Disclaimer: Nenhuma personagem, feitiço, lugar, etc. que reconheçam me pertence. São todos pertencentes a J.K. Rowling.
Capítulo Dois
Ginny ainda se lembrava de ter aparecido em Grimmauld com Draco Malfoy atrás. A confusão tinha explodido ali: Ron parecia ser capaz de arrancar a cabeça de Draco à dentada. Mas, felizmente, ela tinha conseguido fazê-los perceber que ele estava ali para ajudar. Naquele momento ela não fazia ideia por onde deambulava Draco Malfoy. Sabia que estava algures com Bill, já que este tinha sido o único a concordar em trabalhar com o louro. Ela sorriu, o Bill, por alguma razão, era o seu irmão preferido, era como se ele tivesse a capacidade de ver o melhor que existe nas pessoas, afinal ele era casado com a, antes fútil, Fleur Delacour. Draco já não era perseguido pelo Ministério e conseguira que lhe dessem uma pequena quantia de dinheiro da sua antiga fortuna para poder recompor a sua vida. Ela sabia que ele conseguira comprar um pequeno apartamento em Hogsmeade, nada mais.
Ela também se lembrava da sensação dos lábios dele colados aos dela. Agora que era uma memória distante, ela tinha um nózinho na garganta, era como uma pitada de saudade.
"Saudade? Estás parva? Saudade do beijo do Malfoy? Que se passa, Ginny Molly Weasley? Estás doente, estás com febre!" ela pensou, levando a mão até a testa. A sua temperatura estava normal. Então porque ultimamente se lembrava daquele maldito beijo que ele lhe tinha dado em Diagon Alley? Era um beijo sem significado, uma estratégia de fuga, nada mais. Além disso, o beijo que havia começado com Draco Malfoy havia acabado com Neville Longbottom. Mesmo que lhe custasse a admitir, aquele beijo mexera com ela. Aquele homem que se revelara diferente do que ela esperava, despertava alguma coisa nela.
"É só admiração. Afinal ele é bonito, isso eu não posso negar!" Ela convenceu-se. Jogou a pedrinha com que estava brincado para o lago. Estava sentada sobre uma pequena ponte que atravessava o lago do seu jardim preferido. Ela tinha um pavor de águas profundas, mas adorava a altitude. Quando mais alto ela estava, mais livre se sentia. A ponte não era muito alta, mas tinha uma linda vista do jardim.
Ela nunca se sentira tão segura. Finalmente, aquela maldita guerra estava chegando ao fim. Harry destruira os Horcruxes, embora isso tivesse custado também a destruição do amor deles. Ela forçou-se a não pensar nisso. Era ainda uma ferida aberta.
Ela suspirou enquanto que uma brisa fria passava por ela. O sol estava quase a se por, ela devia voltar para casa. Decidiu se voltar, para saltar para o chão, pois estava sentada no pequeno muro da ponte. Colocou-se numa posição arriscada antes de tentar saltar para o chão.
O que se passou depois foi tão rápido que ela só ouviu uma voz forte, perdeu o equilíbrio e quando deu por si estava em queda livre. Antes de ter tempo de assimilar isso e no que implicava, sentiu a água gelada cobrir-lhe o corpo e ela entrou em pânico. Nunca gostara de água. A sua mente ficou em branco, ela nem tentou nadar, os seus membros não lhe obedeciam e o seu cérebro não funcionava. Começou a sentir-se sufocar.
Draco tinha que afastar Nott da multidão. Ali, era demasiado perigoso, havia muitas pessoas. Draco precisava arrastar o homem para um local com menos pessoas, onde ele pudesse fazer menos vítimas.
Estavam no Outono, estava frio, as árvores estavam despidas. Não estaria quase ninguém no jardim. Draco correu até lá, certo de que Theodore Nott o seguia e lançava-lhe feitiços, na esperança de acertar algum. O louro corria, sem sequer reparar bem por onde ia, o seu corpo mexia-se mecanicamente até ao jardim. Correu pela terra molhada. Atravessou um pequeno pátio e virou a cabeça para trás. Já não havia muita gente à volta deles. Do outro lado do lago havia ainda menos pessoas. Nott continuava atrás dele.
-Eu vou apanhar-te, Malfoy!- Nott gritou furioso.
-Bem podes tentar, Nott!- Draco disse.
-Impedimenta!- Nott gritou. Draco viu um raio passar-lhe ao lado e ir contra o pequeno muro da ponte, mesmo ao lado de alguém que perdeu o equilíbrio e caiu. Draco só conseguiu ver uma madeixa de cabelo ruivo afundar-se nas águas do lago.
De repente ele congelou. Quais seriam as probabilidades daquele cabelo ruivo pertencer á pessoa que ultimamente ocupava os seus pensamentos? Muito poucas, ele concluiu.
Virou-se para Nott, que parou a poucos metros dele, com um sorriso demoníaco nos lábios.
-Enfrenta-me como um homem, Draco!
