Nesse aqui: 2+1; angst, linguagem explicita, Duo POV, OOC, TWT. Contém Spoilers.
Disclaimer: Hum... É difícil declarar aqui para todos, mas... Apesar das visitinhas constantes do Heero e do Duo, eles não me pertencem; assim como os outros personagens e toa a série... (droga -.-') E para completar... Essa é uma atividade não remunerada (again -.-'')
Agradecimentos: Um muito obrigado a Blanxe, sempre muito paciente, dessa vez dando uma mega-ajuda com a tradução da música... God, thanks... Y.Y
Aurora
Eu estou encontrando meu caminho de volta a sanidade de novo
Mesmo que eu não saiba realmente o que eu vou fazer quando chegar lá
Respiro e seguro firme
Rodopio mais uma vez
E graciosamente caio de novo nos braços da misericórdia...
Shot - III
Dormi até não sentir mais vontade e quando acordei a dor havia passado quase por completo. A primeira coisa que fiz foi checar o tornozelo; milagrosamente, eu havia conseguido passar a noite inteira sustentando o pé no montinho de almofadas que havíamos montado para receber a compressa de gelo de forma "confortável". O inchaço estava visivelmente menor do que horas atrás, tirando um peso e tanto dos meus ombros. Eu não teria problemas com Quatre, assim como não complicaria mais o meu estado já precário.
Deixei meu corpo cair contra o colchão querendo aproveitar um pouco mais daquele breve momento de despreocupação. Virei o rosto ligeiramente para o lado esquerdo, a fim de fitar o relógio na cômoda, e levou alguns segundos para que minha mente sonolenta registrasse a informação do visor digital: não apenas a dor, mas a hora do café da manhã também havia passado, e se eu não me apressasse um pouquinho chegaria atrasado para o almoço.
O relógio marcava onze e cinqüenta.
Eu teria pulado da cama se estivesse em condições, mas ao invés disso retirei lentamente o pé do apoio em que ele havia passado a noite, e com cuidado me sentei, escondendo o rosto entre as mãos e tentando me concentrar o bastante para não ter um ataque de pura frustração dentro daquele quarto.
Merda! Eu havia esquecido completamente! Trowa e Quatre estavam de saída logo pela manhã, e a essa hora já deveriam estar muito longe. Isso fazia com que eu me sentisse um fracasso, quase um bastardo. Eles haviam me dado tanto apoio nesses quinze dias... Quatre me enlouquecendo, mas cuidando de mim como se eu fosse da sua família, e Trowa não deixando que eu pirasse de vez, tendo sempre uma palavra de apoio... O mínimo que eu poderia... Que eu deveria ter feito era me despedido decentemente, abraçado cada um deles pedindo desculpas pelo transtorno e agradecendo pela paciência...
Mas eu estava tão cansado... Tão aliviado por estar me recuperando de pelo menos um dos traumas que... Droga!
Ouvi um leve ranger de dobradiças e levantei a cabeça, encontrando um par de olhos azuis encarando o meu show silencioso. Por uma fração de segundos tentei imaginar se sua reação seria a mesma caso eu tivesse dado vazão a minha frustração e resolvido quebrar a mim e ao resto do quarto. De qualquer forma, creio que essa tenha sido a primeira vez que a presença do japonês me era completamente indesejada.
- Quando eles partiram...? – perguntei vagamente, observando sua expressão fechada.
- Assim que amanheceu. – respondeu em seu costumeiro tom indiferente. – Vim te buscar para a fisioterapia.
- É... Eu sei... – murmurei, mal percebendo que estava começando a ficar monossilábico. – Cinco minutos. – e sem mais palavras levantei, quase praguejando por não ter testado a resistência do tornozelo, mas agradecido por ele não ter falhado.
Uma ducha morna e rápida foi o suficiente para me acordar e como já havia lavado o cabelo no dia anterior não tive um problema a mais, afinal, já era difícil tomar banho enfaixado, que dirá lavar os cabelos. Puxei um jeans preto pendurando atrás da porta e o vesti desajeitadamente, sentindo uma agonia crescente em abater. Deixei o banheiro e quando entrei no quarto Heero ainda estava lá, parado no mesmo lugar, olhando para o nada.
- Quando eu disse cinco minutos, não quis dizer para você parar e esperar ai... – debochei, sentindo os primeiros sinais de um dia com um humor intragável.
Heero fez um 'hm' que não me dei ao trabalho de responder, fazendo apenas um esforço para ignorar sua presença inconveniente. Desfiz e refiz a trança com um pouco de dificuldade, mas depois de anos de prática, creio que seria capaz de fazer aquele trabalhinho usando até os pés. Estendi a mão para o criado mudo onde havia deixado o material para enfaixar minha perna, e realizei a tarefa sem muito cuidado, sabendo que eu teria de tirar quando chegasse ao hospital. Ainda achava idiota a idéia de fazer fisioterapia tendo sido o tempo de imobilização tão curto, mas depois da noite anterior não me custaria nada fazer uma, duas... Talvez até três seções. Depois disso, trabalharia ao meu próprio tempo, provavelmente muito mais rápido do que o pretendido pelo médico, e estaria recuperado quando a hora de trabalhar o ombro chegasse.
