Capítulo 15
- Você deveria dormir, Haruka. – Uma voz conhecida disse, estava logo atrás dela.
A frase pairou no ar, como uma pergunta sem resposta. A menina não desviou o olhar do céu estrelado, não precisava fazer isso, sabia que a pessoa logo atrás dela não a faria mal. O vento passou suave pelos curtos cabelos da menina e ela apertou contra o peito o ursinho de pelúcia.
-... Mika-chan... Por que "Deus" fez com que os anjos também sentissem Amor?... Se deste doce mel foram proibidos de provar...? Por que "Deus" deu aos anjos a tarefa de zelar pelos humanos e pelo equilíbrio do mundo? Se eles se entristecem ao abandonarem seus sonhos para realizar uma tarefa...? – A menina se virou para o garoto, lágrimas escorriam sua face triste... Triste, porém bela. – Mika-chan... Somos... Somos fadados a uma tristeza eterna...? Por que "Deus" não deu a seus "amados" filhos, anjos, a felicidade ao invés de uma dolorosa tarefa...? Ou... Por que não nos tirou esses sentimentos para que não se tornassem dolorosos e assim realizássemos nossa tarefa sem problemas...?
Michael permaneceu a olhando ali na sacada. Estava digerindo as palavras dela?... Não, apenas a observava... Observava a luz do luar refletir sobre seu corpo, tinha medo de tocá-la e ver que era apenas uma fantasia... Mas seu desejo por tê-la em seus braços falava mais alto, não desejava perdê-la, nem teria vergonha ao dormir e acordar sentindo o calor de seu corpo. Então, ele a abraçou com força, beijando sua testa e a acolhendo em seus braços, fantasia ou não... Apenas desejava-a...
Por que foi dado sentimentos àqueles que não deveriam senti-los?
"Deus" desejava apenas vê-los sofrer? Seus "amados" filhos alados...
- Nada disso importa, Haruka... Se nunca aprovarem o que sentimos... Vamos rodar este mundo sem-graça atrás de qualquer coisa. E vamos esquecer de tudo, só eu e você. Juntos por toda eternidade. – Michael a fitou nos olhos, sorrindo carinhoso e limpou as lágrimas que percorriam a face de sua amada.
- Mika-chan... Você disse... Que, ao menos esses dois dias... Eu seria somente sua... Não é...? – Haruka escolheu suas palavras com cuidado, desviando o olhar dos olhos dele enquanto sua face corava.
- É, o que tem isso? – Ele sorriu largo ao ouvir as palavras dela e ver seu rosto corado.
-... Acontece que... Esses dois dias... Estão acabando... – A menina disse em tom baixo.
O tempo parou, nada se ouviu, nada se moveu... Michael sentiu um aperto em seu coração e fechou seus olhos vagarosamente. Encostou sua testa à dela e abriu os olhos novamente. Tão próximo não podia ver suas feições direito, então levou suas mãos ao rosto dela e acariciou sua face.
-... Eles ainda não acabaram e esse tempo me basta, por enquanto. – Ao final de sua frase, ele a beijou carinhosamente.
Haruka deixou o ursinho cair ao chão da sacada onde estavam. Queria apenas ele, queria senti-lo em seus braços novamente, acariciar sua face, beijá-lo, vê-lo rir... Fazê-lo feliz. Ela levou as mãos à nuca dele, puxando-o para mais próximo. Michael a pegou no colo, sem deixar que seus lábios se separassem, mas a menina apartou o beijo.
- O que está fazendo...? – Ela perguntou, enquanto sua face corava.
- Você precisa descansar. – Ele a deitou sobre a cama. – Mas só daqui a pouco... – Ele sorriu e voltou a beijá-la com fogo, desejava-a do fundo de sua alma.
Haruka não soube como reagir, de início tentou se afastar, mas Michael a prendeu contra a cama e a menina apartou o beijo novamente.
- Mika-chan... Eu não... – O rosto da menina estava completamente corado.
