Shattered

7

And I've lost who I am, and I can't understand
Why my heart is so broken rejecting your love
Without love gone wrong; lifeless words carry on
But I know, all I know, is that the end is beginning

Mais um dia que havia ido e vindo e que Draco havia desaparecido logo depois do amanhecer, e não retornado até o começo da noite – Harry tentou, àquela noite, não deixar com que o outro percebesse o quanto a sua ausência o machucava, a maneira como, com o passar das horas, a sua respiração ia ficando cada vez mais pesada, e como, apenas alguns minutos antes de Draco voltar para casa, ele havia simplesmente sentado no sofá, e tentado valentemente lutar contra as suas lágrimas.

Estava tão óbvio, era tão claro: a cada vez que Draco saía, ele voltava feliz e radiante – e nenhum dia antes ele havia ficado tanto tempo fora, nem voltado tão feliz.

Ele ficava tão bem longe de Harry, tão feliz, tão contente. Ele voltava cheio de sorrisos e pequenos toques, e Harry não conseguia lutar contra o sentimento de que isso tudo era apenas o que restava para ele depois de Draco ter passado o dia na companhia de alguém de quem ele realmente gostasse.

Seu coração quebrava um pouco a cada vez que ele pensava assim, mas ele não conseguia evitar.

Jantaram em um silêncio tranquilo – Harry sempre estava tranquilo quando Draco estava por perto, ou o mais próximo de tranquilo que conseguia estar desde que descobrira toda a sua herança genética e tudo de errado que havia com ela, e quando ele colocou os pratos para lavar, Draco pegou na sua mão e o levou até a sala, sentando à sua frente.

"Eu queria falar com você sobre algo sério.", ele começou, e Harry respirou fundo.

Era agora. Draco iria contar a ele que não o amava, que havia percebido que jamais conseguiria fazer isso dar certo, e então o pediria para sair, e ir embora, para que ele pudesse passar seus dias com a pessoa que o deixava com aquele sorriso no rosto, sem o peso de Harry Potter em seus ombros, fazendo uma sombra sobre a sua felicidade.

Harry controlou a respiração, e impediu que lágrimas caíssem. Ele aguentaria essa rejeição com a cabeça erguida.

x

Os últimos retoques haviam sido dados na casa naquela manhã, e Draco passara o resto do dia fazendo os preparativos necessários para que eles pudessem se mudar já no dia seguinte.

Tudo daria certo, finalmente.

Chegando em casa com um sorriso enorme, ele não conseguiu conter a sua alegria ao ver Harry ali, esperando por ele. O alívio estampado no rosto do moreno quando o viu fazia com que Draco sentisse vontade de abraçá-lo e dizer que... dizer coisas que Draco não sabia bem como dizer.

Não ainda.

Harry parecia abatido, e Draco sabia que era resultado do seu afastamento durante as últimas semanas, mas ele compensaria Harry a partir do dia seguinte, quando estivessem em sua linda casa, perto de um parque.

Jantaram, e, por fim, Draco levou Harry até a sala, avisando que precisava falar com ele sobre algo sério.

O rosto de Harry era uma máscara de agonia e medo tão intensos quando Draco pronunciou aquela frase, que o rapaz levou alguns segundos para se recuperar – o que Harry estava pensando?

O que ele estava fazendo de errado?

"Não é nada tão sério, assim, Harry. Você está pálido.", ele comentou, com algum medo passando em sua voz, e vendo Harry olhar para baixo e se encolher, como quem se prepara para um golpe ou uma notícia muito ruim.

Ver toda a insegurança de Harry lhe causou uma espécie de dor física, como se fosse ele mesmo a sentir todo aquele medo e toda aquela insegurança. Com uma de suas mãos, ele puxou Harry contra si, beijando seus lábios de maneira delicada e calma, e então se afastou, olhando nos olhos verde-esmeralda, e sorrindo de leve, com algo de nostálgico em seu olhar. Harry aproximou-se ainda mais, passando seus braços pelo pescoço de Draco, que o abraçou forte contra si, como se sentisse saudades da pessoa que estava ali, exatamente ao seu lado.

Quando Harry se afastou mais uma vez, Draco o beijou de novo, com mais intensidade, mais calor, mais vontade – não era um beijo de carinho, de segurança e tranquilidade, como todos os beijos que haviam trocado até então haviam sido – era um beijo de desejo puro, de algo de calor e medo, apreensão e certeza.

Draco desejava Harry, assim como o amava. Ele o queria inteiro, completo, sem medo e feliz. Ele queria que Harry tivesse tudo o que desejava, e que nada lhe fosse negado, nunca mais.

Ele queria fazer Harry acreditar que Draco era dele tanto quanto Harry era seu.

Decidiu deixar o pedido de casamento para o dia seguinte – primeiro, ele precisava provar para Harry que tudo isso que sentiam era mais do que aceitação do destino que sua mãe havia lhe passado com seu sangue. Primeiro, ele precisava fazer Harry entender que o amava, o queria, para sempre, ao seu lado.

Draco se afastou mais uma vez, e pegou a mão de Harry, levando-o até seu quarto, e fechando a porta atrás de si. Em silêncio, ele beijou Harry mais uma vez, que correspondeu com o mesmo nível de desejo dessa vez, e permaneceram perdidos um no outro até que o fôlego lhes faltasse.

Com uma delicadeza que nem mesmo Draco sabia que ele possuía, ele tirou a camiseta de Harry, e em seguida a sua, jogando-as pelo quarto. Ele despiu aos dois, com movimentos lentos e calmos, depositando beijos leves e mordidas suaves nos ombros nus de Harry, em seus lábios, seus dedos, suas mãos, seus olhos.

