CAPÍTULO TRÊS
UMA FESTA NADA ANIMADA
----
HARRY TEVE QUE RESPIRAR FUNDO quando avistou a casa número 4, na Rua dos Alfeneiros. Lupin lhe deu alguns últimos tapinhas nas costas e desejou-lhe boas férias. Harry arrastou seu grande malão até a porta, acenando para Lupin que desaparatou, logo em seguida, para o Largo. Harry sentiu certo desapontamento ao se enxergar sozinho novamente, frente à tão conhecida casa dos tios, tendo que enfrentar mais algum tempo de férias com eles, se é que se poderia chamar aquilo de férias.
Quando a campainha tocou, às cinco e meia da manhã, Harry quase pôde ouvir o tio Valter resmungando de longe. Esperou certo tempo à porta, até que o tio a destrancou e o recebeu com a cara mais emburrada que Harry já vira em toda a sua vida.
- O que está fazendo aqui? – disse ele em tom de arrogância – Que eu saiba eu teria de buscá-lo hoje pela tarde!
- A escola nos mandou de volta mais cedo, tio Valter. – respondeu Harry calmamente
- E isso são horas?
- Me desculpe, mas foi necessário porq –
- Pare de falar e entre logo! – interrompeu o tio – Agora que já está aqui ainda quer que eu fique fazendo cerimônias à porta? Suba logo para o seu quarto e depois trate de preparar o café!
Harry subiu assustado, logo atrás do tio, que voltou para a cama para mais uma maratona de roncos. Enquanto ouvia o incomodante som do quarto dos tios, ajeitou suas coisas no pequeno cômodo e olhou para a janela, entediado. Pensou em muitas coisas, muitas das quais nem se lembraria depois. Imaginou como seria estar ainda no Largo Grimmauld junto com seus amigos e a Ordem. Depois pensou em todos os problemas que aterrorizavam o Mundo da Magia. Fechou os olhos e por um momento tentou acreditar que nada daquilo estava realmente acontecendo.
- Onde está meu bacon! – gritou o tio Valter da cozinha
Harry nem tinha percebido que tinha adormecido, ali mesmo, escorado na janela. Já estava bem claro e ele desceu rapidamente a escada, pulando alguns degraus e fazendo bastante barulho. Encontrou a cozinha totalmente zoneada. O tio Valter se encontrava no mesmo lugar de sempre à mesa, lendo o mesmo jornal de sempre com a mesma cara fechada de sempre. Nem olhou para ele e apenas acenou para que fizesse seu bacon matinal de sempre.
Enquanto Harry preparava o desjejum, Petúnia e Duda entraram na cozinha e mal o notaram na casa. Duda simplesmente soltou algum deboche desinteressante para Harry e Petúnia o olhou com desconfiança por alguns instantes. Harry preparou a refeição e depois teve de encarar uma bela manhã de aborrecimentos com os Dursley. O resto da semana foi exatamente igual ao primeiro dia. Harry ficava em casa, lendo livros de magia no quarto, pensando na vida, isolado do mundo. Por vezes descia, mas não aturava os Dursley por muito tempo, que não paravam de comentar sobre o grande provável sucesso que o novo modelo de brocas, projetado por Valter no frio escritório da Grunnings, faria no mercado.
- As vendas vão subir em cento e cinqüenta por cento, caso a nova broca seja aprovada! – dizia o Tio Valter em tom de orgulho e animação – Isso não é incrível?
- Você é demais, Valter querido! – retrucava tia Petúnia
- Quer dizer que vamos ficar ricos, papai?
- Duda, ainda é cedo para dizer... – respondia Valter como se possuísse alguma modéstia – Mas se depender do seu pai aqui, vamos nos mudar para uma casa duas vezes maior. Não é demais? E você não sabe da melhor coisa, filhão!
- Anda, diz! – falou ansioso
- Vamos fazer uma festa! Para comemorar a ascensão da firma, a aprovação do projeto e o início da nossa fortuna!
- Uma festa? Que demais!
- E pode chamar todos os seus amigos, filhinho! – respondeu Petúnia bajulando o filho
Harry levantou os olhos, olhou com esperança e perguntou:
- Posso chamar os meus amigos também?
Todos silenciaram.
- Os seus amigos? Acha que a minha casa é lugar para esse tipo de gente? – esnobou Valter com extrema arrogância.
- E quem disse que será convidado, Harry? – indagou Duda. – Esta festa é para amigos da família. E... Bem... Acho que tem consciência de que não é da família, não é?
Harry recebeu aquela frase com certo impacto. Tinha, por um momento, pensado que os Dursley pudessem deixá-lo trazer Rony e Hermione, ao menos. É claro que não. Ele não era mesmo da família.
- Sei disso, Duda. – respondeu Harry com certa rispidez – Ainda bem que não sou desta família.
Harry subiu para o quarto e descobriu uma coruja no parapeito da janela. Cuidadosamente, desamarrou e desenrolou o pergaminho. Encontrou um exemplar do Profeta Diário e a caligrafia torta do amigo, anunciando o envio do jornal que, segundo o próprio Rony, era "para mantê-lo informado sobre os últimos acontecimentos". Nada muito óbvio, pensou Harry em tom de ironia.