Ouvi Heero perguntar alguma coisa, mas apenas grunhi. O pensamento sobre esse hábito ser contagioso foi considerado por alguns instantes, mas foi novamente substituído pelas reflexões sobre a nova condição em que eu havia me colocado.
E continuou lá durante todo o trajeto para o hospital, tendo sido interrompido somente enquanto eu tentava assimilar o que a médica dizia, para depois voltar a me afogar em conjecturas o resto do dia. Podia parecer besteira; eu começava a me perguntar se não seria besteira. Mas analisando o meu histórico de perdas, não era de se estranhar que meu coração e minha mente trabalhassem em conjunto para proteger o que restara da minha alma fragmentada. Havia me criado nas ruas. Terrenos abandonados, becos, latas de lixo e até mesmo esgotos foram meu lar durante muito, muito tempo. Por mais sofrido que tenha sido ali eu aprendi grande parte das coisas que levei e levo comigo para o resto da vida.
Foi ali que eu conheci outras crianças existindo em uma sobrevida como a minha, ou até pior, e tenho certeza que sem essa experiência, não existiria um Duo Maxwell, muito menos o Shinigami.
Particularmente, não gosto de relembrar esse período da minha vida, me doendo alcançar os rostinhos infantis no fundo da minha memória sabendo que ficou apenas para mim a responsabilidade de recordá-los. Não sabia por quando tempo aquela lembrança resistiria, mas enquanto resistisse eu faria por merecer aquele privilégio, e honraria cada um deles... Assim como honraria a memória do homem mais humano que eu tive a oportunidade de conhecer...
Ah... Esse sim é um episódio do qual não gosto de recordar, e admito para os quatro ventos que nunca foi e possivelmente, nunca será superado.
E nem preciso dizer que ele pereceu, assim como todas as pessoas das quais me aproximei...
Foi assim durante toda a minha curta vida, até que assumi o peso de Shinigami com as próprias mãos e decidi que eu levaria a morte para aqueles que a mereciam, evitando que mais crianças inocentes precisassem se abrigar em esgotos e comer de lixeiras para sobreviver...
É... Acho que a vida não podia reclamar de minhas barreiras, quando foi ela mesma quem as construiu... Barreiras essas que estavam ruindo a cada segundo, e por mais que estivesse tentando ergue-la novamente, meus esforços estavam sendo em vão.
Eu querendo ou não, Quatre havia iniciado a minha caminhada para algo que não teria volta. Não somente ele, mas todos pareciam estar fazendo a sua parte para torturar a minha alma saturada de perdas. Minha maior certeza era de que agora eu não seria capaz de dar mil por cento em uma batalha; existiria sempre uma porcentagem, mesmo que mínima, ligada a qualquer um deles e rezando para que um dos tiros não os acertasse... Para que eu fosse o alvo no lugar de qualquer um deles...
Essa era uma de todas as complicações agridoces que a amizade trazia para um soldado, e sinceramente, eu não saberia dizer se estava ou não preparado para isso.
Na verdade, o que eu não sabia é se valeria a pena... Não por mim, mas por eles.
Enquanto eu estivesse por perto, Shinigami estaria comigo...
Rondando, esperando...
E quando tudo estivesse bem, quando eu pensasse que nada seria capaz de quebrar o que havia sido construído, ele seria novamente a ancora com o mundo real... Mostrando-me o que acontece quando não somos capazes de proteger as pessoas que amamos...
A questão era: eu estava preparado para proteger a todos eles?
Eles me deixariam protegê-los?
A noite me alcançou sozinho e contemplativo, largado em uma cadeira na varando olhando para tudo sem enxergar ou absorver nada. Devo dizer que minha ligação com o mundo real foi um ronco alto e distinto produzido pelo meu estômago, e sem ele, creio que teria permanecido ali pro um bom tempo. Enquanto fugia de minhas amarguras acabei me prendendo a algo que nem havia passado pela minha cabeça. Como Quatre não estava em casa, muito menos Trowa ou Wufei e meu braço estava ruim... Sobrava para Heero o trabalho de cozinhar. É claro que na casa ainda haviam empregados; muito poucos é verdade, mas um deles trabalhava na cozinha antes de chegarmos e dispensá-lo. Chame de paranóia ou o que quiser, mas nós tínhamos um sério problema em comer comida feita por terceiros e mesmo que os empregados fossem de confiança, cada vez que fazíamos uma parada nas casas dos Winner era de praxe nos revezarmos na preparação das refeições, como uma medida de segurança.
Mas, voltando ao "sobrava Heero", eu estava enfaixado e impossibilitado de cozinhar algo descente usando apenas uma mão. Isso significava que o japonês deveria ter se encarregado da refeição.
E meu estômago doeu diante dessa hipótese.
