Shattered

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And this day's ending is the proof of time killing all the faith I know
Knowing that faith is all that I hold

Os dias passaram rápido para Draco naquele primeiro mês, mas isso não queria dizer que fossem fáceis. A primeira semana fora uma sucessão de momentos em que Draco se sentia inseguro, mas se convencera de que ele podia fazer eles dois funcionarem como um casal, como metades, como deveriam ser.

Ele se atreveria a dizer que, se naquela primeira semana ele havia se convencido de que Harry podia ser certo para ele, naquele mês que se seguiu, Draco havia se apaixonado.

Era mais do que simplesmente o desejo de ter algo de bom em sua vida quando tudo mais parecia errado ou simplesmente ruim. Ele descobrira, depois de um mês acordando e adormecendo ao lado de Harry, que ele gostava de Harry. De seu senso de humor um pouco estranho, de seu paladar infantil, da maneira como ainda se encantava com atos de magia, e como parecia mesmo se importar com Draco a cada passo do caminho.

A maneira como elogios o desconsertavam, mesmo que eles nunca fossem dados em vão, ou em grandes quantidades, e como ele parecia aceitar os defeitos de Draco com toda a facilidade, como se o conhecesse desde sempre.

Não era difícil se apaixonar por Harry – aquele Harry que Draco via todos os dias. E ele podia dizer, com toda a certeza, que Harry já não estava mais agindo apenas por instinto veela: o Harry por quem Draco estava apaixonado era o Harry de verdade, e ele sabia disso pela fonte mais segura de todas: Hermione Granger. A garota havia se tornado uma constante em suas vidas, e ocasionalmente Weasley aparecia com ela, ou os acompanhava em saídas a lugares que Draco jamais consideraria ir antes de estar na situação que estava.

Harry não podia sair na rua em nenhum lugar que fosse mágico que os repórteres e as pessoas começavam a notá-lo e tornar a sua diversão algo impossível. E por isso ele e Draco tomaram por hábito visitarem lugares da Londres trouxa, lugar onde Harry, mesmo tendo sido criado como trouxa, jamais tivera a oportunidade de visitar, e que Granger parecia ter grande prazer em lhes mostrar.

Eles visitaram cinemas e museus, shoppings e jogos de futebol, parques e ruas discretas, lugares em que mães e pais brincavam com seus filhos, e bairros com grandes jardins.

Granger, aos poucos, havia trazido o Harry que ela e Weasley conheciam à tona. Alguém levemente sarcástico, com bom coração, que não tinha riso fácil, mas parecia capaz de aceitar a todos à sua volta sem dificuldade. Draco o observava com seus amigos e notava o quanto eles pareciam mudar aqueles a seu redor, até mesmo Weasley ficava menos insuportável quando Harry estava perto dele.

Fora um mês de aprendizado, e também de alívio, para Draco. No final das contas, ele só havia ganhado com a situação que a princípio parecia tão irremediável.

Ele estava feliz, se sentindo amado, e, se Harry não se abria tanto com ele quanto Draco gostaria, ou se ele não contava todas as suas histórias de infância para Draco, ele sabia que só ia ter que esperar mais algum tempo. Granger havia lhe assegurado que a segurança viria, e a confiança depois.

Ele confiava em Granger, por incrível que pareça, e estava confiante de que a decisão que havia tomado era a correta.

x

Alguns dias eram mais fáceis do que outros. Os dias em que Hermione e Ron estavam com eles dois eram os mais fáceis de todos eles, já que ele se sentia um pouco mais seguro do que era e de como agir.

Ser ele mesmo era algo que Draco parecia querer que ele fizesse, mas Harry nunca tivera muita certeza sobre quem era. Ele sabia que não era O Menino que Sobreviveu, nem tampouco O Escolhido – aqueles eram nomes dados pelas pessoas que precisavam de algo maior do que um adolescente mal vestido para lhes dar esperança. Aqueles eram os símbolos que Harry jurara nunca mais ser.

No dia em que Hagrid havia vindo lhe buscar, pela primeira vez, Harry havia dito que não era nada especial, era apenas Harry. Mas ser apenas Harry não era simples – ele não sabia quem aquela pessoa era. Ele não sabia muito bem quais os seus medos, ou o que Harry realmente gostava de fazer. Ele não queria mais ser auror, ele sabia que não conseguiria seguir aquela carreira, e seus instintos ainda estavam fora de controle, apontando em direções diferentes a cada segundo, porque Draco, afinal de contas, era apenas uma pessoa, e ele não podia ser responsável por tudo que Harry deveria ser.

