Shattered

8

Who I am from the start, take me home to my heart
Let me go and I will run, I will not be silent
all this time spent in vain; wasted years wasted gain
All is lost but hope remains and this war's not over

Quando Draco Malfoy acordou naquela manhã, ele não sentiu nada de anormal. Ele não teve um súbito pressentimento, ou uma arrebatada premonição de que algo daria errado.

Ele não sentiu um arrepio percorrer a sua espinha, ou mesmo um leve temor aparecer em seu coração. Ele não sentiu no vento um prenúncio de tragédia, nem o ar pesado de algo errado. Ele não sentiu nada dessas coisas – ele estava feliz. Ele estava certo de que havia tomado todas as decisões certas, e de que tudo funcionaria a partir de agora.

Piscando lentamente com o sol que entrava por entre as cortinas mal fechadas, olhou para o lado e notou que Harry não estava mais na cama.

Isso não era algo raro, nem mesmo difícil de acontecer. A grande maioria das manhãs via Harry já de pé quando Draco acordava, cozinhando, ou organizando alguma coisa em algum lugar. Era difícil que o moreno ainda estivesse na cama quando Draco acordasse, e Hermione havia lhe contado que Harry sofria de um pouco de insônia, e pesadelos, e que não conseguia ficar parado quando estava acordado, e por isso ia arranjar algo para fazer.

Levantando contente, Draco foi até o banheiro, tomou um banho rápido, e colocou roupas simples, de ficar em casa. Eles teriam de empacotar seu apartamento todo para poderem se mudar - mesmo que a sua casa nova não precisasse de mobília, seus artigos pessoais ainda precisavam estar em algum lugar. Mas antes de tudo isso, ele iria fazer como nos filmes trouxas que ele havia visto com Harry quando andavam por Londres, e se ajoelhar com um joelho apenas no chão, e pedir Harry em casamento com um anel simples, como uma aliança em prata, da qual ele já possuía o par.

Seria perfeito.

Foi quando saiu de seu quarto que Draco notou a primeira ausência, e isso foi o que fez com que tivesse a primeira indicação de que nem tudo estava tão certo quando ele acreditava – não havia sons na casa. Nem o barulho de pratos na cozinha, ou a água correndo na pia, ou no outro banheiro. Nem o som de alguém na biblioteca, nem um som, nem um sussurro, apenas o tráfego da rua lá fora, os sons dos poucos pássaros que moravam ali perto, buzinas, carros, vento.

Mais nada.

Não havia, de fato, ninguém na cozinha. Nem tampouco na sala, ou no quartinho que ele chamava de biblioteca, por falta de um outro nome melhor. O quarto estivera vazio quando ele saíra de lá, mas mesmo assim, Draco decidiu voltar até o local, procurar embaixo da cama, dentro do armário.

Nada.

Ele estava sozinho naquele apartamento pequeno e vazio, e a preocupação começou a se alastrar dentro dele.

Harry não estava ali.

O que isso queria dizer? Onde ele tinha ido?

Correndo as mãos pelos cabelos, em um gesto que ele tentava não usar, andou algumas vezes pelo apartamento, torcendo as mãos, em desespero. Como achar Harry?

Foi até a lareira e se ajoelhou em frente à peça, pesando as chances de assustar Hermione com algo que poderia ser apenas Harry saindo para dar uma volta, comprar alguma coisa, tomar ar.

Talvez ele só quisesse fazer algo de especial para comemorar a maneira como estavam unidos a partir de agora. Harry não era um prisioneiro naquela casa, ele podia sair e voltar quando quisesse, e Draco não era seu guardião, para o outro tivesse de lhe contar onde estava o tempo todo.

Respirou fundo, tentando se acalmar.

Eram oito e meia da manhã.

Foi até a cozinha, e fez café, tomando a primeira xícara em grandes goles, sem nem mesmo apreciar o que estava bebendo, enquanto tentava se acalmar.

Esperaria pelo menos mais uma hora, antes de chamar Hermione, e perguntar onde Harry estava.

Talvez Harry estivesse lá, naquele exato momento, contando aos amigos o que havia acontecido, explicando que estava feliz.

Uma hora, ele esperaria uma hora, ele podia esperar uma hora.

As nove horas chegaram e se foram, assim como a meia hora depois daquela, e às dez horas, Draco já estava roendo unhas.

Algo estava errado, muito errado, e ele precisava corrigir, mas não sabia nem por onde começar. Finalmente foi até o Floo e jogou o pó nas chamas, chamando por Hermione Granger.

Na casa de Granger ninguém respondeu, ela deveria estar no trabalho. Respirando fundo mais uma vez, ele chamou o Ministério onde sabia que ela era secretária de alguma coisa, e aguardou.

Mas a verdade era que, se Harry estivesse com seus amigos, eles não estariam no trabalho.

