Capítulo 09
Raphael estava em seu consultório aos beijos com uma bela mulher, mas sentiu uma aura se aproximando, alguém que era bem lógico de quem se tratava. O Anjo do Fogo apareceu em seu consultório ali na janela.
- Cê é nojento, seu médico pervertido. – Disse o garoto que carregava sua espada no ombro.
- Ué, voltamos à rotina? Você só entrou em meu consultório normalmente uma vez, não...? Milagres não se repetem, que pena. – Disse Raphael, dispensando a mulher. – Achei que estaria com a Haruka-chan.
-... O que faço da minha vida... Não é da sua conta. – Michael sentou-se na mesa, enquanto Raphael ajeitou-se em sua poltrona.
- Ora, ora... A princesa recusou o pedido de casamento formal do príncipe rebelde, foi...? – Raphael foi levantado pela gola ao dizer isso.
- Pára de ficar dando de vidente. Isso me dá nos nervos!
- No final, ela realmente não te contou, não...? Onde ela está? – Perguntou o Anjo da Virtude com paciência. (Tinha de ser o Anjo da Virtude, né? O.o)
-... Não sei... A última vez que vi ela... Foi no Assiah... – Ele desviou o olhar que guardava uma profunda mágoa.
- Já descobri que foi lá que as coisas terminaram assim... Espera aí... No Assiah? Japão? Lá não é inverno?! Você a largou sozinha no inverno do Japão?! – Raphael encarou o amigo com um olhar surpreso.
- Qual o problema? Há essas horas ela já deve estar na casa dela, oras... Já passou uma noite. – Disse Michael sem entender.
- Vamos a casa dela, agora! – Raphael abriu um portal e em questão de segundos eles estavam à porta da casa da menina.
- Ei! Dá pra me explicar o que tá acontecendo?! Por que ficou tão preocupado do nada, hein? – Perguntou um Michael irritado por ser ignorado.
Raphael bateu a porta e chamou pela menina, não havendo resposta, eles arrombaram a porta, não havia ninguém dentro da casa. Michael pôde sentir o desespero começar a invadi-lo lentamente, para onde Haruka tinha ido?
- Isso é mau... Mika-chan, onde vocês estavam no Assiah? – Raphael perguntou, puxando-o para fora da casa já.
- Tá, não sei o que tá acontecendo, mas eu te levo lá. Vamos logo, então! - Michael abriu as asas.
Raphael e Michael estavam paralisados diante do mesmo banco onde Haruka e ele estiveram na noite passada... O problema? Era que ela ainda estava lá. Estava sentada, havia flocos brancos por todo seu corpo, olhos fechados, abraçada ao ursinho, havia marcas de lágrimas em seu rosto... Michael estava extasiado com a imagem a sua frente, acariciou a face da menina, estava gelado... Muito gelado... Gelado demais.
-... Haruka...? Haruka...! – Michael a balançou suavemente. – Haruka!! Isso não é uma brincadeira! Me responda, agora!!! – O desespero crescia dentro dele e seus olhos tinham uma expressão de pavor que Raphael nunca vira.
- Mika-chan! Pare... Deixe-me ver como ela está. – O anjo loiro afastou o amigo e fez alguns exames simples. – Ela não está morta... – Raphael suspirou aliviado.
- Faça algo! Vamos para o Atziluth! – Michael pegou-a nos braços e levantou vôo.
O sol já estava se pondo, o vento que passava era fresco, os pássaros cantavam como um dia ordinário. Havia demorado para Raphael deixar visitas abertas para Haruka e isso não havia ocorrido em seu consultório, o atendimento ocorreu na própria casa da garota, para maior comodidade. E só houve uma pessoa que não deixava o lado da porta da casa (arrombada) de maneira alguma, alguém que o Anjo da Cura não arriscou nem ao menos deixá-lo na sala, pois sabia que se o fizesse, ele não agüentaria ficar somente na sala.
- Já pode ir vê-la, Mika-chan. – Disse o jovem loiro, saindo da casa.
-... Escuta... Esse tal grande segredo... – Michael lançou um olhar desconfiado ao amigo, este sentiu-se sem escapatória, imaginando que o garoto sabia do que se tratava. – Tem a ver com... Você saber tanto dela?
Raphael quase caiu ao chão pelas palavras do amigo, como ele podia ser tão desligado? Não juntara os acontecimentos desde que conhecera a menina? Não percebera nada olhando nos olhos melancólicos e a pele tão pálida da menina?... Ah, Michael não era esse tipo de pessoa. Raphael coçou a cabeça, tentando assimilar pela milésima vez a infantilidade e falta de percepção sobre certas coisas de Michael.
