Nota inicial: Este capítulo é um pouco maior que os primeiros por conta dos eventos descritos que, se fossem divididos em dois, poderiam ficar um pouco confusos e os capítulos, curtos. E vejam só a inspiração foi tamanha que saíram dois capítulos de uma única vez!
Este capítulo foi betado pela linda e fofa Arthemisys.
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Ato II – Capítulo III – Quem sou eu?
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Marin havia conseguido o dinheiro dos remédios de sua filha, mas a sua própria saúde estava em risco. Tossindo muito, com a pele dos braços marcada por estranhas manchas e olheiras profundas, ela continuava a vagar pelas ruas de Shandong atrás de algum cliente.
Contornando uma viela sem saída onde as pessoas jogavam o lixo que produziam, ela viu um homem bem vestido, consultando um relógio. Parecia estar esperando por alguém. Uma companhia feminina, quem sabe...
-Se o senhor estiver sozinho, eu posso lhe fazer companhia...
O homem encarou Marin e deu risadas, com desdém.
-Me fazer companhia? Olhe para si mesma, mulher! Está toda marcada e esse cabelo terrível... O que a faz pensar que sairia com um lixo humano como você?
As palavras duras daquele homem não importaram a Marin, ela precisava de dinheiro. Sem pensar duas vezes, a jovem mulher o agarrou pelo braço.
-Por favor, senhor...
-Me solte, sua imunda! Vagabunda!
Nervoso, o homem empurrou Marin com força, que acabou caindo no chão. Não satisfeito, ele pegou um monte de lixo que estava em uma lata e atirou sobre a mulher. Desesperada, Marin o agarrou pela perna e ele sem dó a chutou.
Não foi somente um chute, mas outro e vários tapas. Marin ficou caída no chão, até ser encontrada por Jabu, o subordinado de Shion.
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Na delegacia, encolhida em um canto, Marin observava com seus olhos assustado a movimentação de pessoas, bêbados e arruaceiros. Shion trancou dois em uma cela e então voltou-se para ela.
-Eu lhe disse, senhorita, que se voltasse às ruas eu iria prendê-la.
-Mas eu não fiz nada, inspetor! Foi aquele homem quem me agrediu!
-Não é isso o que consta na queixa registrada pelo senhor Alberich! Jabu, pode prendê-la!
-Não, por favor, não faça isso! Eu tenho minha filha, o que vou fazer? Por favor!
Os gritos de Marin foram ouvidos pelo prefeito, que entrava na delegacia naquele momento.
-Senhor Chang! O que faz aqui a esta hora?
-Eu preciso conversar com o senhor, inspetor. Sobre algo que me disse hoje, quando ajudei o sen...
-Maldito!
O xingamento cortou a conversa e Shion virou-se para Marin, que estava agarrada às grades. Havia raiva em seus belos olhos e era direcionada ao prefeito. O senhor Chang aproximou-se da grade para lhe falar e foi recebido com uma cusparada no rosto.
-Jabu, dê um jeito nessa mulher!
-Não faça nada, soldado!
O prefeito enxugou o rosto com seu lenço e encarou a mulher, sem entender a atitude que ela tomara. Marin não se fez de rogada, já que estava mesmo presa descarregaria toda sua raiva sobre aquele homem.
-Maldito! Vê o que fez comigo? Se estou aqui, presa, a culpa é toda sua, desgraçado!
-O que ela quer dizer com isso? – o prefeito perguntou a Shion. O inspetor pigarreou antes de começar a falar.
-Pelo que pude apurar, ela foi despedida da cerâmica por seu subordinado, alegando que uma mãe solteira não tem o direito de trabalhar por lá.
-O quê? Por que Kanon faria uma coisa dessas, sem me consultar?
-Segundo esta mulher, ele transmitiu ordens suas, senhor prefeito.
Perplexo, o senhor Chang voltou-se para Marin, fitando-a intensamente. Depois, calmamente, deu uma ordem à Shion.
-Solte esta mulher, Shion.