Não que Heero cozinhasse mal; a aparência não era de todo o ruim, diria que tecnicamente perfeita; mas faltava muito sabor naquela comida. Acho que talvez ele não se importe com o gosto da comida. Até onde eu sei, Heero foi treinado para ser um piloto de categoria, não um chef de cozinha. Soldados podem muito bem se alimentar de barras energéticas e bebidas proteinadas, cozinhar pra quê?
Eu mesmo não teria aprendido nada se não fosse... Se não fosse pela irmã Helen, que tinha uma mão incrível para fazer doce...
- Mas quem garante que foi o Heero que cozinhou? – falei para o meu estômago, querendo empurrar certas memórias de volta para sua caixinha. – Se ele tiver lembrado vai ser muita coisa...
E lembrou.
E nem fez o favor de encomendar alguma coisa, confirmando minha teoria de que ele não se importava com o gosto... Ou ainda, que nunca haviam lhe dito que sua comida era... Sem sal. É claro que, depois de uns cinco minutos sentados na mesa sem uma palavra da parte dele eu levantei esse tópico, vendo nele minha única chance de arrancar mais que alguns resmungos. De fato, eu consegui um pouco mais do que isso; sim e não, que são obviamente palavras, foram muito utilizadas por ele. E no final, quando suas sobrancelhas estavam quase fundidas no meio da testa, tamanho o seu incômodo, eu consegui arrancar uma frase completa:
"Não será necessário".
Perceba ali a presença do verbo; algo muito raro nas frases proferidas para mim.
Mas o maior prêmio da noite foi conseguido quando lhe disse que ensinaria algumas técnicas de "como pilotar um fogão" assim que meu ombro estivesse recuperado. E usando exatamente essas palavras eu arranquei um pequeno, quase imperceptível, ínfimo meio sorriso.
Mas já era alguma coisa.
Depois de três dias convivendo sozinhos naquela casa, Heero e eu já adotávamos uma certa rotina, muito mais do que eu poderia sonhas em esperar dele. Depois da terceira seção de fisioterapia, me auto-liberei e resolvi que continuaria com os exercícios na academia que havia no porão da casa. Eu passava parte da manhã exercitando o tornozelo torcido e algumas vezes Heero descia para fazer sua própria seção usando os aparelhos que eu nem poderia chegar perto. Nesses dias, eu aproveitava para abusar um pouquinho e quando percebia que ele estava prestes a subir, pedia gentilmente que ele me ajudasse a chegar até o quarto. Heero sempre murmurava algo como "nunca aprende", ou o tradicional "americano baka", mas eu ignorava; parte por não entender metade dos seus grunhidos, e outra por estar contente com sua ajuda.
Era surpreendente, mas eu tinha de admitir que Heero era uma "companhia" muito mais tolerável que Quatre havia sido durante os quinze dias em que fiquei acamado. O soldado estóico tinha algo que o loiro não teria nem em um milhão de anos: indiferença.
Falando assim pode até parece um despautério, mas a paz e sossego que eu desfrutei naqueles dias foram o suficiente para colocar minha cabeça em ordem, e eu diria que até elevar o meu astral. Não que Heero estivesse me ignorando por completo até porque, não creio que conseguiria ficar em paz com os seus costumeiros olhares reprovadores.
Mesmo depois de tanto tempo, ele ainda assumia o papel de enfermeiro da madrugada, nunca deixando que eu esquecesse de tomar meus remédios. Eu era inteiramente agradecido, pois era capaz de dormir despreocupado e isso influenciava a velocidade da minha recuperação.
Mas fora os encontros ocasionais na academia, o japonês ainda sumia das minhas vistas durante o resto do dia, provavelmente, enfurnado naquele esconderijo que eu ainda não havia descoberto, ou fazendo alguma coisa em seu Gundam. Isso eu não poderia averiguar, já que o hangar que acolhia nossas máquinas ficava no meio de uma colina arborizada no fundo da casa, terreno que eu não poderia pisar tão cedo; pelo menos não sem ajuda.
Na hora do almoço ele costumava aparecer ou eu me virava com alguma coisa que havia restado na geladeira ou com as sobras da refeição da noite anterior. Quando anoitecia eu apenas esperava a hora da janta chegar, e certo como o dia, Heero já havia preparado uma das suas comidas sem graça e eu me sentava a sua frente, tentando puxar algum assunto que me rendesse mais de uma frase completa.
Demorou um pouco, mas no começo da nossa segunda semana juntos, enquanto ele me ajudava com o curativo do ombro depois do jantar, eu consegui o que poderíamos chamar de diálogo.
- Heero... – chamei timidamente, o observando por debaixo da franja. Ele grunhiu algo inteligível, mas eu já estava preparado para isso, e para o meu próprio bem interpretei aquilo como um "pode prosseguir". – Eu sei que já tenho lhe causado muitos problemas... – suas mãos diminuíram o ritmo com que trabalhavam em meu ombro e eu o interpretei novamente, dessa vez como um sinal de que tinha sua atenção. – Hm... Será que você podia me levar com você da próxima vez que for ver o Wing?
