CAPÍTULO II
Era uma sensação inteiramente nova para Molly a viajem para destinos desconhecidos e o prado para qual ela fora designada. Sendo apenas início de verão (pois era maio e não havia tanta neblina cobrindo as estradas naquela parte do país) a viajem transcorrera em completa tranquilidade e, para uma garota que nunca antes deixara os arredores de onde vivera, o tédio não foi sua companhia. Curiosa como era, registrara as diferenças entre as pastagens conforme ia seguindo seu percurso.
A primeira parte da viajem ocorreu sem dificuldades e seu espírito livre e inocente de mazelas maiores do que uma jovem dama viveu permitiu que Molly sonhasse com sua futura ocupação. Na sua mente ela não ambicionava viver numa grande casa senhorial. Como ficou acertado nas correspondências que trocaram, a menina iria receber 15 xelins para auxiliar a governanta da propriedade. Crianças não foram mencionadas, mas certamente haveria. Ela imaginou que provavelmente ensinaria o básico de uma educação modesta e a leitura da bíblia e então ajudaria a senhora da casa em organizar os afazeres domésticos. Sim, ela estava contente com tal perspectiva.
Logo, seu companheiro de viajem se separou dela e Molly fez seu trajeto por conta própria. O encanto da aventura suavizou o medo do desconhecido e da solidão. A diligência que estava era rápida e eficiente e logo as 50 milhas que ficava seu novo lar foi alcançada, nesse meio tempo, porém, se deparou com uma cena curiosa que lhe despertara a atenção: dois senhores e uma senhora a acompanharam no ultimo trajeto. O casal mais jovem e de aparência modesta estava visivelmente alarmado, olhando a todo tempo para Molly, para o senhor mais velho e então para fora. Era como se tentassem esconder-se de algo.
O terceiro ocupante era um homem já bastante velho, tinha uma aparência peculiar com os fios grisalhos soltos por baixo do chapéu, e mal entrou na diligencia acomodou-se contra a janela e pôs-se a dormir, ignorando os demais ocupantes. Ela tentou, de maneira educada, ajudar o velho de alguma forma, haja vista aparentar estar bastante debilitado, no entanto, fora dispensado por este de maneira bastante brusca.
Diante desse cenário pouco acolhedor e certamente estranho, Molly sentiu-se imensamente incomodada sobre sua aventura sozinha para terras estrangeiras. Com medo, agarrou seu livros de salmos contra o peito e passou o restante da viagem a recita-lo mentalmente a fim de dissipar qualquer temor que sentia.
Com sorte, as companhias saíram na próxima estação e para seu alívio, a menina se viu, novamente sozinha, com apenas seus pensamentos e seus sonhos a lhe fazer de companhia.
Um dia e meio de viajem depois, Molly chegou na estalagem em Mir. Pelo que ela podia ver, era um povoado bastante habitado e com um comércio relativamente forte. Reunindo sua modesta bagagem procurou se informar se alguém conhecia Forthall (que era onde o sr. Moriarty residia), atentando para que alguém tivesse vindo lhe buscar. Um dos serventes do lugar a fez reconhecer que havia ali um homem a procura de uma jovem que ia chegar aquela tarde por sobrenome Hooper. Animada com tal perspectiva ela foi apresentada ao Sr. Moran, que trabalhava para o sr. Moriarty.
O homem que lhe fora apresentado era alto e corpulento, possuía um par de bigodes espessos que apresentava ao rosto moreno um ar severo e intimidade, involuntariamente a garota recuou um passo diante de tal presença.
"Vim a pedido do seu patrão, senhorita Hooper. O sr. Moriarty está em casa lhe esperando". Ele se apresentou logo pegando sua bagagem e a conduzindo a uma bela carruagem atada a quatro excelentes cavalos. Molly ficou admirada e não deixou de pensar que talvez seu empregador fosse mais rico do que ela inicialmente supôs. Tal consideração não deixou de lhe subir os nervos. Nunca fora criada ao luxo, e apesar da educação rigorosa na qual teve no internato, a menina reconhecia por si mesma que seus gostos não eram requintados e sua figura não era abastarda, mais adepta aos gostos simples e cômodos. No íntimo ela desejou que ela pudesse ser acolhida como era e encontrasse amigos entre os outros empregados.
Analisando timidamente o homem a sua frente na carruagem (pois não tinha coragem de o encarar abertamente), sentiu o impulso de lhe fazer alguma conversa, já que o silêncio da viajem a fazia ficar mais nervosa do que a vontade e se esse homem fosse mesmo um dos empregados do seu patrão, ele estava demasiado bem vestido e ela logo concluiu que ele devia ser algo de elevada posição dentro de Forthall.
