Capítulo 03 – A carruagem de Heimdall

-Yamato Nadeshiko! Suba por favor!

E lá vai a menina de cabelos rosados, sentando-se no assento de couro da carruagem.

-Kazumi-san!

-Olá, Mayura-san...

O deus de cabelos roxeados torce os lábios, desgostoso. Maldito Freyr, fazê-lo pagar um papelão desses! Humphs! Que pelo menos isso valesse pena, Freyr conquistasse o coração daquela ningen estranha e a levasse embora com ele. Será que assim Loki viveria numa angústia sem fim? Num dor infindável de derrota?

-Hahahahahahahaha!

-Está tudo bem, Kazumi-san?

-Hai, hai... ¬ ¬'

Silêncio. Freyr sua frio, sem coragem de dizer palavra a Mayura. Finalmente, estavam juntos! Como seria que a pediria em casamento? Ah, sua irmã Freya irá adorá-la como cunhada! Quem sabe até Odin não a convidasse para morada dos deuses? Como seria feliz!

Heimdall observa Freyr estupefato. Aquele idiota estava sonhando acordado de novo! Desse jeito ele nunca conquistaria a ningen de verdade!

Ele também observa Mayura. A menina olha para as ruas passando, o olhar meio longe e nervoso. Freyr era um idiota e não percebia que aquele era o primeiro encontro da menina! Então, sobrava pra ele...

Estala os dedos, passando por uma rua cheia de árvores, fazendo com que suas pétalas caíssem sobre os dois. Freyr agradece com os olhos, vendo a ningen sorrindo largo, enquanto tenta pegar as pétalas.

Heimdall sorri, satisfeito. Até que Freyr tivera bom gosto ao escolher o sorriso daquela jovem...

Pouco tempo depois, novo silêncio. Heimdall já estava se perguntando se aquilo tudo era uma trama contra Loki ou contra ele mesmo! Freyr tinha que estar falando coisas bonitas a ela. Então?

-Ei, Kaitou, e aquelas frases todas que você me dizia sobre a sua amada Yamato Nadeshiko? Não é hora de dizer a ela?

Freyr congelou, de cima a baixo. E Mayura, envergonhada, vira os olhos para a rua. Que complicação os dois!

Mas Heimdall não desistiria... Ele mesmo serviria de cupido, se isso fosse infernizar a vida do maldito Loki!

-Em muitas noites eu ouvi Freyr choramingando que nem um gato desmamado pelos cantos, sobre o amor que ele tinha por uma menina de cabelos e olhos rosados, que gostava mistérios e seria a mulher perfeita para se viver toda uma eternidade... Mesmo que ela morra decapitada ou esquartejada algum dia, ou que sua carne fique seca e podre, ele amaria as lembranças mais bonitas que tinha dela, antes de ficar velha e feia!

Heimdall termina o discurso, fitando seus dois ouvintes. Nunca o deus guardião soubera que tinha um lado tão romântico!

Freyr parecia querer matá-lo com os olhos. Mas Mayura... estava rindo. Rindo!

Era demais. Heimdall se virou, furioso.

-Yamato Nadeshiko!

-Não sabia que Kazumi-kun fosse tão engraçado!

-Mas... não era isso que Freyr dizia da Yamato Nadeshiko!

-Bem, espero que não, nééé?

Heimdall vira os olhos, os fitando de relance. Finalmente, os dois pareciam conversar.

O sol já quase se punha, quando a carruagem pára, num declínio suave de grama, onde logo abaixo corre tranquilo um rio.

Ao lado direito das margens, uma toalha devidamente posta, com direito a velas e incenso, espera servir o jovem casal.

Freyr ajuda Mayura a descer, a levando até as almofadas. O toque ligeiro das mãos da menina embarga por todo seu corpo, estremecendo o coração do jovem deus.

Mayura observa todos os preparativos, numa surpresa que lhe espreme todo o coração. Por que aquilo parecia tão errado? E... como aquele olhar... aquele olhar naquela sala há momentos atrás não? Como podia ela ser tão estúpida em não ser capaz de compreender a diferença entre certo e errado?!

-Gosta, Yamato Nadeshiko?

-Hai! Domo arigato, Kaitou-kun.

-Iie – diz ele, em voz séria, segurando sua mão. – Freyr é quem agradece por sua Yamato Nadeshiko permitir sua presença perto dele.

Heimdall já estava entediado com aquela melação, quando finalmente sente a presença que tanto esperava.

Caminha um pouco mais pra longe dos dois, passando então para o outro lado da margem do rio. Entre as árvores escuras pela sombra do sol poente, ele encontra um alto rapaz segurando um punhado de cadernos em seus braços.

-Então não se conteve de curiosidade, não é Loki-san?

O rapaz sorri, não tirando seus olhos da cena que passa do outro lado do rio.

-A minha grande curiosidade, Heimdall, é saber porque está se empenhando tanto para ajudar Freyr a conquistar Mayura.

-Ora, Loki! Por que mais seria?...

O deus adulto e trapaceiro se vira, finalmente olhando seu inimigo com inconformada interrogação.

Mas Heimdall se limita a dar uma leve gargalhada, dando-lhe as costas, mostrando a intenção de atravessar as águas.

-... senão para destruir seu coração...?

Do outro lado, separada pelas águas do rio, Mayura insiste em fitar algum ponto entre aquelas árvores. As risadas de Freyr e os urros de seu porquinho passam em vão por seus ouvidos, enquanto ela se perde nos leves sons de passos vindos de lá.

Talvez fosse Kazumi-san...

De repente, um brilho. E outro, e outro... a noite cai devagar e vários vaga-lumes rodeiam as árvores, logo chegando à sua própria margem. Pequenas luzes piscando no ar.

Ela prende o ar, como se presa no tempo.

Suspira, forçando os olhos a piscar.

Mais vaga-lumes.

Mas ela jura que, entre as sombras e as luzes, havia um par de olhos vermelhos...