A manchete anunciava mais quinze assassinatos, provavelmente cometidos pelos Comensais da Morte. Harry leu alguma coisa a seu respeito:
"Quinze mortes foram divulgadas ontem pela seção de Aurores do Ministério da Magia. Os assassinados foram supostamente causados pelos Comensais da Morte, seguidores de Você-Sabe-Quem. A lista de nomes das quinze vítimas ainda permanece em sigilo, mas qualquer um que notificar o desaparecimento de algum parente, poderá conferir se o seu nome está entre os falecidos, através do recém criado 'Departamento de Assistência às Famílias de Vítimas de Feitiços Imperdoáveis', no Ministério da Magia. E apesar de todo este cenário de terror vivenciado por todos nós, Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado ainda não foi visto por ninguém nos últimos tempos, mas há fortes indícios de que ele esteja tão forte (ou mais) do que antes do episódio ocorrido há 17 anos atrás, quando o jovem Harry Potter quase derrotou o bruxo. O Mundo da Magia encontra-se em caos, porém o Ministério afirma assumir total controle da situação em breve. O Profeta Diário entrevistou Alexander Lowen, bruxo belgo especialista em Magia Contra A Vida. O Sr. Lowen pertence à Divisão de Crimes Imperdoáveis, do Departamento Criminal, do Ministério da Magia da Bélgica. Lowen foi convidado especialmente para o caso pelo Ministro da Magia, em carta formal enviada à Bélgica no mês passado. Há rumores de que o Ministério irá pedir reforços à Ministérios aliados nos próximos dias para que a situação se resolva de vez, mas ainda não há qualquer prova ou testemunho destas suspeitas. Enquanto isso, o Ministério alerta que permaneçam em suas casas durante a noite e não saiam sem ter ao menos lido o 'Guia de Artimanhas Defensivas' idealizado pelo Ministério e distribuído gratuitamente pelo Profeta Diário".
Harry folheou o jornal e encontrou entre as páginas, o tal Guia de Artimanhas Defensivas. O Guia apenas explicava como realizar feitiços simples como Expeliarmus, Escudo, Confundus, e coisas do tipo, em situações de perigo.
Harry pensou em escrever para Rony. Em outros tempos ele poderia pensar também em escrever para Sirius, ou talvez Dumbledore, mas agora só havia duas pessoas a quem gostava de enviar cartas: Rony e Hermione. Porém, desistiu da idéia quando percebeu que não tinha muito o que contar sobre a monótona semana na casa dos Dursley ou sobre a festa que eles iriam promover.
A semana continuou tranqüila e parada. Os Dursley não paravam de comentar sobre a festa e de andar freneticamente de um lado para o outro, alegando estar nos preparativos para a comemoração.
- Três dias! – gritou Valter de supetão durante o jantar, à mesa – Três dias para a grande comemoração. Duda, mandei fazer um bolo de oito andares pensando em você. Sei como gosta de doces!
Duda apenas abriu um largo sorriso e Harry pôde ver o sentimento de gula em seus olhos. O primo nunca estivera tão gordo e ainda conseguia pensar em comida.
O jantar parecia transcorrer tranqüilamente até que algo muito estranho aconteceu. Com um estampido e uma pequena explosão de fumaça, uma pequenina figura apareceu sobre o macarrão da tia Petúnia e a única coisa que Harry pôde perceber foi a cara de espanto dos tios e de Duda, enquanto sugavam os fios de macarrão enrolados em seus talheres.
- Harry Potter! Quanta honra Dobby sente em vê-lo! – disse a pequena figura que agora se revelava de braços abertos, caminhando sobre a mesa em direção ao jovem, pronta para abraçá-lo.
- Dobby! - assustou-se Harry – É bom vê-lo também, mas... acho que... você aparatou bem no jantar, digo... sobre ele.
- O QUE ESTÁ ACONTECENDO? – interrompeu Valter zangado, batendo forte na mesa e quase se levantando da cadeira
- O Harry não pode aparecer nessa casa que pessoas estranhas começam a aparecer também! – irritou-se Duda – Se é que se pode chamar essa... coisa... de pessoa!
- É um... elfo doméstico? – disse baixinho Petúnia, perplexa.
Harry olhou para a tia e teve a impressão de que Valter e Duda também o fizeram. Como Petúnia podia saber daquilo? Harry teria perguntado se Dobby não tivesse irritantemente interrompido seus pensamentos.
- Desculpe-me senhor Potter! Sei que Dobby é mau. Não devia ter atrapalhado o jantar do jovem Harry...
E antes que ele pegasse um prato para quebrar em sua cabeça ou um garfo para se espetar, Harry respondeu:
- Não tem problema, Dobby. Mas tente não aparecer na comida da próxima vez! Os trouxas não estão acostumados com isso. – e Harry viu a expressão nervosa do tio, quando pronunciou a palavra trouxa – Quero dizer, as pessoas que não são bruxas não esperam que um elfo apareçam sobre o jantar. Mas está certo.
- NÃO ESTÁ NADA CERTO! – gritou Duda – Esse monstrinho acabou com minha refeição. E eu ainda não estava satisfeito!
- Como se você ficasse satisfeito em algum momento! – disse Harry ironicamente em baixo tom.
