Capítulo 08

Haruka estava em sua sacada, cantarolando tranquilamente e regando as flores. O dia era ensolarado, mas no Assiah, no Japão, agora era inverno, devia estar muito frio... Frio, como gostava do frio. Era tão divertido ver a neve caindo, as pessoas se divertindo no gelo e comemorando festividades do fim do ano... Ela olhou o horizonte e um vento ameno passou por sua face, então, adentrou o quarto e pegou um livro enorme, abrindo-o.

Lendas Humanas

"Deus deu aos humanos apenas uma asa, porque um ser apenas seria um ser incompleto. Para que um dia pudessem voar em liberdade deveriam procurar sua outra asa e, assim, seria finalmente completo. "

"... Como seria ser humana...? Após tantos anos... Todas as batalhas e todo o sangue... Apesar das diferenças... Os humanos e os demônios também são como nós, não...?" Ela pensou consigo mesma enquanto virava as páginas olhando algumas figuras estranhas da mitologia humana, mas logo perdeu o interesse e fechou o livro.

A pequena anjo caminhou até o guarda-roupa e escolheu uma saia preta que ia até acima dos joelhos e uma camisa de abotoar branca de mangas longas. Quando estava vestindo a camisa sentiu uma brisa adentrar o quarto...Vinha da sacada... Mas ela havia fechado a porta da sacada! Haruka se virou para a sacada e se deparou com um jovem anjo ruivo que havia acabado de abrir a porta e agora estava paralisado, com a face corada. Quando seus olhares se encontraram, ambos se viraram de costas um para o outro.

-... Desde quando está aí, Mika-chan? – A menina perguntou, tentando parecer tranqüila, enquanto abotoava sua camisa.

- Desde agora, oras! Achou que eu tava te espiando, é? – Retrucou o jovem num tom emburrado e deslocado que fez a menina rir.

- Não, não... O que veio fazer aqui? – Ela terminou de se vestir e olhou em direção a sacada novamente, o garoto ainda estava de costas, olhando pro nada, encostado no vidro da porta.

- Ah. Quer dar uma volta no Assiah? Acho que vou descer lá. – Disse o ruivo distraído e uma mão tocou seu ombro fazendo-o se virar e se deparar com uma menina de cabelos curtos sorrindo.

- Claro!... Mas... Você é um dos Sete... Tem certeza que não tem problema descer ao Assiah assim?

Michael abriu um sorriso sarcástico e pulou para o apoio da sacada, abrindo as asas e dizendo num tom muito energético:

- Hah! Tá pensando que eu sou quem?! Ninguém dá ordens ao Grande Anjo Guardião do Fogo, Michael, líder do grupo rebelde de Atziluth!

A menina riu baixinho e empurrou com o dedo indicador a perna do garoto que quase perdeu o equilíbrio e ela completou:

- Então, devo avisar ao Senhor Grande Anjo Guardião do Fogo, Michael, que agora é inverno no Japão e é bom se agasalhar. – Ela mostrou a língua de modo travesso e adentrou a casa novamente, fechando a porta da sacada e as cortinas, o que fez o jovem anjo ruivo corar levemente.


Ainda era tarde, mas o dia mostrava um céu nublado e, provavelmente as comemorações do almoço eram feitas na casa naquele dia, pois as ruas estavam quase desertas. Um casal de jovens, uma menina que aparentava ter 14 anos e um jovem baixinho com 16, talvez 17, andavam pelas ruas sem preocupações.

- Que vamos fazer? – Perguntou a menina olhando as ruas enfeitadas, mas ainda não brilhantes.

- Sei lá. O que der vontade, né? – Disse o jovem ruivo se espreguiçando.

- Ah... E o que seria isso, Senhor Anjo do Fogo? – A menina riu ao usar entonação no modo de chamá-lo.

- Não zombe de mim! – Michael já estava começando a se irritar.

