ANTES DE LER, LEIAM O AVISO!
Eu estou postando o último capítulo e o Epílogo da fic juntos por um motivo – o FM da fic está no próximo capítulo. Não entrem em pânico, não tenham trecos, e, principalmente, não me xinguem, sem terem lido o Epílogo antes, ok?
E mantenham em mente também que essa história foi planejada assim desde o começo, então não adianta vir de xingamento em review, que eu descasco de volta.
Shattered
9
There's a light, there's a sun
Taking all these shattered ones
To the place we belong,
And his love will conquer all
O som era agudo. Como uma longa sequencia de i's, um depois do outro, depois do outro, misturado a vozes que ele mal ouvia, e pessoas de uniformes azuis correndo em torno de uma cama com mais aparelhos em volta do que ele conseguia esperar entender um dia.
Mas ele não notava as pessoas, ou os gritos. Ele não notava a presença de Granger ao seu lado, segurando seu braço com desespero, com uma força que certamente deixaria marcas em sua pele.
Ele não notava Weasley aparecendo alguns segundos depois dele e de Granger, com um homem a seu lado, um curandeiro, talvez, um bruxo, que abriu caminho entre os trouxas, tomando providências, gritando ordens, identificando-se como o médico especialista daquele homem.
Ele não notava nada disso porque, no final de tudo, tudo que ele poderia perceber – tudo o que ele tinha de perceber era o som agudo. A sequência de i's. O biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiip alongado e que parecia eterno, e as linhas retas que o acompanhavam.
Ele não notava nada disso porque ele havia chegado tarde demais.
As enfermeiras correndo não puderam fazer nada, nem tampouco os médicos trouxas que estavam tratando o homem até então desconhecido desde a manhã do dia anterior. O medibruxo que viera com Ron não podia fazer nada.
Ninguém pode trazer os mortos de volta à vida, nem mesmo um especialista em veelas, nem sua metade, seus melhores amigos, todas as pessoas que o amam, o mundo que estava a salvo graças a ele.
Ninguém.
O som agudo parou, assim como a correria das enfermeiras, rostos tentando a impassividade, mas deixando transparecer a dor que um paciente perdido sempre provoca naqueles responsáveis por eles.
Tarde demais.
Draco deu às costas ao vidro da janela onde estava – ele não pudera nem mesmo entrar no quarto. Em passos lentos, quando as enfermeiras saíam de lá, ele foi contra o fluxo, entrando no quarto estéril, indo até a cama envolta em cortinas.
Não chorou. Não sabia como. Não sabia como porque não podia ser verdade – ele não estava morto, não estava mais frio, não tinha mais os lábios roxos, ou a pele gelada. Não era verdade.
Tarde demais.
Pegou a mão de Harry na sua – tão mais magra do que se lembrava, mais pálida, gelada, e em seu dedo anular da mão esquerda colocou a aliança prata cujo conjunto estava na sua mão. Sua culpa. Se aquele anel estivesse sido posto ali dois meses antes, se ele tivesse dito as palavras que Harry precisava ouvir, se ele não tivesse feito segredo sobre seus planos, se, se, se.
Tarde demais.
Saiu do quarto com os olhos ainda secos, e ignorou o chamado de Weasley e Granger e o medibruxo que conversava com eles.
Aparatou para casa, em silêncio.
Sentou-se no chão de um dos quartos vazios – um dos muitos cômodos que deixara para decorar com Harry, e olhou para a única foto que tinha com ele, tirada por Granger, dois homens sorrindo levemente e de cabeça baixa, caminhando na rua sem notarem os sorrisos um do outro.
Ele amava Harry.
E era tarde demais.
x
Ele organizou o funeral, a homenagem, e o enterro. Ele tinha esse direito, como parceiro declarado e registrado de Harry, mesmo que jamais tivessem se casado. Não permitiu a entrada da imprensa, nem de fãs ou curiosos. Ele, sua mãe, os Weasley, Granger, colegas grifinórios de Harry, mais ninguém.
Eles não mereciam estar ali. Nem ele mesmo merecia.
A cerimônia foi curta, com um sem fim de lágrimas derramadas pelo homem que os havia salvado tantas vezes.
As mãos pousadas sobre o peito, os dedos cruzados, a aliança em prata em sua mão.
Draco não chorou.
Tarde demais.
x
Ele tinha plena consciência de que Granger havia ido e vindo de sua casa algumas vezes. Sabia também que Ron havia vindo com ela pelo menos metade dessas vezes, mas não conseguia se importar.
Não lembrava quando havia sido a última vez que havia comido, ou tomado um banho, ou saído daquela sala vazia. A dor em suas costas era a única coisa que o lembrava de que ainda estava vivo, ainda estava ali – e não havia cumprido a sua promessa.
Parte sua não conseguia nem mesmo entender como o Voto Perpétuo que Granger o fizera tomar não o havia matado. Ele falhara. Ele não havia tentando o suficiente, dado o suficiente. Ele quebrava tudo aquilo que tocava, ele havia destruído tudo de bom que ele tinha.