Ele parou o que fazia para me encarar abertamente, e eu permaneci em minha posição, admito, intimidado com a intensidade do seu olhar. Eu sabia que ele fazia aquilo de propósito sempre que queria me impedir de prosseguir com alguma idéia, por isso apenas esperei que ele desse o próximo passo.
- Quer que eu te leve até o hangar? – ele repetiu, parecendo querer ter certeza do que eu estava dizendo.
- É... – confirmei. – Eu queria dar uma olhada no Deathscythe, se você não se importar.
E alguém poderia perguntar: "E porque diabos você está pedindo justamente para Heero Yuy?".
E eu responderia: primeiramente, porque eu queria ver o scythe o mais rápido o possível e não fazia idéia de quando os outros retornariam. Segundo, porque mesmo que os outros estivessem em casa, Heero seria o único que me levaria até lá.
Eu havia tirado essa conclusão durante as minhas horas vazias na parte da tarde, enquanto tentava ler um livro no sossego da biblioteca. Estranhamente, o japonês era o único que entendia a minha necessidade de ter um espaço e suspeito que nem mesmo Wufei fosse capaz de me permitir essa estripulia. Talvez fosse apenas meu lado positivo maquiando o que seria pura indiferença; mas qualquer que fosse o motivo, eu tinha certeza que se eu pedisse do jeito certo, Heero me levaria até meu Gundam.
- Por que? – ele perguntou calmamente, voltando a realizar o trabalho de enfaixe.
Ciente de que ao menos ele me escutaria, ergui meu rosto fazendo o melhor para encará-lo, estando ele atrás de mim.
- Porque sim, oras! – ele resmungou alguma coisa e eu elaborei. – Olha Heero, eu prometo que não vou sair voando; até porque, o scythe ainda não está em condições para isso.
- Seu tornozelo ainda não está cem por cento...
- Eu sei... Mas você também sabe que eu estou muito melhor... Nem estou mancando mais...
- Duo...
- Heero eu ainda estou fazendo muito em falar com você. Eu poderia muito bem subir e... – seu corpo ficou repentinamente tenso, e me calei, antes que passasse do limite... Que no nosso caso era muito estreito.
Não foi muito inteligente tentar pressioná-lo, é verdade, mas eu estava sendo sincero; além do tornozelo, nada me impedia de simplesmente subir aquela colina e fazer o que me desse na telha. Heero estava me ajudando porque ele queria, eu nunca havia exigido nada. Nunca fui do tipo dependente, e não seria por uma torção idiota que eu me transformaria em um.
Senti uma pressão maior no ombro e Heero prendendo e finalizando o curativo. Ele levantou, e eu cheguei a pensar que estivesse indo embora; mas antes que ultrapassasse a barreira da porta, virou-se para mim com um semblante sério e usando um familiar tom de comando.
- Camisa e casaco, e se eu suspeitar que você se esforçou demais, nós voltamos na hora.
- Agora? – perguntei, piscando os olhos e incrédulo.
- É, agora.
Engoli o que seria um grito de vitória, e me forcei a balançar a cabeça em um aceno positivo, me contendo até que ele passasse pela porta.
Eu sabia que ele me levaria até lá! Reclamando... Mas levaria!
Andei até a cômoda e troquei o short pela calça, mas dessa vez nem cheguei a me irritar com a dificuldade de só ter um braço para realizar a tarefa. Eu iria sair da casa! Eu veria meu parceiro, e o melhor de tudo, sem arranjar confusão com ninguém.
Isso compensaria o meu desgaste.
Cacei o controle da cabine, calcei um par de tênis, joguei a jaqueta sobre os ombros e saí porta a fora, refreando o impulso de correr até o jardim dos fundos. Quando cheguei lá, Heero já estava a minha espera e iniciamos uma caminhada silenciosa, ditada pelos passos do japonês; muito mais lentos do que eu queria, mas eu não ousaria questionar.
Ao alcançar metade da subida, os primeiros indícios da construção insinuaram-se entre as árvores altas, e não demorou muito para que eu visualizasse o portão.
Eu fui o primeiro a entrar no espaço mergulhado na escuridão. Guiei-me pelas luzes dos alarmes e parei quando consegui identificar o contorno dos dois Gundans, lado a lado nos monstruosos sustentadores de aço. O som dos holofotes chegou aos meus ouvidos antes que a luz me atingisse e fechei meus olhos para evitar um choque com a mudança rápida da iluminação. Voltei a abri-los segundos depois, e meu estarrecimento não poderia ser medido.
Pisquei algumas vezes querendo ter certeza de que a luz não havia me cegado, mas estava lá; o Gundam que eu havia abandonado caindo aos pedaços estava parcialmente reconstruído, eu diria até pronto para uma batalha de pequeno porte... Médio, se fosse realmente necessário. A couraça ainda estava danificada em alguns pontos, e ele precisava de uma boa encerada, mas...
- Deus... – murmurei, dando dois passos à frente, sendo totalmente engolido pela presença imponente do meu amigo de batalhas.