- Você quis dizer, sim. Do que está fugindo...? Afinal, cê também já admitiu, né? Você não vive sem mim, Haruka... – Michael disse com ar sedutor e beijou o pescoço dela, fazendo-a corar.
- N-Não seja convencido! – Ela tentou parecer brava.
- Haruka... Eu não agüento mais... E não vou esperar mil anos para te beijar de novo, pode ter certeza. – Ele riu, dizendo em tom de brincadeira.
Haruka também riu baixinho e Michael a fitou nos olhos. Haruka sentiu sua face corar, porém não desejava mais fugir, então apenas aproximou sua face à dele vagarosamente. Os lábios de Haruka lembravam o pecado. Tão macios e carinhosos, não poderiam pertencer ao céu, era uma sedução sem palavras ao desejo. Não sabia esperar para beijá-la, só desejava cada vez mais seus lábios, desejava que ela também o quisesse do mesmo modo. Suas mãos percorreram as costas da menina e encontraram o zíper de seu vestido, puxou-o devagar, vendo que não houve resistência da menina, ele apartou o beijo.
-... Haruka... – O Anjo do Fogo a olhou em seus olhos azuis profundamente.
-... Mika-chan...
(Deixemos a continuação pela mente de cada um.)
Um Michael dorminhoco usava praticamente todo o espaço da cama de casal, estava metade descoberto, o lençol e os travesseiros estavam todos amassados e esparramados pela cama. Ele levantou de repente, com cara de sono e baba escorrendo da boca. Esfregou os olhos entreabertos e olhou a sacada aberta por onde entrava um vento gostoso da manhã.
-... Haruka... – Foi a primeira palavra que veio aos lábios.
- Sim? – Uma menina de cabelos escuros e curtos que havia acabado de abrir a porta do quarto o olhou surpresa.
- Ahn...? Ah, nada... Só foi a primeira coisa que me veio à cabeça. – Ele limpou a boca e se levantou da cama.
Haruka corou levemente e desviou o olhar do jovem. Ele estava de shorts e o zíper estava aberto, mas ele nem se dera conta, então a menina riu baixinho se aproximando dele e sorrindo travessa, mostrando a língua. Michael sentiu-se arrepiado quando ela parou bem diante dele e colocou suas mãos em seu tórax. Ela foi passando os dedos indicadores até o meio do tórax e desceu-os, vagarosamente. O Anjo do Fogo não se moveu e sentiu sua face corar bruscamente. A menina sorriu para ele novamente e deu um suave selinho em seus lábios.
- Esqueceu de fechar o zíper. – Ela sussurrou para ele, enquanto puxou o zíper de seu shorts e fechou o botão, saindo aos pulos para fora do quarto, cantarolando.
-... Odeio quando cê faz isso... – Ele levou uma mão tapando sua própria face corada.
- A paciente está pronta para a "operação"? – Disse o médico loiro que adentrou a casa.
Michael e Haruka estavam sentados num sofá da sala, a menina tinha um livro aberto sobre as pernas e Michael estava ao seu lado, sentado de pernas cruzadas sobre o sofá ouvindo as observações da menina e lendo algumas partes que o interessavam (O que se resumia a quase nada.)
- Rapha! – A menina sorriu para o amigo e este apenas suspirou sorrindo.
- Acho que está pronta, sim... – Disse o Anjo da Cura. – Esteja lá no quarto quando estiver pronta, eu já estou subindo.
- Sim, senhor. – Ela sorriu carinhosa.
Raphael deixou a sala, deixando os dois a sós também. O silêncio perdurou por um tempo e a menina encostou a cabeça no ombro do garoto, este apenas passou o braço e a puxou mais para si, apesar do olhar dos dois não desgrudarem do livro.
- Está pronta? – Ele perguntou, enquanto seus olhos corriam as letras do livro, mas nada liam, sua visão estava muito mais distante que isso.
- Estou... Desde ontem à noite. – Ela o olhou e sorriu melancólica.
