Disclaimer: Hum... É difícil declarar aqui para todos, mas... Apesar das visitinhas constantes do Heero e do Duo, eles não me pertencem; assim como os outros personagens e toa a série... (droga -.-') E para completar... Essa é uma atividade não remunerada (again -.-'')
Nesse aqui: 2+1 menção de 3x4; mais angst, linguagem explicita, Duo POV, OOC, TWT. Contém Spoilers.
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Aurora
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Ele disse que olha no espelho
E não consegue mais dizer
Quem ele realmente é e quem eles acreditam que ele seja.
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Shot - II
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Não muito tempo depois - meu relógio interno apontava - meus olhos se abriram na escuridão e fui atingido pela desconcertante sensação de não saber onde estava; completamente desprovido de qualquer senso de direção.
Um erro fatal para um soldado.
Imagens fantasiosas sobre uma possível captura se formaram em minha mente. Eu podia imaginar como os soldados haviam nos encontrado... Como eles me encontraram, sangrando, a beira da morte e por serem uns miseráveis sádicos, me mantiveram vivo. Nesse instante, a urgência de saber sobre Quatre me nocauteou, subjugando os resquícios do efeito da droga que agia em meu sistema e forçando meus olhos a rastrearem o lugar, cheios de necessidade; ávidos por informações. Demorou algum tempo até que eu me acostumasse com a penumbra que combinava infinitamente com o maldito silêncio e a primeira coisa da qual me dei conta é que não estava em um hospital. Não havia paredes brancas, macas, aparelhos, nenhum tipo de bip irritante ou o cheiro odioso daquele local macabro.
Eu definitivamente abominava hospitais.
Mais alguns segundos se passaram até que eu tivesse total compreensão do que estava ao meu redor, e em um determinado momento, me vi encarando o CD player adquirido logo que cheguei à casa que vinha ocupando há três meses.
Havíamos sido resgatados...
Essa constatação me preencheu de um alívio momentâneo por excluir a hipótese de ter sido preso por uma tropa da Oz. Seguindo a mesma linha de raciocínio, a possibilidade de Quatre ter sido colocado em risco ao me ajudar era nula, já que provavelmente, eu estava em mais uma de suas casas... Esse pensamento que chamou minha atenção para um fato que não podia ser ignorado:
Aquele não era o quarto que eu ocupava no esconderijo para o qual deveríamos ter voltado após a missão.
E por todos os demônios, eu havia sobrevivido.
- Infernos... – murmurei, sentindo minha garganta protestar devido ao ressecamento.
Relaxei de encontro ao colchão tentando reunir forças para me colocar de pé futuramente. Pensei na possibilidade de haver alguém na casa, e tentei imaginar quem estaria cuidando de mim durante esse tempo. Provavelmente Quatre, imaginei. Como se não bastasse os problemas que eu havia causado, ainda dava trabalho com meus ferimentos.
Imagens difusas piscavam diante dos meus olhos, ainda embaçadas por uma nevoa que insistia em acalmar meus nervos apesar dos meus esforços para ficar alerta. Eu havia tomado remédios, e fortíssimos, pelo estado de calamidade em que minha cabeça e sentidos se encontravam. E meus músculos? Nem se fala! Também pareciam estar muito longe da perfeição.
Comecei a tentar mover meu tornozelo e fui surpreendido pela incapacidade de senti-lo por completo. Tentei erguer minha cabeça para enxergar a ponta dos pés e fui abençoado com duas outras constatações, de uma só vez. Minhas costelas protestaram de um lado, enquanto meu ombro latejou do outro. Nada comparado ao que eu havia sentido no dia dos ferimentos, mas ainda sim, muito incômodo...
Droga! Eu estava completamente desorientado, e assustado por não estar sentindo absolutamente nada quando uma dor ferrenha deveria estar alojada em meu ombro, costelas e tornozelo...
Isso poderia significar apenas duas coisas:
Ou eles haviam me dado drogas para elefantes... Ou eu estava inconsciente há dias... Semanas talvez!
Escolher entre as duas hipóteses acendeu a chama do pânico em algum lugar da minha mente, e me vi lutando para mover qualquer membro, uma partezinha que fosse, só para ter certeza de que eu não estava inteiramente incapacitado. Por meus esforços, fui recompensado com o movimento de alguma parte que não consegui identificar, mas que estava abaixo da cintura, com certeza.
Minutos se passaram sem que ninguém viesse até o quarto, e isso só aumentou a minha curiosidade. Quem havia nos resgatado? Quatre estava mesmo bem? E o que houve com a bala no meu ombro? Quem cuidou de mim? Quanto tempo eu havia adormecido?