- A parte interna está intocada. – Heero disse ao meu lado, mas eu não conseguia tirar os olhos do Gundam. – Hn, achei que "hackear" a senha do cockpit não seria uma opção viável.
Abri a boca para dizer alguma coisa, talvez, expressar o quão chocado e agradecido eu estava; mas não consegui nada além de ficar lá, parado com a boca aberta esperando que as palavras deixassem seu refúgio. Ele fez pela segunda vez aquela coisa com o canto dos lábios que agora eu reconhecia como sendo um sorriso, mas dessa vez tinha um toque de triunfo no gesto.
Bem; se sua intenção era deixar Duo Maxwell sem palavras...
É, ele realmente havia conseguido.
Desisti de tentar falar alguma coisa e apenas me aproximei da estrutura, subindo no andaime para chegar ao alto da plataforma, visto que seria impossível eu me agarrar no cabo de aço se quisesse manter minha integridade física. Esse pensamento abalou uma pequena estrutura em um canto obscuro da minha mente, mas não dei muita atenção àquele detalhe; estava contente demais para estragar as coisas com ponderações.
Quando finalmente alcancei a entrada do compartimento retirei o controle do bolso num gesto quase solene, e sem nunca desviar meus olhos da grande massa de Gundanium, digitei a senha e ouvi fascinado o despressurizar da cabine; os mecanismos hidráulicos...
Eu deveria estar parecendo uma criança quando reencontra um brinquedo há muito perdido, mas a euforia era tanta que não me importava se Heero estava ou não olhando.
Foi preciso uma pequena manobra para alcançar o cockpit e quando estava finalmente dentro da cabine... Ah! Foi como se o velho Duo estivesse de volta. Um Duo embrulhado para presente e ligeiramente fudido, mas ainda sim o original.
Pode soar um tanto quanto patético, mas eu considerava aquele Gundam como um amigo; ele foi minha única companhia por um bom tempo, salvando meu traseiro em diversas ocasiões, nunca me decepcionando quando eu precisava dele...
E o melhor:
Scythe era um excelente ouvinte.
Era disso que eu precisava no momento; alguém que me ouvisse sem interrupções e sem fazer comentários como "você deveria se cuidar" ou "tenha um pouco mais de paciência...".
Convenhamos: se conselhos fossem realmente bons, eles seriam vendidos, não dados de bandeja. Além do mais, eles nem faziam questão de modificar o discurso; creio que seria capaz de vocalizar um dos de Quatre que eu tinha guardado na memória e na ponta da língua...
- Acho que temos muito que conversar amigão... – estendi uma das mãos para o painel deslizando os dedos por alguns dos botões. – Muito que conversar...
Passei um bom tempo ali dentro, apenas mexendo e remexendo no sistema; corrigindo falhas, atualizando dados e recolhendo material para montar o relatório sobre a missão anterior que eu ainda não havia feito. Na verdade nem creio que precise, já que os doutores gagás trocam informações entre si, e eu tenho certeza que o velho G já sabia de tudo através do relatório minucioso e bem feito de Quatre. Eu apenas enviaria os dados recolhidos do Deathscythe, indicaria uma boa danceteria para ele e o relatório estaria finalmente terminado.
Com um mês de atraso, mas ainda sim entregue!
Enquanto isso, meu amigo fiou a par de tudo o que havia acontecido nos últimos dias, e como eu esperava, ficou extremamente surpreso como meu relato sobre o tratamento "suspeito" que eu estava recebendo do Heero. Veja bem, não estou dizendo que seja desagradável, ou que pretenda fazer algo para voltar ao velho tom insípido; mas não é crime desconfiar, é? Afinal, ele não me apresentou nenhum motivo sólido e palpável para aquela mudança singela de comportamento.
Acho que devo creditar aquela desconfiança em minha falta de fé... A mesma que me impedia de aceitar o que a vida proporcionava...
- Vê se pode... Um rato de rua filosófico? Acho melhor parar de tomar aqueles remédios, hn? – scythe concordou plenamente, e eu lhe sorri, gostando de todo aquele apoio.
Recolhi alguns itens inutilizados e minha sacola esquecida, com roupas que precisavam ser lavadas com urgência. Fiz uma lista dos itens que precisavam ser reparados ou substituídos, e já estava me preparando para fazer uma boa limpeza no interior quando um bip agudo chamou minha atenção. Olhei para o painel de comunicação reconhecendo a freqüência do Wing...
Seria muito idiota de minha parte reconhecer que havia esquecido a presença do Heero lá fora? Alcei a mão na direção do comunicador e a voz do japonês chegou aos meus ouvidos, baixa e um pouco sonolenta.
- Não acha que já está um pouco tarde?
Franzi o cenho para o comunicador como se estivesse olhando para um Heero de verdade, e chequei a hora nos monitores. Com um tapa mental me condenei por não ter visto a primeira hora da madrugada passar.
- Me desculpe Heero, eu esqueci completamente... – me esforcei para colocar um sorriso em minha voz, já que ele não podia me ver. – Tinha muita coisa pra fazer aqui eu não... E no meio das palavras, me dei conta de que eu estava falando para o soldado estóico, e que de nada adiantaria eu prolongar minha conversa fiada. Era uma triste verdade... Apesar de ter melhorado sua condita, no fundo ele não ligava a mínima...