-... Vou te esperar pra sempre, Haruka. – Michael confessou num sussurro e beijou a cabeça da menina, virando seu corpo para abraçá-la.
Raphael pôde ouvir passos subir a escada e logo a porta do quarto se abriu. A menina adentrou o quarto, sozinha, e se sentou na cama.
- Que surpresa. Achei que o Mika-chan não fosse largá-la por nada. – O médico disse serenamente, enquanto se levantava da cadeira em que estava e se direcionou a cama. – Pode se deitar.
-... Eu e o Mika-chan... Não somos crianças... – Ela sorriu e se deitou.
-... Tem razão. São apaixonados! – Ele sorriu largo.
Raphael desceu as escadas até a sala... Foram-se horas. Michael estava deitado no sofá, com o livro aberto sobre o corpo e olhando o teto tediosamente, até perceber o médico se aproximar, então ele sentou no sofá, seus olhos apreensivos. Como o silêncio perdurou, as primeiras palavras que quebraram o silêncio foram as dele.
- Posso vê-la? – Foi tudo que seus lábios proferiram.
-... Pode... – Raphael passou a mão pelos cabelos, afastando a franja dos olhos.
Michael se levantou num pulo e se apressou em direção a escada, porém Raphael o segurou pelo pulso.
- O que há?! Me solta! – Michael gritou nervoso.
-... Ela não vai acordar...
O jovem Anjo do Fogo sentiu como se seu corpo despencasse ao chão, seus olhos se arregalaram para encarar os do amigo, que demonstrava a verdade. Precisava ir lá, precisava ver com seus próprios olhos. Michael puxou seu braço que era segurado e subiu as escadas.
-... Teimoso. – Raphael suspirou e subiu as escadas de volta ao quarto.
Michael estava parado diante da porta entreaberta. Raphael reconheceu aquele olhar em sua face, era carinhoso e acolhedor, porém melancólico e pareciam demonstrar certo medo... Outros dias, talvez, aquele olhar carinhoso e acolhedor trouxessem um sorriso verdadeiro à face daquele anjo explosivo.
O jovem ruivo suspirou, fechou os olhos e entrou. Raphael o seguiu e parou à porta. Michael estava com as mãos nos bolsos ao lado da cama, olhava certa pessoa deitada ali. Nenhuma lágrima percorreu sua face, nenhuma reação se esboçou em seu corpo... A dor o deixava imóvel e ele sabia que as lágrimas não seriam o suficiente para esvair essa dor que o partia em pedaços.
-... Ela está em coma, Mika-chan.
Michael estava inundado de sangue e apareceu na casa de Raphael, quebrando o vidro da sacada do quarto do jovem médico e entrou rindo e falando milhões de besteiras e idiotices.
- Raaaaaapha! Como cê tá? Ó, eu fui lá na fronteira caçar! Ó quantas coisas eu trouxe! – Ele sorriu largo, mas Raphael sabia que aquele sorriso, apesar de muito parecido com o de sempre, era um sorriso falso.
Eles discutiram, conversaram e brigaram. No final, só silêncio perdurou enquanto o dia se esvaia aos poucos ao longe.
-... Então... Como a Haruka está, Mika? – Raphael retirara o sufixo, pois depois de um tempo Michael quase tentara realmente matá-lo ao chamá-lo do mesmo modo que "ela".
-... Bem... Não visitei ela hoje ainda... Fui pra fronteira bem cedo. – O Anjo do Fogo respondeu, enquanto se virava de costas na cama do quarto do amigo para olhar melhor o pôr-do-sol, sujando os lençóis de vermelho.
- Não precisa visitá-la pra saber como ela está... Desde que decidiu manter o corpo vivo e fiz essa ligação entre vocês dois. – Raphael se sentou na cama, ao lado do amigo.
- É, eu sei. Cê já explicou um milhão de vezes. O meu coração e alma estão conectados ao dela, então "eu vivo por nós dois" para que o corpo dela não enfraqueça e mais aquele monte de baboseira... – Ele fechou os olhos, nervoso, tivera trabalho para aprender sobre aquilo.
