O despertar da bela Adormecida.

Hermione Granger não era uma pessoa que apreciava as manhãs, mas naquela em especial acordou muito satisfeita consigo mesma, era doce a vitória. Durante o jantar da noite anterior até mesmo os pais dela perceberam o seu bom-humor anormal. A mãe chegara a perguntar o que havia acontecido.

"Só estou feliz por estar de volta. " Respondeu, sendo somente parcialmente desonesta. Era realmente bom estar de volta, era melhor ainda estar de volta e ter calado a boca de um nobre em público. A discussão provavelmente mudara poucas opiniões das pessoas que estavam ali para assisti-la, mas ainda assim, seu ego estava agradecido. Infelizmente, não havia com quem compartilhar as alegrias da vitória. Lilá e Parvati não queriam lembrar da tensão do momento, se conversasse com os guardas eles não conseguiriam manter a discrição, a Sra. Trelawney ficaria chateada por ela ter se colocado em perigo e seus pais provavelmente fariam DELA uma oferenda para o dragão. Era melhor não se gabar. Porém havia passado anos na companhia de amigos, perdera o costume de não compartilhar suas alegrias e tristezas. É claro que poderia escrever uma carta para eles, no entanto, precisava se comunicar com alguém de maneira que tivesse uma resposta imediata.

Pensando em uma solução, Hermione desceu para o desjejum. Sentados à mesa estavam o Sr. Granger, Lilá e Parvati. Concluiu que era a Sra. Trelawney quem acompanhava sua mãe na primeira refeição do dia. Quando começou a comer, tentou entrar na conversa sobre as fofocas de domingo que as meninas agora repassavam ao governador. Uma garota nobre misteriosamente passara o ano fora após boatos de um romance com um empregado, um fulano tal estava interessado na filha do fulano tal, em resumo, nada de muito espetacular. Aproveitou a conversa entediante para continuar refletindo até que chegou a uma resposta:

" Pai, posso visitar o Tom no almoço? "Perguntou esperançosa. As fofocas de domingo pararam subitamente e o Sr. Granger olhou para a filha.

" Hermione, eu e sua mãe sempre fizemos de tudo para que se sentisse feliz ..." Hermione encolheu-se no assento pressentido o sermão que teria que ouvir. Todavia, não estava preocupada com a provável negativa do pai, a permissão dele certamente viria com a condição de que ela fosse acompanhada se não pelas meninas, então pelos guardas. Parte da graça de ir para o Caldeirão Furado eram as besteiras impróprias para o ouvido de damas de respeito proferidas por Tom e sua clientela. "... e eu sei que você ama aquela espelunca desde que era pequena, mas devido ao seu comportamento nos últimos dias não posso permitir que saia vagando pela cidade. "

" Tudo bem, papai. " O governador ficou surpreso pela sua filha ter aceitado a negativa sem discussão. Como ele acreditava piamente no ditado de cavalo dado não se olha os dentes resolveu não reclamar.

O restante do dia passou sem maiores emoções. Hermione ocupou o tempo primeiro ajudando o pai com a contabilidade dos velhos negócios da família Granger e depois juntou-se às damas de companhia da mãe para bordar, atividade que exercia precariamente. Era primordial que toda mulher rica ou pobre soubesse bordar, fiar e costurar, dessa forma, sempre se esforçava para tentar melhorar. Raramente obtinha sucesso.

Depois do jantar, todos disseram boa-noite e retiraram-se para seus aposentos. Hermione voltou para o quarto imaginando que naquele momento, os moradores da residência do governador preparavam-se para dormir. Porém, em vez da camisola tradicional vestiu seu traje de montaria e desceu para tentar chegar ao estábulo da maneira mais silenciosa possível. Se fosse ágil como Harry ou Gina, tentaria descer pela janela, mas além de desajeitada também odiava altura e, assim, arriscou-se por dentro da casa. Teve que esperar um pouco antes de passar pela cozinha, a Sra. Trelawney sempre fazia questão de verificar a comida para o desjejum do dia seguinte. Logo que terminou, a mulher foi embora e pôde passar sem maiores problemas.

