Os Saltimbancos
No caminho para casa, Hermione mal pôde notar o que acontecia ao seu redor. Ela simplesmente manteve o foco em cavalgar pão-de-mel o mais rápido possível para que pudesse voltar para a segurança de seu quarto. Sabia que continuava chorando, pois sentia as lágrimas molharem a face e odiou-se por ser tão fraca. Ademais, a missão de reconhecimento tivera um resultado pior do que o esperado, além de ter sido publicamente humilhada pelo homem da estalagem, a conversa com o velho Tom deixara bem claro que a popularidade do governador estava perigosamente baixa. O pior era que pouco poderia ser feito agora, a maior parte da colheita já fora escoada pelo rio para abastecer o restante da nação. Se o governador fosse revogar o decreto que proibia as oferendas, em vez de serem retirados do montante destinado ao comércio, os grãos para as velhas cerimônias seriam obrigatoriamente retirados do escasso estoque para o inverno.
Ao chegar na praça principal notou que havia um número maior de pessoas e uma pequena comoção em frente à igreja de São Jorge, indicando que era domingo e que havia perdido a missa. Seus pais não ficariam felizes com ela. Pelo menos terei a casa só para mim. Pensou. Assim, quando finalmente voltou ao seu lar ela apenas seguiu para a cama sem ter que cumprimentar quase ninguém e pôde chorar mais um pouco em paz.
Quando regressaram da igreja o governador deu-lhe um sermão enquanto era observado pela Sra. Granger. Hermione sentiu-se culpada por ter perdido o único dia da semana que sua mãe fazia questão de sair do quarto para poder aparecer em público como primeira dama e, mesmo assim, não era toda semana que ela conseguia cumprir essa proeza. A filha ouviu as reprovações dos dois sem reclamar, na verdade, ela até estava um pouco feliz em ser uma espécie de válvula de escape para os estresses de seus pais. No momento em que o governador terminou de ralhar, soltou um suspiro cansado e deixou a sala comum. Logo depois, a esposa também foi para o quarto descansar com a assistência das damas de companhia e da Sra. Trelawney.
Após saírem, Hermione fechou os olhos e refletiu sobre as palavras do homem da taverna. Realmente existia uma mínima chance de seu pai ser decapitado, no passado aconteceram revoltas contra o governo de Porto Vermelho que terminaram com muitas cabeças separadas dos corpos. Se o descontentamento da população continuasse a crescer era possível que a história da família Granger se encerrasse dessa maneira. No entanto, ela era do tipo que faria tudo para proteger aqueles a quem amava e morreria antes de deixar que seu pai fosse decapitado e tivesse a cabeça exposta na praça. Com esses pensamentos sombrios continuou sozinha na sala comum. Imaginou que o descontentamento estava refletido em seu rosto, pois quando entrou Parvati exclamou:
" Meu Deus, Hermione, não precisa ficar assim! Não leve as palavras de seu pai tão a sério, ele anda muito estressado ultimamente. " Disse a moça de maneira preocupada. Hermione apenas a fitou surpresa.
" A Sra. Trelawney mandou-me avisar que o almoço está pronto. " Explicou-se Parvati. " Quer que seja servido em seus aposentos? "
" Não, obrigada. Comerei com vocês lá embaixo. " Respondeu Hermione. Parvati sorriu e falou:
" Será ótimo ter você conosco para o almoço. Depois pode até acompanhar a mim e a Lilá na praça. Hoje é domingo, sabe, e a Sra. Trelawney sempre nos libera para que possamos passear um pouco. " Hermione respondeu que adoraria acompanhá-las e seguiu a amiga para a cozinha.
O almoço foi um pouco constrangedor, afinal a maior parte dos empregados escutara o Sr. Granger ralhando com Hermione. Mesmo assim não deixou de ser agradável. Quando terminaram Lilá e Parvati a chamaram. Porém antes de saírem a Sra. Trelawney disse:
" Meninas, fiquem sempre juntas e não saiam da vista dos guardas"
" Guardas? " Perguntou Hermione. Ela não lembrava de ter que ser acompanhada por guardas para andar pela cidade na última vez em que visitara os pais.
" Ah sim, guardas. Seu pai achou melhor que passássemos a ser acompanhadas por eles devido ao ... bem, você sabe, ao teor do momento" Respondeu Lilá embaraçada. Então, agora até mesmo as damas de companhia precisam de proteção. Pensou Hermione. Ela já sabia que a situação estava bem ruim, mas não imaginava que chegara ao ponto em que Parvati e Lilá teriam suas liberdades cerceadas por apenas servirem à esposa do governador.