- É isso mesmo. – Raphael sorriu orgulhoso. Quando se tratava dela, ele se empenhava ao máximo. Se dissesse a ele que uma planta rara e inventada pudesse acordá-la do coma, ele iria até o fim do mundo por isso. – Mika... Você sabe... Que o coma da Haru-chan é devido a ela mesma... Por que não tenta tirá-la do que a prende a seu desejo de continuar em sonhos...?
-... Porque foi ela quem decidiu "sonhar", não é? Eu to só esperando... Ela sair de lá. – Michael respondeu, enquanto olhava os últimos raios de luzes se esvaírem.
-... E se ela estiver precisando de uma ajuda...? Alguém que estenda a mão para guiá-la na escuridão ou num lugar amedrontador...? Alguém que mostre que ela é importante e que precisa voltar. E que, para isso, iria essa pessoa mesmo buscá-la até os confins dos Infernos...?... Com certeza, não sou eu quem ela está esperando. – Raphael se jogou na cama, deitando a cabeça sobre as mãos.
-... Rapha... Às vezes... Eu ouço o coração dela chorar... Às vezes... Eu acordo com lágrimas e não sei por que. Apesar de saber que ela está sofrendo... Eu não sei como fazer para secar suas lágrimas... Se elas não estão em sua face... Quanto mais penso, mais fico agoniado e sei que ela não ficaria feliz de me ver assim... Sei que ela vai voltar... É por isso que estou esperando...
Afinal... Não existe chuva que não traga sol...
Nem noite que não tenha fim...
Michael adentrou sua própria casa, por algum motivo, não tinha vontade alguma de entrar por outro lugar quando chegava ali, se não fosse à porta de entrada. Sua boca abriu e se fechou em seguida... Há muito tempo que as palavras que queria dizer não saiam de seus lábios. Nunca saíram, muito menos agora sairiam.
Ele apenas subiu as escadas devagar, passo por passo. O silêncio, o frio que ali perdurava... Não importa quantas vezes explodisse aquela casa, nem quantas vezes colocasse fogo em tudo... Aquele frio jamais sairia dali. O único momento em que aquela casa se aquecera, fora quando a voz dela ecoava pela casa, seus passos alegres, seus atos... Era a única coisa que aquecia aquele frio... Aquele frio que estivera dentro dele durante muito tempo e que fora degelado pelo carinho dela... E que voltara a congelar devido a falta dela...
Ele tomou um bom banho e saiu só de toalha, foi até o quarto e abriu a porta devagar. Na cama havia volume, aquele corpo ainda estava ali, estava quente e respirava, ele sabia. Se aproximasse, pararia ali durante horas, observaria seu rosto sem se cansar. Desejaria se afundar em seus braços, desejaria seus lábios, desejaria seu corpo só para ele... E, ao ver que ela não reagiria, desejaria se afundar em seus sonhos, colher as lágrimas que não escorriam de sua face e se desesperaria... Porque não saberia como fazer isso, não saberia como trazê-la de volta. E afundaria em agonia e desespero apenas...
-... O que você pensaria se acordasse agora e me visse só de toalha aqui no quarto, Haruka...? – Ele sorriu amargo, brincando com seus próprios sentimentos enquanto pegava sua roupa no armário.
Michael tinha seus olhos concentrados num livro. Era o livro que Haruka estava lendo para ele quando se despediram. Queria saber o que ela achava de tão interessante em lendas e mitologias dos humanos. Tornara-se seu hobby durante a noite, quando não saia da casa por não ter nada o que fazer e nem querer fazer nada. O jovem não havia dormido bem, não conseguia dormir direito. Logicamente não dividia a mesma cama dela, que era seu real quarto, ele estava no quarto ao lado e pensar que só uma parede física os separava era uma tortura, porque ele sabia bem que emocionalmente o que havia entre eles era um enorme abismo e que suas asas estavam cortadas e sangrando... Sonhara com isso. Por isso começara a ler. Lia até ficar exausto, o que não demorava muito, não era fã de leitura. Lia e depois se jogava em sua cama para acordar só quando o sol já estava no céu mostrando um azul imenso.