- O QUE FOI QUE DISSE?
- Nada, Duda. Se quiser posso fazer um novo prato de macarronada aparecer. Basta um simples feitiço e...
- Nada de feitiços na MINHA casa! – disse Valter bastante nervoso – Não me provoque, seu moleque... ahmn... abnormal!
O silêncio pairou no ar por alguns segundos. Dobby olhava com uma expressão de humildade para o tio Valter e Harry esperava que alguém dissesse alguma coisa:
- E SUBA JÁ PARA O SEU QUARTO! – berrou Valter sem ter o que mais dizer – De preferência com esse mostrengo!
Harry pegou Dobby pelo colarinho e subiu correndo para o quarto, feliz por ter recebido tal ordem. Mal esperava para comer as deliciosas sobremesas enviadas pela mãe de Rony, Molly Weasley, que aguardavam por Harry ansiosamente debaixo da cama.
- Dobby não fez por mal, Harry Potter! – dizia o elfo logo que entraram no pequeno quarto de Harry.
- Tudo bem, Dobby! Está tudo bem. E quer saber de uma coisa? – e Harry se ajoelhou para ficar mais perto dele – Até gostei de você ter aparecido! Afinal, fico tão sozinho nesta casa que é sempre bom uma visita vinda do Mundo da Magia.
Dobby abriu um largo sorriso no rosto. O resto de noite foi extremamente divertido. Embora Harry nunca pensasse em se divertir conversando com um elfo doméstico, eles passaram a noite inteira comendo guloseimas caseiras da Sra. Weasley e fazendo trapalhadas com alguns dos itens de Fred e Jorge. Dobby contou a Harry como tinha sido sua vida deste que começara a trabalhar em Hogwarts, de como era alegre e feliz, mas de como se sentia atordoado com a tristeza dos outros elfos livres. Embora Harry não estivesse tão interessado e seus olhos mal se mantivessem abertos por muitos minutos, conseguiu entender alguma coisa. Já era bem tarde quando Dobby decidiu deixá-lo dormir. Harry já podia ouvir os roncos altos vindos do quarto do tio, o que indicava que já passava da meia-noite.
- Harry Potter! – disse Dobby desesperadamente assustando-se com o entardecer – Dobby tem que ir agora! Veio apenas se despedir de Harry Potter e veja só! Já está tarde!
- Despedir? – indagou Harry – Mas vamos nos ver em Hogwarts, não?
- Não, não, Potter! Dobby não trabalha mais em Hogwarts neste ano...
- Como assim? Porque vai deixar Hogwarts, Dobby? Você sempre gostou tanto da vida na escola...
- As coisas não estão sendo como antes, Harry Potter. – lamentou-se Dobby – Depois que Você-Sabe-Quem voltou, bem... Tudo está mudando e os elfos estão muito amedrontados ultimamente.
- Amedrontados? Como assim, Dobby? O que Voldemort tem a ver com os elfos?
- Harry Potter ainda não faz idéia do terror que amedronta o Mundo da Magia... – sussurrou Dobby lentamente – Não faz idéia...
- Dobby, o que está acontencendo? – perguntou Harry curioso
- Bem, Harry... – e ele colocou o fino indicador no queixo, como se estivesse pensando em como dizer ao jovem – Você-Sabe-Quem ele, bem, ele está perseguindo muito os elfos ultimamente...
- Perseguindo os elfos? Mas nunca ouvi falar disso!
- É claro! Os bruxos não ligam mesmo muito para a vida dos elfos-domésticos, somos muito oprimidos e... bem, o Profeta Diário não iria mesmo publicar uma matéria dessas. – e Dobby fez uma cara de melancolia – Além disso Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado percebeu que os elfos podem guardar informações valiosas e há muitos casos de torturas envolvendo elfos. Sabe, os elfos sofrem muito. Às vezes me orgulho da amiga de Harry Potter, a Hermione Granger! Ela quer ajudar todos nós.
Harry sentiu uma pontada de desapontamento por não ter apoiado tanto a idéia Mione e do F.A.L.E. (Frente de Apoio à Libertação dos Elfos).
- Então estamos todos fugindo para o Norte. Quero dizer, quando digo todos, bem... Não são todos! Apenas aqueles como eu, que querem ser ou são livres. – dizia Dobby – E imaginar que Dobby tem tudo o que tem por causa do senhor Harry Potter! – e ele começou a lacrimejar
- Ah! Dobby, não precisa ficar assim! – e Harry se aproximou de Dobby dando-lhe um profundo abraço.
Quando Harry voltou a olhar para Dobby ele não mais tinha a expressão melancólica e, de certa forma, triste como a de antes. Ele agora mantinha uma expressão de espanto e alegria, que se misturavam conferindo a seu rosto um tom abobado. Harry sorriu, e então Dobby sentiu-se suficientemente aliviado para falar alguma coisa, mesmo que gaguejando e falando rápido por vezes.
- Harry Potter é um... grande... jovem... bruxo! Isso! Dobby nu-nunca sequer tinha recebido um único abraço de alguém e, a-ainda mais vindo de alguém co-como... Harry Potter! – e ele sorriu finalmente
- Muito obrigado, Dobby. Eu lhe pediria para ficar se não fosse arriscado demais. – explicava-se Harry – Porém sei que temos a missão de acabar com as Trevas que prospera em nosso mundo e, então, peço apenas que se cuide e que mantenha-se sempre o mais seguro e protegido possível.