No estábulo, pão-de-mel pareceu triste ao vê-la. Com certeza o cavalo não estava feliz com a perspectiva de ter que sair naquele horário. Ignorou o olhar do animal, selou-o e seguiu o caminho para o portão, antes de sair deu uma garrafa de vinho para os vigias. Primeiro alegrou-se com o fato de que a segurança naquela casa era facilmente contornada, depois preocupou-se com o fato de que a facilidade com que os guardas eram subornados também significava que seus pais não estavam tão seguros quanto imaginavam. Teria que decidir se agiria sobre a situação ou não.

Foi uma experiência nova passar sozinha a noite pela cidade. A maior parte das ruas estavam vazias e silenciosas, porém de vez em quando surgiam umas tavernas cheias de cantorias e bêbados alegres. Também passou por alguns bordéis elegantes dos quais se ouvia risadas estridentes. Algumas prostitutas, que não a reconheceram como mulher, chegaram a oferecerem seus serviços para ela.

Para seu espanto a floresta não era tão assustadora de noite quanto esperava. Os animais noturnos eram mais bem barulhentos que os diurnos e havias sapos para cantar e corujas para piar. Além disso, era noite de lua cheia o que fazia com que a luminosidade fosse excelente. Depois de um certo ponto começou a ouvir vozes, indicando que estava se aproximando de seu destino. O estardalhaço era tão alto que nem precisaria da placa para indicar o caminho.

Naquela noite, o caldeirão furado estava definitivamente mais cheio e mais alegre. O local estava cheio com viajantes que resolveram passar a noite ali e, atraídas por eles, havia mulheres de reputação duvidosa. Hermione preocupou-se com a possibilidade de Tom estar ocupado demais para conversar. Procurando-o, passou os olhos pelo estabelecimento e, para sua surpresa avistou o homem prateado. Sentava sozinho numa mesa com quatro lugares e consumia o hidromel da casa, aparentemente com grande prazer, pois seus olhos estavam fechados. Como se percebesse que estava sendo observado abriu-os e ela fitou-o de volta insolentemente. Não era esperto uma mulher desacompanhada arriscar irritar um homem que não conhecia, mas não parecia irritado, pelo contrário, sorriu com o canto da boca e acenou para ela juntar-se a ele. Não era conhecida por recusar desafios, atravessou o salão fazendo o melhor que podia para não esbarrar em outras pessoas e posicionou-se na mesa de maneira que olhasse o nobre de frente. Voltou a encará-lo e por um momento ele simplesmente fez o mesmo. Notou que os olhos dele nas luzes da taverna iluminada ganhavam um tom cinza escuro, contudo o resto parecia o mesmo, os cabelos louros platinados caíam sobre sua cabeça displicentemente, o nariz era reto e a boca bem desenhada. De um modo geral seria considerado fisicamente atraente, se Lilá e Parvati a tivessem acompanhado estariam compartilhando entre si risinhos disfarçados. De súbito ele falou:

" Então vieste aqui para celebrar tua vitória? " Falou sem tirar o sorriso arrogante da face. Hermione havia passado três anos de sua vida na corte e conhecia as conversas dissimuladas da classe nobre. Tinha pouca paciência para jogo de palavras e conteúdos disfarçados nas entrelinhas. Eles claramente possuíam objetivos contrários e não havia sentido em iniciar uma falsa conversa cordial, por isso, foi direto ao ponto.

" Quem é você? " O homem levantou uma sobrancelha diante da pergunta descortês. Cruzou os braços e respondeu:

" Chamo-me Lorde Draco Malfoy." Falou com um ar de superioridade.

" Você já sabe quem eu sou. E, apesar de ter respondido minha pergunta ainda não sei quem você é..."

" É Lorde Malfoy para você, plebeia. " Interrompeu-a com uma expressão de quem começa a se irritar. Hermione não queria trata-lo com deferência e embora fosse a herdeira de uma família abastada, seu sangue não era nobre o que a obrigava a tratar todos os membros da nobreza com respeito e humildade.