- Tá bom, tá bom... Foi só uma brincadeirinha... – Haruka sorriu e começou a olhar uma vitrine de uma loja que estava fechada, mas tinha várias bichos de pelúcia, então ela parou.

Michael continuou andando e demorou um pouco a notar que ela não estava ali, então ele voltou e começou a olhar a vitrine, sem interesse.

- Que foi?- Perguntou o Anjo do Fogo, olhando a menina olhar a vitrine com um olhar muito infantil.

- Olha lá, Mika...! – A boca da menina foi tapada antes que ela dissesse o apelido do jovem.

- Não me chame assim em público, entendeu? – Michael soltou a boca da menina.

-... Tá bom... Particularmente ainda pode, né?

Michael fez uma careta e a menina riu e voltou a apontar a vitrine.

- Olha lá! Esse urso branco. Não é lindo? – Ela sorriu como uma criança de verdade.

-... Com certeza, você é muito mais infantil que eu... – Ele suspirou e olhou o urso de pelúcia para qual ela apontava. – Por que diz isso? Cê quer um, é?

- Hm... Não tem como. Não tenho dinheiro do Assiah e a loja está fechada. – Ela suspirou em desânimo, passando o dedo indicador no vidro.

- Pra que a gente precisa disso? Faz assim, ó. – Michael deu um soco no vidro, quebrando a vitrine e pegando o urso, já que não estava longe e entregou-o a menina. – Tó.

Haruka estava perplexa, olhando a vitrine quebrada, o urso em seus braços e ouvindo o alarme tocar... O alarme!

- AH! Vamos sair daqui!!! – A menina gritou e puxou Michael, saindo correndo e entrando num beco escuro.

A garota ainda ficou olhando para se certificar de que ninguém os vira. Ainda bem que a rua estava vazia.

- Você é louco, Mika-cha...– A menina parou de gritar ao vê-lo lamber o sangue que escorria de um corte um sua mão, provavelmente por causa do vidro da vitrine. – Você... Se machucou...? – Ela pegou a mão do jovem para ver o corte.

- Isso não é nada. Só lamber que pára de sangrar. – Ele afirmou despreocupado. – Além do mais, por que saímos corre...?

Michael não pôde completar a frase porque as palavras sumiram de sua boca, quando a viu levar os lábios até o corte da mão dele e lambê-lo. O anjo só pôde sentir um arrepio, o que estava acontecendo?!

-Me desculpe... Você pegou o ursinho para mim e eu ia gritar com você, sendo que você até se machucou por isso... Me desculpa, tá...? – Ela disse assim que o corte parou de sangrar. (Não demorou muito, não... xD)

-... Pára de dizer besteira. Não tenho nada porque te desculpar. Vamos sair daqui, se alguém descobrir a gente, é só eu desaparecer com ela rapidinho. – Ele sorriu sarcástico.

- Tá...Mas, obrigada pelo presente! – Ela sorriu e abraçou o ursinho com força.

-... Não sei o que você vê nesse bichinho... – Ele olhou atravessado para o ursinho, sentindo uma pontada ao vê-la agarrada ao bichinho daquele modo.

- Ah, eu gostei muito! Adoro bichinhos de pelúcia. – Ela sorriu e andou de volta para a calçada normal.

-... Assim até parece que eu fiz algo de mais. – O ruivinho ergueu os braços se espreguiçando e depois colocando os atrás da cabeça, como que de apoio.

- Ah, e fez sim... Assaltou uma loja. – A menina abafou os risos.

-... Você me adora pra dizer essas coisas, né... – Disse o garoto fazendo careta.


Havia multidões de pessoas pelas ruas da cidade naquela noite de fim de ano, todas espremidas e barulhentas, Michael odiava aquilo, era irritante, os humanos.

- Argh! Odeio isso, não sei como eles conseguem viver assim. – Ele disse tentando atravessar entre milhares de pessoas e quando olhou a companheira, notou que ela nem havia se quer ouvido-o.