- Duo?
- Espera só um segundo que já estou saindo!
Finalizei a comunicação e todos os programas que eu havia aberto; retirei o disco com os dados salvos e deixei o compartimento, dando uma ultima olhada para o assento do piloto e não conseguindo deixar de imaginar quando eu voltaria a sentar ali de novo; não apenas para uma visita, e sim pilotá-lo de verdade. Olhei para Heero a meio caminho do andaime, e não que diabos me levou a fazer aquilo; talvez a alegria de ter me mantido ocupado com algo realmente útil por mais de uma hora... O que posso dizer é que me senti ousado o suficiente para dar um pequeno salto até a plataforma, desprezando completamente as forças da gravidade sobre meu tornozelo.
E não deu outra...
- Merda! – gritei; meu tornozelo se recusando a suportar meu peso e meu corpo, que sem apoio, caiu livre contra o solo. Minha única reação foi fechar os olhos e jogar o braço esquerdo à frente, tentando evitar que o ombro sofresse algum choque. Mas antes que eu pudesse chegar ao chão, um par de mãos fortes me segurou pelos cotovelos, e ao invés de dar de cara na estrutura, eu me choquei conta o peito do Heero. – Ouch!
- Americano...
- Baka, eu sei... – grunhi, me segurando em seu ombro para tentar ficar de pé. Meu tornozelo protestou, mas aceitou suportar meu peso. Já era alguma coisa; mas por via das dúvidas, continuei me apoiando no japonês. – Acho que...
- Exagerou, eu sei... – completou parecendo meio irritado, e eu apenas sorri, achando graça daquela troca. – Vamos antes que isso comece a inchar.
Começamos a fazer o caminho de volta para a casa, como na noite em que também exagerei depois de tirar a bota; seu braço estava em volta da minha cintura, e o meu em seu pescoço. Eu nem posso descrever o quão estranha estava me parecendo aquela situação, e o mais estranho é que essa não era a primeira vez que Heero me ajudava desse jeito. Empurrei os pensamentos para aquele "deposito" no fundo da minha mente, tentando manter toda minha concentração no ato de caminhar entre as raízes, e com uma pontada de humilhação, eu admitia que estava sendo um obstáculo e tanto; mas depois de um tempo, achei que fosse superável. O problema surgiu entre o meio e o fim da descida, onde as árvores afunilavam o caminho e nos forçaria a andar separados.
Isso era tudo o que eu não precisava...
Em outra ocasião não teria pensado duas vezes em me embrenhar mata adentro e tenho certeza que conseguiria, apesar de não garantir minha integridade física; mas ver o meu Gundam ali, pronto para a ação enquanto eu estava aos pedaços, me trouxe um gosto amargo que não estava disposto a suportar por muito tempo. Queria poder entrar nele e voltar à ativa o mais rápido o possível, e se isso significava ter que me submeter àquelas ordens médicas... Eu o faria...
Sendo assim, descer aquela colina não seria uma das minhas realizações mais sensatas...
- Heero! – gritei ao sentir ser levantado no ar. Demorou um longo segundo para que eu entendesse o que realmente estava acontecendo, e depois de processar a informação, não consegui acreditar!
Ele estava me pegando no colo!
- Eu não sou uma criança seu japonês idiota! Me coloca no chão! – reclamei irritado, e teria batido nele se minha posição permitisse. Ele apenas me ignorou e recomeçou a descida, desviando de um ou outro galho baixo, mas nem sempre sendo bem sucedido. Três ou quatro arbustos depois eu reclamei em alto e bom som, mas sua única resposta compreensível foi:
- Fica quieto.
Quando chegamos à área plana do jardim, exigi que me soltasse, mas ele continuou a passos firmes e rápidos, ordenando apenas que eu abrisse aporta de correr da sala. Eu queria socá-lo com muita força, mas em algum lugar da minha mente, o entendimento de que Heero estava fazendo aquilo para me poupar foi registrado, e isso me acalmou antes que eu pudesse ter um ataque em seus braços.
- Não vai me levar para o quarto? – perguntei contrariado, quando percebi que ele passou pelo corredor dos quartos e seguiu em frente.
- Estou com fome. – disse simplesmente, sempre mantendo os olhos no caminho.
Heero me depositou em cima do balcão e pela tensão em seus braços, imaginei que seria um desgaste ainda maior inclinar-se para me colocar em umas das cadeiras. Eu era leve, mas nem tanto. Ele sumiu das minhas vistas por um instante e retornou com uma caixinha de primeiros socorros.
Toda aquela... Preocupação? Bem, seja lá o que for, estava me deixando intrigado. É claro que Heero não me abandonaria para morrer de fome, imagino que deixaria pelo menos um suprimento daquelas coisas sem gosto que comemos quando estamos no fim do mundo em missão. Mas aquela parte desconfiada em um canto da minha cabeça dizia baixinho que havia algo de muito estranho em tudo aquilo... "Ele está sendo prestativo demais", ela diz, em seu tom de veludo.
