N/a: Adora ouvir suas opiniões e especulações! Obrigada a todos que deixaram suas impressões do último capítulo! Nesse trago algumas respostas... e talvez mais perguntas? É um capítulo que eu ansiava por escrever, espero que gostem.
Capítulo 12 - Segredos vêm à tona
Lucy se negaria a falar sobre o ocorrido naquela noite, mas continuaria a chorar até que o cansaço a vencesse. No dia seguinte, Elizabeth pediu para a cozinheira fazer a comida favorita da menina e, depois dela ter tomado o café da manhã, entrou em seu quarto, se sentando no chão ao seu lado.
-Vamos falar sobre o que aconteceu ontem? Você preocupou terrivelmente a todos nós.
Elizabeth se surpreendeu quando a filha não só respondeu, como respondeu com raiva.
-Por quê? Você me quer longe!
-De onde você tirou isso?
-Você falou isso pra tia ontem.
-Você estava ouvindo?
-Então é verdade!
A menina ia correr, mas Elizabeth a segurou.
-Lucy, estávamos falando de sua educação! Eu disse que poderia contratar tutores ou mandá-la para uma academia e que se eu resolvesse fazê-lo, iria sentir sua falta, mas se isso fosse o melhor para você, faria um esforço.
A menina se desvencilhou da mãe, sentando em um sofá de forma que pudesse vê-la, mas longe o suficiente para que não se tocassem.
-Você quer se livrar de mim!
-Por que eu faria isso, Lucy? Eu amo você!
-Eu ouvi você falando isso pra Grace!
Elizabeth olhou nos olhos da menina, sem entender.
-Lucy...
A menina gritou então, correndo para baixo da cama e se escondendo lá. Elizabeth ficou abismada, sem saber o que fazer. Não importando o que falasse, a menina nada mais disse.
Mais tarde, ela estava sentada em sua sala de visitas, um livro esquecido sobre o colo. Ela se lembrava exatamente de qual conversa havia tido com Grace que poderia ter aborrecido a menina. Aquilo havia sido vários meses atrás, antes de viajarem para Hertfordshire. Ela não havia se lembrado disso no dia anterior, mas mais tarde, quando remoía o assunto, a memória retornou repentinamente. Ela sabia que teria que conversar com a filha, mas essa era uma conversa que não queria ter tão cedo... achou que ainda teriam alguns anos.
-Senhora, o Mr. Darcy. - Elizabeth ergueu os olhos para o empregado, surpresa. Depois que ele saíra correndo sem sequer se despedir, ela não recebera mais notícias do homem. Estaria ele de volta para acessar o tamanho do estrago que o incidente do dia anterior causara? Talvez lhe dar conselhos, seguindo o modelo de sua querida tia?
Ele entrou na sala, o mesmo rosto impassível. Ela indicou que ele sentasse e tocou o sino para que trouxessem algo para comerem. Decidida a não falar antes que ele falasse, ela esperou.
-Espero que sua filha esteja bem, senhora, depois do ocorrido de ontem.
Elizabeth sorriu, um sorriso que era, na verdade, triste.
-Ela não saiu do quarto desde então. E eu estou à procura de uma nova babá. - ela disse, se lembrando da difícil decisão de dispensar Grace. A mulher trabalhara para eles por anos, e sempre fora considerada de confiança. Mas sua postura vinha mudando nos últimos meses e o desaparecimento de Lucy fora a gota d'água.
-Oh. - foi só o que ele disse.
-Ao que parece o trecho de uma conversa que Lucy ouviu fora de contexto lhe deu a ideia de que eu a queria longe. Foi isso que a deixou tão chateada. - disse Elizabeth, sabendo que não precisava justificar o ocorrido, mas ainda assim sentindo a necessidade de fazê-lo.
-E a criança acreditou? - perguntou ele, parecendo surpreso.
-Isso somado a outra informação que, eu não sabia, ela possui conhecimento, a fizeram acreditar que eu não a quero por perto. Tenho certeza de que conseguirei desfazer o mal-entendido em uma conversa. - ela acrescentou, mas sua voz era menos firme.