Haruka estava distraída olhando as vitrines das lojas enquanto carregava o ursinho em seus braços, mais vendo o seu próprio reflexo do que as coisas ali expostas. Estava vestindo um casaco bege que era um pouco mais curto que sua saia preta, uma meia-calça branca e as botas iam até um pouco abaixo dos joelhos. Olhando seu reflexo, percebeu a agitação do amigo e se virou para ele.

- Disse algo? – A menina logo começou a rir, não conseguia nem ouvir a sua própria voz no meio de tanto barulho.

Michael fez uma cara de quem não tinha entendido e começou a falar algo, logo vendo que não podia ser ouvido, então apenas pegou a garota pela mão e puxou-a. Ele usava preto da cabeça os pés, um cinto preto no estilo de faixa na cabeça mas, como seu cabelo era bagunçado, o acessório quase desaparecia, e seu casaco não estava fechado, a camisa de abotoar que usava por baixo era branca com uma gravata bem larga também preta, além das luvas que não cobriam os dedos. (Entendem? Ele faz isso por estilo, não por frio...)

Eles chegaram até uma paca que tinha seu portão fechado, então Michael sinalizou para que ela pulasse a grade. Ela o encarou e balançou a cabeça negativamente, ele coçou a cabeça e fez uma careta de emburrado, então pulou em cima da grade e puxou a menina pela mão, colocando-a sobre seu ombro e descendo do lado do parque, ignorando as batidas em suas costas. Quando chegaram no meio da praça, onde não tinha barulho, ele a desceu e Haruka começou a bater em seu tórax.

- Mika-chan! Se estava trancado não podíamos entrar! É proibido fazer isso no Assiah!

- Em primeiro lugar, pare de me bater. – Michael segurou as mãos da garota e sorriu sarcástico. – Segundo, não podíamos, agora já entramos. E terceiro, em qualquer lugar é proibido entrar em lugares trancados, seja no Assiah, no Mundo Celestial ou no Jahannam. – Ele soltou as mãos de Haruka e se jogou no banco da praça de modo relaxado.

Haruka olhou para os lados, fingindo preocupação, mas, na verdade, estava achando tudo muito divertido, então suspirou vendo a fumaça branca subir, depois se sentou ao lado do jovem ruivo, cantarolando algo, muito contente.

A praça estava completamente vazia, suas árvores e postes de luz ornamentados estavam brancos, assim como todo o chão e o lago que havia ali perto, menos o banco e o caminho que não se encontravam cobertos de neve.

Michael olhava o céu nublado com tédio, estava de braços e pernas abertas, ocupando boa parte do banco, a menina, por pura curiosidade, olhou o céu também.

- Ah! Está nevando!! – Haruka observou, abrindo um sorriso contagiante.

- Hm?... Verdade. – Michael observou as pequenas pétalas brancas que caiam do céu, até ouvir a menina espirrar e se virar, vendo seu rosto corado. – Tá tudo bem? Cê tá corada. – Ele colocou uma mão na testa da menina e outra eu sua para comparar as temperaturas. (Ele deve estar sempre quente O.o)

Haruka sentiu seu rosto corar mais, mas ela sabia que não era por gripe, ou qualquer coisa assim.

- Não, não! Eu estou bem! – Ela sorriu um tanto nervosa, tentando não fitar os olhos do jovem.

-... Haruka... – Ele mostrou uma expressão deslocada, parecia nervoso, mas tentava disfarçar. – Como se faz... Para usar as palavras...?

- Usar... As palavras?... – Ela pensou por um instante. - Não sei se isso responde a sua pergunta, mas... Quando você quer ou precisa dizer algo, acho que o mais importante é ser sincero e dizer aquilo que realmente pensa. – Ela abriu um sorriso meigo, eles ainda estavam paralisados com Michael comparando a temperatura dos dois.

- Uhn... Entendo. – Ele baixou a cabeça, retirando a mão de sua própria testa é a apoiando no encosto do banco, enquanto que com a mão que estava na face dela, ele escorregou-a, acariciando a face da menina suavemente e fazendo-a corar.