Eram tantas perguntas que minha mente dava voltas em si mesma, tentando localizar em alguma lacuna de memória, respostas para as minhas indagações. Mas ainda não era hora de ter minhas questões respondidas; como num passe de mágica, a névoa se apoderou dos meus sentidos me chamando para outra rodada.
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Mais algum tempo se passou; talvez horas, e lá estava eu voltando da viagem, sentindo aquela mesma agonia causada pela desorientação. Dessa vez o momento foi mais rápido, sanado pela lembrança de já ter identificado meu atual abrigo como sendo um quarto. A novidade é que agora eu não estava sozinho, e a silhueta oculta nas sombras veio até mim, revelando Trowa e um pequeno sorriso aliviado em seu rosto.
- De volta ao mundo dos vivos? – observei sua aproximação fantasmagórica no quase breu em que o quarto se encontrava. Ele sentou-se calmamente ao meu lado, em uma cadeira que eu não havia percebido antes, e com o mesmo sorriso satisfeito, estendeu as mãos para um abajur... Que também me passou completamente despercebido.
- Precisei chutar alguns traseiros... – comecei, com uma voz estranha a meus próprios ouvidos. – Mas aqui estou...
Minha brincadeira pareceu convencê-lo de que pelo menos, ainda não havia chegado minha vez de fazer um tour pelo inferno. Sua expressão amenizou um pouco, e logo ele carregava o mesmo semblante fechado de sempre. Não como o de Heero ou Wufei, que muitas vezes me passavam a sensação de indiferença ou repreensão... Eu não sabia explicar exatamente o que via em seu rosto, mas às vezes, eu tinha a ligeira impressão de que por trás de toda aquela calma enervante, estava apenas um garoto sofrido demais para realmente se importar com alguma coisa.
- Quanto tempo eu estou apagado? – perguntei, tentando tirar aquela névoa densa que teimava em me impedir de raciocinar claramente.
- Hoje... Três dias.
Assobiei incapaz de esboçar outra reação; a idéia de ter ficado três dias completamente fora do ar me porrando como um punho de aço. É claro que era muito mais acolhedor do que a possibilidade de ter passado semanas inconsciente, mas logo chegaria o momento em que eu sairia do quarto e notaria as coisas ao meu redor sem saber quando ou como começaram.
Tentei mexer o braço como em meu ultimo despertar, mas meus movimentos continuavam restritos. Me senti como um daqueles presentes de aniversário bem embrulhados, com direito a laço em fita colorida. Minha respiração parecia mais fácil, o que me levava a crer que as costelas estavam se recuperando há seu tempo, e que minha ultima lembrança de despertar devia fazer mais que algumas horas.
Dessa vez, consegui sentir um pouco da pressão da bota, que agora eu podia ver imobilizando o meu pé ferido. Isso sem contar os hematomas e arranhões que deveriam estar ali, escondidos debaixo dos lençóis, mas eu não me atreveria a olhar tão cedo.
- Só está... Enfaixado. – lancei-lhe um olhar inquiridor, e ele reformulou sua declaração. – Foi muita sorte Chang está na base quando vocês enviaram o sinal... – começou com um tom de voz carregado e dolorido, diferente de qualquer lembrança que eu tinha de sua voz. – Eu e Heero estávamos recuperando nossos Gundans abandonados na ultima missão, e se o pior acontecesse... – em minha cabeça, adiantei um pouco as coisas, e percebi que sua dor vinha da possibilidade de algo ter acontecido com Quatre em sua ausência. O gosto amargo do arrependimento subiu garganta acima, e se eu não estivesse preocupado em recolher informações, teria colocado tudo para fora. – Quando chegamos você já estava devidamente reparado e medicado; sem a necessidade de uma cirurgia, apesar do estrago em seu ombro. Duas costelas foram fraturadas e o tornozelo é apenas uma torção que se complicou pelo esforço que você fez... Uma ou duas semanas imobilizado e poderá usá-lo novamente.
- E o ombro? – perguntei, incomodado com a idéia de passar um período muito longo com os movimentos atrofiados.
- Vai ser preciso um pouco de paciência... A bala se fragmentou no ferimento, não nos permitindo fazer testes maiores... Havia algo no interior que provocou uma aceleração no processo de inflamação, e o tecido foi muito danificado...
Em outras palavras: Você se tornará uma merda de um inválido por meses...
Meu rosto deve ter se contorcido de alguma maneira, e Trowa calou-se, deixando que eu brigasse com meus próprios demônios sem sua interferência. Eu agradecia por seu relato quase profissional sobre o meu estado, e podia ver que ele entendia o que representava para um soldado ter de ficar de molho por muito tempo... Se bem que dos cinco pilotos, eu era o campeão em número de acidentes com longos períodos de recuperação.
- Em dois meses no máximo...