Draco sabia disso, como sabia que a expressão de choque no rosto de Hermione não deveria ser uma surpresa para ele.

Hermione não sabia onde Harry estava. Weasley, que apareceu em sua casa com três aurores na sua cola por volta do meio dia, também não sabia, e o homem ruivo parecia prestes a explodir com Draco – ao menos até ver como a sua voz tremia ao falar com os aurores, e explicava a eles o que sabia.

Eles haviam ido dormir. Ele acordara sozinho. Harry não estava em lugar nenhum. Eles não haviam brigado, muito pelo contrário, e nada podia estar errado.

Normalmente, os aurores deveriam ter de esperar vinte e quatro horas para fazer uma entrada de caso como pessoa desaparecida, mas era Harry Potter, que havia sido declarado como um veela pouco mais de dois meses antes, e que agora estava desaparecido, sem o seu companheiro.

Hermione chegou alguns minutos depois dos aurores terem saído. Bastou um olhar para os rostos nervosos e tensos de Ron e Draco para que ela soubesse que não havia notícias de Harry.

Sentaram-se os três na cozinha, copos de café evoluindo para bebidas mais fortes, até que os três haviam adormecido na mesa da cozinha, em posições desconfortáveis.

A noite chegou e se foi.

Harry ainda estava desaparecido.

x

Uma semana.

"Nós passamos quase um ano nos escondendo do Ministério inteiro, e de Voldemort em pessoa, Draco. Não é culpa dos aurores que eles não estejam encontrando Harry. Eu mesma ensinei a ele os feitiços para nos escondermos, e eu pesquisei cada detalhe disso. A verdade é que... bem, a verdade é que ele não está sendo encontrado porque não quer."

A voz de Hermione tinha aflição e desespero, apesar de suas palavras parecerem frias.

Draco Malfoy estava caindo aos pedaços à sua frente, e ela não sabia muito bem como lidar com isso.

"Mas o que eu fiz de errado, Hermione? Por que ele sumiu? Ele não pode ficar tanto tempo longe, você sabe disso tão bem quanto eu. Talvez até melhor. Nós precisamos encontrar Harry."

Ele já havia usado aquele argumento cem vezes nos últimos dias. Ela já havia dito que Harry sabia o que estava fazendo ao sumir. Ele parecia cada vez mais desesperado, ela cada vez menos convicta.

Ron não se metia entre os dois, e não sabia como agir. Ele havia pedido para ser incluso no time de busca formado por seis aurores que o Ministério havia designado apenas para procurar por Harry, e seu pedido fora aceito – afinal de contas, quem melhor para reconhecer os padrões de Harry do que seu melhor amigo?

Mas Ron não tivera sucesso depois de sete dias de busca.

Draco expressava sua frustração em palavras exaltadas.

Hermione sentia vontade de chorar, mas se continha.

Onde eles haviam errado?

x

Duas semanas.

"Ninguém viu ou sabe de Harry dentro dos amigos e familiares, e familiares de amigos mais próximos, nós procuramos por ele em todos os lugares possíveis, e entrevistamos todas as pessoas mais de uma vez. Os anões disseram que Harry passou pelo banco na manhã que ele saiu daqui, retirou alguns galeões, trocou parte deles por dinheiro trouxa, e sumiu. Até isso foi difícil de tirar deles, mas quando a situação ficou mais complicada, eles decidiram ajudar, mediante compensação, claro."

Bill viera lhe dar notícias, porque Hermione estava tratando com um detetive particular trouxa, passando informações sobre Harry, para que, caso ele tivesse se refugiado no mundo sem magia, eles também pudessem encontrá-lo.

Draco se sentia estranhamente grato a um Weasley. A dois, três, ou todos eles.

Molly Weasley havia finalmente passado em sua casa um dia antes, a sua casa, Harry e dele, pois seu apartamento era triste demais, mas a casa era miseravelmente vazia, e ele precisava do consolo de saber que não seria feliz se Harry não estivesse ali. Ela o havia abraçado de maneira desajeitada, empurrado seu cabelo para longe do rosto, e dito que ele precisava comer, porque quando Harry voltasse, ele não ia querer ver Draco naquele estado.

Draco não sabia que estado era aquele, já que não passava por um espelho há pelo menos dez dias.

Aceitou a comida calado, e agradeceu aos Weasley com um olhar.

Talvez o detetive trouxa encontrasse alguma pista.

x

Três semanas.

"Eles falaram hoje que se não encontrarmos Harry nessa semana, quando o caso fechar um mês, eles vão extinguir o grupo de busca."

A voz de Ron era amuada, não havia outra palavra para descrever. As garrafas de cerveja estavam abertas em cima da mesa, e Hermione estava na cozinha, tentando fazer algo comestível naquela casa que parecia um fantasma de si.

Draco olhou para o ruivo, entre incrédulo e desesperado.