- Dobby acha que pode se cuidar! – orgulhou-se o pequeno humanóide - Vamos pela mata, onde é mais seguro e mais discreto. Montaremos um grupo e acamparemos quando der. Mas sabe, não estamos mesmo ligando muito para isso, elfos conseguem ficar de pé sem cair no sono por muitas horas. A vida dura nos acostumou a isso, então não vamos ter tantos problemas, eu acho. – Harry sorriu e Dobby continuou – Em todo caso, nossa magia não é tão poderosa, mas é bem útil!
- Isso é realmente bom! Mas Dobby, antes que vá, eu gostaria que me prometesse uma coisa.
- Dobby promete o que Harry Potter quiser, senhor!
- Prometa que vai voltar! – disse Harry com um leve sorriso nos lábios.
- A vontade do jovem Harry é uma ordem, senhor! Dobby vai voltar. – disse Dobby com lágrimas nos olhos – Adeus!
- Adeus, Dobby!
E o pequenino elfo desapareceu num estampido e a única coisa que Harry pôde ver depois disso foi a suave fumaça que planava no ar. Resolveu escrever a Rony e Hermione, contando da aparição do elfo. Edwiges piou alegre quando descobriu a missão e saiu pela noite estrelada de Londres em direção a um mundo bem distante daquele. Harry adormeceu tranqüilamente, ouvindo os roncos do tio que iam se distanciando, lentamente, junto a seus pensamentos longínquos.
Três dias após aquele em que Dobby visitara Harry, a casa dos Dursley já se encontrava totalmente decorada com balões amarelos – cor da logomarca da Grunnings. A copa estava empanturrada de salgadinhos de todos os tipos que foram encomendados pela Sra. Dursley, embora ela insistisse em afirmar que fora ela mesma quem os preparara. Um imenso bolo estava intencionalmente posicionado no centro da mesa e, a logomarca da empresa, no centro do bolo. Nada parecia estar suficientemente arrumado para Petúnia, que não parava de andar de um lado para o outro, ajeitando umas coisinhas aqui e outras ali, e olhando, por vezes, para o marido que mantinha um fixo sorriso no rosto.
Harry não pôde ficar para a festa, como era de se esperar, e foi obrigado a trancafiar-se no quarto até que o último convidado deixasse a casa. Apesar disso, Harry espiou por algumas vezes e ficou feliz por não estar participando daquela cerimônia. Os convidados mais pareciam ter recebido uma intimação que um convite, pois nenhum deles parecia tão animado. É claro, mantinham sorrisos e elogios ao trabalho de Valter, mas nada muito sincero. A tia Petúnia continuava andando de um lado para o outro, desta vez servindo os convidados, e às vezes elogiando a própria família para cada convidado que lhe dava esta chance.
Harry podia ouvir o barulho da festa, mesmo do seu quarto, no andar de cima. As pessoas brindavam inúmeras vezes pelo bom trabalho do tio Valter e Harry já estava entediado daquilo. O tédio só deixou Harry quando foi substituído por uma certa inquietação. Harry tentou ler as cartas de resposta de Rony e Mione mais uma vez, mas elas não diziam nada além do usual. Tentou estudar Feitiços, mas sem realizá-los isso não era muito eficaz. Tentou ler os exemplares antigos do Profeta Diário, mas nem isso lhe prendeu a atenção. Contentou-se em terminar com os bolinhos da Sra. Weasley, embora nem assim ficasse tranqüilo.
Harry sentia que a festa ia terminando aos poucos, à medida que as vozes iam se acalmando e os brindes iam aumentando. É claro, Valter teve que fazer um longo discurso sobre sua magnífica idéia para o modelo de broca, o que Harry podia ouvir com bastante clareza.
Tudo parecia razoavelmente normal até que algo muito estranho ocorreu. Com uma pontada de dor, Harry levou suas mãos à testa de supetão. A dor só foi aumentando e Harry gemia baixinho enquanto pressionava a cicatriz com os dedos. Algo não está certo, pensava Harry. Alarmado, Harry criou coragem para se levantar e olhou para o jardim, através da janela de seu quarto. A primeira reação foi de espanto, depois medo.
Cerca de quinze ou vinte homens encapuzados iam desaparatando em frente ao número quatro da Rua dos Alfeneiros. Embora Harry se mantivesse boquiaberto de pé, em frente à janela, observava tudo, com atenção.
- Comensais da Morte! – sussurrou ele – Aqui?
Eles mantinham-se quietos e silenciosos. Um deles levantou a varinha para o alto e conjurou um feitiço, que atingiu os fios da rede elétrica. Harry olhou para a lâmpada do quarto, que se apagou num instante depois. Rapidamente, ouviu murmúrios no andar de baixo, o que indicava que também estavam inquietos e no escuro.
Antes que pudesse pensar em algo melhor, Harry saiu alarmado do quarto, com sua varinha em punho. Desceu rapidamente as escadas, provocando muito barulho. Os convidados olharam espantados quando Harry apareceu na sala num pulo. Todos estavam de pé quando ele esticou o braço e disse em sério tom:
- Lumus! – e um feixe de luz saiu de sua varinha, iluminando a multidão que se espremia na sala.