- Por acaso Quatre falou alguma coisa com você? – vocalizei.
Seu rosto se contraiu em uma carranca esquisita, e ele continuou a se aproximar colocando a caixinha ao meu lado.
- Talvez...
Traduzindo para a linguagem dos não estóicos: - Sim, ele me colocou contra a parede.
- E ele pediu que você cuidasse de mim? – perguntei, observando seu rosto concentrado em cortar as ataduras.
- Sugestionou...
Ainda na linguagem estóica: - Ele foi bem insistente, e tive de atendê-lo!
- Foi... Estranho e... Surpreendente.
E por último: - Fiquei realmente surpreso, nunca havia visto Quatre daquele jeito!
Eu podia só podia imaginar o que o loiro deveria ter dito para Heero descrever a situação com duas palavras. Subitamente, fui atingido pela lembrança do ultimo jantar feito por Quatre, e finalmente o motivo para o cenho franzido de Heero explodiu em cores.
Eu sabia que ele não iria embora me confiando ao japonês sem me dar pelo menos um "conselho" sobre como me portar.
A resposta estava ai; as recomendações haviam sido dadas a Heero durante a tal conversa sugestiva.
Senti uma pressão no meu ombro e percebi que as ataduras foram totalmente retiradas. A ferida estava parcialmente cicatrizada, mas a região ao redor ainda estava vermelha. Era a maravilhosa mágica do corpo humano combatendo a infecção gerada pela maldita bala que se fragmentou em meu ombro. Acho que mais uma, no máximo duas semanas e eu poderia tirar aquilo definitivamente... Não precisaria mais forçar ninguém a cuidar de mim...
- Olha, você não precisa fazer isso se não quiser... – disse a ele, observando atentamente suas reações. – Quatre se preocupa demais com as coisas, e exagera quando se trata das pessoas que ele gosta... Não posso julgá-lo porque se ele estivesse em meu lugar... Eu agiria da mesma forma. Mas isso não é motivo para... Obrigar você a cuidar de mim.
Parei por um instante, sentido com o peso daquelas palavras.
Eu realmente havia gostado daquela rotina que havíamos criado, totalmente diferente das outras oportunidades em que eu havia estado com ele, seja escondidos em algum buraco ou freqüentando quartos de internatos. É claro que eu atribuía aquela mudança sutil a minha inabilidade de fazer as coisas por mim mesmo, mas saber que foi tudo de má vontade... Dava uma visão completamente diferente daqueles dias...
Deus! Eu estava quase... Decepcionado.
"Está vendo garoto? Não te disse que amizade é um veneno para a mente de um soldado?"
Será que G imaginava que eu não só dava ouvidos as besteiras que ele dizia, como decorava parte de seus sermões e que aquilo me causava um certo conflito de personalidade?
Eu queria poder acreditar nas pessoas, ser o mais normal possível... Ter amigos, como nos velhos tempos...
Mas havia aquela voz; havia as lições básicas de sobrevivência que dizia em alto e bom som:
"Dê meia volta seu merda, ter amigos é uma furada!".
E o pior é que minhas experiências de vida davam o embasamento necessário para que aquela voz insistente continuasse me impedindo de... Viver.
Eu sei o que acontece quando você se envolve... As pessoas magoam você, ou apenas...
Morrem...
- Duo.
Olhei para Heero sem realmente enxergá-lo. Eu estava entrando naquele lugar onde você guarda as suas lembranças... Um lugar nada seguro, eu diria.
Alguém me disse uma vez que "lembrar" torna as pessoas fracas, e que deveríamos sempre olhar para frente, nunca vivendo do passado. Eu agia assim, em partes; deixava minhas recordações ali, intocadas, para espiar pelo canto dos olhos quando eu precisasse de um bom motivo para seguir em frente...
Quando eu precisasse de um motivo para estourar os miolos de um homem para continuar seguindo a minha causa...
- Duo...?
- Tudo bem... – murmurei, soando vazio aos meus próprios ouvidos.
Demorou um pouco para que eu voltasse ao mundo real fechando a caixinha, por hora. Heero estava me encarando de um jeito esquisito, mas procurei não me importar; ele deveria estar só estranhando a cara que eu estava fazendo...
- 'Tô com fome... – reclamei, fazendo o melhor para botar meu sorriso besta em seu lugar.
Ele juntou as sobrancelhas no centro da testa como se esperasse por alguma coisa, e eu apenas o encarei, sorrindo o melhor que podia e aguardando pelo final de sua análise. Nesse meio tempo, notei os arranhões que ele havia adquirido me trazendo para casa, e sem pensar muito a respeito, segurei seu braço o trazendo mais para perto.