- O que houve com o outro esconderijo? – perguntei repentinamente, não querendo ser alvo dos seus amparos. Consolo significa fraqueza, e estar drogado e enfaixado da cabeça aos pés era o suficiente para mim.
- Havia a possibilidade de a base ter sido rastreada, achamos melhor nos mudar antes que o pior acontecesse. – respondeu sem entrar em detalhes.
- Isso foi...
- Dois dias.
- Ah... – respondi meio sem jeito, tentando imaginar o grau da minha sonolência para não ter percebido nada. – E estão todos bem?
Ele fez um aceno positivo com a cabeça e eu continuei encarando, esperando por mais algumas palavras.
- Wufei saiu ontem à noite, quando terminamos de nos estabelecer. Heero foi comprar alguns remédios, e Quatre...
Sua expressão mudou repentinamente; algo sombrio brilhou em seu olhar, mas sumiu tão rápido quanto apareceu. A primeira coisa que me passou pela cabeça, foi Quatre e nosso resgate, mas ele não estaria ali se o loirinho estivesse em perigo.
- Trowa o que...?
- Ele não derramou uma lágrima...
A porta do quarto abriu antes que eu pudesse questioná-lo, e para acabar com todas as minhas duvidas, Quatre surgiu da escuridão do corredor, seu sorriso luminoso ao me ver, aquecendo até o ultimo dos meus ossos.
- Ele já acordou...? Você acordou! – ele quase correu em minha direção, parando ao lado de Trowa e analisando as faixas ao meu redor. Os segundos seguintes pareceram se estender enquanto ele dançava em sua impaciência, pulando de um pé para o outro querendo fazer algo, mas não sabendo se deveria.
- Hey, parceiro... Pensou que eu abandonaria você no meio das minhas latas de cera para Gundans?
Seus olhos brilharam intensamente, decidindo parar sua dancinha e dar a volta na cama, para sentar-se a minha esquerda e não causar nenhum desconforto.
- Eu estava tão preocupado...
- Eu estou bem. – estiquei meu baço para afagar-lhe os cabelos, mas o máximo que consegui foi segurar uma de suas mãos. As memórias da batalha em que eu havia sido quase moído vieram-me à mente em um poderoso flash. – E devo isso a você e ao seu Deus, não é mesmo?
Os olhos azuis se turvaram em lágrimas, e fui capaz de entender as palavras perdidas de Trowa.
Quatre era um doce... Sua inocência e seu bom coração um dia ainda seriam capazes de me derreter por completo...
- Por um momento pensei que você não fosse mais voltar...
- Está tudo bem agora... Você não precisa mais ser forte por mim. – estendi meu braço flácido em sua direção puxando-o para um abraço.
As palavras pareceram romper o que lhe impedia de derramar suas lágrimas e deixei que ele chorasse em meu ombro, lançando um olhar ou outro para Trowa que assistia a tudo com seu pequeno e estranho sorriso de volta aos lábios, sem dizer uma só palavra. Passamos algum tempo nessa posição desconfortável, até que Quatre engasgou entre um soluço e voltou a se sentar, com os olhos meio arregalados e a expressão preocupada.
- Dói em algum lugar? Você precisa de mais travesseiros? Um copo d'água quem sabe? – começou no seu desespero de sentir-se útil. – Trowa? O que está fazendo ai parado? Traga algo para ele beber!
Deixei uma risada rouca sair de seu confinamento em minha garganta, sentindo a tensão se esvair, como se uma ancora desprendesse dos meus pés.
- Hey rapazes! Eu estou bem! – puxei o loiro novamente, o envolvendo em um meio abraço.
Era tão estranho ver as pessoas mobilizadas ao meu redor; algo que eu nunca tive, e não estava preparado para aceitar sem oferecer uma boa resistência. Eu sei que para algumas pessoas essa declaração poderia soar idiota, mas meu espírito já havia sofrido tantas perdas que eu temia não ser capaz de passar por mais uma. Éramos soldados, e isso nos obrigava a ficar cara a cara com a morte a cada segundo de nossa existência. Apegar-me a eles seria colocar minha sanidade para cambalear em uma corda bamba...
A conversa perdurou por umas boas horas, onde Quatre me distraía contando sobre o resgate e encenava a reação paranóica de Wufei ao ver meu Gundam em estado de calamidade. Aquilo me aqueceu de uma forma inexplicável, mas não demorou muito para que o bom senso empurrasse para o fundo, não me permitindo sonhar demais.