No domingo, depois de rezada a missa, a praça de São Jorge ficava cheia de fiéis que se sentiam dispostos a conversarem após terem cumprido as obrigações para com a Igreja. A aglomeração de pessoas atraía pedintes que acreditavam que a caridade cristã lhes garantiria a esmola do dia. Atraía também, ciganos que vendiam leituras de mãos e de tarô, cidadãos que vendiam quitutes e alguns saltimbancos que aproveitavam o público reunido. Por isso, o local ficava cheio até muito depois de a missa ter acabado.
Reconheceu boa parte dos rostos ali reunidos, apesar de não ser naquela igreja que a maior parte das famílias de comerciantes como a dela se reuniam no domingo, ela crescera naquela praça e era ali que o governador frequentava a missa. Lilá e Parvati logo acharam com quem conversar e Hermione as acompanhou apesar de não se sentir confortável com isso. Normalmente ela deixaria as meninas falando sobre garotos e as última fofocas do dia e sairia sozinha para explorar as ruas que sempre eram mais interessantes aos domingos. Todavia ela já chateara seus pais naquele dia e a Sra. Trelawney expressamente proibiu que saíssem de perto dos guardas.
Durante a conversa com uma moça simpática as garotas descobriram que havia um famoso grupo de saltimbancos se apresentando perto dali. Elas decidiram ver o espetáculo e caminharam para uma esquina perto da praça. Hermione adorava peças de saltimbancos, era sua parte de favorita dos domingos quando pequena e, no tempo em que passou na corte, aproveitara muito os espetáculos apresentados para a realeza.
Em uma esquina apertada havia um pequeno palco em que em frente se aglomeravam cidadãos pobres sem títulos de nobreza. A plateia encarava silenciosamente quando o narrador começou a falar.
" – Era uma vez, uma bela cidade margeada por um rio e cercada por uma velha floresta. " Disse o narrador que usava vestes supostamente elegantes e uma barba branca que era claramente postiça.
" – Nessa cidade, que era muito próspera, o povo vivia sempre alegre e feliz, cada um cuidando de sua vida. " Continuou enquanto entravam mais atores que faziam os papéis dos cidadãos. Percebendo qual era a história a ser contada, Hermione virou-se para recuar, mas infelizmente estavam cercadas pelo público ansioso pela atração. Elas teriam que esperar a peça acabar para conseguirem sair dali sem chamar atenção.
" - Até que num belo dia, um enorme dragão verde apareceu. " Disse o narrador enquanto entrava um tosco dragão verde feito de madeira e pano, fazendo os figurantes gritarem assustados. " E falou para o rei: "
" - Estava a voar pelos céus, quando lá de cima esta bela cidade saltou-me a vista. Se quiseres que teu reino continue belo ofereça-me teus tesouros e tua cidade permanecerá intacta. " Falou um dos homens que seguravam o dragão com uma voz de barítono. O ator que interpretava o rei, portando uma coroa de madeira pintada na cabeça, respondeu:
" – Sou o Rei desta bela cidade e, como tal, hei de protegê-la. Vá embora, criatura monstruosa, daqui não levarás uma migalha! "
" – Há de pagar por tua avareza, rei insolente". Respondeu o dragão enquanto saía do palco. Os cidadãos e o rei voltaram a ficar alegres.
" – Naquela noite, o povo comemorou até o amanhecer, pois seu rei fez um dragão recuar e salvou a todos. Mas no entardecer do dia seguinte a alegria deles acabou, pois lá no céu em que já brilhava a estrela da tarde viram uma sombra preta se aproximar e escurecer sua amada cidade. " Os figurantes e o rei voltaram a fazer cara de medo e se ajoelharam diante do dragão de madeira. O homem com voz grave falou pelo monstro:
" - Rei avarento, traçaste a ruína de teu povo ao negar-me teus tesouros. " Os atores começaram a reverenciar o dragão e a oferecer bens imaginários.
" – Já tivestes vossas chances. Agora encarardes vossos destinos! " Exclamou o boneco de madeira. O homem de voz grave soltou um urro furioso e da boca do dragão foi soprado um pano vermelho. Os atores gritaram desesperados para logo depois jogaram-se estáticos no chão. Atrás deles desceu um pano vermelho que cobriu o fundo do palco. A besta saiu de cena e o narrador retornou.