-... Acho que a Haru-chan já não tem mais escapatória, então não vou contar... Ela mesma vai te contar, se isso desejar. – Disse o loiro acenando ao continuar a caminhar.
Michael adentrou a casa e olhou as escadas, sentindo seu coração palpitar, o único som que podia ouvir. "Só mais alguns degraus... Do que cê tá com medo, ahn? Anda logo, besta..." Ele andou, subiu os degraus sem pressa, tentando conter sua ansiedade explosiva.
O quarto estava como sempre, bem arrumado. Um vento refrescante adentrava, arejando-o, Raphael havia deixado a sacada aberta? O pôr-do-sol tornava tudo suavemente alaranjado. O Anjo do Fogo caminhou até a cama e lá estava a menina de olhos fechados, dormia apenas...?
-... Haruka... Cê tá me ouvindo...? – Disse o garoto se sentou na cama, não suportava vê-la assim. – Ei... Pra que você ainda tava lá naquele lugar, hein? – Ele perguntou, tentando parecer como se fosse um dia qualquer.
Sua resposta foi apenas silêncio, e aquilo, por algum motivo o irritava. Então, ele apenas passou as costas da mão suavemente pela face da menina, estava tão pálida. Para dizer a verdade, sempre fora muito clara. O jovem se aproximou e pousou um dedo sobre os lábios dela.
- Você diz... Que não gosta de mim do mesmo modo que gosto... E que eu estava enganado... Se não fosse nada, por que cê correspondeu a todos aqueles atos de loucura? – O Anjo do Fogo se esforçava para dizer aquilo que pensava com todas as letras.
Novamente o silêncio veio em resposta e um vento mais forte adentrou o quarto, balançando as cortinas com força e os cabelos dos dois também.
- E, por que ainda não consigo deixar de sentir isso...?
Haruka abriu os olhos, ainda era madrugada... Quase amanhecendo... Estava em seu quarto. Mas não se lembrava de ter chegado ali, estava na praça, seu rosto estava encharcado por lágrimas, estava abraçada ao ursinho branco e... Sentiu que o ar faltava... Depois disso, tudo era escuridão, não mais escuro que sua alma agora. As lágrimas vieram aos olhos e ela cobriu-os com uma mão, mentira para ele. Mentira sobre o único algo de real valor que guardou dentro de si e agora sim, tudo estava terminado. Não precisaria ter medo de seu destino, estava tudo decidido, tudo caminhando conforme os passos que ela havia traçado para si mesma.
Ela limpou as lágrimas e se sentou na cama, percebendo que o ursinho branco estava ao seu lado, trouxe-o para si, abraçando-o com força, olhou a volta, a sacada estava aberta, a noite parecia tão bela, queria vê-la de perto. Colocou os pés descalços no chão, a sensação da falta de firmeza era como se sentia, tanto fisicamente quanto interiormente, completamente abalada, fraca e indefesa, nada parecida com a Haruka energética, infantil e travessa de sempre.
A anjo sentiu uma brisa refrescante adentrar o quarto e se levantou, precisava viver mais um pouco, precisava de só mais uns últimos sorrisos, uns últimos dias de felicidade... Um pouco mais de tempo para despojar egoísmo? Talvez... Mas precisava... Precisava explicar um pouco mais de coisas inexplicáveis para ele, mesmo que ele jamais olhasse em seus olhos de novo... Precisava dividir um pouco mais de tempo com ele, mesmo que nunca mais as palavras fossem as mesmas... Precisava mostrar... Que nunca teve a intenção de dizer tais palavras... Mesmo que... Sua pele jamais sentisse o abraço caloroso de seus corpos e que a visão embaçada por lágrimas de emoção se secasse afogada em tristeza...
Sua mão pequena tocou o apoio gélido da sacada, enquanto a outra mão apertava o bichinho de pelúcia contra o peito. O vento era carregado de certa umidade e seus pés pisavam pequenas poças de água, mostrando que a chuva caíra antes que acordasse. Mas o céu era tão estrelado e belo, não havia sinal algum de chuva.
-... Depois da chuva... O céu fica tão bonito e estrelado... – A menina disse para si mesma.
- Aaaah! Então cê acordou, é? – Um ruivo apareceu cara-a-cara com a menina, o problema era que estava de ponta cabeça.