Descobri que a troca de esconderijo foi organizada por Heero, que não gostou nada de me ver chegar todo ferrado e impossibilitado de fugir caso acontecesse alguma coisa. Sensato da parte dele, já que estávamos no mesmo local há alguns meses, e não era descartada a possibilidade de sermos rastreados, por mais seguras que as casas de Quatre e sua família costumassem ser. Teria de agradecê-lo futuramente, pois se algo de ruim acontecesse, eu teria de ser deixado para trás.
E convenhamos: morrer nas mãos da Oz por estar drogado demais para fugir, é um fim patético para um piloto Gundam. Eu pretendia perecer em uma batalha, cercado de MS para tudo que é lado e resistindo até o ultimo segundo...
Agora, se Deus me considerava digno de uma morte dessas... Eram outros quinhentos...
Quando o relógio marcou dez horas, Trowa voltou para o quarto com uma bandeja em mãos. Reconheci o conteúdo da tigela que ele trazia, como sendo sopa, mas o líquido que descansava no copo era algo que fugia ao meu conhecimento.
- O que é isso? – perguntei, torcendo o nariz para o líquido verde.
- Wufei disse que seria bom para você... – o loiro murmurou, tão o mais enojado do que eu.
- Mas ele não está... Em uma missão? – perguntei, enfiando um dedo no líquido e observando a textura da "coisa" em minha pele. – Cargueiros de touros não são abatidos tão facilmente...
- Foram ordens deixadas por ele... – Trowa explicou, parecendo muito divertido com a situação.
- Isso mesmo Duo... – Quatre apoiou ao meu lado. – Se vai te fazer bem...
- Por Deus! Isso não é comestível... – tentei, mas meus algozes estavam irredutíveis.
Refeição terminada e gororoba entornada, fui obrigado a tomar alguns remédios receitados pelo médico para combater a inflamação no ferimento e para me ajudar com a dor. É claro que havia um ou outro calmante ali no meio, o que explicava a dormência em meus músculos e o mal estar que me atingiu na primeira tentativa de acordar. Por mais que eu não quisesse passar por isso novamente, era óbvio que eu ainda não estava preparado para passar uma noite sem remédios. Aceitei; mas posso garantir que lutei muito até deixar que me medicassem, e não levou muito tempo para que eu voltasse às profundezas do sono.
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Quando calmantes e anti-inflamatórios são combinados com recomendações médicas de repouso absoluto, uma nova escala de tempo é criada:
O tédio.
Essa escala poderosa transformou o que deveria ser quinze dias de convalescença em uma viagem prolongada a uma recém descoberta camada do inferno:
A zona dos paparicos.
Logo no primeiro dia descobri que precisaria usar cadeira de rodas por um tempo, não havendo a menor possibilidade de manusear um par de muletas decentemente. Como se isso não fosse humilhante por si só, eu ainda tinha que agüentar o "carrasco dos paparicos", vulgo Quatre, me cercando por todos os lados, fazendo questão de empurrar a maldita cadeira de rodas até a porta do banheiro. Para a minha sorte, a casa, apesar de ser grande, só possuía um andar, o que facilitava e muito minha locomoção pelos cômodos, principalmente quando eu precisava tirar o meu momento foda-se o mundo.
Nessas ocasiões eu "dirigia" a minha "máquina" para algum lugar da casa onde eu sabia que ninguém estaria, por exemplo, a biblioteca.
Me escondia entre uma das estantes mais afastadas, debaixo da escada de acesso ao nível superior. Eu ficava lá o tempo necessário para esfriar a cabeça e voltar ao convívio social sem sentir ímpetos de atropelar alguém.
E nesses dias tenebrosos, me vi desejando copiosamente que Wufei voltasse do buraco em que havia se enfiado. Não que fossemos os melhores amigos ou coisa parecida; na verdade, eu tinha sérias suspeitas de que ele nem mesmo ligava para a minha existência, mas era dessa imparcialidade que eu estava necessitando no momento.
A sua maneira, Trowa tentava amenizar as coisas quando estava por perto; eu notava seus olhares significativos para o loiro. Mas era só o moreno se afastar para Quatre começar tudo de novo, e pior; tirando o atraso pelas horas de paparicos que não pode me dar. Para alguns, poderia até parecer uma desfeita da minha parte, mas era difícil aceitar coisas com as quais eu não estava acostumado a ter. Eu seria eternamente grato por aquelas demonstrações de carinho que ele tinha para comigo, mas não me sentia preparado para retribuir como era esperado.
No final da segunda semana, minha taboa de salvação era a consulta da terça-feira, onde fariam a remoção da bota. É claro que, sendo eu Duo Maxwell, já havia tentado retirá-la algumas vezes...
Grande erro.
Quatre teve um chilique tão grande que cheguei à conclusão de que ficar com a bota era muito mais confortável do que ter um árabe dando sermões sobre "a conduta adequada de um paciente".