Depois de percorrerem o que para ela foi um longo tempo e já bem distante do centro do povoado que chegou, Molly finalmente se encontrou ao fim daquela jornada e ficou maravilhada ao que viu.
O primeiro vislumbre de Forthall deixava qualquer expectador encantado com a mansão opulenta envolta por jardins bem cuidados e ricos em uma organização simétrica e precisa. Era uma bela casa senhorial com sua fachada voltada para o poente e largas janelas por todo seu cumprimento denunciavam o luxo ostentador que a propriedade possuía.
Sem demora, Molly foi encaminhada pela principal entrada o que a fez ficar mais acanhada e tímida. Ela foi recebida por alguns empregados que a cumprimentavam como uma visita e não como uma igual.
No interior da mansão, mais luxo e beleza. Molly Hooper nunca em sua vida fora apresentada a tanto esplendor. Seus móveis eram em estilos modernos e totalmente ingleses. Tapetes, persianas, cortinas decoravam tudo em tal combinação que ela apenas imaginou o quanto de trabalho a manutenção tal custo de vida dava aos servos do local. E sua admiração não parava de crescer, no entanto a observação sem restrição não era adequada no momento e deixando de lado sua natural curiosidade com tanta beleza, ela foi encaminhada ao escritório onde seu empregador estava lhe aguardando.
Sem ser lhe dado o tempo para se livrar da fadiga da longa viajem, tentou ao máximo se recompor como podia. Alisou as pregas da saia amassada, enxugou o suor da testa e passou as mãos pelos cabelos debaixo da touca. Apesar de usar uma peça relativamente nova na viajem, considerou seu traje extremamente simplório diante do que acabara de ver.
Entretanto seu crescente nervosismo fora aplacado pela aparição de seu patrão.
"espero que tenha feito uma excelente viajem, senhorita Hooper, eu estava ansioso por conhece-la" fora a recepção dada por sua figura. Ele era um homem cuja simpatia e os modos educados saltavam a vista e foi a primeira coisa que Molly tinha notado dele.
Ele era um homem médio, passaria despercebido por qualquer, pois apesar do luxo da casa e das vestes do sr. Moran, sr. Moriarty se vestia de maneira simples, nada denunciava ser ele um rico herdeiro. Com um sorriso doce ele se aproximou de Molly e pediu para que se sentassem em uma das poltronas aconchegantes de seu escritório e pediu que chá e torradas fossem trazidas a eles.
Após perguntar apenas em como tinha sido a viagem para a garota e se essa se sentia bem e contente com o emprego ele ouvia suas respostas com educada atenção e bom interesse. Tomando o chá que tinha sido preparado, Molly respondia suas perguntas da melhor maneira que conseguia, superando seu nervosismo natural em grande parte graças a amabilidade que seu senhor lhe concedia.
Ao fim da entrevista, Molly foi direcionada aos seus aposentos e como foi mais uma vez naquele dia ficou deslumbrada com a comodidade e o conforto do quarto. Era centenas de vezes incomparável a sua antiga cela no internato, pela primeira vez na sua vida ela possuía um quarto e uma cama só para ela.
Animada e excitada demais por tudo que via e ouvia ela não conseguia a tranquilidade e a paz de espirito necessária para o descanso que fora destinada e, como ainda era cedo e o sol não havia se posto no horizonte, decidiu sondar seus companheiros e demais servos da casa, afinal seria com eles que gastaria seu maior e tempo, e dada sua natureza boa e afável, ela ansiava por ser reconhecida dentre os seus.
Seu intento apareceu frustrado. Como ela logo concluiu na passagem dos dias, havia algo invisível e inatingível que a separava dos demais empregados. Todos eram simpáticos, solícitos e educados em sua presença, no entanto, havia uma polidez e uma formalidade que a fazia estranha com relação a eles. Molly em diversas ocasiões tentou chegar para se abrir com uma faxineira ou a cozinheira, ou mesmo um dos wallets, mas nada a mais do que o mero jogo de palavras que civilidade exige era trocado entre eles.
"A senhorita está com fome? "
"A senhorita sente-se à vontade? "
"Deseja que a lareira esteja acessa em qual horário senhorita? "
"A refeição foi de seu agrado? "
E era apenas isso.
Não havia reciprocidade e nem amizade todos se mantinham longe de Molly e apesar de serem muitos, ninguém fez amizade com a recém-chegada.
A princípio ela não deixou de pensar que tal tratamento era pelo fato de seu grau de instrução ser mais elevado do que os demais, mas o pensamento entrava em contrataste com a governanta da casa, da qual ela fora incumbida de ser auxiliar.