- Mi... Mika-chan?! O que você está fazendo aqui?! – A menina perguntou após dar um pulo de susto para trás com o rosto corado.
O jovem deu uma cambalhota, pulando do telhado, onde estava preso pelos pés, para o apoio da sacada e sorrindo sarcástico. Os cabelos, os googles que usava, sua roupa sempre preta, a camisa aberta, os shorts e as botas, estavam todas encharcadas.
- Tava esperando cê acordar, oras... Pra que eu ficaria aí em cima do telhado até agora? – Disse o jovem anjo se espreguiçando. – Nossa, que saudade de matar uns demônios por aí.
- Ah... Espera... Eu... Acordar? Desde quando estou dormindo? E... Eu não estava na praça? – Haruka perguntou confusa.
-... Nós fomos te buscar... Pra falar a verdade, não acredito que ficou lá a noite toda. – Michael sentiu a mão estremecer, ainda podia sentir a falta de calor da pele gélida... Quase morta.
- Foram ao Assiah me buscar? "Foram" quem? – A menina tornou, ainda surpresa com tudo.
- Eu e o pervertido... Depois te trouxemos pra cá e... – Não precisou terminar a frase, a menina apoiou seus braços no apoio da sacada, olhando o céu.
-... Obrigada, Mika-chan. – A menina disse em tom baixo e viu que Michael se virou para olhar a paisagem também. –... Eh... Por que você está todo molhado?
- Já falei que estava te esperando do lado de fora da sua casa? –O jovem disse tranqüilo enquanto passava a mão nos cabelos, tirando a água.
- Você é louco... – Ela sorriu e encostou a cabeça no ursinho.
Michael sentou-se no apoio olhando a paisagem sombria das árvores e das torres principais do Atziluth, era uma bela, porém melancólica paisagem da noite, jamais presenciada por olhos completamente humanos.
- Mika-chan... Quando morremos... Nós nos tornamos uma estrela...? – A menina perguntou enquanto o vento passou por seus cabelos desalinhados por ter acabado de acordar.
- Hã...? Do que cê tá falando? – Michael perguntou, sem entender, olhando para ela.
- Ah... Eu li em algum livro sobre as lendas dos humanos... Que alguns acreditam que quando morrem, se tornam uma das estrelas no... – Ela não terminou a frase, Michael encobriu suas palavras.
- Cê não precisa se importar com isso. – Disse Michael olhando para o longe novamente.
- Ahn? – Quem tinha um olhar confuso no outro agora era ela.
- Cê não precisa ligar pra essas coisas... Cê não vai morrer cedo. – Ele encarou a menina.
-... Ninguém sabe quando a Morte se aproxima, Mika-cha... – Ela não continuou a frase, pois o olhar do garoto era muito sério e diferente do comum.
- Cê não tá entendendo... EU não vou deixar que você morra. – Ele fitou os olhos dela, com seriedade e maturidade que ela nunca vira nele, transpassava até certo ódio, como uma pessoa super protetora que no fundo dizia "se alguém te machucar, eu mato essa pessoa até não sobrar nada dela".
A menina sentiu seu rosto corar, nunca tinha visto aquele olhar nos olhos de Michael, na verdade, nos olhos de ninguém. Era uma determinação que ia muito além de simples coragem ou proteção. A força do olhar dele a fez sentir se importante, porém, pequena e indefesa, ela não desejava aquilo. Haruka afastou alguns passos e escorregou no chão molhado e, ao tentar se segurar em algo puxou a mão de Michael que tentara ajudá-la, então ambos caíram ao chão da sacada, com Michael sobre ela.
-... Ai, ai... Isso dói... – A menina disse de olhos fechados e, ao tentar se levantar percebeu que não podia, então abriu os olhos surpresa.
Michael ainda estava sobre ela, seus rostos estavam incrivelmente próximos e ele segurava a mão dela colada ao chão. Ele a fitava no fundo dos olhos assustados, mas no olhar dele não havia temor ou hesitação.
- Mi... Mika-chan, v-você é pesado... E está me deixando mais molhada. – Ela riu sem graça, enquanto seu coração acelerava e seu rosto corava.
- Por quê...? Apesar de estar tão na cara... Não preciso nem prestar atenção em como sua aura fica quando estamos juntos... Só quando estamos nos encarando, está escrito que cê gosta de mim e não é brincadeira... Por que... Apesar de estar tão claro, e cê também saber disso... Cê não consegue acreditar...