Horas e horas se passavam, ele folheava a página uma a uma, vendo romances inventados e reais, vendo histórias de aventura impossíveis e outras que realmente aconteceram. "Deus deu aos humanos apenas uma asa, porque um ser apenas seria um ser incompleto. Para que um dia pudessem voar em liberdade deveriam procurar sua outra asa e, assim, seria finalmente completo. " Essa história... Algo fez com que seu coração disparasse loucamente, porém, ele fechou o livro. Seus olhos já estavam cansados, assim como o corpo, devido à caçada.
Michael não conseguia dormir, algo o incomodava muito, seu coração e sua mente estavam inquietos... Após tantos meses, por que aquela inquietação voltara? Ele se sentou na cama e olhou a luz do luar que entrava pela sacada.
"Ela está te esperando..." Uma voz ecoou em sua mente. Não, não era verdade. Se realmente quisesse encontrá-lo, ela já teria aberto os olhos... Ele passara semanas apenas olhando-a dormir, esperando a longa noite terminar... E ainda não terminara! "Ela não pode enxergar o caminho..." A voz ecoou novamente e ele colocou as mãos em sua cabeça, bagunçando mais o cabelo.
Início do Flashback
Após a conexão que o médico Raphael realizara entre Michael e Haruka, o jovem ruivo passara dias segurando sua mão, esperando que acordasse... Nunca proferia uma palavra que trouxesse desespero a seu coração. Tentava conter sua louca vontade de gritar para que ela voltasse, ao invés disso, sempre que saia, ele avisava para onde ia e quando voltava sempre que entrava no quarto dizia com voz serena, como se ela estivesse ali o esperando:
- Tadaima...
Contava tudo que acontecia durante o dia, ria como se ela pudesse ouvi-lo. Mas ele nunca fora fã do silêncio. Aquilo o agoniava. Por isso, aos poucos ele se desapegou a idéia e se trancou novamente. Seus dias eram normais, para todos, ele era simplesmente o Mestre Michael baixinho e estourado. Mas ali, dentro daquela casa, naquele quarto... Ele era uma criança indefesa, um adolescente problemático, um adulto imaturo que não sabia controlar seus atos e nem diferir o que o magoava ou o que o deixava feliz.
Dentro daquelas paredes, a presença feminina e única que ele amava ditava seus sentimentos... Fora também, o sorriso vinha espontâneo, mas era falso. A dor apertava em seu coração, desejava mostrar seu mundo a ela, desejava estar sempre ligado a ela e queria que ambos dependessem dessa ligação para viver... Mas não era esse tipo que ligação que Raphael criara que ele desejava... Aquilo estava matando-o por dentro os poucos... Mas não a abandonaria... Mesmo que suas vidas se esvaíssem daquele modo... Queria tê-la eternamente... Puro egoísmo...? Ou um louco Amor...?... Provavelmente... Os dois.
Fim do Flashback
O Anjo do Fogo se levantou da cama e abriu a porta da sacada, um vento forte adentrou o quarto. Ele apoiou as mãos no apoio de concreto da sacada. "... Está tão escuro..." Desta vez a voz que ele pôde ouvir era dela. Seus olhos arregalaram e seu coração acelerou... Não podia ser verdade... "Cadê você...? Mika-chan...?" Podia ouvi-la soluçar... Estava chorando...
Michael correu para dentro da casa, escancarou a porta do quarto em que se encontrava e correu para seu próprio quarto, mas parou antes de abrir a porta... E se fosse apenas sua imaginação falando alto demais? Não desejava sofrer outra decepção ao abrir os olhos para a realidade... Já era cruel demais. "Mika-chan...?" Só podia ser, era sua imaginação... Não era possível que ela estivesse o chamando dentro de sua mente. Esse tipo de coisa não acontecia... Não para benefício do pecado de dois anjos se amarem.
