrependido disso quando a realidade da guerra batera à sua porta. Ele falou sobre não querer entregar Harry ou Hermione ou Ron em sua mansão quando eles haviam sido capturados, porque precisava acreditar que eles iriam vencer. Em como eles três haviam se tornado a última esperança dele.

E falar sobre tudo isso lhe fazia bem, ele se sentia mais em paz, mais vivo depois de cada uma daquelas confissões, sabendo, sem a menor sombra de dúvidas, que Harry jamais contaria a ninguém seus segredos, ou o julgaria pelas suas fraquezas, simplesmente porque não estava na natureza de Harry fazer nada disso.

Harry, por outro lado, nunca falava. Ele não se abria para Draco, como se temesse que, ao fazer isso, Draco fosse se assustar, e então não fosse querê-lo mais. E Draco não sabia como lidar com isso, porque simplesmente nunca fora o confidente de ninguém. Era um impasse, que ele não sabia como resolver, e ele estava cogitando conversar com Granger quando ela viesse ver Harry, como havia prometido.

Pedir conselhos de relacionamento para uma sangue ruim jamais havia ocorrido a Draco, mas ele parecia não ter outra opção. Ele havia sugerido que Harry convidasse seus amigos para vê-lo àquela tarde – levara pouco para convencer Harry a fazer isso, apenas uma sugestão, que Harry aceitou ansiosamente, o que levava Draco a pensar que ele só não havia feito isso ainda por medo de que Draco não concordasse: e ele não havia falado sobre o medo de que Draco não concordasse.

Era um problema que andava em círculos, sem rumo, e Draco não sabia se ele era parte do problema, parte da causa, ou se esse era apenas o jeito que Harry sempre fora – e o não saber algo sobre Harry estava começando a deixá-lo louco, porque ele precisava saber.

Precisava saber – e não tinha a desculpa de ser meio veela para ter essa vontade.

Naquele exato momento, Harry estava na cozinha, terminando alguns detalhes no jantar que ele fizera questão de cozinhar sozinho, e sem a ajuda de ninguém – não que Draco soubesse ajudar, de qualquer forma; antes de Harry ir morar com ele, ele vivia de comida de restaurantes, e o que quer que sua mãe mandasse para ele através de elfos domésticos.

Ouvindo a porta da cozinha se fechar, Draco desviou o olhar da lareira onde estivera contemplando seus problemas nos últimos minutos, e se virara para ver Harry parado à porta da sala, um enorme sorriso em seu rosto. Não conseguindo impedir que o entusiasmo do outro lhe contagiasse, ele deu um meio sorriso de volta, enquanto Harry entrava na sala, e se sentava em uma poltrona ao lado da de Draco.

"Eles já devem estar chegando.", comentou desnecessariamente, olhando para a lareira mais uma vez, quase saltitando em seu assento.

"Weasley e Granger como convidados de honra. Yay.", Draco disse, soando sarcástico como sempre era quando falara destes nomes desde que os aprendera.

Seu comentário foi recebido com silêncio, e ele olhou para Harry, esperando a defesa de seus amigos, mas o rapaz estava apenas mordendo o lábio, e olhando para baixo.

"Harry? O que foi?", indagou, não vendo o problema.

"Eu não pensei que você fosse se importar, porque foi você quem sugeriu. Eu... eu posso chamar Mione e dizer para que eles não venham, se você preferir, essa é a sua casa, no fim das contas."

Não havia frieza em sua voz, nem decepção, ou raiva. Não havia amargura quando ele dissera que aquela era a sua casa, deixando bem claro que Draco jamais havia dito para ele que era o lugar deles. Havia apenas... tristeza. Sem nenhum outro sentimento por trás.

Merlin em pessoa poderia mandar que ele não deixasse Granger vir jantar com eles àquela noite, e ele iria desobedecer. Por Salazar, ele precisava falar com a mulher!