Quando o dia santo chegou, Heero estava voltando de uma missão sem que eu nem ao menos tivesse desconfiado de sua partida. A verdade é que nesses quinze dias, poucas foram as vezes que eu o vi de fato. Ele costumava ser o enfermeiro da madrugada, trazendo os remédios que eu tomava por volta das três da manhã, horário em que meu corpo oscila entre o efeito do calmante e a espera pela próxima rodada de medicamentos. É vergonhoso admitir que nesse período eu esteja tão debilitado pela sonolência que mal possa distinguir quem é quem em meu quarto, e se não fosse pelos outros, jamais desconfiaria que era o japonês o encarregado da tarefa noturna.
Durante o dia, Heero tem suas próprias preocupações, que acredito girar em torno de seu Gundam e suas missões... Afinal, que outras preocupações uma pessoa com o apelido de "máquina" poderia ter?
De qualquer forma, quando ele viu nossa mobilização para ir ao hospital, pediu para nos acompanhar surpreendendo não só a mim, mas aos meus dois coleguinhas também. Surpresas à parte, fui felicitado com a retirada da maldita bota, e sinceramente, pensei que todos os meus problemas estariam acabados. É claro que meu ombro ainda estava imobilizado e precisando de muitos cuidados devido à gravidade da lesão; mas só de saber que eu não precisaria ser carregado de um lado para outro, muito menos da maldita cadeira de rodas... Ah! Aquilo já era motivo o suficiente para voltar a ver o dia em tons pastéis...
Eu precisaria de fisioterapia, é claro! Não esperava conseguir sair correndo depois da consulta, mas o pesadelo estava terminando...
- Eu posso mandar instalar algumas barras para ele...
Ou assim eu pensava.
- Ele não precisa restringir-se ao hospital... – ouvi Quatre comentar do banco do carona. – Posso ajudá-lo com as seções, até que ele esteja pronto para usar a academia...
- Nada disso! – interrompi sem cerimônias. – Não sou nenhum inválido, posso muito bem ir até lá fazer as minhas seções...
- Você não é um invalido, eu sei disso... – repreendeu com seus olhos culposos. – Quero apenas me assegurar que você terá a melhor recuperação possível.
- Eu posso ter uma ótima recuperação no hospital! – insisti.
- Mas Duo...
Encarei os olhos de Trowa que observavam tudo pelo retrovisor quase me incentivando a continuar. Ao meu lado, Heero apenas contemplava a discussão, sem se manifestar a respeito.
- Mas nada. – sentenciei, tentando recobrar a amenidade que eu havia encontrado no hospital. – Por mais que eu adore cativeiros Quatre, aquela casa está me deixando sufocado!
Senti uma pontada de culpa antes que o silêncio caísse sobre nós. Quatre encolheu-se em seu lugar, e não me atrevi a procurar os olhos de Trowa novamente, temendo uma repreensão de sua parte. Eu sabia que o loiro tinha as melhores intenções do mundo, e o admirava por sua generosidade e desprendimento; mas seria tão difícil entender que no momento tudo o que eu precisava era autonomia? E não uma babá vinte e quatro horas?
O clima denso permaneceu sem que nenhum de nós ousasse quebrar...
Como se eu realmente esperasse que Trowa ou Heero falassem alguma coisa...
Quando o carro estacionou, minha vontade foi voar para fora e me esconder em meu refugio, mas eu temia machucar alguma coisa e acabar prolongando o repouso. Respirei fundo catando cada gota de paciência que me restava, esperando que Quatre ou Trowa viesse me ajudar a chegar ao meu quarto, mas fui surpreendido pelos olhos azuis de Heero me observando do lado de fora.
- Braço esquerdo. – comandou em seu tom monocórdio, estendendo uma das mãos para mim.
Ok. Quem poderia imaginar?
Bem, eu que não queria pensar a respeito; Heero já havia me dado muitas horas de reflexão para o meu gosto. Preferi acreditar que ele estivesse compadecido com o meu estado de nervosos depois de observar a pequena discussão no carro.
- Muito, muito obrigado, cara!
Aceitei sua ajuda com muito gosto, enquanto Trowa levava Quatre para dentro de casa. Eu esperava do fundo do meu coração que ele tentasse falar com ele novamente.
Meio que cambaleei e manquei até meu quarto, contente por Heero ter dado apenas apoio, e não arriscado me arrastar como certas pessoas tentariam. Ele me deixou na cama enquanto abria as cortinas e janelas para que o sol da manhã entrasse, tirando um pouco da morbidez do cômodo. De fato, o aspecto do lugar melhorou mil vezes mais, mas eu não pretendia ficar muito tempo ali de qualquer forma.