"... Eu te amo, Mika..." A voz foi diminuindo.
- Não! Espera...! – Michael gritou para o nada e o desespero tomou conta de seu corpo.
Ao menos a voz dela... Mais uma vez... Outras e outras vezes... Não se importaria se fosse apenas ilusão... Desejava ouvi-la. Sua voz o chamando pelo apelido ridículo, mas quando saia dos lábios dela, soava importante e único, soava querido e amado... Ao menos, não sua última ilusão.
Michael escancarou a porta do próprio quarto. Por que a sacada estava aberta? Ele não se lembrava de tê-la aberto. Mas o que importava? Não era para isso que viera até o encontro de sua dor e agonia. Por que o ursinho estava ao chão? Estava sempre ao lado dela. E as cobertas estavam bagunçadas, afinal, o que havia acontecido?! Foi então que Michael reparou que a menina estava numa posição diferente da de sempre, seu rosto estava virado para o lado esquerdo e seu braço direito, o lado que o ursinho ficava, estava esticado.
O Anjo do Fogo se aproximou devagar e se sentou na cama. Ela não se movia... Por que aquilo acontecia quando estava mais perturbado e menos pronto para encarar algo? Ele afastou o cabelo que caia sobre a face da menina e acariciou seu rosto.
- Haruka... – Ele sussurrou, mas não houve resposta. - Haruka. – Ele sentiu seu corpo estremecer e a resposta não veio. – Haruka...! – As lágrimas desceram sua face e ele puxou a garota imóvel pela roupa. – Escuta aqui, sua baka! Eu não vou esperar todos esses mil anos!!! – Ele gritou, brincando com si mesmo, mas só o silêncio veio. -...!! Haruka... Me responda... – Ele a abraçou com força. – Não me deixa aqui... Não quero... – Ele sussurrou agoniado, como uma criança pequena. – Eu... Eu preciso de você... Não consigo... Não consigo viver assim...! – Muitas lágrimas rolaram pela face desesperada do garoto.
"... Quem...? Quem está me chamando...? Eu conheço... Essa voz...? Aqui é tão frio... Tão escuro... Alguém... Alguém me ajuda a sair daqui... Não quero ficar aqui..."
Soluços da voz feminina puderam ser ouvidos. Mas eram apenas soluços num vazio de escuridão. Nada podia se enxergar, era a perdição? O fim...? Ela não sabia, só não queria ficar ali. Precisava encontrar alguém, ela estava chamando por alguém, enquanto dormia e acordara chorando... Quem ela mesma estava chamando? Quem a estava chamando? Ela não sabia... Sabia apenas que era tudo escuro e frio... E cada vez mais fundo...
"... O que é aquilo...? É... "Luz"...? É tão linda..."
A luz passava por lá, algumas poucas vezes. Nunca se aproximava o suficiente para que ela pudesse mantê-la em suas mãos. Só de vê-la, podia sentir seu corpo se aquecer. Fazia tempo que aquela luz não aparecia. Fazia tempo que não enxergava esperança nem sentia calor...
A luz estava se aproximando... Aproximava-se cada vez mais. Ela esticou uma mão em direção a luz. Desejava senti-la. Queria sentir mais do seu calor acolhedor... Só de longe, o calor que ela trazia era confortador e agora que se aproximava cada vez mais era cada vez mais gostoso... Era como uma canção, uma melodia que embalava seu coração num doce balanço de felicidade...