"Eu só estava brincando, Harry, não era sério. Eu quero os seus amigos aqui.", ele disse, não sabendo muito bem como colocar as palavras para fora, como assegurar Harry Potter de que ser amigo de Weasley e Granger era algo bom.

Weasley escolheu aquele momento para sair de sua lareira, com toda a graça de um hipogrifo bêbado, salvando Harry de dar uma resposta. Harry se levantou, seu sorriso de volta no lugar, e apertou a mão de Weasley, que lhe deu tapinhas nas costas.

Logo depois dele veio Hermione Granger, um pouco mais graciosa que seu namorado, mas ainda saindo aos tropeços. A mulher olhou em volta, e viu que Harry estava inteiro e aparentemente feliz, e o puxou para um abraço, cumprimentando Draco com um aceno de cabeça e um Malfoy resmungado – muito mais do que Weasley havia feito: a estratégia do ruivo parecia ser ignorar Draco, e fingir que ele não estava ali.

O jantar fora algo estranho e embaraçoso para todos eles. Harry parecia inclinado a falar sobre Draco o tempo todo, enquanto Weasley tentava mudar o assunto para Quadribol e seu treinamento para auror – que Draco não conseguia nem mesmo entender como ele havia entrado, se nem uma educação completa o ruivo tinha, mas ele manteve os comentários para si. Harry conseguia se manter em cada assunto por um total de dois minutos, antes de voltar a falar sobre como Draco havia lido isso, ou comentado aquilo, e feito aquele outro, com Harry ou para Harry.

Estava mais do que claro que Harry estava tentando mostrar para seus amigos que Draco era bom para ele, mas tudo o que parecia de verdade era que Draco estava abusando de seu melhor amigo, fazendo com que Harry cozinhasse, lavasse e passasse para ele, ouvisse todos os seus problemas, e tentasse fazer de sua vida algo melhor, apenas em troca de boas noites frios, algumas palavras trocadas, sorrisos vagos e ser chamado de Harry e não Potter.

Quando a refeição terminou, Draco viu a sua chance, e pediu a Harry que mostrasse a Ron o apartamento, enquanto ele mostraria a Hermione a sua prateleira de livros.

Assim que os dois haviam saído da cozinha, Draco arrastara Granger até a sala, e colocara todas as barreiras de silêncio e trancas que ele sabia nas portas.

Hermione o olhou espantada, não esperando algo assim de Draco, que agora andava de um lado para o outro na sala, correndo as mãos pelos cabelos.

"Malfoy, o que foi?"

"Eu preciso de ajuda. Eu não consigo fazer isso sozinho, e eu vou acabar estragando isso tudo de alguma maneira. Você o conhece, você me diz o que eu tenho que fazer, Granger."

"Do que você está falando?", seu tom indicando o espanto que ela sentia, e a sua surpresa estava estampada em seu rosto estava mesclada à curiosidade.

"Isso, Granger, Harry, ele... Isso não vai dar certo. Isso já está errado, e eu..."

"E você está com medo que o Voto cobre o preço?", ela perguntou, algo de gelado em seu tom fazendo Draco parar seus passos de um lado para o outro, e franzir o cenho para a bruxa.

"Não, Granger. Eu estou tentando, Harry está tentando. Mas eu não quero tentar, eu quero que isso funcione. E eu preciso de ajuda."

Hermione pareceu precisar de alguns segundos para processar o que Draco havia lhe dito, e então quase sorriu antes de falar.

"Harry... ele não vai conseguir te fazer feliz? Ele não é o que você queria?", ela perguntou, e Draco respirou fundo, olhando para baixo e balançando a cabeça.

"Granger, Harry é...", ele parecia não ter palavras, e seus olhos cinza encontraram os de Hermione, e pela primeira vez em sua vida, a garota viu uma emoção positiva naquele olhar quando estava voltado para ela, "Ele é perfeito.", disse simplesmente, fazendo Hermione franzir o cenho.

"Então qual é o problema?", ela perguntou, e Draco tinha vontade de bater nela de frustração.