A única coisa que Harry pôde perceber foi a cara de espanto de todos os trouxas em sincronismo com a fúria do tio Valter e o pavor de Duda. Todos abriram espaço, assustados, para Harry passar. O jovem abriu a porta de supetão e um forte vento remexeu-lhe os cabelos, provocando ainda mais dor em sua cicatriz.
Quando Harry viu todos aqueles comensais à sua frente, pensou que entraria em desespero. Mas conteve-se e gritou bravamente, ainda com a varinha em punho:
- Saiam daqui! Sabem que não podem entrar aqui! – lembrando-se que estava sob proteção da magia que sua mãe havia proferido quando se sacrificou.
Os comensais começaram a rir da coragem de Harry e um deles aproximou-se vagarosamente. Harry manteve a varinha apontada para ele, embora a situação não fosse recíproca. O comensal baixou o capuz negro e Harry reconheceu os cabelos loiros e o rosto pálido de Draco Malfoy.
- Não podemos entrar! – disse ele em baixo tom olhando fixamente para Harry – Mas você pode sair!
O frio gélido atingiu as entranhas de Harry. As pessoas começaram a sair da casa, percebendo o tumulto, e paralisavam-se defronte à casa, com expressões que misturavam pavor e curiosidade, assim que viam todos aqueles homens encapuzados.
- Draco, não vieram aqui para...
- Sim, Potter! – interrompeu Draco – Viemos aqui para acabar com você. Sei que não é tão forte sem seus amiguinhos de Hogwarts e a proteção do falecido Dumbledore, não é Potter?
- E acham que vão me vencer? – desafiou Harry, com convicção, embora só houvesse receio em seus olhos.
Naquele momento Draco mordeu os lábios e Harry só pôde ouvir os murmúrios dos trouxas assustados atrás dele.
Draco virou-se e começou a afastar-se de Harry. Porém, subitamente, virou-se com a varinha estendida e bradou:
- Estupore!
Harry se assustou, mas rapidamente reagiu dizendo:
- Protego! – e o feitiço de Draco foi rapidamente rebatido.
As pessoas atrás de Harry começaram a se agitar com medo e susto. Harry não conseguia imaginar como proteger a todos e, ao mesmo tempo, combater os comensais.
- Mobilicorpus! – disse um comensal, apontando para um trouxa.
Por um momento, todos silenciaram. Uma fina tira envolveu rapidamente uma das convidadas do tio Valter e ela foi levantada no ar, entrando em pânico absoluto. Todos a observaram por um instante, mas logo em seguida, as pessoas começaram a correr e gritar desesperadamente, enquanto os comensais começavam a lançar feitiços exibicionistas nos trouxas, para impressioná-los e assustá-los. Harry olhava de um lado para o outro, agoniado, como se estivesse impotente diante de uma situação de caos.
Draco fitou-o com cinismo e ironia nos olhos.
- Acho que nem sempre pode salvar o mundo, não é Potter? – disse, ainda com a varinha em mãos.
- Você está enganado... – respondeu Harry, como se já tivesse algo em mente – Eu sempre posso! – e neste instante, ele estendeu a varinha e gritou – Levicorpus!
Draco tentou rebater o feitiço, mas antes que levantasse a varinha para Harry, seu tornozelo foi brutalmente puxado para o alto, pendurando-o de cabeça para baixo.
- Accio Firebolt! – gritou Harry apontando para o alto, para convocar sua vassoura.
Alguns comensais tentaram atacar Harry, mas ele defendeu-se de todos os feitiços com êxito. Em dado instante, sua vassoura freou ao seu lado, e ele logo se montou sobre ela, voando com bastante rapidez e agilidade em torno de Draco, que ainda se debatia dependurado pelo tornozelo.
- O famoso Harry Potter vai fugir, é? – perguntou Draco com ironia e fúria.
- Claro que não! É que você me lembrou de uma coisa! – dizia Harry – Não sou nada sem os meus amigos!
- O que... ? – mas ele parou de falar e manteve-se alerta.
Harry não se importou com Draco. Apenas se concentrou, olhou para o céu e, apontando a varinha, disse:
- Expectro Patronum!
Quando uma forte luz branca iluminou todo o local, todos olharam com espanto para o alto. Um cervo se formou em frente à varinha de Harry e galopou em direção ao céu estrelado. Harry só pensava na Ordem da Fênix e na ajuda que eles poderiam oferecer. Já tinha visto membros da Ordem enviando mensagens através de Patronos e Harry realmente queria que aquilo funcionasse.
Algum tempo de combate se passou, sem que nenhum membro da Ordem aparecesse no local para ajudar a Harry. Onde estariam? Será que o Patrono tinha falhado?
- Me tirem daqui! – exclamou Draco para os comensais
- Liberacorpus! – disse um deles, apontando para Draco, fazendo o cair com muito impacto na grama.
Harry virou-se para combater Draco, mas no mesmo instante, ouviu um comensal conjurando um feitiço imperdoável.
- Avada Kedavra!