-Entendo. - ele disse, fazendo Elizabeth erguer os olhos. Ele a encarava com um olhar penetrante.
-Não preciso de mais um lembrete de minhas falhas como mãe, Mr. Darcy, estou bem ciente disso.
-Eu nunca... - ele começou a dizer, mas ela o interrompeu, se lembrando de algo.
-Por que você sugeriu procurá-la no estábulo ontem?
-Era um de meus esconderijos quando era pequeno, senhora. No dia em que fizemos o piquenique, Lucy me disse que também gosta de cavalos. Imaginei que, se isso fosse verdade, ela os veria como uma presença acalmadora, como eu via.
Elizabeth concordou com um meneio e se viu obrigada a agradecê-lo por ajudá-la, mesmo com a forma como o encontro se finalizou.
-E do que o senhor tinha vindo tratar ontem?
Para sua surpresa, ele pareceu desconcertado.
-Eu, bem, senhora...
Ele olhou para baixo, respirou fundo, então a encarou com determinação.
-Eu gostaria de manifestar meu apreço pela senhora, Mrs. Sheffield.
-Como? - Elizabeth não conseguiu segurar a exclamação, tão surpresa que ficou.
-Eu venho sofrendo nos últimos meses, senhora, e finalmente criei coragem de vir até aqui e... expressar meus sentimentos, quão ardentemente a admiro e amo. Tenho conhecimento de que nossa união não seria algo esperado ou favorável e viria com dificuldades, mas ainda assim declaro meu desejo de pedir a sua mão em matrimônio.
-Não seria algo esperado ou favorável? - perguntou ela, não conseguindo absorver toda a informação que lhe fora exposta.
-Sim, minha família desejaria que eu me casasse dentro de meu círculo social e a senhora, como viúva de um homem de negócios, está acostumada a outro estilo de vida. E há a criança também.
-O que o senhor tem a dizer sobre a criança?
-Ela é sua filha, e também está acostumada a um estilo de vida diferente. Ela teria muito a aprender.
-E ainda assim você se mantém firme na sua... proposta.
-Sim, senhora. - ele disse, orgulhoso.
-Eu nunca fui tão insultada em toda a minha vida!
-Senhora?
-Você vem até a minha casa dizer que gostaria de pedir a minha mão, contra as expectativas de sua família, da sociedade e, aparentemente, até de si mesmo! E tem a coragem de envolver minha filha em todo esse... julgamento! Como se não fosse suficiente o seu julgamento constante a respeito de meu relacionamento com ela!
-Eu não entendo, Mrs. Sheffield.
-Eu vejo a forma como você nos observa, senhor! Sempre julgando a forma como a crio! Com certeza me considera uma mãe terrível! Mas eu não deveria me impressionar, não é? Aparentemente é isso que você faz, julgar e se meter na vida dos outros!
-Em que momento...
-Você nega que influenciou a opinião de Mr. Bingley quanto à minha irmã?
Isso o fez pausar, olhando para ela, surpreso.
-Você nega?
-Não nego, senhora. Mas...
-E quanto a Charlotte e ao Coronel Fitzwilliam? Você não o proibiu terminantemente de fazer o pedido, mesmo que não tenha qualquer direito de fazê-lo?
-Sim, de certa forma...
-Você tem a coragem de me dizer que foi parcialmente responsável pela infelicidade de minha irmã e ainda assim espera que eu o tenha em alta conta? Se opôs, da mesma forma, a uma união que é da vontade tanto de seu primo como de minha amiga. Sempre olha para mim e a minha família com superioridade, manifestando sua opinião em assuntos que não são de seu interesse e espera que eu considere sua proposta? Você é o último homem com quem eu consideraria me casar, Mr. Darcy!
Ele ficou alguns segundos em silêncio, e tudo que se ouvia na sala era a respiração acelerada de Elizabeth. Então ele se ergueu.