" – As chamas do dragão queimaram fortes por um mês inteiro e quando finalmente apagaram os poucos sobreviventes começaram a reconstruir a cidade a partir das ruínas. Todavia, antes mesmo de começarem juraram um para os outros que todos os anos, no fim do outono, aqueles que moravam dentro e fora da cidade iriam oferecer ao dragão parte de suas colheitas e de seus lucros para não despertar a ira da terrível criatura. E renomearam a cidade de Porto vermelho para que nunca mais esquecessem do dia em que seu lar queimou vermelho e do juramento que fizeram entre si. Fim. "
A trupe foi aplaudida pela plateia e Hermione sentiu-se aliviada pela peça ter acabado, poderia finalmente sair dali sem maiores preocupações. Percebeu que Lilá e Parvati ao lado suspiraram aliviadas. Quando ela começou a se virar reconheceu uma figura que subia ao palco. Era o homem da taverna. Fez uma reverencia para a plateia, que se calou e entregou uma sacola de dinheiro para o ator que interpretava o rei, indicando que havia pago para os saltimbancos apresentarem aquela peça em específico. Sozinho no palco falou:
" Cidadãos de Porto Vermelho. Os senhores conhecem bem a história que lhes foi apresentada por esta maravilhosa trupe" A plateia aplaudiu quando o homem apontou para os atores com um pomposo gesto com a mão. " Contudo, existe um cidadão de Porto Vermelho que parece ter esquecido de como a nossa cidade foi reerguida a partir das cinzas. " O público começou a vaiar e o homem fez uma pausa proposital. " O governador decretou o fim das oferendas para o velho dragão. Disse que não tínhamos comida o suficiente para desperdiçar. Agora, pergunto aos senhores, será que o governador também decretou que não havia comida o suficiente para os comerciantes exportarem? Será que estaríamos em outra situação se ele houvesse pedido para a peste mercadora não ter lucro em vez de nos ter impedido de fazer nossas oferendas? Se não tivesse nos impedido de continuar as tradições de nossos antepassados? " As pessoas ouviam atentamente e Hermione percebeu que Parvati e Lilá se encolhiam e os guardas aproximaram-se delas defensivamente. A raiva estava subindo-lhe a cabeça, no entanto pouco podia fazer no meio daquela multidão.
" Claro que não! O Senhor governador é a puta dos comerciantes e banqueiros e vai fazer o que eles mandarem! Enquanto isso eles ficam mais ricos, e nós, o povo, vai passar fome no inverno! " A audiência aplaudiu as palavras do homem e o peito de Hermione tornou-se mais pesado. Viu-se entrar em desespero em meio aos espectadores. Quando recomeçava a falar, interrompeu-o:
" Milorde diz que é do povo. Atreve-se a dizer que passará fome no inverno quando claramente é um nobre que nunca sentiu o desespero da fome na vida? " As pessoas começaram a olhar para trás para ver quem havia desafiado o eloquente homem no palco. Perto dela, de Lilá, Parvati e dos guardas as pessoas afastaram-se um passo, colocando-os em destaque. Reconhecendo-a o homem levantou uma sobrancelha e falou com desdém:
" Disse a filha do governador, sempre a postos para defender o papai. " Um murmurinho instaurou-se entre as pessoas e o rosto de Hermione passou a esquentar. Ela já havia falado e posto suas amigas em perigo, portanto o que podia fazer era tentar acalmar aqueles ao seu redor.
" O que está feito está feito. Mas saibam que meu pai nunca pôs o interesse do povo de lado. Porto Vermelho precisa dos impostos recolhidos do que é exportado da cidade e a população precisa de seus grãos para terem o que comer. Meu pai agiu pensando no que poderia fazer pelo agora e não pelo medo de velhos mitos e lendas. " A plateia calou-se, Hermione inspirou fundo e continuou. " Se quisermos sobreviver ao inverno precisamos ficar unidos, senão seremos vencidos pela natureza feroz desta terra. Sei que é difícil abandonar velhos hábitos e que é ainda mais difícil não temer o inverno escasso que temos pela frente. Porém, não podemos nos dar ao luxo de ouvir a alguém que quer nos separar e restaurar a velha ordem. " Concluiu apontando para o homem do palco. O povo a olhava desconfiado, no entanto continuava silencioso. Aproveitando o momento, virou-se e andou atrás dos guardas que perceberam a oportunidade e abriram caminho entre as pessoas. Parvati e Lilá seguiram junto com ela, pois também sabiam que no momento em que o nobre reabrisse a boca a fúria da população poderia voltar e atingi-las em cheio. Sorriu internamente, daquela vez o nobre arrogante fora derrotado.
Apesar de Hermione ter ficado satisfeita com o desfecho da discussão na rua, Lilá e Parvati ficaram tão abaladas que não conseguiram repassar as fofocas do dia para a Sra. Trelawney que, por sua vez, ficou muito frustrada. As duas moças prometeram de bom grado não contar a história para ninguém dentro de casa contanto que o episódio não se repetisse. Os dois guardas venderam-lhe seu silêncio por alguns trocados que lhes permitiriam passar algumas horas na taverna mais próxima. Apesar de mais de vinte pessoas terem visto a cena que ela fizera, não estava preocupada por ser a notícia do mês. Hoje era dia de aproveitar a vitória.