" Perdoe-me Milorde, mas eu nunca ouvi falar do nome Malfoy." Continuou em um tom que beirava o desrespeitoso sem chegar exatamente lá. Ela havia aperfeiçoado esse tom durante seu tempo no palácio real, odiava ter que respeitar quem não gostava simplesmente por ser da classe comerciante. Assim, desenvolveu um diálogo que irritava seus inimigos sem deixar espaço para que a acusassem de ofendê-los.

"Não esperava diferente. " Respondeu-a. Hermione segurou uma resposta mal-educada. Sentada de frente para o dito Lorde Malfoy era difícil achar um local para repousar seus olhos de maneira que não olhasse nos dele. Estava perto de chegar aos seus limites e resolveu ir direto ao assunto para poder sair de perto do rival.

" O quê Milorde tem contra meu pai? "

" Tirando o fato de ele ser um trouxa que só faz merda? " Disse, voltando a sorrir de lado. Aproximou-se dela e falou: " Talvez o fato de ele lamber as botas daqueles banqueiros como se fosse uma cadela no cio. "

Hermione percebeu que estava em pé e que Draco Malfoy a olhava incrédulo. A face dele estava molhada e em sua mão esquerda estava o copo vazio do qual o homem bebia hidromel. Dentro do salão do Caldeirão Furado reinava o silêncio. Começou a desesperar-se, havia ofendido um nobre em público. No resto do país facilmente teria sua mão esquerda cortada fora, em Porto Vermelho, por ser a filha do governador seria obrigada a pagar uma pesada multa para o ofendido. Em outros tempos, isso não seria problema, todavia, na situação delicada em que se encontrava a família Granger, ela receava que precisariam de cada moeda da fortuna no futuro. Os olhos dele deixaram de fitá-la surpresos e passaram ter um brilho furioso. Ele levantou da cadeira com a cabeça abaixada, segurando as bordas da mesa com força. Ela surpreendeu-se quando o homem disse com uma voz fria como a neve.

" Estupore" Todas as pessoas dentro do caldeirão furado começaram a adormecer suavemente. Ninguém derrubou nada, os que estavam sentados simplesmente pousavam o que seguravam nas mãos em uma superfície plana para depois apoiarem a cabeça em algum lugar e fechar os olhos. Os que estavam em pé sentavam no chão de maneira preguiçosa para aos poucos caírem na posição deitada já em sono profundo. Hermione lembrou da história da Bela Adormecida e percebeu que havia irritado a Malévola. Antes que pudesse correr, Draco Malfoy segurou-a pelo antebraço.

" Não é a primeira vez que me desrespeitas. Receio que precisas de esclarecimento sobre teu lugar. " Começou a arrastá-la para fora da taverna. Ela tentou lutar e resistir, mas o homem mal notou seus esforços. Quando saíram ele a empurrou, fazendo com que caísse sentada. Para seu desespero, o suposto nobre começou a tirar as roupas. Sentiu o medo tomar conta de seu corpo e impedi-la de fazer qualquer movimento. A coragem a abandonara. Não era assim que planejara ver o primeiro homem nu da sua vida, também não planejara perder sua honra, por causa de um copo de hidromel derramado na cara de uma pessoa. Quando terminou de despir-se, Malfoy apontou para ela e falou:

" Desrespeitaste a mim mais de uma vez porque acreditas na sensatez das ações de teu pai. Acreditas que foi certo ignorar as antigas tradições e lendas desta terra. Olhai, humana insolente, e que percas tua amada lucidez! " Dito isso, o ar ao redor de Draco Malfoy começou a vibrar. Foi assim que Hermione Granger testemunhou um homem nu metamorfosear-se em uma criatura cuja própria existência desafiava toda lógica e razão que acreditava existir no mundo. Desdenhara de todos que culpavam seu pai por ter irritado o velho dragão e agora um lagarto prateado enorme a encarava sob a luz da lua. Até que a criatura abriu as enormes asas e vou noite adentro. Ela ficou ali, rendendo-se ao desespero.