A estranha luz tocou sua mão e foi descendo cada vez mais. Até que, como se a luz estivesse grudada a sua mão, o estranho brilho começou a puxá-la e tudo a volta foi clareando. A luz era uma mão, uma mão que estava a puxando. Deveria se soltar? E se fosse perigoso? Era melhor esperar mais, e se a mão só quisesse ajudá-la? Quanto mais clareava, mais podia ver. Era um garoto. Tinha cabelos ruivos. Uma tatuagem de um dragão roxo que parecia ir do rosto e descer até o tórax. Estava vestido todo de preto. Tinha olhos cor de mel. Sua mão era quente e carinhosa... Como a luz que era há pouco tempo atrás. O garoto se virou para trás e sorriu, constrangido. A menina se surpreendeu, mas sorriu também.
De repente tudo se tornou claro. Havia várias cenas. Ela teve a impressão de que já tinha visto todas elas... Ela olhou para as próprias mãos, podia enxergar a si mesma.
- Haruka...? – Uma voz a chamou e ela se virou.
Era apenas mais um dos "filmes" que passavam. Ela começou a observar todas as cenas, ela podia ouvir sua voz chamando o menino ruivo que estava sempre de preto.
- Mika... Chan...? – Ela repetiu, não estranhando aquele nome.
- Eu... Te amo, Haruka... Não pretendo estar ao seu lado apenas como um irmão ou um amigo. – A voz do jovem anjo ruivo disse em tom baixo, logo atrás dela.
A menina se arrepiou por inteira e se virou devagar para ver mais uma das cenas. Ela levou as mãos ao coração e sentiu as lágrimas virem aos olhos, um aperto que ela não compreendia de onde surgia. Outra conversa estava acontecendo atrás dela e ela se virou novamente para vê-la.
- Acontece que O Mestre Michael, Senhor dos Anjos, Guardião do Elemento do Fogo, senhor das maiores atrocidades do mundo e... – A menina colocou o dedo indicador sobre os lábios dele, rindo muito.
- Vá direto ao ponto, Senhor de Tudo e um pouco mais. – Ela sorriu um sorriso sarcástico de menina travessa.
Michael não pôde evitar sorrir, um sorriso verdadeiro que era só dela, sorrisos e pensamentos que só ela conseguia colocar nele, então ele lançou aos olhos dela um olhar sedutor e se aproximou mais, segurando a mão que tinha o dedo indicador sobre seus lábios.
- Acontece que esse Mestre Michael não funciona com uma certa menina incrivelmente boba e que só sabe rir de todas as palavras tolas. – O Anjo do Fogo beijou o dedo sobre seus lábios, o que fez a menina corar e rir ao mesmo tempo.
- E... O que você vai fazer com essa menininha tola?
-... Vou castigá-la! – Ele sussurrou só para ela. - Mas isso será mais tarde, tenho outros assuntos pra resolver. Só vou dizer uma última coisa e fui...
(A parte que não apareceu naquele dia)
- E o que seria...? – Ela perguntou em tom inocente.
- Que... Não importa onde você for... Não importa onde estejamos... Você vai ser minha pra sempre! E eu vou te proteger... Como meu bem mais precioso. Meu bem inestimável... O meu primeiro e único amor... – Ele disse em tom infantil e inocente, deu um suave beijo na bochecha dela, de modo carinhoso e protetor.
A menina levou as mãos aos lábios. As lágrimas desceram por sua face. Queria encontrá-lo. Mais uma vez, muitas outras vezes. Não desejava sentir esse vazio nunca mais... Não queria fazer ninguém mais sofrer e nem a ela mesma. Queria que fosse um conto de fadas onde tudo acabaria bem no final. E, mesmo que não fosse realidade... Queria apenas sonhar que poderia ser... Ao lado dele...
- Eu te amo, Mika-chan... Muito, muito, muito, muito... – Ela o abraçou pela nuca com carinho e sorriu entre as lágrimas que escorriam por sua face.
-... Eu não te amo, Haruka. – Ele se afastou um pouco para encará-la nos olhos e viu uma expressão de medo e fragilidade que nunca vira nela. Ele apenas sorriu gentil, acariciando a face dela e levou os lábios para beber das lágrimas dela. – O que eu sinto por você... Vai muito além do que qualquer palavra pode expressar. – Ele sussurrou ao ouvido da menina.