Ele queria memorizar Harry, lembrar de sua pele, de seu cheiro, da maneira como ele se arrepiava a cada toque, como ele suspirava baixinho com cada beijo.

Harry se deixava guiar, em uma confiança muda expressa em seus olhos verdes, pela qual Draco só poderia ser grato – Harry confiava nele para cuidar, para ter, para conduzi-lo de maneira segura para onde quer que fossem.

Pela primeira vez, Harry buscou a sua boca, iniciando um beijo que tinha tanto de necessidade, de desejo, de querer, que Draco sentiu as suas próprias pernas ficarem fracas, como se o ar lhe faltasse.

Ele o amava tanto, tanto que era como se doesse. Queria tanto que Harry enxergasse o quanto precisava dele que não sabia nem mesmo como falar. Precisava de Harry – tê-lo, para sempre, marcá-lo como seu, e pertencer a ele de maneira completa.

Harry estava sobre a cama, seus olhos buscando os de Draco, que estava sobre ele, tentando fazer com que tudo fosse mais fácil, menos dolorido, mais seguro. Quando Draco os fez um só, viu Harry fechar os olhos, lágrimas – poucas e quentes – escorrerem pelo seu rosto, e Draco as secou com beijos, movendo-os em um ritmo único, seu, somente deles dois, como se mais nada no mundo existisse.

Harry era tudo de que precisava para existir, e nada mais faria sentido sem ele ao seu lado. Ele estava total e completamente apaixonado pelo homem a quem um dia desprezara, e queria simplesmente poder fazer com que ele visse a imensidão do que sentia.

Sentiu Harry estremecer sobre si, um suspiro quase dolorido saindo de seus lábios, enquanto Draco se movia, e então sentia que eram um para sempre, como sempre deveriam ter sido.

Em silêncio, sem a necessidade de palavras, Draco beijou Harry mais uma vez, acenando a varinha que estava em sua cabeceira para fazer com que estivessem limpos, e então puxou Harry sobre si, acariciando seus cabelos, até que adormecessem.

Harry iria entender que Draco o amava.

Draco iria pedi-lo em casamento no dia seguinte.

A sua vida seria tudo o que jamais tiveram antes – seria segurança, conforto, amor e nada de cobranças ou ameaças.

Eles seriam felizes.

Draco não conseguia nem mesmo considerar a possibilidade de não serem.

Não com Harry ao seu lado.

x

Muito depois de saber que Draco estava adormecido, Harry ainda permanecia acordado, sem saber exatamente o que pensar, ou o que fazer.

Draco não o havia rejeitado – mas o que ele havia feito?

Ele havia dito que queria conversar seriamente, e então, ao ver como Harry havia ficado, havia desistido.

Era pena.

Era compaixão.

Era medo de fazer Harry sofrer ainda mais, Harry tinha certeza disso. Era medo, talvez, do Voto que Hermione havia feito com que fizesse, de que perdesse sua magia.

Harry não iria conseguir viver assim, vendo que Draco era mais feliz quando estava longe dele, sabendo que ele poderia ser feliz, ter uma vida, uma família, ter tudo o que quisesse, se não fosse Harry ao seu lado.

Harry nem mesmo sabia o que ele sentia por Draco. Esse desespero, essa dor, esse desejo maior do que tudo não era amor – não como ele achava que amor deveria ser.

Amor deveria ser calmo e tranquilo e eterno. Deveria ser calor que aquece, mas não consome, algo que está sempre ali, e jamais vai embora.

Tudo o que ele sentia por Draco era extremo, era demais, era exagero.

Ele não conseguia mais identificar certo e errado, feliz ou triste. Ele não conseguia mais acreditar que algum dia ele faria Draco feliz. Ele não ousava nem mesmo pensar que Draco estava feliz ao seu lado, poderia até parecer assim, mas por quanto tempo duraria? Quanto tempo até Draco perceber que ele... que ele simplesmente não valia à pena?

Dumbledore havia o criado para que ele sacrificasse a sua vida, e nada mais. Seus tios nunca se importaram com ele, e Ron e Hermione tinham as suas próprias vias – Hermione nem mesmo falara com ele direito nas últimas duas semanas.

Por que, por Merlin e tudo o que existia no mundo, por que ele ainda estava vivo? Por quem? Por Draco, para fazê-lo miserável para sempre? Por que ele havia sequer tentado toda essa farsa? Por que ele estava forçando a pessoa de quem mais precisava no mundo a fazer tudo o que não queria?

Quando Draco o havia tocado àquela noite, havia sido tão... perfeito, tão exatamente como Harry havia imaginado tantas vezes antes, mas e agora?

Agora Draco estava amarrado a ele para sempre, para que Harry não morresse?

Ele não queria viver se fosse para viver assim.

Moveu-se ligeiramente na cama, observando o peito de Draco subir e descer em um movimento constante. Correu levemente os dedos pelos cabelos finos e quase translúcidos na luz pálida da lua que entrava pela sua janela, e então beijou seu rosto, leve e suave, uma lágrima escorrendo pelo seu rosto.

"Eu te amo.", sussurrou, tão baixo que nem mesmo ele sabia se havia dito a frase ou apenas a imaginado.

Saiu da cama e se vestiu.

Foi até a porta da frente e de lá, saiu para a rua trouxa de Londres.

Ele daria a Draco aquilo que se deveria dar a todos aqueles a quem se ama: liberdade.


R E V I E W !