Draco não respondeu. Apontava a varinha ao coração de Nott, mas a sua atenção estava concentrada no pequeno campo de visão do pequeno lago. Estava a espera de ver uma cabeça ruiva emergir das águas, mas não havia sinal da pessoa que caíra. Ele sentiu desespero tomar conta dele, mas não podia fazer muito.
Olhou para Nott. Bill tinha dito que era proibido matar o inimigo. Deveriam capturá-los e entregá-los ao Ministério. Mas todos os feitiços eram demasiado fracos para conseguirem perfurar qualquer feitiço de protecção de Nott.
O desespero de Draco aumentava a cada milésimo de segundo que passava e ele não via ninguém emergir no lago.
-Stupefy!- ele gritou, mas Nott desviou o feitiço facilmente.
-É esse o teu melhor, Draco? Não me faças rir!- Nott escarneceu. Os olhos de Nott fixaram Draco, e formaram-se pequenas rugas de concentração na testa do rapaz moreno. Draco conseguiu defender-se do Riptumsempra no último segundo.
Ele sabia que era proibido, mas não havia outra solução, ou matava Nott ou a pessoa que caíra ao lado afogava-se. Ele inspirou fundo e antes que Nott tivesse tempo de murmurar qualquer outro feitiço, Draco gritou:
-Avada Kedavra!
Um feixe de luz verde saiu da varinha de Draco, atravessou a ponte e foi direito ao coração de Nott, que caiu morto no chão. Draco sentiu um leve aperto no coração. Ele conhecia aquele sentimento. Já o havia sentido uma vez antes, quando fora obrigado a matar uma pessoa por ordem de Voldemort. Era a constatação de que a sua alma se tinha rompido mais um pouco. No entanto, ele não tinha tempo para pensar nisso.
Ginny não aguentava mais. Todas as células do seu corpo imploravam por oxigênio, mas ela simplesmente não conseguia se mexer. Era como se a água lhe estivesse prendendo os movimentos. Era tudo psicológico, ela sabia, mas não havia maneira de superar aquele pavor. Eram poucas as coisas de que ela tinha medo, mas aquele ela não conseguia dominar. Quando pensou que estava condenada a morrer, afogada e esquecida naquele lago, sentiu uma mão agarrar-lhe o pulso e puxá-la para a superfície. A doce sensação de poder respirar encheu os seus pulmões. Respirou tão depressa que acabou se engasgando, mas não se importou. Sentiu o seu salvador levá-la até a margem e deitá-la sobre as folhas mortas e húmidas. Ela estava ainda de olhos fechados, apreciando a óptima sensação que o ar fresco lhe provocava ao encher os seus pulmões.
-Assustaste-me de morte!- ela ouviu uma voz masculina dizer. Ela conhecia aquela voz, mas estava demasiado distante para conseguir descobrir de quem era.- Pensei que tivesses te afogado , Weasley!
Ela sorriu. Só uma pessoa falava o nome da sua família daquela maneira.
-Desde quando te preocupas com um Weasley, Malfoy?- ela perguntou ainda de olhos fechados.
-Desde que esse Weasley me salvou o pescoço!- ele disse. Desta vez ela abriu os olhos, cheia de surpresa.
-Parece-me então que o favor está pago! Obrigada!
-Não tens que agradecer.
-Agora a sério. Por que me salvaste? E não venhas com a história de ser porque eu te ajudei. Não és dos que gostam de retribuir favores!
Ele olhou para ela e sorriu. Maldição! Não havia maneira de enrolar aquela miúda. Na verdade, ele nem sabia bem porque a tinha salvo. Nem sabia que era ela. Mas no seu interior, ele temia que fosse, por isso tinha saltado para aquele lago gelado. Mas isso não respondia à pergunta dela. Por que tinha Draco Malfoy salvo uma Weasley? Nem ele sabia por quê. Só sabia que depois daquele beijo que ele lhe tinha dado, muitas coisas tinham mudado na vida dele, como o facto de ele não conseguir tirar o sabor do beijo da sua memória.
-Agradece-me e não faças perguntas!- ele resmungou, levantando-se.- Só não percebo uma coisa! Por que não tentaste nadar?
Ele viu-a corar.
-Porque eu tenho um pavor de águas profundas. Simplesmente entrei em pânico.- ela não sabia porque lhe dizia a verdade nem porque confessava um dos seus maiores segredos a alguém que ela desprezara durante tanto tempo.
-Percebo!- ele murmurou, um pouco incomodado com a confissão. O facto de ela ter-lhe confiado aquilo fez o coração dele dar um pulo. Que diabo se passava com ele? Ele sempre fora uma pessoa segura e nunca tinha sentido nada daquelas parvoíces que ele atribui a pessoas sentimentais e fracas. Aquela rapariga fazia-lhe qualquer coisa.
Ginny olhou surpresa para Draco. Ele parecia incomodado com a confissão. Ela até notara um pequeno rubor nas bochechas pálidas dele.