Até mesmo se transformar exatamente no que Draco desejava de seu companheiro de vida era difícil para Harry, ele se sentia colocando mais pesos sobre os ombros de Draco.

Os últimos anos não haviam sido fáceis para Harry – mas para Draco eles também não haviam sido nenhum passeio no parque. Às vezes, na calada da noite, quando os dois estavam sozinhos, na cama de Draco, em seu quarto, quase adormecendo, o loiro lhe contava sobre seus medos do passado, sobre seus erros e acertos, e a maneira como Harry havia lhe ajudado, mesmo que sem querer.

Parte de Harry ficava feliz com aquilo, mas outras partes sentiam um medo tão grande que ele mal conseguia compreender o que sentia. Draco havia dito que Harry o havia salvado, e isso o levava a questionar o que Draco sentia por ele: gratidão? Pena? Obrigação?

Quando Draco dizia que gostava de sua companhia, ou quando sorria enquanto o beijava ou assim que seus olhos se encontravam, o que ele via? Harry, só Harry? O veela que estava ali para ser quem ele quisesse, a pessoa que havia terminado com a guerra que poderia acabar com a sua vida?

Era tudo confuso demais. Ele não conseguia sentir a harmonia que o médico disse que ele sentiria quando Draco o aceitasse. Ele não se sentia ficando em paz, ou conseguindo conciliar quem era com o que era. Ele sabia, com toda a certeza que seu lado veela amava Draco como nada mais no mundo, e conforme os dias passavam, ele sabia que ele mesmo, ele Harry, ele que não sabia bem quem era, também poderia amá-lo, talvez até mesmo já o amasse, e isso só tornava tudo ainda mais difícil.

As pessoas que Harry amava sempre o deixavam, eles sempre se iam, eles sempre morriam no final. Talvez não Ron e Hermione, mas eles eram dois, em um mar de figuras paternas, amigos e família que Harry havia perdido, e por cuja perda Harry se sentia responsável.

Ele ouvia, às vezes, Hermione dizendo a Draco que desse tempo ao tempo, que ele se abriria quando se sentisse seguro, mas não havia segurança em Harry, não mais. Ele não sabia mais qual era o seu propósito, e, se fosse honesto consigo mesmo, ele tinha medo de assustar Draco com seu passado.

Com a carência sempre presente em si. Com a maneira como a ideia de ter alguém para ele, só dele, certo para ele, havia sido a melhor coisa que ele jamais havia ouvido. Como saber que Draco poderia moldá-lo, longe de assustá-lo, o havia deixado feliz, mesmo que jamais fosse admitir, pois assim ele poderia ser quem alguém esperasse que ele fosse. Alguém esperava algo dele, e ele queria conseguir ser tudo aquilo e ainda mais.

No entanto, ao mesmo tempo em que tudo aquilo era reconfortante, também era aterrorizante – ele nunca fora o que esperavam dele, nem mesmo quando ele havia acabado com Voldemort. Nem mesmo então ele conseguira corresponder a todas as expectativas. No fundo de sua alma, ele conseguia admitir para si, quando Draco já estava adormecido ao seu lado, suas mãos em seus cabelos, ele ainda era o menino magricelo e de joelhos protuberantes, que acreditava que seus pais haviam morrido em um acidente de carro, e que não valia nada para ninguém. Que não merecia roupas novas, ou brinquedos, e até mesmo comida, porque ninguém se importava o suficiente.

Esse era o seu maior medo – assustar Draco ao ponto da sua recusa, se ele deixasse que o outro soubesse o quanto ele verdadeiramente precisava de Draco. Para sempre, com tudo o que tinha, com todo o desespero de alguém que jamais se sentira à altura de nada, e então se vê com tudo o que sempre quis nas mãos.

Ele tinha medo, porque ele não conseguia acreditar, por nada no mundo, que Draco realmente o quisesse. Ele estava sempre com o coração acelerado e com o medo entalado em sua garganta: medo do dia em que Draco iria finalmente se cansar, e ir embora, e deixá-lo: como seus pais, como Sirius, como Dumbledore, e Snape, e Remus.

Um mês que parecia algumas horas ou então todo o tempo do mundo.

Foi esse o exato tempo que Harry levou para entender exatamente a sua situação no mundo.

x

O dia estava gelado nos subúrbios de Londres, mas Harry tinha um sorriso honesto no rosto, mesmo que um tanto melancólico, então Draco não se importava com o vento cortante, ou com o frio em suas mãos.