-O quê? Senhor, eu não posso fazer isso, há uma queixa formal de agressão contra ela e...
-Eu me responsabilizo por esta mulher, Shion... Solte-a agora mesmo!
Contrariado, o inspetor não teve outra saída se não obedecer. Sem entender nada, Marin saiu da cela e o prefeito tirou seu casaco, cobrindo-a para que pudesse se proteger do frio.
-O que esta mulher precisa é de cuidados médicos, não de uma cela. Jabu, leve-a ao hospital, eu irei logo para lá.
Jabu saiu com a jovem mulher. O prefeito voltou-se para o inspetor, que continuava contrariado.
-O senhor me disse que não se intrometeria em assuntos da delegacia, senhor Chang.
-Mas esta mulher é um assunto meu, inspetor. Com licença.
-Espere! – Shion chamou o prefeito de volta, antes que ele ganhasse a saída – O senhor disse-me que queria conversar comigo.
-Amanhã, Shion. Procure-me na prefeitura, na parte da tarde.
Shion concordou com um aceno e tomou seu lugar em sua mesa. O prefeito colocou seu chapéu e foi direto ao pequeno hospital da província.
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Assim que chegou, foi recebido por uma jovem enfermeira que cuidava dos doentes naquela noite.
-Como está a mulher que o soldado trouxe, senhorita June?
-Muito ferida, senhor prefeito. E doente também, não pára de tossir. Mas não é isso que me preocupa.
-O que é, então?
-Ela não parou de chamar por uma certa Shunrei até adormecer. Chorou muito também.
-Shunrei... Deve ser a filha dela. E Aldebaran?
-Está acordado, diz que não consegue dormir porque sente muitas dores no peito.
Entrando pelo quarto, coletivo, com camas separadas por lençóis brancos dependurados no teto, o prefeito avistou o homem recostado em uma cama nos fundos.
-Como se sente, Aldebaran?
-Um pouco melhor, mas meus ossos doem... Creio que não poderei voltar a trabalhar com minha carroça novamente.
-Pensei nisso, por isso gostaria de lhe falar... Eu tenho alguns contatos em Pequim, poderia arrumar-lhe um trabalho melhor na capital. O que acha?
-Senhor prefeito... Isso é muito.. Nem sei o que lhe dizer!
-Basta aceitar minha oferta.
Aldebaran assentiu e o prefeito o cumprimentou com um forte aperto de mão. Despedindo-se brevemente, ele saiu e June veio ao encontro do doente, trazendo uma tigela de sopa. Percebeu que ele tinha lágrimas nos olhos.
-Aconteceu algo, senhor Aldebaran?
-Viu este homem que acaba de sair daqui, senhorita June? Salvou-me a vida e arranjou-me um novo emprego! É um homem muito bom, de coração nobre... Será que ele perdoaria um idiota, que plantou falsas acusações contra sua conduta e colocou a polícia em seu encalço?
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Pela manhã, a primeira providência tomada pelo senhor Chang foi procurar por Kanon, na cerâmica. Encontrou o funcionário abrindo as portas da fábrica.
-Senhor prefeito, o que faz aqui tão cedo?
-Kanon, eu quero saber quem lhe deu autoridade para se reportar às pessoas usando meu nome?
-Como assim, senhor Chang? – Kanon estava visivelmente confuso.
-Estou falando da demissão da senhorita Marin! Francamente, Kanon, acha mesmo que eu demitiria uma funcionária somente por ela ser mãe solteira? Pareço um ser tão desumano assim?
Kanon não respondeu, apenas baixou a cabeça. Esfregava as mãos de nervoso, esperava pelo pior.
-Pode se retirar para seu trabalho agora... E não se preocupe, eu não vou demitir um funcionário exemplar por conta de um deslize... Darei um jeito na situação da senhorita Marin.
Ajeitando seu chapéu, o prefeito tomou o caminho do hospital.
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-Como ela está, senhorita June? – ele quis saber, ao entrar com a enfermeira no quarto coletivo, procurando por Marin.