- Você é um idiota, Heero. – disse divertido, e ele grunhiu surpreso. Peguei o anti-séptico dentro da maleta e borrifei sobre um dos arranhões no ombro esquerdo. – Você não precisava ter me carregado... – puxei seu outro braço para analisá-lo mais de perto, e ali havia um outro corte também superficial, mas havia sangrado um pouco mais que os outros. Limpei com um pedaço de algodão e apliquei o líquido mágico ali também; Heero suspirou meio sem querer, e eu soprei o pequeno corte. – É melhor a gente comer alguma coisa e deitar...
Dei uma batidinha em seu ombro e ele se mexeu mecanicamente, marchando até a geladeira. Continuei sentado no balcão e quando ele trouxe a matéria-prima o ajudei a preparar uns sanduíches improvisados mais para me distrair do que matar a fome; mas não posso negar que foi reconfortante ter meu estômago preenchido.
Quando acabamos, Heero lançou-me uma garrafinha d'água e se encarregou de guardar as coisas, provavelmente para que eu não forçasse o pé antes da hora...
Quatre odiaria chegar e não ver resultados, não é?
Sorri triste para meu tornozelo e tomei o impulso para descer, mas meus pés nunca chegaram a tocar o chão.
Ele estava me pegando no colo novamente.
- Heero! O que eu acabei de lhe dizer? – reclamei irritado; eu tentaria empurrá-lo, mas meu braço bom estava convenientemente preso entre meu corpo e o dele.
- Não sei... – ele respondeu, me surpreendendo. – Você fala muito e muito rápido...
- Como é? – grunhi.
- A garrafa. – ele apontou com a cabeça para a água esquecida no do balcão, mas eu estava pouco me lixando para ela. Abri a boca para protestar mais uma vez e ele me olhou com aquela intensidade intimidadora e sem escolhas, eu me remexi em seu colo para soltar o braço e recolher a maldita garrafa.
- Está satisfeito? – perguntei entre dentes. – Peguei a droga da água, agora você pode me colocar no chão! – não me deu ouvidos, começando a fazer seu caminho para fora da cozinha. Ele estava sendo um idiota e aquilo estava me irritando profundamente. – Heero, você não está me ouvindo? Me coloca...
- Eu não me importo...
Parei no meio das palavras, piscando em sua direção. Minha raiva sendo substituída rapidamente pela confusão de não encontrar um lugar descente para encaixar aquela resposta.
Ele não se importava em me colocar no chão? Em me insultar?
Eu estava irritado, injuriado..
- Com o que você não se importa? – dei voz aos meus pensamentos.
- Com tudo. – seu olhar encontrou os meus, e voltou para a trajetória quando entramos no corredor dos quartos. – Nem em te carregar, e menos em cuidar de você.
Alternei um olhar confuso entre o rosto sério de Heero e a garrafinha de água em minhas mãos, sem saber por onde continuar. Eu estava completamente desprovido de qualquer palavra que deveria rechear o meu vasto dicionário. E não só eu; a imitação barata da voz do Dr. G também havia se calado, recolhendo-se em seu canto e me deixando completamente... Vazio...
Heero me deixou na beirada da cama, ajudando a retirar as cobertas desnecessárias. Acomodei-me entre os travesseiros ainda perdido no grande nada que era a minha mente naquele momento. Ouvi vagamente Heero perguntar alguma coisa e respondi com um aceno débil, aceitando qualquer que fosse a sua proposta. Segundos depois a bendita garrafinha estava sendo estendida para mim junto com dois comprimidos...
Ele não se importava...
- Eu fico feliz... – procurei por seus olhos, e tentei passar com os meus o quão importante aquilo significava para mim. – Por você não se importar... Em se importar comigo. – terminei com um tom divertindo.
E como se apenas aquela descoberta não fosse o suficiente, ele fez aquele movimento com o canto dos lábios e o estendeu em um pequeno sorriso completamente novo para mim.
Não havia ironia ou aquele ar lunático que ele tinha enquanto batalhava...
Naqueles poucos minutos que restaram antes do adormecer, cheguei à dolorosa conclusão de que havia sim um lugar só meu nas considerações do soldado estóico. Se para Trowa ele guardava o entendimento, para Wufei o respeito e para Quatre o reconhecimento...
Para mim restava aquele sorriso...
"...amizade é um veneno para a mente de um..."
- Foda-se velho... – murmurei para a escuridão, me agarrando a um travesseiro e deixando que o sono me levasse.
Eu teria toda uma vida para pensar nas implicações que aqueles segundos representariam, mas aquela noite, apenas por aquela noite, eu permitiria que meu espírito caminhasse livre.
Eu estou olhando através das sombras
Na minha mente, dentro da verdade
E eu estou tentando identificar
As vozes na minha mente
Deus, qual delas você
Me deixaria sentir mais uma vez?
Fim de Shot
Aurora terminaria ai mesmo... Mas estou com pretensões de continuá-la e justamente por isso, fiz alguns, ou melhor, grandes cortes.
Editando um pouquinho aqui, cortando um pedacinho ali, eis que termina o meu material...
Vamos ver no que vai dar.
Quanto aos erros, aí vai as minhas desculpas de sempre... Um dia ainda vou melhorar... XD
Enquanto isso, espero comentários, ok?
Bye-bye o/