- Vamos ficar bem, não vamos amigo? – perguntei debilmente para o tornozelo, novamente tomado pelo entusiasmo de ver meu corpo livre de uma das amarras que me prendiam no esconderijo.
- Não vai demorar mais que uma semana.
Levantei a cabeça e mirei a porta onde Heero estava encostado e voltei a olhar para o pé, considerando a idéia de estar louco e o pedaço de carne ter realmente respondido.
Mas não era possível...
Eram apenas calmantes e anti-inflamatórios... Eu não estava tomando drogas tão fortes assim.
- Você acha mesmo? – perguntei, tentando uma comunicação maior.
Ele deu de ombros e virou-se para sair, mas pude ouvir sua voz do corredor.
- É o que se espera de um piloto Gundam...
Eu não precisava dizer pela milésima vez que estava surpreso...
Mas eu estava surpreso!
Heero distribuir uma palavra quase... Amiga, é um fenômeno ainda não registrado, ao menos pelos meus ouvidos. Não que Heero seja algum tipo de monstro insensível...
Apesar de que insensível...
Bem, eu prefiro pensar que ele é reservado demais para tomar partido de algo que não o envolva. Essa é a defesa dele contra o mundo, assim como eu tenho as minhas próprias barreiras. Claro que, seu jeito frio e estóico costuma machucar qualquer um que tenha coração, mas quem sou eu para julgá-lo?
Problemas a parte, procurei por um short e uma blusa folgada e manquei até o banheiro, rezando para que um bom banho de água quente fosse o suficiente para dissipar um pouco da rigidez dos músculos da perna e também uma porção da minha tensão; apenas o necessário para que eu encarasse Quatre com paciência o suficiente para não esquecer que seus atos sufocantes eram guiados por seu bom coração.
O banho demorou mais de uma hora, onde aproveitei da água quente para tentar realizar alguns movimentos; eu estava me precipitando, é verdade, mas a empolgação era muito maior que o meu bom senso. Desembaracei o cabelo em tempo record, troquei os curativos do ombro e enfaixei o pé com uma tala firme para dar sustentação. Quando me senti pronto para encarar a todos comecei a mancar desajeitadamente, dando graças a Deus por ter encontrado todos na sala.
E deixando claro que, quando digo todos, me refiro a Trowa e seu fiel escudeiro, porque a essa hora Heero costuma mexer em seu Gundam ou sumir se enfiando em algum lugar onde ninguém possa vê-lo.
Aproximei-me o mais silenciosamente que um manco conseguiria, mas chamei a atenção dos dois assim que entrei. Na mesinha de centro, o laptop de um deles estava aberto, e pelas caras, eu nem precisava perguntar para saber do que se tratava.
- Você deveria estar colocando peso nesse pé? – Trowa repreendeu em seu tom contido, mas eu não estava com humor para brigar com ninguém e simplesmente sentei em uma poltrona próxima, de onde poderia observar tudo, já que não faria parte.
- De quem é a bomba? – perguntei, uma voz contente em minha cabeça repetindo como um mantra: "tem que ser ele, tem que ser ele, tem que ser ele...".
- É um pouco mais complicado do que isso... – Quatre respondeu cabisbaixo, fitando inconsolável a tela do laptop. – Trowa acabou de aceitar uma missão, e eu... Bem... Os Maguanak interceptaram um...
- Você vai. – interrompi com um tom sério, não admitindo ressalvas. Minha mente se dividindo em duas: uma apoiada pela voz histérica de tanta animação, e a outra se revirando de culpa, por uma parte desejar que ele vá embora.
Os olhos azuis voltaram-se imediatamente para mim, e eu vi ali todo o seu receio de me deixar sozinho durante um período que ele julgava complicado. Queria ficar irritado com ele porque isso tornaria as coisas mais fáceis, mas eu estava irremediavelmente cativado por aquele loiro... Estava começando a empurrar minha pobre alma para caminhar sobre a instável corda da vida...
- Seja realista: eu tenho cara de quem vai fazer fisioterapia? – lhe perguntei, colocando no rosto um de meus sorrisos mais convincentes. – Sei que você se preocupa, mas não se esqueça que mesmo machucado, ainda sou um soldado... Prometo que vou cuidar bem desse pé aqui, e tomarei o remédio direitinho.
- Ainda sim, e se algo acontecer? Wufei está em outro abrigo. Não tenho previsão de volta, e Trowa também estará longe.
- Sempre pode acontecer algo Q. – chamei-o pelo apelido, tentando dobra-lo. – Estamos numa guerra lutando contra Deus e todo o Universo... – olhei para Trowa num pedido mudo de ajuda.
- Duo tem razão Quatre. Não podemos parar uma guerra a cada vez que um de nós se machucar. – apontou em toda a sua sabedoria. – Além do mais, Heero estará aqui por um tempo...