Os olhos dele encontraram os dela, quando ele decidiu virar a cabeça. Ela olhava-o com curiosidade. Aquele olhar era atraente e ele sentiu-se ficar preso por aquele campo magnético que tinha surgido em torno deles. Ele sentia uma forte necessidade de fazer uma coisa que ele não devia fazer, mas aqueles olhos chamavam por ele.
Ginny viu os olhos cinzentos dele olharem-na perigosamente. Mas ela não sentia medo. Era quase como se ela soubesse o que ele queria fazer e ela também queria que ele fizesse, e isso reflectia-se nos olhos dela, que o desafiavam.
Draco agarrou-a e puxou-a para si. Sentiu o corpo molhado dela encostado ao seu igualmente encharcado. Os lábios dela estavam frios e trémulos, o corpo dela gelado e tenso. Ele beijou-a com força, mas não rudemente. Interiormente ele amaldiçoava-se por não ter resistido, mas a lembrança dos lábios dela não lhe saia do pensamento. Ele tinha que prová-los novamente. Mas não se ficou só pelos lábios. Sentiu uma necessidade de ir mais além e deslizou a língua por entre seus lábios. Ficou surpreso por ela não oferecer resistência e beijá-lo de volta com tanta necessidade como ele.
Durante aqueles momentos, esqueceram o mundo em volta deles. Ginny acariciou a nuca dele enquanto ele a apertava contra seu corpo pela cintura. Ficaram se beijando por vários momentos e nem sentiam vontade de se separar. Deixar de sentir os lábios do outro era como arrancar uma parte de si.
-Malfoy, eu vou te matar!- eles ouviram alguém gritar e afastaram-se abruptamente. Olharam para a ponte e lá em cima estava um Ron com as faces tão vermelhas que não se distinguiam do cabelo, e Bill, que não parecia nem um pouco chateado.
-Pára com isso, Ron!- Bill tentou acalmar o outro.
-Aquele verme está beijando a nossa irmã e tu não fazes nada a não ser dizeres para parar com isto? Aquele monte de lixo está ali tentando aproveitar-se da inocência da nossa irmã...
-Ron, não podemos pensar nisso agora.- Bill disse autoritariamente. Ron respirou fundo e olhou zangado para Draco antes de se virar para o cadáver de Nott.
Draco caminhou na direcção deles sem olhar para Ginny. Esta seguiu-o sem saber bem por quê. Caminharam em silêncio até perto dos irmãos Weasley.
Draco explicou porque teve que matar Nott, ocultando o facto de não saber que a vítima era Ginny. Depois foram para Grimmauld.
Draco jantou com eles. Ron passou a noite olhando para Draco como se o quisesse matar.
Eram raras as noites em que Ginny dormia na Toca. Como estavam passando por um momento crucial da guerra, passavam grande parte do tempo em Grimmauld. Geralmente, depois do jantar ficavam discutindo novas estratégias. Ginny não estava com cabeça para isso e saiu, foi até seu quarto e ficou olhando para a lua pela janela aberta. Nem reparou que a porta do seu quarto também estava aberta.
Do corredor, Draco Malfoy observava-a. Ela era a mulher mais bonita que ele já tinha visto. Uma bela mulher de vinte anos que não lhe saia da cabeça. Ele conhecia-a desde que tinha doze anos e nunca lhe prestara grande atenção. Então porque é que agora nem conseguia deixar de pensar nela? Por que é que o seu coração batia tão depressa quando estava perto dela? Por que se sentira tão estupidamente apaixonado quando a beijara nessa tarde?
-Eu não estou apaixonada por ele!- ele ouviu-a murmurar.- Não posso estar! Ele é Draco Malfoy, por Merlin! Ele só me beijou porque me deve achar bonita, mais nada.
Não, ele não a beijara só porque ela era bonita. Esse pensamento de defesa ocorreu-lhe instintivamente e ele surpreendeu-se ao perceber que era verdade. Então por que a beijara? A resposta também apareceu sem ele se aperceber. Aquela rapariga tinha lhe tirado uma coisa. Ela tinha lhe roubado o coração quando o capturara, quando o ajudara, quando sorrira para ele, quando ele encontrara aqueles olhos castanhos olhando para ele.
Ele achava-se patético por se sentir daquela maneira, aqueles sentimentos eram para Hufflepuffs, não para um Slytherin. Mas ele sentia-se tão bem! Parecia que estava voando em algumas nuvens, mas ele não lhe podia confessar isso. Ela apenas se sentia atraída por ele. Ela própria acabara de dizer que não queria estar apaixonada por ele. Afinal o que poderia ele lhe dar? Ele não tinha nada. Era mais pobre ainda que ela. Que ironia da vida. Ele que sempre a humilhara por ser pobre, tinha agora menos que ela e tinha sido ela a dar-lhe o pouco que ele tinha. Que situação, Malfoy. Não, ela jamais estaria apaixonada por ele.
Ele fechou a porta lentamente e foi para o quarto que tinham cedido para ele passar aquela noite.
Ginny sentiu o trinco da porta e virou-se de repente. Não estava lá ninguém. Já estava ouvindo coisas. Estava na hora de ir dormir, descansar para ver se deixava de alucinar.