A sra. Hilme, o nome da velha governanta da casa, era casada com o mordomo. E em nenhum momento ela se aproximou de Molly a mais do que era necessário, nem mesmo para lhe ajudar na administração do lugar.
A sensação de plenitude e satisfação com o ambiente simpático que fora recebida foi se esvaindo com a segunda semana que passara na propriedade.
A casa era sempre iluminada, fresca e arrumada. Como se pequenos duendes andassem pela noite e arrumassem tudo sem serem vistos, assim era como Molly imagina que o asseio era feito de tão grande mansão. De dia, havia uma rotina silenciosa dos empregados, que fora o fato de a excluírem de qualquer tipo de trabalho pesado e a tratarem como uma dama da casa, ela achava natural a rotina quase militar que adotavam. Todos tinham um sorriso no rosto e aparentemente eram felizes.
Seu patrão ela via quase toda noite. Sempre após o jantar ele pedia pela sua presença e, mais uma vez Molly era questionada sobre seu bem estar e felicidade geral.
"Me conte senhorita Hooper, você não conheceu seus pais?" ele perguntou no segundo dia quando ela chegou.
"Conheci sim senhor", respondia de forma clara e honesta, mesmo estranhando a intimidade que estava ali sendo criada, "mas ambos faleceram quando eu ainda não passava de uma criança". Explicou.
O sr. Moriarty a olhara com olhar de extrema compaixão, seus olhos eram moldados por longos cílios, quase femininos, que lhe emprestavam um ar de candura e empatia.
"Senhorita Hooper, sinto muito pelos infortúnios que agravaram sua vida até aqui" ele disse com brandura, pousando as mãos nas dela, o que a fez recuar assustada pelo gesto ousado, porém, ele percebendo isso, deu-lhe um sorriso cândido e recolheu sua mão de volta para si, "a miss verá que aqui, se achará apenas entre amigos".
Ela aceitou a palavra com deferência, apesar do gesto de seu senhor que a deixou desconfortável e ruborizada. Ele ainda a questionou sobre mais alguns tópicos de sua vida, ao que ao respondê-las, Molly percebia que mais fascinado o senhor ficava. Diante do constrangimento que sentia, se encheu de ousadia para perguntar acerca de seus próprios serviços na casa que, até aquele momento, não tinha sido designado.
Ele a olhou com curiosidade por um momento antes de lhe dizer que em breve ela poderia ser útil. Com isso foi dispensada.
Tal retorno não tinha acalmado seu espírito. Pelo contrário, nos dias que se seguiram Molly ansiava por ocupação e tentava, de todas as maneiras possíveis ser útil em algo, mas era sempre rechaçada (de maneira delicada, porém persuasiva) pelos demais empregados da casa.
No entanto, algo mudou o tom auspicioso que aquela propriedade apresentava.
O sol iria se pôr dentro de algumas horas e Molly, já cansada de apenas esperar ser designada para alguma tarefa, se pôs, ela mesma, a fazer algumas pequenas coisas, como bater as almofadas dos estofados, tirar o por das cortinas e demais coisas simples que eram inferiores ao seu chamado, porém, parecia que era a única coisa a fazer.
Os empregados lhe lançaram olharem crédulos e talvez alguns duros, mas ela não desistiu. Apoiada pelas boas graças que conseguiu de seu patrão, ela resolveu seguir adiante na sua arrumação. A governanta veio lhe alertar para não fazer o que estava fazendo, mas Molly não deu ouvidos e continuou em seus afazeres. Cômodos por cômodos até se deparar com a porta fechada que designava os aposentos privados do sr. Moriarty.
Então se conteve. Durante o dia ela nunca o via. Quando perguntava sobre sua empresa, a governanta ou outra pessoa apenas lhe respondia de forma seca que ele não se encontrava em casa. Molly apenas deduzia que ele devia estar trabalhando ou na cidade, tratando de seus negócios. Assim, imaginando que o homem não estaria ali, ela abriu a porta que dava acesso aos seus aposentos.
Ela ficou surpresa com o quanto de distinção aquele ambiente diferia do restante da casa. Escuro, sombrio, arrumado, porém as janelas fechadas e as cortinas cerradas lhe davam um ar que a deixou em estado de alerta, um frio correndo pela sua espinha.
Dando alguns passos para dentro, Molly observou que havia muitos papeis sobre a mesa que compunha o cenário principal do que via. Aproximando-se, percebeu que eram papeis contábeis, relatando e documentando algum tipo de gasto. Mas o que mais lhe chamou a atenção foi uma pequena arca ao lado da mesa.