Ele havia matado Harry. Não lhe dera o que precisava, não fora quem Harry precisava que ele fosse.
Passava seus dias listando decepções. Não havia dito que o amava, ou lhe pedido em casamento, ou lhe mostrado a casa que deveria ser sua. Não havia lhe apresentado à sua mãe. Narcissa iria gostar de Harry, Draco sabia, ela sempre o achara frio demais, e Harry era seu oposto. Os dois teriam se dado bem, Draco tinha certeza. Não havia colocado a maldita aliança em seu dedo quando suas mãos ainda podiam sentir. Não havia feito nada do que deveria ter feito.
Como o Voto poderia considerar que ele havia cumprido a sua promessa quando nem mesmo ele achava que o havia feito?
Sua contemplação não tinha horários, e ele não se dava conta da fome, do desconforto, do frio, da sede, do sono. Ele sabia que em algum ponto havia comido com Granger, e de novo com sua mãe. Sabia que as duas haviam insistido para que ele fosse até uma clínica, de onde Ron tirara o medibruxo que os acompanhara até o hospital em que Harry fora encontrado. Sabia que Arthur Weasley estivera ao seu lado, relatando que o detetive que Hermione havia contratado encontrara a entrada de Harry naquele hospital trouxa menos de um dia depois de Harry ter sido internado – encontrado em um bosque próximo à cidade trouxa em que fora colocado no hospital. Também sabia que a teoria era de que Harry havia perdido a consciência de forma completa, e por isso seus feitiços que o ocultavam haviam se desfeito, e ele fora achado.
Ele sabia de tudo isso a um nível ou outro, mas de que importava?
Sua mãe foi quem o arrancou de seu estupor em uma manhã. Fez com que levantasse daquele chão, tomasse um banho, comesse alguma coisa, e então o levou até o medibruxo que, aparentemente, era um especialista em veelas.
O homem fora bondoso e calmo, tentara fazer com que Draco não se sentisse culpado, mas ele não conseguia acreditar. Ele dissera que Draco podia sentir o que Harry sentia, às vezes, porque os dois compartilhavam de uma ligação profunda, a que Harry ignorara. Ele dissera que Harry nunca havia tido a chance de ficar bem – havia sido tempo demais fora de contato com a sua parte veela, tempo demais sem saber que uma parte sua estava faltando, tempo demais acreditando que todos estariam melhor se ele não estivesse ali.
Com o pouco de sentimento que conseguia juntar, Draco gritara que ele não tinha o direito de culpar a Harry por tudo o que havia acontecido – o médico replicara que não era culpa: eram fatos. Harry e Draco nunca tiveram uma chance. O medibruxo que tratava de Harry deveria ter chamado um especialista, em vez de fazer com que os dois passassem por tudo o que haviam passado.
Ele dissera também que Draco passaria por um período de depressão mais sério, mas que poderia se recuperar e viver uma vida normal, longa e duradoura. Passaria, ele disse, como todas as dores de amor passam.
Sair do consultório sabendo que eles dois haviam sido destinados a falhar não aliviou tudo o que Draco sentia: pelo contrário, tornou tudo ainda pior. Harry nunca havia tido nada, nem ninguém. Draco era tudo o que ele iria ter, e nem mesmo isso Harry conseguira.
Não era justo.
Não era justo, e era tarde demais.
x
Ele sabia, racionalmente, que não havia mais nada que pudesse fazer. Que os dias continuariam a passar, um a um, como se Harry não tivesse morrido, como se o mundo ainda fosse o mesmo, como se tudo que importava ainda estivesse certo.
Fora tanto tempo esperando por algo bom em sua vida, tanto tempo temendo estragar tudo, que agora que via o quanto amava – e ainda amava, amava como não conseguia entender, de uma maneira que parecia não caber em si -, não entendia como o mundo não havia simplesmente terminado.
Ninguém desistia dele. Granger, Weasley, sua mãe, Molly, Arthur, todos eles. Não o deixavam em paz. Tinha medo de que ele fizesse "alguma bobagem".
Por que não o haviam parado quando ele estava fazendo bobagens? Esperando por momentos que nunca chegaram, esperando a hora certa, temendo dizer algo cedo demais, temendo estar errado.
Por que não o pararam então?
Ao entardecer de mais um dia, dez dias, exatamente, depois da partida de Harry, ele havia percebido que não havia mais nada. Ele havia falhado. Ele havia quebrado seu Voto.
Sua magia, instável desde a morte de Harry, pareceu concordar com ele. E com um zumbido que Draco já havia lido muitas vezes a respeito, uma sombra parecia se erguer a sua volta.
Sua mágica o compreendia, entendia e aceitava que ele havia falhado.
Ele falhara, e seu Voto voltava agora para puni-lo.
Ele iria pagar pela sua falha.
E para isso, ao menos, não era tarde demais.
R E V I E W !