-Muito mal, senhor prefeito... E não digo isso por conta dos hematomas e sim a tosse insistente. Receio que seja tuberculose, em estágio avançado.
O senhor Chang tirou o chapéu e já ia se sentando à beira da cama onde Marin repousava quando June o interceptou mais uma vez.
-Senhor prefeito, é melhor que saiba que menti a esta mulher durante a madrugada.
-Mentiu?
-Sim. Ela acordou chamando por sua filha e, para acalmá-la, eu lhe disse que o senhor iria buscar a menina, para que pudessem viver juntas aqui em Shandong.
-Entendo... Foi uma bela atitude, senhorita June...
Nesse momento, Marin acordou de seu sono, dando de cara com o prefeito a lhe sorrir. Tentou o mesmo gesto, mas faltaram-lhe forças.
-E minha filha? – foi o que conseguiu perguntar, com a voz fraca.
-Mandei que meu secretário fosse atrás do casal que cuida de Shunrei e a trouxesse para cá... Em no máximo dois dias poderá vê-la, senhorita Marin...
-Obrigada, senhor Chang... É um homem muito bom...
Voltou a cerrar os olhos, cansada. O senhor Chang ainda ficou um tempo apenas observando-a, até se voltar para a enfermeira.
-Cuide bem dela, senhorita June... Eu tenho alguns assuntos importantes a tratar, mas voltarei assim que possível.
-Sim, senhor... Ah, antes que me esqueça! O senhor Aldebaran receberá alta ainda hoje.
-Ótimo, mandarei que Sorento o procure para lhe falar sobre o trabalho em Pequim, bem como lhe entregar a passagem de trem. Até outra hora, senhorita June.
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Quando chegou à prefeitura, Shion já o esperava, em pé observando o retrato de Mao Tse-Tung na parede.
-Admirador de nosso governante, inspetor?
-Não tanto quanto gostaria, senhor prefeito... Concordo com sua política econômica em planos qüinqüenais (1), mas receio que ele seja muito benevolente com os criminosos...
Shion sentou-se, então, na cadeira em frente à mesa do prefeito, que também se assentou.
-Mas não estou aqui para falar sobre Mao e sim porque me procurou na delegacia... O que quer conversar comigo, senhor Chang?
-Ontem veio desculpar-se comigo por ter me confundido com um criminoso que procura há anos e disse-me que jamais poderia ser eu esta pessoa... De quem falava, inspetor?
-De um prisioneiro que foi detido na província de Shanxi há três dias e será julgado amanhã... Seu nome é Dohko.
-Dohko? Um nome interessante... Mas tem certeza de que pegaram o homem certo, Shion?
-Sim, senhor Chang... Segundo soube, dois prisioneiros que dividiram cela com Dohko o reconheceram e testemunharão amanhã, no tribunal... Inclusive, sairei daqui diretamente para a viagem, quero acompanhar o julgamento de perto.
O perfeito calou-se, sem mais perguntas. Shion entendeu o gesto como uma despensa e retirou-se do gabinete, sem dizer mais nada.
Passaram-se algumas horas até que o prefeito chamou por Sorento em seu gabinete.
-Sorento, peço que cuide de tudo por aqui... Estarei ausente pelo resto deste dia e amanhã também.
-Vai viajar, senhor?
-Sim, mas não posso lhe dizer para onde, me desculpe...
Apressado, o prefeito deixou o secretário sozinho e foi procurar por um cocheiro na província que poderia lhe prestar serviços urgentes.
-Preciso que me leve até a província de Shanxi o mais rápido possível, Haguen... Preciso chegar antes do amanhecer!
-Desculpe-me, senhor, mas é uma viagem longa e cansativa. Meus cavalos não agüentarão!
-Tome! – o prefeito estendeu-lhe um maço de notas – Deve ser o suficiente para cobrir seus eventuais prejuízos e até mesmo comprar cavalos novos, caso precise. Agora vamos, depressa!