"O problema, Granger, é que eu não sou."

O sorriso que ameaçara surgir antes no rosto da nascida trouxa se fez dessa vez, e ela sentou em uma das poltronas, gesto que Draco imitou alguns segundos depois.

"Bem, eu certamente não posso dizer que você não está tentando.", ela resmungou baixinho, mas Draco ouviu de qualquer maneira, e lançou um olhar feio na direção da bruxa, que riu de leve, antes de continuar, dirigindo-se a Draco dessa vez, "O que você acha que está errado?"

Draco deu de ombros.

"Eu não sei se está errado, porque eu não sei o quanto essa coisa toda de ser veela ainda está afetando o comportamento dele. Eu não sei o quanto é algo errado, o quanto é veela, o quanto é Harry.", ele olhou para o chão, respirando fundo, como quem toma coragem, e voltou a encarar Granger, inclinando-se na poltrona em sua direção, "Nós conversamos durante essa semana. Eu contei muita coisa pra ele, é impossível não confiar em alguém que diz as coisas que ele disse para mim. Ele colocou a vida dele nas minhas mãos, e eu sei que ele jamais conseguiria usar nada do que eu digo para ele contra mim. Ele se esforça, e ele tenta, e ele é exatamente tudo que eu sempre quis – exatamente como você e o médico disseram. Mas ele não... ele não quer nada de volta. Ele não fala, ele não pede. Eu fiz uma piada antes, sobre vocês estarem aqui, e ele estava se oferecendo para cancelar o jantar – e eu sei que ele queria ver vocês mais do que tudo hoje à noite. Ele... eu acho que ele não confia em mim o suficiente para pedir nada, ou fazer algo que ele acha que eu não vá aprovar."

Hermione tinha um ar pensativo no rosto, como se analisasse o que ele havia dito, antes de lhe dar uma resposta.

"Confiança leva tempo, Draco, principalmente com Harry. Ele nunca se abriu com ninguém, nem comigo e Ron. Nem com Ginny, antes de, bem, tudo isso acontecer. Harry sempre foi fechado, e ele vai demorar a confiar em você. Talvez seja isso."

Draco já balançava a cabeça em negação antes mesmo de Hermione terminar de falar.

"Não é dessa confiança simples que eu estou falando. É algo... maior, Granger. É como se ele não acreditasse que eu estou tentando, que eu quero isso. E eu não sou... Gryffindor. Eu não saio por aí anunciando meus sentimentos. Eu quero que isso funcione, e ele sabe disso, mas ao mesmo tempo ele age como se estivesse esperando a minha rejeição nos próximos cinco segundos."

"Bem, eu ainda acho que leva tempo, Draco. Ele vai conseguir ver que você acredita nele, que você o quer aqui. Você só precisa dar tempo."

Draco olhou nos olhos de Hermione por um longo momento.

"Granger, você lembra tudo o que o médico disse, no dia que me fez jurar aquele voto?"

Hermione ficou tensa no mesmo instante.

"Do que você está falando?"

"Eu estou falando de quando o médico disse que com o histórico de Harry, com o tempo que ele foi negado para procurar a sua outra metade, e com todos os problemas dele ao longo da vida, não era algo garantido que Harry conseguisse ficar bem. Eu acho que... Eu acho que nos não temos esse tempo todo, Granger. Eu preciso que Harry entenda que eu o quero aqui, comigo, sempre. E eu preciso que ele entenda isso agora."

Hermione respirou fundo, mas havia algo de irritação em seus olhos quando ela voltou a encarar Draco.

"Você não precisa fazer toda essa cena para mim, Draco. É a sua magia que vai decidir se você tentou o suficiente ou não se isso der errado. Eu não vou ter parte nessa decisão."

A mulher levantou para sair, mas uma mão em seu braço a impediu, e ela se viu frente a frente com Draco Malfoy, que parecia estar legitimamente furioso com ela.

