Capítulo 5 – Esquecendo o destino
Uma chuva fina começou a cair, propositadamente, encerrando o cenário perfeito e desolado em volta do deus trapaceiro.
Loki caminha lento e embargado, os olhos parados no tempo como se não enxergando as ruas à sua frente. Seus pés passam como se soubessem o caminho de casa, apesar da inconsciencia momentânea de quem eles carregam. Bastava chegar em casa.
Não havia espaço dentro dele para pensamentos.
O gosto que ela havia deixado penetrava por sua pele...
Havia tanto dela nele, lhe tomando a razão, que sua mente havia entregue agora total passagem para que se esquecesse de si, fixado na última imagem do olhar dela.
De repente, uma porta.
Ele pisca lento e vago, se indagando infantilmente o que faz com uma porta fechada. Talvez, abrir? Ele leva a mão à maçaneta, rodando-a, entreabrindo de leve a grossa porta de madeira, lenta e insinuante, como o entreabrir de uma boca... Hesita em entrar.
O beijo. Sua boca entreaberta invadindo a dela.
Paralisa, mais um momento.
Como um deus pode simplesmente não pensar? Aquele turbilhão de sensações lhe desfazia os sentidos...
-Daddy!
Uma voz conhecida, lhe chamando a atenção. Ele mira o olhar no atiçado cachorrinho que lhe salta ao lado, feliz. Logo uma segunda sombra se aproxima, sorrindo preocupadamente.
-Loki-sama, estávamos preocupados! Não disse que ia demorar...
-HÁ! Mas o Fenrir aqui já sabia que Daddy ia ficar de olho na menina mistery o tempo todo!
-" Acho que tem razão, onii-san!
Loki fita seus dois filhos, os olhos ainda arregalados e confusos. Estava tão claro assim? Sim, eles sabiam que Loki tinha um amor especial por Mayura, afinal, ele havia ficado no mundo dos humanos por causa dela... Mas sabiam que também havia paixão dentro dele?
Como diria agora, que ele havia estragado tudo?
Que havia assustado a menina, em conta de um estúpido segredo?
-Loki-tama...
Ecchan flutua em volta de sua cabeça, em vão.
Loki abaixa os olhos, seguindo silencioso em direção de seu escritório, se deixando seguir por olhos preocupados e supresos.
-Loki-sama!
Loki não se vira para Yamino, parando ao pé da escada.
-Daddy, o que houve?!
-Diga, Loki-sama! O que Heimdall fez à Mayura-san?!
-Aquele Freyr! Se ele fez...
Fenrir rosna, imaginando seus dentes no pescoço do deus da fertilidade. Como ele ousava fazer mal a seu pai, mesmo que indiretamente?! Ou na estranha menina mistery...
-Fui eu.
Fenrir se aquieta, fitando o pai. Assim como Yamino e Ecchan.
-Eu menti pra ela. Enganei Mayura mesmo quando... quando... Eu podia ter dito toda a verdade, feito ela acreditar!
-Loki-sama...
-Mas agora ela não sabe, não entende! E... hoje... eu...
-Daddy?
O deus trapaceiro se vira para o jovem cãozinho, sorrindo triste, com um quê no canto dos olhos que talvez fosse uma lágrima, senão fosse nos olhos do deus do caos.
Aquilo era a derrota de um deus.
-Eu fui beijado por Mayura...
ooo
A tarde cai lenta nos olhos meio sonolentos do deus. Não dormira, sequer comera. Mas finalmente, algum raciocínio lhe voltava.
Não tão felizmente quanto esperava.
Olha para a janela, num semblante passivo e conformado. É claro que ela não apareceria, assim, como se nada tivesse acontecido. Talvez, em pouco tempo, ela aparecesse e tentasse se desculpar. Como se houvesse nela alguma culpa por aquele beijo!
Mas ele se faria de desentendido...
Seria assim, talvez, mais confortável para ela.
A verdade então, ficaria para depois. Quando ele tivesse mais certeza do destino que tomaria com seus sentimentos...
Ecchan cutuca seu braço, apontando o chá já frio na mesa. Loki sorri, gentilmente negando a oferta. Yamino não sabia mais o que preparar, se voltando para a cozinha.
