N/a: Vos trago um presente de Natal adiantado. Boa leitura!
Maria Teresa C, IASBr, que bom que gostaram. Eu queria aprofundar a história da Charlotte e do Coronel, mas meu foco é a Elizabeth (e se eu fosse desenvolver todos os plots da forma que gostaria, a história teria 80 capítulos kkkk).
Capítulo 11 - Um susto
Alguns dias depois, na mesa de jantar, Elizabeth olhou para a amiga com carinho. Ela estava radiante. Até então Charlotte tinha poucas esperanças de se casar. E quão surpresa estou que não só vou me casar, mas por amor – ela havia confessado à amiga. O coronel não havia perdido tempo depois de receber o sim dela. Viajara a Hertfordshire para falar com Sir William, que havia prontamente aceitado a proposta. Como ele não aceitaria? É o melhor que a filha dele vai ter, com certeza. Dizia uma carta que Elizabeth recebera da mãe, um dia depois do ocorrido. A carta também repreendia Elizabeth por não ter sido, nas palavras de sua mãe, mais rápida em laçá-lo.
Mais tarde naquela noite, enquanto conversavam e jogavam cartas, Elizabeth perguntou a ele a respeito de seus planos. Ele dissera que queria um cortejo rápido, uma vez que logo seria chamado à França. Ela então se lembrou de um detalhe da conversa que haviam tido antes do pedido.
-Você me pediu, quando conversamos, que não fizesse de suas ambições motivos de repreensão, o que já havia acontecido. Qual a posição de sua família com o anúncio do noivado?
-Meus pais não estão felizes, mas como lhe disse, sou o segundo filho. Eles vão superar. Mas não era a isso que me referia. Foi de Darcy que a primeira repreensão veio.
-De Darcy?
-Sim. Ele foi a primeira pessoa com quem falei quando comecei a pensar em vir até Portland Place. Ele anda muito distraído ultimamente, mas quando manifestei meu desejo, ele se transformou. Me perguntou por que eu faria isso. Logo depois me proibiu de fazê-lo.
-Meu Deus! Ele deu algum motivo para tamanha objeção?
-Nada do que ele falasse fazia sentido. Por isso, decidi deixá-lo e então vim falar com a senhora. Fico feliz que o tenha feito, talvez, se tivesse ficado lá, perdesse a coragem sob os protestos dele.
-O que ele disse depois que você fez o pedido?
-Não falo com ele desde então. A bem da verdade, estou evitando-o. Claro que não pretendo cortar relações com ele, mas quero desfrutar de minha felicidade antes que volte a falar com ele.
Mr. Gardiner chamou o coronel para uma mesa de cartas em que precisavam de mais um integrante e Elizabeth ficou no mesmo lugar, se perguntando por que Darcy era contra o casamento. Seria ele contra qualquer casamento abaixo de seu nível social? Teria ele objeções a fazer à Charlotte, achando que a família dela também estava atrás de dinheiro? Mas o Coronel nem tinha uma herança generosa…
Com Georgiana de volta à Pemberley, as opções de Elizabeth eram poucas. A menina não saberia informar Elizabeth do ocorrido - era provável que o irmão não houvesse dividido nada com ela, e ela não podia realmente encontrá-lo, não agora que Georgiana não estava mais ali. Só poderia esperar que o Coronel mencionasse o assunto novamente.
~X~
Os acontecimentos recentes na vida de Charlotte fizeram com que ela voltasse para casa mais cedo do que havia planejado. Ela tinha muitas coisas para resolver e gostaria de passar algum tempo com a família antes do casamento. Mas isso deixou Elizabeth, mais uma vez, sozinha em Londres.
Sem paciência para a vida social agora que não tinha a companhia da amiga, ela passava a maior parte dos dias com Lucy ou os tios. Foi então que percebeu que o estranho comportamento da filha vinha se acentuando. A menina andava mais chorosa e, se tivesse a opção, não saía de perto da mãe. Questões simples do dia-a-dia se tornaram um problema, com a menina teimando em não fazer as coisas. Elizabeth nunca conseguia suprir a demanda por atenção da menina, que frequentemente só adormecia de exaustão, depois de muito chorar.
Certo dia ela convidou os tios para tomarem chá depois de uma caminhada. Ela queria perguntar a eles a respeito dos problemas que estava enfrentando com Lucy, uma vez que tinha sua opinião em alta conta. As crianças subiram para brincar, o chá foi servido, e Elizabeth narrou exatamente tudo que vinha acontecendo para Mr. e Mrs. Gardiner.
-Querida, me parece apenas que ela está lidando com os problemas ao jeito dela. - tranquilizou-a a tia. - Crianças não são tão diferentes de adultos nesse quesito, cada um tem sua personalidade e seu jeito de lidar com as coisas. Talvez ela estivesse sofrendo em silêncio e você nem percebeu. E algo a fez alcançar um ponto em que não consegue mais segurar seus sentimentos.