"Como extinguir o grupo de busca? Não faz um mês que Harry desapareceu, e alguma coisa pode ter acontecido a ele. Ele não ia sumir assim, sem dar notícias a ninguém. Ele nunca ia desaparecer sem dar notícias pra vocês, ao menos. Ele pode ter sido sequestrado, e o Ministério quer fechar o caso? Quando eles precisaram de um garoto de dezessete anos para matar aquele monstro, Harry servia, e agora eles vão simplesmente desistir?"

Os gritos atraíram Hermione até a sala, e Ron contou a ela o que havia contado a Draco. Nos olhos castanhos de sua namorada estavam a dor, a preocupação e o medo que todos eles estavam sentindo.

O Ministério não havia encontrado Harry. Detetives trouxas não haviam encontrado Harry.

Harry não estava em lugar algum.

Hermione começou a temer pelo pior.

x

Um mês.

Draco havia se dado a tarefa obrigatória de sair da casa ao menos uma vez por dia.

Às vezes ele ia até a mansão, visitar sua mãe, que estava tão magra quanto ele, parecendo abatida, e ele nem mesmo parecia perceber que a razão era ele, e a maneira como ele estava se portando. Às vezes ele apenas caminhava pelo bairro, olhando as casas, o parque, as crianças, e sentindo seu coração apertar de dor, e medo, e aflição, e um pouquinho de esperança de que um dia ele pudesse ver uma criança dele e de Harry em algum lugar naquele parque.

Que pudesse caminhar de mãos dadas com a pessoa que amava por aquelas ruas.

Às vezes ele ia até A Toca. Os Weasley o haviam recebido com uma graça que ele jamais havia julgado possível naquela família, aceitando que ele fazia parte do clã, porque o lugar dele era com Harry, e o lugar de Harry era ali. Conversava com Ginny, que não guardava mágoa sua, entendendo que era o destino deles, trocava algumas palavras com George, que parecia ainda não ter conseguido encontrar um centro com a morte do irmão. Falava também com Percy, que era estranhamente fechado para um Weasley, mas que estava fazendo força dentro do Ministério para que continuassem buscando por Harry.

Arthur Weasley era outra companhia bem vinda, de maneira calada e calma, enquanto sua esposa tinha a tendência de encher os olhos de lágrimas sempre que via Draco.

Às vezes ele aparatava para lugares aleatórios, que ouvira Ron, ou Hermione, ou qualquer amigo de Harry comentar sobre, apenas para ver se Harry não estaria lá.

Às vezes, à noite, quando ele finalmente estava tão exausto que o sono chegava de maneira definitiva, ele sentia como se parte sua estivesse faltando. Como se não houvesse mais razão para continuar, e era uma dor tão aguda, tão funda, tão completa, que ele chorava até adormecer.

E a dor, ele sabia, não era sua.

E não entendia porque Harry estava fazendo isso com eles dois.

x

O tempo naqueles dois meses parecia andar com uma velocidade tão baixa, que era como se não passasse. Draco não sabia o que fazer consigo mesmo na maior parte de seus dias, e não entendia muito bem o que estava acontecendo na outra metade.

Ele andava pela sua casa, e via as pessoas irem e virem, e nada significava muito para ele. A única coisa que fazia sentido era que Harry não estava ali.

E ele não estava lá com Harry – onde quer que lá fosse.

Quando um mês passou e se foi sem a notícia de Harry, Draco não saiu mais de casa. As suas andanças dos primeiros trinta dias viraram apenas uma lembrança, e ele não conseguia mais sair – ele queria ficar. Ficar e esperar que Harry voltasse, que chegasse, e entendesse que eles estavam certos agora. Que eles funcionariam agora. Que eles se amavam – agora e para sempre.

Mas Harry nunca chegava, e Draco começou a perder a esperança.

Ele sempre viveu naquela estranha zona de acontecimentos em que tudo lhe parece estar na ponta dos dedos, apenas para escapar no último segundo.

Hermione vinha todos os dias lhe fazer companhia, e Ron vinha com ela, na maioria dos dias. Ele havia pedido licença de seu treinamento como auror para procurar por Harry de maneira exclusiva. Apenas ele ainda se dedicava à busca, e o sumiço de seu herói não merecia mais nem mesmo uma menção no jornal.

A gratidão some tão rápido quanto o medo em que viviam.

Quando a porta se abriu abruptamente no meio de uma manhã ensolarada, Draco não conseguiu se sobressaltar, mas veio ver qual era a comoção.

Hermione, com os cabelos bagunçados e um ar de esperança contida tinha um pedaço de papel nas mãos, e um sorriso no rosto que fez o coração de Draco parar durante todo um minuto.

"O detetive encontrou Harry.", foi tudo que ela precisou dizer, tomando Draco pela mão e os aparatando.

Eles haviam encontrado Harry.

Agora tudo ficaria bem.


R E V I E W !