- Não! – exclamou Harry com angústia, virando-se para a vítima trouxa, que morreu instantaneamente sob uma forte luz esverdeada.
Harry já corria em sua direção quando Draco o impediu:
- Petrificus Totalus! – disse com veemência
Harry caiu paralisado no chão e olhou para Draco com tremendo ódio.
- Não achou que ia escapar, achou Harry?
- Você é ordinário, Malfoy! - e em seguida, cuspiu para demonstrar desprezo.
Draco o rodeou, mas logo resolveu enfeitiçar outros trouxas. Harry odiava se sentir submisso daquela forma. Como pudera se distrair? O que os comensais fariam com ele? Voldemort estava sendo cada vez mais baixo. Harry estava todo suado e sujo. Seus olhos se enchiam de lágrimas a cada vez que ouvia comensais conjurando a maldição da morte. Tentou não pensar no pior; depois tentou pensar numa solução; depois, cansado, não pensou em mais nada – durante um longo tempo.
- Liberacorpus! – a voz facilmente reconhecível de Hermione acabou com o feitiço de petrificação no corpo de Harry.
- Mione! Vocês vieram!
E antes que pudesse responder, Hermione Granger foi atingida por um feitiço estupore.
- Estupefaça! – gritou Harry apontando para o comensal agresssor.
Rapidamente, todos os membros da Ordem tomaram controle da situação. Apenas dois ou três comensais se encontravam desacordados no solo. Os outros fugiram rapidamente, deixando apenas a Marca Negra pairando sobre o local. Harry respirava com dificuldade, carregando Mione e olhando para todos aqueles trouxas, desacordados. Num momento seguinte, Harry avistou Duda, que saiu correndo de trás de uma moita onde se escondera, e abraçou os pais, que estavam estirados na grama. Harry continuou caminhando em direção a Lupin, que mantinha uma expressão cansada, porém esperançosa. Estavam ali Lupin, Tonks, Arthur e Gui Weasley, Shacklebolt, Moody, e é claro, Rony.
- Não acredito que fizeram isso... no meio da rua! – disse Shacklebolt, olhando para o cenário à volta.
- Você está bem Harry? – perguntou Rony, preocupado - Aparatamos assim que avistamos seu patrono!
- Sim, obrigado por virem. Mas... Mione foi atingida.
Harry deitou Hermione com cuidado no chão e Lupin a acordou, rapidamente, com um feitiço.
- Harry! O que aconteceu? – disse ela, levantando-se.
- O pior, Mione. O pior.
Harry encarou o cenário melancólico em que estavam. Alguns trouxas nas casas próximas espiavam pelas janelas. E ali, no meio da rua, bruxos e trouxas compartilhavam uma tragédia. Alguns trouxas iam se levantando, ainda atordoados. Outros, nunca mais se levantariam. Harry sentiu-se culpado por tudo aquilo. Depois se conteve e sentiu apenas ódio. Ele sentiu, como nunca antes sentira, um imenso ódio pelas Artes das Trevas – e mais ainda, pelo seu maior representante.
- Doze trouxas mortos! Assassinados! – anunciou Arthur, já na sala de estar dos Dursley, enquanto todos se acalmavam. – E apenas três comensais foram presos. Deviam ter uns quinze aqui. – ele pigarreou - E quanto aos outros, suas memórias já estão sendo alteradas. O Ministério mandou obliviadores para o caso. Além disso, Shackebolt e Tonks estão ajudando.
- E quanto aos vizinhos? – perguntou Lupin.
- O Ministério também está cuidando disso.
Petúnia, num canto da sala, chorava aos prantos abraçada ao filho. Quase ninguém a tinha notado até ela começar a murmurar:
- Por favor... Não alterem minha memória... – e ela enxugou o rosto borrado – Eu, eu, sei das regras, não contarei a ninguém. Mas é que... – a sra. Dursley começou a chorar mais ainda – eu... eu já não estou suportando a perda do meu Valter e me desesperarei ainda mais se eu não me lembrar de como o perdi...
Ela abraçou com mais força Duda, que também estava com lágrimas nos olhos.
- Tia Petúnia! Eu não entendi. – levantou-se Harry – Você quer dizer que... o tio Valter...?
Ela chorou ainda mais, desesperadamente. Lupin, rapidamente conjurou um copo e, com um feitiço Aquamenti, encheu-o de água. Petúnia bebeu toda a água rapidamente, mas ainda assim não se acalmou. Harry tinha entendido. O tio Valter tinha sido assassinado pelos comensais. Como seus pais, ele foi mais uma vítima da maldição da morte. Como tantos trouxas, foi assassinado pelas Artes das Trevas. E então, pela primeira vez, Harry sentiu pena dos Dursley.
Todos passaram a madrugada inteira ali, resolvendo a situação. Muitas memórias foram alteradas e feitiços de proteção foram lançados para que nenhum trouxa quisesse se aproximar do local, ou, se isso ocorresse, não vissem absolutamente nada de incomum. As notícias corriam rápido no mundo bruxo e até mesmo o Profeta Diário ousou ir até o local, quando já estava quase amanhecendo. Harry não quis se pronunciar sobre nada, embora fosse alvo de fotos e perguntas a todo instante.