Era melhor deixar Loki-sama sozinho.
Porém, essa não era a idéia de Fenrir, que acabou dormindo aos pés da poltrona do detetive.
-Konnichiwa minna!
A voz cortante de Thor adentra a casa, como um trovão naquele mar de silêncio.
-Ué, onde estão todos...? Megane-kun!
-Hai, Narugami-kun ".
O deus trovão fita deus serpente, desconfiado, intencionadamente assustando o pobre Yamino.
-Onde está todo mundo?
-Loki-sama está lá cima, um pouco indisposto hoje... Narugami-kun! Oro!!!
Mas Thor não se deteve a ouvir, e avança as escadas até o escritório.
-Hei, Loki! Konnichiwa!
Loki se volta da janela, fitando o jovem deus em sua porta.
-Hi, Thor.
-Ué, Mayura-san não veio?
-Iie... – Yamino responde, levemente consternado.
-Estranho, ela também não foi ao colégio hoje. Ela está doente?
Silêncio. Loki abaixa os olhos, murmurando um "Talvez."
Então Thor se senta, tomando para si uma das xícaras de chá da mesa de centro. Sorri, dizendo:
-Ontem ela me parecia bem. Só um pouco ansiosa. Disse que ia ter um encontro. Hunf! – ele fita Loki – Por um instante cheguei a pensar que fosse com você, Loki-san!
Loki devolve o olhar, surpreso pela amizade da menina com o deus trovão, e curioso de onde Thor queria chegar com aquilo.
-Mas então ela me disse que era com Kaitou-kun. Ou como sabemos, Freyr. Por isso resolvi passar aqui, para ver se estava tudo bem.
-Sou ka. – respondeu Loki, friamente.
-O que deu de errado, Loki? Você sabe, sei que sabe! Heimdall aprontou de novo? Você não deixaria a Daidoujii desprotegida nem por um segundo nas mãos de outro deus...
Thor observa o silêncio de Loki, que mantém os olhos presos em si.
-So... bem, você nunca vai saber se não perguntar, né?
Loki volta o olhar para Thor, se indagando do que realmente aquele ingênuo deus quer lhe dizer.
-Eu só estava curioso sobre como estava a menina. Mas já que ela não está aqui... e nem você parece saber notícias dela... Deuses! Já estou atrasado! Ja ne, Loki! Diga para Daidoujii não faltar amanhã, acho que vamos ter um teste surpresa! Sayonara!
Assim como entrou, Thor sai, como um raio apressado.
Yamino recolhe as xícaras da mesa, inquieto.
-Yamino-kun... acha que...?
-Andei pensando, Loki-sama. Mayura deve estar muito envergonhada para voltar aqui.
-Hai...
-Mas, acredito que se ela beijou Loki-sama, é porque ela também tem sentimentos, e os demonstrou dessa forma. O que então deve ser ainda mais vergonhoso pra ela. Ainda mais na situação em que ela conhece Loki-sama...
-Tem razão, Yamino-kun.
- Tenho?
-Hai.
Loki se levanta, olhando firmemente para a janela.
-Arigatô, Yamino-kun.
E sai, sem dizer mais nada.
-Loki-sama...
-Hunf. O filho complexado finalmente disse alguma coisa que prestasse...! Agora coce minhas costas, estou cansado!
-Onii-chan!
ooo
-Hum. Já esperava por você.
-Konnichiwa, Daidoujii-san.
Loki fita o homem a varrer a entrada do templo, o olhando de volta com costumeira desconfiança.
-Já vai escurecer. Uma criança como você não devia andar sozinha por aí.
-Vim saber sobre Mayura. Ela não foi ao colégio.
-Está com febre. E não sai do quarto desde ontem à noite... – o pai de Mayura percebe o olhar preocupado de Loki, o atiçando então – Por que eu tenho a sensação de você ter algo a ver com isso?!
-E tenho, Daidoujii-san.
-O QUE VOCÊ FEZ À MINHA FILHINHA!?!
O que fazer? Estava perdido, confuso, cansado.
Já havia perdido aquele jogo.
Só bastava... encerrar o enigma.
-Gomenasay. – e dizendo isso, cerra os lábios com força, jurando não gritar alto a dor em seu corpo pela transformação.