- M-Mi... Mika-chan...? – A menina podia sentir seu coração acelerar e seu rosto corar mais.

Michael aproximou seu rosto ao dela, vagarosamente. Ele não faria nada se ela não desejasse também, mas provavelmente morreria por vontade de tê-lo feito depois. Sentia que ela não estava afastando, então os lábios deles se encostaram, na hora a menina teve uma pequena reação de se afastar um pouco, mas Michael aproximou-se novamente e tomou os lábios dela num beijo suave, diferente do primeiro. Por dentro, sentia a louca vontade de intensificar o beijo e puxá-la para si, mas não pretendia afastá-la dele como naquele dia. Ela apartou o beijo, tentando fugir, mas o Anjo do Fogo podia sentir que ela não desejava se afastar, então, deu apenas um leve beijinho e se afastou um pouco para encará-la nos olhos.

- Eu... Te amo, Haruka. Não pretendo estar ao seu lado apenas como um irmão ou um amigo.

A jovem anjo arregalou os olhos, sua face estava completamente corada e lágrimas inundaram seus olhos. Ela se afastou bruscamente, se levantando do banco e virando de costas. "Não... Não é verdade. Não pode ser." Ela repetiu para si mesma, juntando as mãos, como uma prece desesperada enquanto suas lágrimas desciam por sua face. "Não vou deixar isso acontecer."

- Haruka...? Cê tá bem? – Michael ia se levantar do banco, mas a menina se virou para ele cabisbaixa, parecia fria.

-... Eu gosto muito de você, Mika-chan... Mas não posso gostar de você assim... Eu sei que... Passamos muito tempo juntos... – Ela levantou a cabeça e abriu um sorriso fraco, forçado. – Mas, tenho certeza, que eu não sou a pessoa certa... A pessoa para quem você deveria dizer isso...

Michael sentiu-se congelado, como se o tempo tivesse parado para aquela sensação se espalhar por todo o corpo lentamente, dolorosamente. Era assim...? Ter um "não" tão claro como resposta? Então por que ainda podia sentir que seu sentimento por ela em nada mudara...? Mas, pode claramente sentir aquela dor... De sentir que não eram necessárias aquelas palavras, se elas jamais tivessem algum efeito. Tudo poderia continuar o mesmo se esquecesse aquele sentimento, então por que dissera, apesar de ser tão claro que ela não tinha intenção de corresponder isso?

O silêncio perdurou entre os dois por um longo tempo. Michael se levantou e abriu as asas, sem dizer uma palavra, não era necessário, era claro... Claro como água... Como jamais poderia ter sido. Em pouco tempo, Haruka estava sozinha. Eram lágrimas ou pétalas brancas que caiam do céu? Era dor ou alívio o que sentia pelo fim de sua última alegria? Ela se jogou ao banco da praça e apertou o urso de pelúcia num abraço...Ou seria apenas para abafar os seus soluços tão altos...?

-... Eu te amo, Mika-chan...! Te amo, te amo, te amo muito...! Me perdoe, me desculpe... – Ela sussurrou entre lágrimas e soluços para o nada.

"Deus deu aos humanos apenas uma asa, porque um ser apenas seria um ser incompleto. Para que um dia pudessem voar em liberdade deveriam procurar sua outra asa e, assim, seria finalmente completo. "

Por que anjos e demônios possuem duas asas completas...? Se no final, somos como os humanos. Procurando loucamente por pedaços que nos faltam? De nada servem as asas, se ainda assim, somos um coração e uma mente apenas. De nada servem as asas, se ainda assim... Não pudermos fazer compreender... Que somos tão humanos quanto eles mesmos...


Yo! Cá estou eu no 8º capítulo e parece que ainda vai longe xD

Espero que aproveitem, mandem críticas e comentem o quando quiserem deixando uma review pra esta autora aqui... É um apelo dela, ok?

Até a próxima!