Mione ficou extremamente atordoada com tudo aquilo. Harry achava que ataques a trouxas abalavam ela mais que aos outros, afinal, seus pais eram trouxas. Rony, por sua vez, ficou muito silencioso durante toda a madrugada e não andou muito pela casa. Lupin e Arthur ficaram bastante preocupados com Petúnia, que mesmo depois de inúmeros típicos copos com "água e açúcar", ainda derramava lágrimas em abundância.
- O Sr. Weasley disse que os corpos serão levados para o necrotério do St. Mungus, ao menos por enquanto. Mesmo sendo trouxas, sofreram ataques de bruxos, não é? – dizia Mione
- Isso não importa mais agora. – murmurou Harry – O tio Valter... morto... Nunca gostei dele, mas sabem, a última coisa que eu desejaria a ele é a morte. E pior, assassinado por um bruxo. Logo ele que odiava tanto bruxaria. – e Harry riu levemente, ainda cabisbaixo – Teria agora todos os motivos para odiar ainda mais.
- Não fique assim Harry – disse Mione, preocupada com a tristeza do amigo – Sabemos que é uma situação terrível, mas não adianta lamentar agora. Você sabe... As Trevas avançam sobre o nosso mundo e o que nos resta fazer, como membros da Ordem da Fênix, é lutar. Lutar!
- Obrigado Mione! Você tem toda a razão.
Rony olhou desnorteado para algum ponto à sua frente e disse, pela primeira vez em muitos minutos, com hesitação:
- Vocês... vocês nunca sentem medo?
- Medo do quê Rony? – perguntou Harry
- Da Morte.
- Rony, não fique assim. Ninguém vai morrer. – acalmou Mione - Pelo menos ninguém da Ordem da Fênix. Estamos preparados para enfrentar. Somos preparados para enfrentar esse mal que ronda por aí.
- Como tem tanta certeza disso?
Mione olhou para ele e riu.
- Sabe... – contou com sarcasmo – Às vezes sinto que tenho um dom para adivinhação! – e os três riram.
Talvez aquele tenha sido o único momento de alguma alegria naquela noite. Mesmo que por alguns segundos, foi confortante para Harry ver os sorrisos dos amigos novamente. Sabia que aqueles momentos agora seriam mais raros que nunca.
Cerca de uma hora depois, o céu já se mostrava claro e Rony arriscava bocejar de vez em quando.
- Creio que já passa da hora de irmos – chamou Arthur Weasley, na sala.
- Sim, sim, Arthur. Você está certo. Os Dursley precisam descansar um pouco depois disso tudo o que aconteceu. – Lupin levantou-se, junto aos outros.
Harry, Mione e Rony também se levantaram.
- Vou pegar minhas coisas no meu quarto.
Rony se ofereceu para ajudá-lo, mas Harry preferiu ir sozinho. Subiu e antes de entrar no próprio quarto, Harry abriu vagarosamente a porta do quarto dos tios, onde Petúnia chorava, abraçada a Duda.
- Tia Petúnia, será que eu poderia falar com você?
Ela olhou assustada para Harry, mas consentiu, pedindo que Duda saísse. Duda saiu alegre, cantarolando algo que Harry entendeu ser "Potter idiotinha se treme com a presença de um Dursley...".
- O que há com o Duda?
- Bem – disse Petúnia enxugando as lágrimas com um lenço – Eles alteraram a memória dele e acho que ele vai ficar assim por uns dias, um pouco abobado.
- Tia Petúnia, eu só queria dizer que... eu sinto muito.
Petúnia acenou para que Harry se sentasse na cama e Harry assim o fez.
- Harry, eu reconheço que nós nunca o tratamos como um membro da família, admito isso. – ela ainda chorava, mas tentava ao máximo se conter – Nunca gostamos da sua presença, não por você, afinal percebo nem o conhecemos direito, de fato. Nunca gostamos do fato de você ser filho da minha irmã bruxa, e por ser um deles.
- É eu sei disso. – disse ele
- Mas hoje muitas coisas aconteceram e... Eu percebi que você se arriscou para nos ajudar. – ela ainda chorava – Sei que nada disso teria acontecido se... Bem, desculpe a franqueza, mas... Sei que nada disso teria acontecido se você não fizesse parte da nossa família, e tudo mais. – disse em tom um pouco rude
- Mas eu só...
- Não estou te culpando. – interrompeu ela – Mas independente de qualquer coisa, você foi corajoso. Você os enfrentou. E eu quero te agradecer por isso. Contudo eu... eu gostaria de te fazer uma pergunta.
- Fique à vontade, tia Petúnia.
- Teria como... trazer o Valter de volta? Com magia? – e ela recomeçou a lacrimejar
- Não há magia alguma que reverta a morte, se é isso que quer saber. De qualquer forma, quero que saiba que ele nunca se foi. E nem irá, enquanto estiver aqui – e Harry tocou o colo de Petúnia, indicando o coração.
Ela chorou ainda mais.
- Vou me mudar daqui com o Duda. Não quero viver mais neste lugar. Não faz mais sentido viver aqui. Cansei se espiar os vizinhos e viver nesta vida medíocre que levo em Surrey. Talvez eu me mude para Londres.
- Isso é ótimo.