"Eu sei disso melhor do que você, Granger, eu cresci sabendo o que um Voto Perpétuo é. E eu não preciso fazer uma cena, eu preciso de ajuda. A minha vida foi um inferno nos últimos anos. Eu achei que não havia mais nada de bom para mim no mundo, porque eu não sei se você notou, mas o público não parece exatamente me adorar. Eu não posso voltar para Hogwarts, e eu estou em condicional da prisão, e jamais conseguiria uma única indicação para nenhum dos empregos que eu gostaria de fazer. Essa semana com Harry foi a melhor coisa que aconteceu comigo desde que eu tinha quinze anos de idade. Eu não preciso da sua aprovação de que estou tentando. Eu preciso da sua ajuda para salvar a vida do seu melhor amigo, e da minha única chance de ser feliz. Você pode me ajudar ou não?"

Hermione passou um longo momento encarando Draco antes de assentir com um aceno de cabeça, fazendo o loiro largar seu braço.

A morena suspirou, balançando a cabeça.

"Eu acho que só o que você pode fazer é mostrar a ele que você o quer aqui, que você se importa. Você sabe que essa ligação entre vocês não é, bem... platônica. Vocês já... ahm... fizeram, sabe, coisas de casal?"

Draco fez um som de incredulidade, antes de corar levemente, e Hermione sentiu vontade de rir.

"Isso tão não é da sua conta, Granger.", ele respondeu, a fazendo rir.

"Bem, talvez você devesse começar por aí.", ela disse, dando de ombros, "Talvez ele se sinta mais seguro quando vocês começarem a agir mais como um casal, e não como duas pessoas jogadas em uma situação que nenhuma delas queria."

Draco assentiu com um aceno de cabeça, e desfez as trancas da porta, sabendo que Weasley e Harry estavam aguardando os dois na cozinha, Harry curioso e temeroso, e Weasley impaciente e irritado.

O casal se despediu alguns minutos depois, e Draco suspirou. Ele não havia conseguido toda a ajuda que buscava, mas era um começo.

Àquela noite, quando Harry saiu do banho e se sentou desajeitado em sua cama, como havia feito todas as noites que estivera ali, desde que acordara nela, Draco estava esperando por ele acordado, sem livros para evitar os momentos tensos que se seguiam, em que Harry tentava adormecer, enquanto Draco tentava ignorar que havia alguém dormindo a seu lado.

Quando Harry deitou ao seu lado, Draco deitou ao lado dele, virado para Harry, e ergueu uma de suas mãos, correndo-a pelos cabelos do moreno, que o encarou surpreso, antes de sorrir levemente. E quando os olhos de Harry estavam quase se fechando, Draco inclinou-se sobre ele, tocando seus lábios suavemente, uma mera carícia, que pareceu chocar Harry ao ponto de ele nem mesmo corresponder.

Sorrindo, Draco beijou Harry mais uma vez, ouvindo-o suspirar, feliz, antes de deitar, e puxar Harry contra si, descansando sua cabeça contra o peito do loiro.

"Boa noite, Harry.", ele sussurrou, mas ficou sem resposta – Harry já havia adormecido, com um sorriso nos lábios.

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"O que o fuinha queria com você aquele tempo todo?", Ron indagou, enquanto caminhavam de mãos dadas até a casa dos pais de Hermione, onde ela estava ficando até conseguir um apartamento melhor.

"Pedir ajuda.", ela disse, olhando para o namorado com um sorriso enorme no rosto, "Ajuda com Harry."

Ron pareceu incrédulo.

"Eu preferia qualquer pessoa com Harry. Qualquer um. McLagen. Percy. Minerva McGonagall. Eu não confio naquele imbecil.", resmungou.

Hermione riu baixinho, antes de parar na calçada, e dar um beijo rápido em seu namorado.

"Sabe o que eu acho?", ela perguntou, ouvindo-o grunhir em resposta, "Eu acho que eles vão ficar bem."

Ron só conseguia esperar que Hermione estivesse tão certa nisso quanto estava em todo o resto.


R E V I E W !