Er... Eu disse sabedoria?
Essa não foi a frase mais inteligente que o moreno já proferiu, e tenho certeza que Quatre teria rido se tivesse um senso de humor mais aguçado.
- Fazemos o seguinte: eu deixo você instalar as malditas barras e vou à fisioterapia. – ele me olhou satisfeito e eu sorri em triunfante. – Em troca...
Foi preciso muito jogo de cintura, e todo o estoque de frases que Trowa possuía para convencer o loiro a pegar a missão. Mas só depois de uma tarde toda de recomendações, promessas e imposições, Quatre mandou uma confirmação e começou a arrumar as coisas para partir, ao mesmo passo em que Trowa fazia os preparativos para a sua própria missão.
Dessa vez não ousei cometer a indelicadeza de atrapalhar aquele momento tão especial para os dois. Poderia dizer que muito mais difícil do que para qualquer um de nós. Eles tiveram a coragem de quebrar uma das regras que nos mantinha vivos, e para eles, partir significava muito mais do que rumar para uma batalha.
Quando anoiteceu, nos servimos de uma refeição farta preparada por Quatre, tendo toda a cara de ter sido feita especialmente para Trowa como um presente de despedida. Jantamos em silêncio, cada um com as suas preocupações e até mesmo Heero parecia ter algo incômodo em mente; eu podia ver pelas suas sobrancelhas constantemente franzidas durante toda a refeição.
Comi menos do que gostaria, mais preocupado em deixá-los a sós do que me alimentar. Eu queria recompensar Quatre por ter sido um pouco grosseiro diante de sua preocupação para comigo e principalmente por ter partido às pressas da ultima vez. A sombra que vi passar pelos olhos de Trowa ficaria marcada na minha cabeça por um bom tempo, e para evitar mais um peso na consciência, valeria a pena comer comida requentada mais tarde.
Sem vontade nenhuma de voltar para o quarto, iniciei minha peregrinação para a biblioteca no outro extremo da casa e passei lá um bom tempo, perdido entre as estantes selecionando vários livros que eu leria nos próximos dias de confinamento. Minhas prateleiras favoritas continuavam sendo as do fundo do cômodo, até porque, ainda não havia tido a oportunidade de verificar o outro nível da sala. Eu mal podia mancar, que dirá subir escadas.
As horas passaram sem que eu percebesse, e me assustei quando ouvi as doze badaladas soarem baixinhas vindo da sala de estar. Abandonei minha leitura esperando ter dado tempo o suficiente para aqueles dois ficarem à vontade. Levantei do canto em que havia me enfiado entre a junção de duas estantes e meu tornozelo protestou imediatamente, latejando contra a pressão da tala e da faixa. Olhei desolado para a montanha de livros que pretendia levar, não vendo possibilidade de carregá-los comigo, pois precisaria usar a mão boa para buscar o apoio das paredes...
Seria um passeio doloroso...
Levei um tempo considerável para chegar até a sala, usando a velha técnica dos pulinhos para alcançar o meu destino. Me apoiei em uma parede próxima com meu pensamento voltado inteiramente par as aspirinas que deveriam estar na cozinha, tentando imaginar se agüentaria chegar até lá sem terminar de acabar com as minhas costelas maltratadas pelo esforço.
Essa noite com certeza entraria para a lista dos momentos em que eu gostaria de ter tido um pouco mais de paciência... Se eu não tivesse esquecido de levar algum apoio ou aviso a alguém...
- O que houve com a sua perna?
Senti meu corpo estremecer ao mesmo passo em que meu coração fez uma força descomunal para fugir pela boca... Acho que me contorci mais do que estremeci, engasgando um grito que teria acordado toda a casa se eu o tivesse liberado.
- Mas que merda! – reclamei, dando um pulo para me virar sem usar o pé dolorido. Era Heero e sua voz de trovão, vindo só Deus sabe da onde. – Merda Yuy, você quer me matar? Você não pode surgir do nada desse jeito, sabia! As pessoas normais fazem barulhos quando anda... Não estamos numa maldita missão!
Meu coração batia com violência em seu abrigo, e se eu não estivesse tão ocupado em controlá-lo, talvez tivesse percebido naquele momento o meio sorriso alojado no rosto do japonês, que se aproximava aparentemente intrigado.
- O que houve com a sua perna? – perguntou novamente.
- Exagerei... – respondi contrariado, ainda me recuperando do susto. – Mas... O que você estava fazendo no escuro, Heero? Por acaso estava armando uma tocaia?
Ele apenas deu de ombros, mas eu já estava acostumado com a sua "eloqüência". Me sentia extremamente incomodado com aquela sua presença imponente e seu olhar gelado; nos meus melhores dias, já teria dado as costas e partido há um bom tempo, mas eu estava realmente preocupado com o meu tornozelo, e já que ele havia perguntado...