Michael disse num sussurro, sem se concentrar nas próprias palavras, não era isso que realmente importava, nada disso... Não precisava de Raphael para explicar aquilo, aquilo não tinha significados. O que era claro como água seria sempre como ela, transparente, porém ainda sensível, tátil...
O Anjo do Fogo abriu suas asas, fechando os dois, quase num casulo. "Olhe só pra mim... Pense só em mim... Assim como eu não consigo pensar nem olhar pra mais ninguém. Sim, eu sou possessivo... Mas pra mim, não importa o que aconteça, cê é só minha e não admito que seja de mais ninguém." Ele segurou suas duas mãos e ela o encarava assustado, dizia algo, mas ele não conseguia ouvir sua voz, não conseguia nem ao menos raciocinar.
Haruka não pôde fazer nada quando seus lábios foram tomados pelo fogo dos dele, era um beijo louco, erótico, mas ao mesmo tempo caloroso e transmitia carinho e proteção, ela apenas correspondeu ao beijo, não tinha mais para onde correr ou se esconder, não poderia mais fugir, afinal estava presa naquele "casulo" e agora, o único modo de descobrir se ali seria o seu refúgio ou se seria para sempre deixada apenas com a sua única asa falha como humana, a asa solitária.
Ela apartou o beijo com esforço, suas respirações eram ofegantes e ela tinha certeza de que se tivesse durado mais alguns segundos não poderia nem se quer apartar aquele beijo tão fogoso. As lágrimas vieram aos olhos, não podia contê-las, a visão do rosto dele se tornou embaçada, mas pôde ver o desejo e a paixão escrita em seus olhos. Tinha medo, mas não era dele. Poderia hesitar, mas não seria culpa dele. Tudo do que fugiria, poderia ser qualquer coisa, mas nunca mais seria do sentimento que tornava-a completa, mesmo que fossem só momentos.
-... Eu... Estou doente... – A menina disse com voz fraca.
Ela percebeu que a respiração ofegante dele cessou e aquilo a assustou, as lágrimas vieram com mais força, e a visão se tornou apenas um borrão, mas uma mão carinhosa limpou as lágrimas de seus olhos e ela pôde enxergar novamente. O olhar dele era carinhoso, era a primeira vez que vira um Michael tão diferente desde que o observava.
-... O Raphael pode te curar... Por que tá tão apavorada? – Ele sorriu e beijou a testa da menina suavemente, pela primeira vez em sua vida, Haruka se sentiu salva, tranqüila por dizer algo tão ruim.
-... M-Mas... Não é só isso, Mika-chan... – A menina disse, fechando os olhos, mais tranqüilizada, porém seus soluços não cessavam. -... Eu... Tenho pouco tempo de vida...
Haruka abriu os olhos e se deparou com um Michael surpreso e suavemente pálido. Estava com medo, a partir de agora ela estaria entrando num rumo completamente diferente, provavelmente estava mudando seu destino. E tudo dependeria apenas dele, estava se jogando do alto para os braços dele, mas o que não sabia era se ele a seguraria ou se tudo acabaria.
- Cê tá brincando, né...? Cê é saudável, ora... – Michael sentiu como se um peso caísse sobre ele.Os desmaios, as doenças tão pequenas e que ela pegara.
Haruka fechou os olhos, não podia pensar em nada mais para dizer, somente a única verdade que escondeu de tudo e todos. E que poderia transformar seu mundo escuro em luz e felicidade... Ou... Transformar seu pequeno nada... Em cinzas... Era possível ver a luz entrar por entre as penas das grandes asas de Michael, uma luz fraca e minúscula, luz da manhã, luz de um novo dia, um novo começo... Luz de esperança... E tudo parou novamente, nenhum som, apenas um suave vento passou pelos cabelos dos dois antes que a pequena e hesitante frase ecoasse afora...
- E-Eu... Estou... M o r r e n d o...
Continua...
Nossa, gente. Muitíssimo obrigada por lerem e mandarem review, não sabem como me anima! Estou muito feliz por ter forças para continuar.
Está ficando desesperador, não? Agüentem firme até o final, espero que continuem apreciando a história até lá.
Um pequeno detalhezinho... Gostariam que eu passasse a colocar título nos capítulos? Eu sei título para todos eles! xD
Por favor, críticas estejam à vontade e pelos elogios só me resta meu muito obrigada de coração.
Até o próximo capítulo!