Ela media cerca de meio metro quadrado sem adornos e estava fechada. Havia um suave odor que saia do móvel, doce, porém sepulcral. Foi quando ela sentiu a forte mão em seu ombro.
Seu grito foi inesperado e ela se assustou a tal ponto que por um momento pensou sentir o coração sair pela boca.
"Você não deveria estar aqui" A voz do sr. Moran lhe disse forte e com raiva, "como você ousa entrar nos aposentos do sr. Moriarty?" E o homem parecia fora de si, tanto que Molly se soltou de suas mãos e saiu correndo em direção ao seu quarto, um terror imenso tomando conta de cada ponto seu.
Durante as horas que se seguiram, ela não pode se acalmar. Assustada até a alma, ela só saiu de seus próprios infortúnios quando a governante a chamou, dizendo que o sr. Moriarty exigia sua presença.
Tremendo, Molly seguiu o comando, imaginando que provavelmente seria demitida pelo ato falho que adotara mais cedo. Céus, se ela pudesse voltar no tempo e nunca ter saído de seu orfanato ela voltaria, tudo para evitar o medo e o terror que sentira naquela tarde.
"Oh deus, senhorita Molly, você está pálida tal qual um cadáver" ele disse assim que a viu. Sua maneira polida para com ela a assustou, não imaginou ser recebida assim. "Por favor, sente-se próximo a lareira, será meu terror vê-la passando mal em minha companhia". E então a guiou para a poltrona a sua frente.
"Sr. Moriarty, peço-lhe minhas desculpas, pois fui além da minha própria vergonha e discrição ao entrar em seu escritório esta tarde" Molly começou a dizer, mal respirando entre suas palavras "mas juro-lhe, por Deus, que meu intento era os melhores possíveis, só queria ser útil e limpar" ela continuou quando foi interrompida pela gargalhada que seu senhor deu.
"Srta. Molly, oh quão doce é sua natureza! " Ele exclamou após seu próprio riso afrouxar, "a senhorita, vindo a mim pedir desculpas, enquanto minha única preocupação estava na forma com que fora tratada por Moran mais cedo. " Ele disse e voltou a olhar para ela com olhos de divertimento.
"Entenda, ele é um homem sem cultura como nós, senhorita. Tende a ser mais bruto que os demais, e como qualquer animal sem estudo, o ser humano tende a ser guiado pela sua própria natureza agressiva e irracional, então, se ele a distratou ou se usou de alguma violência para sua pessoa, peço, sinceramente minhas desculpas" completou.
Molly se viu sem palavras pelo tratamento que lhe fora dispensado. Ela não esperava que seu senhorio lhe desse tanta consideração, a tal ponto de se colocar no lugar do empregado para lhe defender a causa, onde claramente ela tinha sido errada.
"O senhor não precisa se desculpar" ela disse envergonhada e mais abatida ainda, "se o achar necessário, não lhe rogarei por misericórdia, caso queria me demitir" revelou para ele.
"Não irei lhe demitir miss, vejo que a senhora tem se tornado melhor do que eu imaginei" ele disse, não mais com o riso divertido que parecia dominar seu rosto sempre que se encontrava, agora seu olhar possuía um brilho peculiar, como se detento de um segredo da qual somente ele teria posse.
Diante de seu olhar de confusão, sua expressão retornou ao normal e acrescentou "não se preocupe srta. Hooper, em breve será tão útil quando essa lareira que nos aquece" e a dispensou.
Molly cruzou a mansão de volta para seu quarto. Por mais que o recente episódio tivesse sido dispensado pelo seu empregador, aquela sensação ruim que a invadiu no momento em que entrou naquele aposento ainda estava em seus pensamentos. Já no seu quarto, ela tentou dissipar o próprio pânico ajoelhando ao lado da cama, pondo-se a orar. Ela sabia que algo não ia bem, só não sabia definir o que.
MMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM
Eu apenas sinto muito quanto ao tremendo hiatos que eu deixei essa história. Realmente, eu sei o que é estar do outro lado, lendo uma história e do nada ela para (frustração nível hard).
Então, peço desculpas. Essa história vai continuar e em breve (próximo capítulo, para ser mais exata), um certo detetive irá aparecer (uhulll), espero que este capítulo tenha deixado alertas quanto ao papel do sr. Moriarty e sobre sua relação com srta. Hooper.
Mais uma vez agradeço a todas que estão lendo e acompanhado minhas histórias e, em particular, esta. Sério, não tenho palavras para expressar o carinho que é ler cada comentário e a opinião sobre o que escrevi, vocês são muitos apreciadas.
Saudações, beijos e abraços!