Ela começou a rir das palavras dele. Aquele bobo. Sempre assim, sempre, sempre...
-... Vou te esperar pra sempre, Haruka. – Michael confessou num sussurro e beijou a cabeça da menina, virando seu corpo para abraçá-la.
Michael continuava abraçado ao corpo que não reagia ao abraço dele, preferia muito mais a Haruka que o rejeitava do que aquela que não se movia. As lágrimas não paravam de percorrer sua face, queria sua Haruka de volta. Loucamente, não podia mais esperar. Duas mãos carinhosas o envolveram e as lágrimas do garoto cessaram, seus olhos arregalados em surpresa se afastaram, vendo um rosto de olhos fechados, porém, sorrindo.
- Me desculpe se te fiz esperar tanto assim, Mika-chan... – As lágrimas desceram a face da menina e ela abriu os olhos vagarosamente.
Michael nem pensou, apenas puxou a cabeça dela, contra a sua, beijando-a loucamente. Eram pura saudades, amor, desejo, não poderia esperar mais. Ao sentir que ela correspondia, seus lábios molhados selaram o Amor que havia se perdido e fora encontrado... Trazendo muito mais felicidade do que aquele que já existia. A felicidade que, desta vez, sem erro, seria eterna.
- Que bom que está de volta... – Michael disse, enquanto acomodou a cabeça dela em seu tórax e suspirou, tentando acalmar seu coração.
- Também acho... – Ela sorriu, limpando as lágrimas.
Ambos olharam a sacada aberta, o sol já estava nascendo. Uma nova primavera de corações estava chegando... Após um rigoroso inverno... Porém, não há nenhum inverno que não tenha fim. Nem um amor verdadeiro que não se concretize eternamente...
- Mika-chan... Sabe o que acontece depois que a neve derrete...? – A menina perguntou em tom infantil.
- Erm... Vira água...? – Michael respondeu hesitante.
- Não... A primavera chega. – Ela riu e, logo, Michael a acompanhou na risada.
Não importa o quão frio esteja a primavera sempre vai chegar... Assim como não há noite interminável, pois o amanhã sempre chegará. E nem chuva que não pare, pois depois da chuva sempre haverá sol... E, quem sabe, um arco-íris também...?
Owari
Waaaaaaaaaah! Fiiiiiiiiiiiiiiiim!!! Nossa!!! Meu Deeeeeeus!! Que fic comprida!!! Esse último capítulo também, foi o maior! Foi a primeira que coloquei aqui no FFnet assim. xD
O nome da nova fic? Hm... Nada decidido ainda assim direitinho... Mas juro que não vai demorar pra sair, porque ela já está aqui dentro da minha cabeça, fervendo! . (Eu vou morrer assim, minha cabeça nunca pára!Até o fim de semana ela estará aqui, promessa!)
O nome da fic, como a Kindou Hirumo-san disse "Ienakkata Kotoba" é "Palavras que não pude dizer"... Ao menos a tradução é mais ou menos assim xD Continue estudando nihongo! Aposto que vai se dar bem xDD (A título de curiosidade: Eu sou descendente de japoneses e estudo japonês também xP Dou maior apoio a essas coisas)
A todos os outros, a Mel, minha querida amiga, ao Haru-chan (Loki Valentine), meu amigo de coração, a Townsend Hina-san, a senhorita Maxin, a Lady Kourin e a Mad Neko Maid (que mandou uma review bem na época que eu estava desanimando e isso me animou de novo), a todas as pessoas que lêem e não comentam e as outras que ainda lerão... Meu muito, muito, muito, muitíssimo obrigada de todo coração! Uma autora e qualquer tipo de artista não é nada sem as pessoas que comentam sobre sua história... T-T (A emoção está subindo a cabeça...)
Fiquem a espreita! Magami Yuuri estará de volta com esses personagens maravilhosos de Kaori Yuki-sama logo, logo!