-Perdoe-me, senhora, por ter tomado seu tempo com tão ridícula proposta. Tenha um bom dia.
Elizabeth viu ele sair mas ainda ficou na mesma posição por vários minutos, sem conseguir entender o que acabara de acontecer. E a dor de cabeça estava de volta.
Apesar de Elizabeth achar que a vida dela nunca voltaria aos eixos, a rotina não falhou em provar sua teoria errada. Os dias insistiram em passar, um após o outro. O pedido de Darcy não saía de sua cabeça e ela se via revendo todas as situações em que estivera com ele, todas as vezes que lhe dirigira a palavra, tentando encontrar indícios de que o que ele dissera era verdade. O pedido dele não fazia sentido nenhum, não vindo do mesmo homem que havia separado Jane e Bingley e proibido o Coronel Fitzwilliam de se casar com Charlotte. E, se o próprio pedido desafiava a lógica, como ele achava que uma união entre os dois daria certo?
Dividida entre os pensamentos sobre Mr. Darcy e Lucy, Elizabeth adiou a conversa com a última, dizendo a si mesma que a teria quando ela demonstrasse que estava pronta. Ela tentava se distrair como podia, mas não se sentia mais disposta para sequer sair de casa. Por isso, escondida sob a desculpa de uma gripe que a fazia ter fortes dores de cabeça, o que era em parte verdade, ela ficou em casa. E grande parte do tempo ela passava perdida em seus próprios pensamentos.
Ela, que sempre se considerara uma observadora atenta, não tinha nem ideia de que Darcy nutrira sentimentos por ela – e deviam ser sentimentos fortes, uma vez que ele manifestara o desejo em uma união baseado unicamente neles, e indo contra todo o resto. Da mesma forma, não notara como Lucy vinha sofrendo em silêncio nos últimos meses.
Ela decidiu prestar mais atenção às coisas. E foi certa tarde, quando ela e Lucy voltavam de uma caminhada no parque, que as duas finalmente saíram do impasse em que se encontravam.
-Tenho certeza que você vai gostar da sua nova babá, Lucy. Ela é muito gentil, e conhece muitas histórias. - disse Elizabeth com um sorriso.
-Como era a minha mãe?
Elizabeth parou, mas a menina ainda caminhou mais alguns passos, então olhou para trás.
-Eu sou sua mãe, Lucy.
-A minha outra mãe.
As duas estavam quase em casa e Elizabeth pegou-a pela mão, entrando no edifício e levando-a até a sala de visitas, então fechando a porta.
-Que outra mãe, querida? Do que está falando? - ela disse, sabendo muito bem que o momento que ela temia havia chegado.
-Eu sei que você e o papai me adotaram. - disse a menina, batendo nos laços do vestido de forma distraída. - Só queria saber como era minha mãe de verdade. Você a conheceu?
-Você ouviu isso quando eu e Grace conversávamos? - ela perguntou. A menina fez que sim. - Você precisa parar de ouvir as conversas privadas, Lucy! Elas são privadas por um motivo! Às vezes você ouve algo fora de contexto e entende errado.
-Não, eu não entendi errado! Você disse pra Grace, você se lembra quando adotamos a Lucy? Tenho certeza que ouvi isso!
Elizabeth ficou vários segundos em silêncio. Sabia que a menina não deixaria o assunto de lado. E, apesar de ter pensado por muito tempo em como abordaria a questão, não soube muito bem por onde começar.
-Eu não conheci sua mãe.
A menina ergueu os olhos.
-Você sabe quem ela é?
-Meu amor... - Elizabeth se agachou à altura da menina – Sua mãe de sangue não está mais viva.
-Oh. - disse a menina simplesmente.
Ela não saiu correndo da sala nem agiu de forma impulsiva como vinha fazendo ultimamente. Ela simplesmente se levantou, pediu licença como Elizabeth a ensinou a fazer e se retirou.
-Agora seria uma ótima hora para ter a sua ajuda, James. - Elizabeth disse baixinho, se sentindo impotente.
