Capítulo 04 – Um sussurro inquieto
-Ah, Yamato Nadeshiko! Freyr está muito feliz!
- Obrigada pelo lindo passeio, Kaitou-kun.
Heimdall observa a despedida dos dois, da carruagem parada aos pés da escadaria do templo. Um beijo, um único beijo e ele ganharia a semana! O deus guardião fecha os olhos, invocando um pouco de fumaça aqui, uma brisa mais suave ali, quem sabe um clima perfeito?
Era tudo que precisava.
Freyr e sua amada Yamato Nadeshiko, diante dos olhos do trapaceiro Loki, que por ali se escondia, vigiando o fim do encontro.
"Por quê estou aqui?" Abraça os cadernos, sua forma de menino sentada na varanda do templo, encoberto pela escuridão.
"Freyr e Heimdall tão próximos dela... Loki, não seja burro, por favor. Vê? Heimdall só quer irritar você. Afaste Mayura de Freyr e pronto. Fim de jogo. Mas... e se ela gostar mesmo daquele ladrão fantasma? Freyr em si não é mau, pelo contrário, é até bondoso e atencioso, e aos extremos quando se trataria dela. Não, apesar disso, Mayura não era apaixonada por ele, em nenhum momento anterior havia demonstrado isso. Claro, ela se abria com ele. Chorou com ele naquele parque, quando seu clube estava preste a ser extinto. E ele...? COMO ASSIM, E EU? Loki... não... seu grande deus idiota..."
Ele suspira, fitando de soslaio para a cena à sua frente.
Sentia-se derrotado. E não por Heimdall, ou qualquer outro deus.
Mas o grande deus das trapaças, havia caído na maior de todas as piadas do destino, a qual nem ele mesmo escapara.
Sorri, quase encabulado consigo mesmo.
Freya, Skuld. Tantas outras. Ninfas, musas, deusas magnificas que o amavam. Loki nunca as amou.
Mas ele caiu de amor, por uma infante ningen.
-So... Yamato Nadeshiko...
-Hai?
Mayura cora, os olhos desviando do olhar trêmulo e nitidamente apaixonado de Freyr, até mesmo para ela.
O que faria?
Naquele momento, sua mente divaga veloz, lembrando de outros olhos. Verdes. Vermelhos. Gentis, até cruéis às vezes. Mais serenos que o de Kaitou-kun. Mais doídos, como se escondendo mais histórias, mais tempo perdido dentro deles...
Ela fecha os olhos com firmeza, arrancando aquela imagem de si.
Mira para Freyr, à sua frente. Sim! Um jovem como ela, um apaixonado como ela... como ela?!
"Não pense, Mayura, sua boba! Você sempre fantasia demais! Lembra do que Loki diz? Não!!!!! Esqueça tudo que Loki... Olhe! Olhe Kaitou-kun! Ele vai te beijar, não vai? Ele vai dizer que tem sentimentos por você! Vai dizer que será seu namorado e juntos vão descobrir maravilhosos mistérios estranhos! Olhe, Mayura! Apenas olhe agora, seja uma boa menina, e veja como ISSO é certo..."
Freyr cora com o olhar de Mayura, tremendo à sua frente. Ele engole um pouco de ar, tomando coragem.
Tomaria a iniciativa!
Sua cabeça inclina suavemente, tornando mais próximos os olhares, tomando cuidado para não respirar forte demais, sua boca já tão perto da pele de sua Yamato Nadeshiko, seus lábios ali, parados, entreabertos esperando pelos dele...
Na carruagem, Heimdall sorri, já satisfeito com a eminente vitória de seu plano.
Nas sombras, um verde olhar treme, inquieto e confuso, sem querer olhar, e sem conseguir desviar a inveja e ciúmes daquelas figuras.
Mayura sente o hálito morno de Freyr próximo ao seu.
Entreabre ainda mais os lábios, fechando os olhos.
O peito pula, um nó invade a garganta, subindo até a boca.
-Eu amo Loki-kun.
Um sussurro. Que apenas Freyr pôde ouvir, mais com seu coração que com os próprios ouvidos.
Mayura abre os olhos, espantada. Como dissera isso? Como pôde confessar algo tão sujo e de maneira tão grosseira?!
Freyr se paralisa, fitando Mayura.
Não consegue dizer palavra.
A menina vira os olhos, envergonhada.
-Entendo.
-Nani!?
Mayura levanta o olhar, encontrando aquele semblante amistoso e tranquilo que o ladrão fantasma lhe oferecia sempre quando estava triste.
