Capítulo 6: Revelando um coração
-Sou ka. As coisas fazem mais sentido agora.
Mais um gole de chá. Por mais que tentasse, era estranho se sentar ao lado daquele jovem de cabelos de mel. Afinal, há poucos minutos ele era um menino. Um estranho menino.
E agora, era um deus à sua frente.
-Eu... estou perdido, sr. Daidoujii.
Loki-sama silencia, finalizando o seu relato. O sol parecia não demorar mais a se pôr, atenuando as sombras das escadarias do templo.
-Se você é um deus, porque quis ficar? Se não contaria a ela a verdade? Isso era inevitável.
-Inevitável?
-Mayura sempre esteve atraída por você. De alguma forma. Por seus mistérios, depois por sua amizade. Por isso sempre soube que você iria machucá-la um dia... Quando ela descobrisse quem você realmente era. Mas nunca imaginei que essa fosse a verdade.
-Ela nunca acreditaria. E nunca me aceitaria.
-Ela já aceitou, Loki-sama.
-Nani?
-Ela já havia o aceitado quando buscou por você. Ela quis encontrar aquele que ela amava, mesmo ciente de que não sabia nada de você. Não importando quem você fosse... Mayura realmente não se importaria nem se você fosse um E.T. ... Foi isso, ontem, não foi? Algum de vocês revelou seus sentimentos?
-Algo assim... – Loki murmurou, apreensivo.
-COMO ALGO ASSIM?! O que você fez a ela, seu deus...!
-Papa?
Um par de olhos rosados atravessa a conversa, pegando Loki de surpresa. Em sua forma adulta, claro, ela não o reconheceu.
-Você tem visita, Mayura. – Daidoujii-san se levanta, tocando com os lábios a testa da filha – Mas não demore aqui fora. Ainda está febril.
-Ah... hai, papa.
Ele sai, com um meio sorriso nos lábios, deixando os dois sozinhos.
Não que confiasse em Loki. Ou sequer gostasse dele.
Mas enfim, não era seu coração quem devia fazer essas escolhas.
-Você é o amigo de Loki-kun, hai? Eu me lembro de você, no parque. Naquele dia...
-Hai, Mayura-san. Também me lembro.
A menina fita o chão de templo, os olhos vermelhos de febre e de tanto chorar.
Lembrar daquele dia não a ajudava, definitivamente.
-Você... viu Loki-kun? Ele... está zangado não é?
-Zangado?
-Eu fui uma menina muito má.
-Não acho que o que aconteceu o zangaria.
Mayura levanta o olhar, apreensiva e surpresa. Loki contara a alguém! E justo... àquele estranho...?
-Ele ama você, Mayura.
-Doushite... Doushite... por que você vem me dizer essas coisas!?!
Ela dá um passo para trás, os olhos já encharcados, derramando lágrimas na boca trêmula, semicerrada pelo último grito.
-Gome ne, Mayura.
-IIEEE!!! Não diga mentiras pra mim! Doushite...
-Tem razão. Eu não vou, Mayura.
O deus abaixa o olhar, sua cabeça mirando os pés descalços sobre a camisola dela. Vergonha. Medo. Amor.
Só ela... só ela o fazia assim.
-A verdade é que EU amo você, Mayura.
Loki-sama levanta o olhar, num impulso, a ponto de observar a menina tremer à sua frente.
Ele então cerra os olhos, voltando à sua forma de menino.
Voltando a ser o Loki-kun que ela amava.
-E eu sou realmente um deus, Mayura.
ooo
-Um deus, pode fazer isso?
-O que quer dizer, Verdandi?
-Ele mudou o destino dela, Urd.
-Não. – murmurou Skuld, tomando um gole de chá – Ele encontrou seu próprio destino.
ooo
"Um deus..."
Loki.
Aquele garoto que sempre a tirava de suas encrancas.
Aquele rapaz bonito da esquina, o trombo com as caixas de doce...
"-Eu não acredito em deuses!"