O bairro parecia tranquilo, e crianças brincavam em um parque não muito longe dali, suas risadas altas e em paz podiam ser ouvidas de onde estavam. Na esquina por onde passavam havia uma grande casa de tijolos vermelhos, com pelo menos três andares, um balcão na frente, e uma grande varanda embaixo. Suas janelas e portas brancas pareciam convidar a entrada ali, e os gramados verdes, mesmo que um pouco crescidos demais, se estendiam em toda a volta, prometendo um pátio ainda maior na sua parte de trás.

Harry olhava para a casa com um ar saudoso, de quem quer algo que sabe que jamais terá, e ocorreu a Draco que Harry jamais havia chamado aquele apartamento se meu, ou mesmo de deles, mas sim sempre como a casa de Draco.

Vendo aquele sorriso melancólico no rosto de Harry mexeu com Draco mais do que ele gostaria de admitir, e ele pegou a mão do moreno na sua, virando-o para um beijo rápido em seus lábios, e afastando-o da casa e de seu sinal de VENDE-SE.

O passeio durou mais algumas horas, ao final das quais Draco e Harry voltaram para o pequeno apartamento, onde Harry lhes fez jantar, e eles se retiraram para o quarto, Harry adormecendo em seguida.

Quando achava que ele já estava dormindo, Draco levantou e foi até a sala, chamando Granger por Floo, e contando a ela o que pretendia fazer.

Da cama fria sem Draco ao seu lado, Harry não conseguia entender as palavras, mas ouvia Draco falando em tom animado e feliz com alguém que tinha a voz fina demais para ser um amigo.

Seu coração quebrando um pouco mais a cada instante, fechou os olhos, escondendo o rosto no travesseiro, para quando Draco voltasse à cama, não notasse suas lágrimas fracas.

Ele era fraco, e estava começando a não conseguir mais acreditar que algo daria certo em sua vida.

Nada nunca dava, de qualquer maneira.

x

Hermione – e como era estranho pensar na nascida trouxa como Hermione, e talvez como uma amiga -, havia achado seu plano uma maravilha, e o havia ajudado com a compra da casa trouxa. Weasley, por mais que o detestasse, estava ajudando com alguns detalhes, como chamar seu irmão que trabalhava como Desfazedor de Feitiços para ajudar a colocar guardas e proteções na casa, para que ele e Harry pudessem se mudar o mais breve possível.

Ele sabia que Harry ainda não acreditava completamente na sua aceitação de seu elo, e essa era a maneira mais... Gryffindor que ele havia encontrado para esclarecer ao rapaz que ele o aceitava – com tudo o que Harry tinha para oferecer: suas reservas e seus medos, suas inseguranças e seu cabelo que parecia ter vida própria.

Ele aceitava Harry por quem ele era, e sabia que aprenderia a aceitá-lo a cada vez que ele mudasse. Granger havia garantido que essa era a ação mais correta e mais rápida para convencê-lo disso.

Levara pouco mais de uma semana para que ele conseguisse comprar a casa, e mais duas até que ela estivesse pronta para ser decorada. Hermione e Weasley, então, passaram a ajudá-lo a tornar o lugar imenso e vazio um lar, deixando diversos cômodos sem nenhuma espécie de decoração para que Harry fizesse deles o que quisesse, para que a casa fosse, também, dele.

Até mesmo Narcissa havia aparecido e dado a sua bênção do lugar, apesar da vizinhança trouxa.

Ele sabia que era algo arriscado, cada minuto que ele passava longe de Harry era um minuto a mais que o moreno duvidava de tudo o que tinham, mas Draco estava apostando tudo o que ele tinha naquela casa, em seu lar, no lugar onde eles conseguiriam construir tudo juntos, do começo.

A casa estava pronta, e faltava apenas um pequeno pedido de Draco para que aquele fosse seu lar.

Ele iria pedir Harry em casamento àquela noite.

Algo concreto, físico, mesmo que fosse apenas uma faixa de metal em seus dedos, mas algo para afirmar para Harry, de uma vez para sempre, que eles dariam certo. Que Draco estaria ali. Que ele não iria embora, ou sumiria, ou faria qualquer coisa que envolvesse deixar Harry para trás.

Ele provaria à sua outra metade que eles eram um só.

Ele faria isso funcionar, mesmo que fosse a última coisa que fizesse.


R E V I E W !