-Então... Yamato Nadeshiko já ama outro, né?
-Kaitou...-kun... gomen ne... – as lágrimas já enchiam os olhos da menina.
-Oro, oro! Não chore Yamato Nadeshiko! – ele limpa suas lágrimas – Freyr conta um segredo à Yamato Nadeshiko: Loki-sama também gosta de você! ¬¬ acho que por isso Heimdall me ajudou tanto com você...
"Loki-sama também gosta de você..."
-IIEEEEEEEE! #Não#
Mayura se afasta, os olhos tremendo de pavor e angústia. Heimdall? Quem diabos era Heimdall? E Loki? Deuses, ele era um menino! Como podia...? como ELA podia?! Como Kaitou-kun sabia e...!?
Freyr olha a confusa ningen à sua frente, e logo nota atrás dela, o brilho preocupado e ao mesmo tempo furioso de um deus.
-Só espero que ele saiba cuidar melhor de você, Mayura-san.
O jovem deus ladrão sorri para a sombra na varanda.
-Sayonara, Yamato Nadeshiko.
ooo
-Freyr! Seu estúpido! O que fez para assustar a menina!?
-Vamos embora, Heimdall. Yamato Nadeshiko já tem outra companhia...
-SEU IMBECIL! Pois volte lá e...
Heimdall foi cortado por um olhar fulminante de Freyr, como nunca vira antes.
-Vamos embora, Heimdall.
Devia estar realmente doendo ele estar fazendo isso...
-Maldito Loki... – o deus guardião murmurou, voltando para dentro da carruagem e a conduzindo de volta para casa.
ooo
Mayura permanecia estática, as mãos tremendo sobre o peito.
O que estava fazendo? Desde quando havia se tornado uma menina tão suja, tão má...? o que sua mãe diria lhe vendo agora...?
Uma moça como ela apaixonada por...!
-Mayura...
Aquela voz vinha lhe arrebatar do transe, desfocando seus pensamentos. Ela se vira, os olhos mareados e confusos, dando de encontro aos gentis verdes dele.
-Loki-kun...
Quer chorar alto e se atirar aos braços dele.
Por quê?
Quer fugir dali, sair correndo de todo aquele mau sentimento.
Mas não o faria.
Poder ver aquele sorriso falso e preocupado de novo, a fazia sentir que tudo estava certo. Tudo estava bem.
Como podia?
Mas estava...
E tudo que ela queria era realmente estar bem...
-Mayura, o que houve? Kaitou-san lhe fez alguma coisa!?
Ela quer ser uma boa menina.
Quer estar certa.
E fazer, ao menos uma vez, alguma coisa certa.
-Mayura...!!!
Cortando-lhe as palavras, Mayura segura a face de Loki entre suas mãos, forçando seus lábios contra os dele.
Assim, seco e imprudente, um beijo arrancado de dentro dela.
Mas ela brincou com a razão de um deus. E ele perdeu.
Mesmo confuso, atônito, Loki sentia o espremer afobado daqueles lábios, pedindo ar, pedindo salvação. E ele fecha seus olhos, tentando assim entender o que tão ansiosamente eles diziam. Sente seus próprios lábios entreabrindo, em resposta. Daria ar, daria todo seu ar a ela, se assim pudesse. Ela respira forte, também entreabrindo a boca. Instintivamente, a língua de Loki lhe pede passagem, roçando os lábios, pedindo um pouco mais de invasão, de despudor...
Mas o pedido foi negado.
Mayura arregala os olhos, como se despertando de um transe, encontrando sobre sua boca a de Loki.
-Loki... –kun...
Ela dá um salto para trás, os dedos sobre os lábios, seu corpo todo em contraste com a sua mente.
-Mayura...
Ela balança a cabeça negativamente, e sai correndo, entrando no templo. Corre, com os olhos fechados e molhados, esbarrando em móveis, ignorando seu pai, até se trancar em seu quarto.
O que dizer, Loki? Ele também está estático, surpreso.
Não esperava tal ato dela... nem dele mesmo.
O pai de Mayura sequer tenta uma palavra com filha, se voltando para fora da casa, encontrando seus cadernos na varanda. E aquela estranha figura do lado de fora. Loki.
Até se espanta por estar o detetive ali, e não o tal rapaz do encontro da menina. Pensa em ir até ele, tirar algumas satisfações.
Mas desiste, ao menino lhe perceber a presença e retornar o olhar, ainda mais confuso e atordoado.
E se limita a ver um apático deus caminhar templo afora.