- Mas já que você está aqui... Será que poderia dar uma olhada?
Ele grunhiu alguma coisa inteligível, como eu esperava, e ajoelhou-se para analisar o lugar da torção, sem me tocar em momento algum.
Olhando assim, ele até parecia se importar, não é mesmo?
- Isso vai precisar de gelo. – alertou em seu tom monocórdio, atestando o óbvio.
- Era isso que eu pretendia fazer antes de você tentar me matar... – reclamei quando ele levantou e nossos olhos se encontraram. – Se Quatre desconfiar vai querer cancelar aquela maldita missão e eu terei de agüentá-lo por mais... O que foi? – parei de tagarelar, incomodado com a forma como as sobrancelhas de Heero se uniam cada vez mais no centro da testa. – Foi alguma coisa que eu disse? Não, porque eu...
- Você fala demais... – ele resmungou, e foi como se eu recebesse um balde de água fria na cabeça.
- Hn... – virei a cara, escondendo meu aborrecimento. – Desculpe, mas foi você quem montou uma tocaia no meio da sala escura, e não eu. Se não quer me ouvir falar pode ir embora e...
E não é que ele realmente me deu as costas? Maldito!
Aquilo me irritou profundamente, mas tive de engolir todo o meu orgulho ao sentir meu tornozelo protestar preso na faixa, que parecia muito mais apertada do que quando a coloquei mais cedo.
- Heero... Espera! – chamei, mancando poucos paços até alcançá-lo. – Hm... Acho que vou precisar de uma ajudinha para chegar ao quarto... – sorri sem graça, olhando para o pé machucado.
- Baka...
Duas tentativas desajeitadas foram necessárias até encontrarmos uma boa posição; eu com meu braço esquerdo passado em seu pescoço, e ele segurando minha cintura, me ajudando a não colocar todo o peso no pé direito. Se estivesse com o meu baço inteiro...
Eu odiava ser tão dependente das pessoas, me sentir um inválido... A que ponto cheguei tendo que ser quase carregado por Heero Yuy? E o quão ruim minha aparência deveria estar para ele aceitar me ajudar quase sem reclamar?
- Fique com a perna esticada, eu volto com o gelo...
Balancei a cabeça debilmente sem ter visto Heero me acomodar na cama. Tentei dobrar o joelho para ver o tornozelo mais de perto, mas meus músculos estavam rígidos e doloridos demais. Não demorou muito para que o japonês voltasse com um saco de gelo e analgésicos.
Tudo o que eu precisava para passar uma noite tranqüila.
Voei em cima do frasco retirando logo dois comprimidos para sanar a dor de uma vez. Mas Heero foi mais rápido e deu um leve tapa na minha mão fazendo com que "as coisas santas" caíssem no chão.
- Heero... – grunhi em um tom claro de ameaça.
- Você vai tomar remédio às três horas e não deveria estar misturando...
- 'Tá bom, 'tá bom... – cortei irritado.
Ele estava certo! Eu não poderia estar misturando os malditos remédios com os analgésicos, e quis matar Heero por ele estar com a razão. Eu estava com dor, sentindo o início de uma enxaqueca e para completar, meu estômago estava armando uma revolta contra o jantar.
Não faltava mais nada.
Lancei-lhe um olhar injuriado, e aceitei o único comprimido que ele me oferecia, desejando que fosse algum tipo de pílula mágica. Heero não demorou muito a me deixar sozinho, e eu deitei colocando a bolsa de gelo no tornozelo. Depois de uma hora ou menos, o sono finalmente me venceu e da madrugada só me restou uma vaga lembrança de alguém vir trazer o meu remédio das três, mas eu estava cansado demais para me preocupar com isso.
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E ele diz que anda numa linha tênue
Entre o que é e o que poderia ser.
Ele está chegando perto
De algo que não pode entender.
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Continua...
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Hum... Não está nem próximo do que eu queria... Mas, eu tentei...
Não pretendia postar o capítulo agora, mas uma certa pessoa me mataria se eu não colocasse essa semana ainda. Fê-chan, ta aí como eu prometi.
Ainda faltam uns dois ou três capítulos para Shot terminar, até lá, decido o que fazer com Aurora
Agradecimentos a Shinny (viu? ele nem morreu... isso é bom, né? XD) e Ju (fico muito feliz que você tenha gostado desse aqui também ) , que não pude responder aos reviews. Muito obrigada!
E para aqueles que respondi... Os reviews de vocês são tudo de bom
Peço desculpas "novamente outra vez" pelos erros que possam estar por ai...
'Té a próxima! o/