-Confesso que nos primeiros meses após a morte de James, eu fiquei em choque e posso não ter prestado a atenção devida a ela. - disse Elizabeth, as memórias a deixando sem chão. Fora exatamente esse o sentimento que tivera quando o marido morrera tão jovem: como se estivesse sem chão. Era tão importante para as mulheres casarem-se, terem um marido que, quando Elizabeth se viu sem isso, achou que não existiria vida. E ainda assim, ali estava ela, mais de um ano depois.
-Mas ainda assim... - ela murmurou, puxando as memórias para o fundo da mente, para reexaminá-las quando estivesse sozinha – Não houve nenhum acontecimento excepcional para que ela mudasse tão drasticamente.
-Talvez não para você. - lhe disse o tio. - Mas algo pode ter acontecido que a afetou. Você se lembra quando Henry encontrou aquele pássaro morto no parque, querida?
Mrs. Gardiner sorriu com carinho, balançando a cabeça.
-O menino não quis comer a semana inteira, e não sabíamos o que provocou uma mudança tão repentina. Foi só depois que ele manifestou um interesse imenso em saber a respeito de cada coisa de seu prato que começamos a entender o que estava acontecendo.
-Às vezes não prestamos atenção realmente neles. - disse-lhe Mrs. Gardiner, sorrindo. - Mas eu não me preocuparia tanto, você tem uma filha incrível, Lizzy. Ela com certeza puxou a sua astúcia.
Lizzy sorriu, adicionando logo em seguida:
-Estive pensando a respeito da educação dela, pesquisei tutores, mas também me interessei por academias que aceitam garotas.
-Seria viável financeiramente?
-Tenho tomado muito cuidado com o que recebo e acredito que sim, conseguiria nos manter e lhe dar uma educação.
-Você sentiria a falta dela, Lizzy.
-Com certeza, mas tenho que pensar no que é melhor para ela. E se o melhor ela irá conseguir longe de mim, que seja.
-Você tem o coração no lugar certo. - disse o tio, colocando a xícara sobre a mesa. Os três ouviram um barulho de algo caindo, e Elizabeth tocou o sino para chamar a empregada.
-Não se preocupe, deve ter sido uma das crianças aprontando. Já está na hora de irmos, de qualquer forma.
Quando os três entraram no hall principal, perceberam que deviam ter razão, pois as duas filhas mais velhas de Mr. e Mrs. Gardiner estavam no alto das escadas, abafando risadas.
-Chamem seus irmãos, estamos indo! - disse Mrs. Gardiner às meninas.
-Muito obrigada pela tarde agradável, é sempre um prazer.
Depois que a família dos tios saiu, Elizabeth foi até a cozinha perguntar se alguém sabia a que se devia o barulho que ouviram mais cedo.
-Um candelabro, Senhora, estava caído no chão do corredor – disse Mrs. Baker, a cozinheira. - As crianças deviam estar correndo pelo corredor. Já está tudo em ordem agora.
Elizabeth agradeceu, sem ter mais sobre o que falar com a moça esguia. Ela estava começando a sentir o início de uma dor de cabeça, mas a perspectiva de subir para seu quarto e ficar sozinha com seus pensamentos era um pouco desencorajadora.
-A senhora está bem?
-Sim, é só uma dor de cabeça.
-Vá descansar um pouco, senhora. Caso queria, mandamos o jantar para seu quarto.
Sem ter mais como negar o fato de que teria que subir, Elizabeth concordou. Talvez ela pudesse dormir um pouco afinal. Estava com o cansaço acumulado há alguns dias, mas lhe parecia difícil ultimamente relaxar.
Ela subiu para o quarto e, depois de combater pensamentos nefastos por quase uma hora, finalmente adormeceu. Foi acordada por uma batida na porta.
-Minha senhora, sinto muito acordá-la.
-Está tudo bem, Grace. - disse Elizabeth, se sentando na cama para espantar o sono – Do que precisa?
-A Lucy, senhora. Não consigo encontrá-la em lugar algum.
Aquilo fez Elizabeth se colocar em pé rapidamente, qualquer traço de sono desaparecendo.
-Como não consegue encontrá-la?
-As crianças estavam brincando de se esconder pela casa, senhora. - disse Grace, sem coragem de encarar Elizabeth. - Eu posso ter me distraído por alguns minutos e não notei que seus parentes já haviam ido embora. Eu procurei a menina em todos os seus esconderijos favoritos, mas ela não está em lugar algum.
Elizabeth deixou o quarto, correndo para o quarto infantil, como se pudesse acreditar que aquilo era uma brincadeira da babá e Lucy estaria lá, sentada no chão com um livro. No entanto, o quarto estava vazio.
-Eu sinto muito, senhora. Talvez ela tenha encontrado um novo esconderijo.
Elizabeth desceu as escadas dois degraus por vez. Na sala de visitas, pegou papel e tinta e, sem se incomodar em sentar, escreveu uma nota rápida à tia.
-Dê um jeito de levar isso até minha tia, talvez Lucy os tenha seguido. - ela sabia que, se isso tivesse acontecido, eles já teriam voltado, mas precisava investigar todas as possibilidades.