- É. Acho que Duda vai estranhar, no início, mas logo nos acostumamos.
- Tia Petúnia, tenho uma dúvida que está engasgada em minha garganta há muito tempo. – ele hesitou em falar – Sei que vocês nunca gostaram de magia e essas coisas, mas... desde que eu e Duda sofremos ataques de dementadores, percebi que você conhece bastante sobre o mundo bruxo. E além do mais, quando Dobby apareceu, você o reconheceu como um elfo e...
Petúnia sorriu, mesmo lacrimejando.
- Harry, tem muita coisa que não lhe contei sobre meu passado. – ela se endireitou-se e começou a contar – Não sei se sabe, Harry, mas você tem os olhos iguais aos da sua mãe. Sua mãe tinha olhos verde-esmeralda como os seus.
- É... Muitos dizem isso.
- O que muitos não devem saber, é que ela era a única de nossa casa com esses olhos. Nem eu possuo, nem seus avós possuíam estes olhos. Na nossa família, por genética, ou não sei mais o que, todos os que eram bruxos sempre nasceram com estes olhos instigantes e chamativos. Sabíamos que sua mãe era uma bruxa logo que ela nasceu –
- Calma! – interrompeu Harry – Você disse que em nossa família havia outros bruxos? Eu achava que minha mãe sempre fora a única.
- Sim, a única em nossa casa. Mas não em toda a árvore genealógica da nossa família. Harry, nossos pais eram abortos.
- Como?
- Isso mesmo que você ouviu. Minha mãe, assim como meu pai, nasceu sem magia; ela não tinha os olhos verde-esmeralda que sempre marcaram nossa família materna. E pior do que isso. Ambos eram filhos únicos. – ela continuou, mais calma – Os abortos nunca foram bem tratados pelas próprias famílias. Ainda mais antigamente! Então os seus avós, como eram tão "iguais", ficaram amigos, se apaixonaram e constituíram família, sem qualquer apoio de seus pais. Bem, meus pais viviam uma vida incomum. Participavam da comunidade bruxa, porque foram criados nela, mas também levavam a vida perto dos trouxas, que não eram dotados de magia, como eles. É claro, sempre quiseram ser bruxos, sempre quiseram fazer mágicas por aí. Quando nasci, bem, nasci trouxa, como é de se esperar qualquer filho de dois trouxas, ou de dois abortos. Até que nasceu a sua mãe, com aqueles olhos... Meus pais deram pulos de alegria, afinal, tinham finalmente uma bruxa na família. Não tinham acabado com a geração de bruxos da família Evans! Fizeram as pazes com meus avós, e a minha irmã se tornou a queridinha da família. É óbvio, fiquei com ciúmes. Mas independente disso, crescemos juntas, em meio a bruxos e trouxas. Sempre convivi na minha infância e adolescência com bruxos. Claro, nunca freqüentei Hogwarts, mas mesmo assim eu tinha certo tipo de contato. Por isso conheço algumas coisas! Por isso sei sobre dementadores e elfos, por exemplo. Mas minha frustração foi ainda maior quando, na adolescência, não conseguia nenhum namorado. Os bruxos não se atraem tanto por trouxas, aprendi isso. E a partir daí criei uma enorme aversão à bruxaria. Quando conheci o Valter... Bem... Me apaixonei... E ninguém apoiava nosso namoro porque ainda tinham a esperança de que eu me casasse com um bruxo. – ela começou a lacrimejar – Mas não contei nada a ele sobre meus conhecimentos sobre magia. Só fui dizer a ele mais tarde, depois de casados. Contei sobre meu ódio pela minha irmã e decidimos que nunca procuraríamos qualquer contato com magia. E desde então, estávamos vivendo assim. – e ela começou a chorar novamente
Harry estava boquiaberto. Então Petúnia era mesmo trouxa. Seus avós eram abortos. Porque Dumbledore nunca lhe contara isso? Será que sabia? Harry ficou feliz em conhecer o passado de sua família. Era como se toda aquela antipatia por pelos Dursley tivesse amenizado. Era bom sentir que Petúnia era parte de sua família. Harry abraçou-a. Não podia dizer que gostava dela, mas sentiu vontade de abraçá-la e assim o fez. Ela se espantou, mas aceitou o abraço.
- Até algum dia! – disse Harry sorrindo para ela – E... Sinto muito pelo tio Valter.
- Até... – sussurrou ela, novamente aos prantos.
Harry recolheu rapidamente suas coisas com um feitiço e desceu as escadas.
- Ufa! Até que enfim! Você demorou um século, Harry! – disse Gui
- É que... bem... Estava tudo uma bagunça e eu me esqueci de usar magia. – mentiu
Todos saíram da casa com o sol matutino atingindo-lhes o rosto. Alguns agentes do Ministério ainda estavam no local, examinando vestígios na grama, mas aos poucos iam aparatando.
Harry olhou por uma última vez para a casa de número quatro da Rua dos Alfeneiros. Talvez nunca quisera estar ali, mas por um momento, sentiu vontade de voltar.
- Vamos, Harry! – chamou Lupin
Harry atendeu o chamado de Lupin e, sob os primeiros raios da manhã, Harry aparatou junto aos outros, com coragem, rumo à grande guerra que o aguardava.