O olhar vermelho na floresta.
"-Mayura! O que pensa que está fazendo?!"
Segredos.
Como se não importassem praqueles olhos, verdes ou vermelhos.
"-Doushite... Doushite... GOMENASAY!"
E aquele beijo...
"-Eu sou um deus."
Ela confiou nele! Procurou tanto por ele, e ele estava ali. Do lado dela. Ouvindo suas lágrimas, a dor de sua própria ausência.
Escondido naquele sorriso que ela tão bem conhecia.
"-Eu só quero ver Loki-kun de novo!"
Por que os deuses eram sempre tão cruéis com ela?
-DOUSHITE!?!
-Mayura?! Por favor, me ouça!
-Por quê, Loki-kun!?
Mayura dá um passo pra trás, se afastando do deus em forma de menino. Ele pára. Preferia o ódio de Heimdall, os ciúmes de Freya... ao medo no olhar de Mayura.
Como se ele sequer pudesse machucá-la! ...sem destruir seu coração.
-Mayura... onegay...
Ela dá outro passo, quieta, pasma.
Não conseguia dizer uma única palavra. Sim, aquele é Loki-kun! Loki-kun que ela conhece! Mas ela não o conhece! NUNCA o conheceu, nunca soube nada de verdade sobre Loki-kun...
-Eu... sinto muito! Sinto muito por nunca ter te dito a verdade!
Apenas um estranho? Não! Não podia...!
-Eu sou um deus, Mayura. Fui expulso por Odin, o rei dos deuses, de Asgard, nosso lar. Ele me trancafiou nesse corpo de menino, até que pude readquirir meus poderes, pouco tempo atrás.
Ela cai de joelhos, ainda ouvindo, ou ao menos Loki imagina isso.
-Era uma guerra Mayura. E sem querer você estava nela. Não posso dizer que não te contar era o único meio de mantê-la salva... porque não foi. E eu lamento cada dia da minha vida por ter arriscado a sua. Por você ser tão importante pra mim.
Seus sonhos estranhos. Suas estranhas caminhadas noturnas, enquanto dormindo. Tudo aquilo...?
E a sensação, de nunca saber o que estava acontecendo!
Ela sempre perdia os melhores mistérios!
E também sempre perdia uma parte dele.
-Gomenasay, Mayu...
-Doushite, Loki-kun?
A voz dela sai, num suspiro. Ela vira o rosto para o chão, os olhos avermelhos e febris, apertando-se, numa tentativa de encorajá-la.
-Por que você ia embora?
Loki se cala, por longos instantes.
Mayura se levanta, agora olhando para o menino.
Sorri, lânguida, entreabrindo os olhos mareados com força.
-Seja o que for, eu não posso saber, né?
-Mayura, não é isso...!
-Daijoubu... – a voz soluçava no sorriso – Uma menina estranha como eu não devia saber...
-Mayura me escuta!
-Sayonara, Loki-kun!
Ela se abaixa, em reverência. O último grito embargado de lágrimas. Corre para dentro de casa, fugindo de seus próprios medos.
Ali, o maior de todos os mistérios. E ela preferia não acreditar.
Então Loki-kun simplesmente iria embora.
Ela era menina má, e esse era seu castigo vindo dos deuses.
-Era meu destino lutar contra Odin. Derrotá-lo, e tomar Asgard. E ser o novo rei dos deuses.
Mas Loki lhe atravessa o caminho, na sua forma adulta.
-Mas eu não fui Mayura.
-Eu não sabia! Não quis atrapalhar você, pedindo que ficasse! Você é um deus Loki! E você vai embora...!
Ele se aproxima dela, seus dedos lhe selando os lábios.
-Mesmo um reinado em Asgard seria muito chato sem você, Mayura.
Ela fita o olhar verde. Reconhecia nele todos os olhares de Loki-kun, menos este. Inseguro. Quase o de um menino, de verdade.
Ela atravessa o deus trapaceiro, e volta a correr pra dentro de casa.