Grace saiu correndo com a nota e Elizabeth foi até a cozinha, fazer perguntas aos funcionários. Ela não ficou feliz em saber o motivo exato pelo qual Grace havia se distraído – a visita do filho do padeiro, para deixar uma encomenda. Mas nenhum dos empregados havia visto ou ouvido a menina depois que os Gardiner saíram. O coração de Elizabeth se apertou.
Ela dividiu a cozinheira e as duas empregadas em times, as orientando a procurar no térreo, primeiro andar e nos arredores da casa, e retornarem para o hall em meia hora. Ela abriu a porta e saiu, sem colocar o chapéu, decidida a cobrir o caminho para a casa dos tios. Quando saiu para a rua, no entanto, trombou com alguém que estava prestes a bater à sua porta.
-Mrs. Sheffield! - disse Mr. Darcy surpreso, segurando os braços dela para que não caísse.
Se ela não estivesse tão preocupada, riria da situação. É claro que ela trombara com ele novamente.
-Senhor, tem alguma informação importante para me dar? - ela disse, se soltando dos braços dele e olhando à volta, como se ele fosse tirar Lucy do chapéu ou do bolso do casaco.
-Não, eu... - ele disse, abrindo e fechando a boca algumas vezes, sem palavras. Ela torcia as mãos, nervosa.
-Você viu minha filha, Lucy? Ela desapareceu.
-Desapareceu? Como isso pôde acontecer?
-Ela não está em lugar nenhum da casa. - disse Elizabeth, se precipitando pela calçada e olhando ao redor. A luz do dia começava a diminuir e ela sabia que era primordial que achassem a menina o quanto antes.
Ela andou por meia quadra e atravessou a rua, perguntando a pessoas na rua se haviam visto uma menina de uns 5 anos e cabelos cor de palha, usando um vestido branco. A rua estava cheia de pessoas andando com pacotes, descendo e subindo de carruagens, mas ninguém vira uma menina passar.
-Você tem motivos para acreditar que ela saiu de casa? - Elizabeth pulou no lugar, assustada. Não havia percebido que Darcy havia seguido-a.
-Ela não está em casa, então assumo que sim. Mas minhas empregadas estão se certificando. Algo deve tê-la aborrecido, e ela está escondida em algum canto, desejando que não a encontremos. Ela anda diferente, normalmente ela se esconderia pela casa e apareceria depois de um tempo, se esquecendo do porquê se escondera.
-A senhora tem um estábulo? - disse Darcy de repente, e Elizabeth olhou para ele achando que tinha enlouquecido.
-Não, minha casa não é tão grande. - ela disse, pela primeira vez naquele dia o encarando – Mas há um na esquina, que normalmente fazemos uso, caso...
-Onde, Mrs. Sheffield?
Ela apontou, e Darcy seguiu naquela direção. Curiosa, ela fez o mesmo. O lugar estava movimentando, com várias pessoas pegando seus animais ou carruagens depois de um dia de compras. Darcy já estava falando com um dos meninos encarregado pelos cavalos, mas Elizabeth não conseguiu alcançá-lo antes que ele se afastasse. Ela correra para acompanhá-lo, mas suas pernas compridas em um passo rápido eram difíceis de seguir. Quando Elizabeth finalmente o encontrou, ele estava olhando as baias uma a uma.
-Mr. Darcy? - ela perguntou, incerta. Ele realmente havia ouvido que ela perdera a filha e não um animal?
Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, algo lhe chamou a atenção. Um dos estábulos tinha uma massa branca a um canto. Ao se aproximar, Elizabeth notou que a massa se mexia.
-Lucy!
O movimento parou e a menina ergueu a cabeça, o rosto marcado pelo rastro de lágrimas.
-Não era pra você me achar! - gritou a criança, e se curvou sobre o braço, voltando a chorar.
Elizabeth estava tão feliz em ver a menina que deixou de lado a grosseria. Ela viu que Darcy estava ao seu lado, abrindo a porta da baia, mas ela se adiantou, entrando com cuidado para não incomodar o cavalo e acabar colocando em risco ela e a filha. O menino que cuidava dos cavalos se adiantou, puxando animal para que Elizabeth pudesse pegar a filha no colo. A menina continuou a chorar, mas se permitiu ser abraçada. Elizabeth sentiu os olhos se marejarem.
-Você está bem. Você está bem.
Ela saiu da baia carregando a menina e agradecendo o funcionário, e ia se virar para agradecer Darcy, mas ele falou antes.
-Cuide melhor de sua filha, senhora. - e, fazendo uma mesura, foi embora.
Elizabeth riu, sem entender como que, em todas as vezes em que Darcy encontrava ela e a filha, algo acontecia para comprovar sua teoria bem fundada de que ela era uma terrível mãe. Ela abraçou a menina contra o peito, tendo que concordar em partes – ela não estava fazendo muito bem seu trabalho ultimamente, estava?