Tomando a estrada rumo à Shanxi, o senhor Chang não conseguia ficar quieto um minuto que fosse. Precisava chegar a tempo no tribunal...
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O julgamento já estava quase no fim quando ele conseguiu entra no tribunal, misturando-se à multidão que assistia à sessão. Encontrou uma brecha na segunda fileira e por lá ficou, observando as pessoas presentes.
À direita do juiz estava Shion, impassível, ouvindo as acusações contra o réu; no centro, próximos a primeira fila, estavam os dois prisioneiros e testemunhas. E à esquerda, acorrentando e com uma expressão desoladora, o réu, Dohko.
A falação do promotor terminou logo. Era chegado o momento da chance de defesa do réu, que ficou calado.
-Não vai falar nada, senhor Dohko? – inquiriu o juiz, com uma voz calma e amedrontadora ao mesmo tempo.
-Falar para quê, se eu já disse que me chamo Aioros e não Dohko! Eu não faço idéia de quem seja esse homem, seu Radamanthys!
-Senhor juiz para você, insolente! E não me venha com essa história de que não sabe quem é Dohko, estes homens aqui à frente o reconhecem como tal!
-Mas eu nem sei quem são esses homens, seu juiz! Meu nome é Aioros! Aioros!
-Kamus! Miro! – o juiz os chamou e os dois homens levantaram as cabeças, meio assustados – Reconhecem este homem à sua direita?
-Sim, senhor juiz... É Dohko, nosso companheiro na prisão agrícola de Fujian.
-Exatamente, senhor juiz.
-É mentira!
Cansado, o homem desistiu de protestar contra o inevitável. O prefeito o observava demoradamente, perdido em pensamentos. Mas acabou sendo despertado para a realidade ao ouvir a movimentação de pessoas, e o juiz iniciar o anúncio da sentença.
-Senhor Dohko, este tribunal...
-Esperem!
Com um tom de voz firme e autoritário, o senhor Chang saiu de seu lugar e foi até o juiz, interpelando-o.
-O senhor não pode condenar este homem, ele diz a verdade!
-O senhor não é o prefeito de Shandong? Por que está aqui, a defender um criminoso?
-Por que este homem não está mentindo. Ele não é Dohko!
-Desculpe-me, senhor prefeito, mas teve a oportunidade de ouvir as testemunhas, eles o reconhecem como sendo o prisioneiro Dohko.
Transtornado, o prefeito virou-se de frente para os prisioneiros, ambos de cabeça baixa. Chamou-os, quase os derrubando ao pegá-los pelo colarinho de suas camisas.
-Olhem para mim! Kamus! Vamos, olhe para mim! Nã me reconhece, Kamus?
-Claro que o reconheço! Você é o prisioneiro Dohko!
-Isso mesmo... E você, Miro, não me reconhece? O homem que salvou sua vida quando um arado caiu sobre seu corpo! Não me reconhece?
-Você... – o prisioneiro apertou os olhos – Você é Dohko, salvou minha vida em Fujian! Ele é Dohko, senhor juiz!
Murmúrios de excitação e incredulidade pipocavam pelo tribunal, Shion se remexia em seu canto, inquieto. O prefeito, agora Dohko, estava impassível diante do juiz.
-Estão vendo? E hesitam em acreditar em mim por conta de minha posição e vida pública, como se isso fosse uma prova de minha honestidade e ficha limpa... Bando de corvos insolentes, seres humanos sem moral!
Dizendo, isto, Dohko saiu depressa do tribunal, entrou no coche e partiu. Shion saiu correndo em seu encalço, mas o perdeu de vista. Mas, conhecendo-o tão bem, sabia que ele não iria fugir assim, abandonando a província que governava.
Voltaria para Shandong, com reforços. E finalmente teria em suas mãos Dohko, o prisioneiro 23612 da prisão agrícola de Fujian.
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Desta vez, o prefeito, ou melhor, Dohko estava tão nervoso que Haguen precisou aumentar a velocidade da corrida, precisavam chegar depressa em Shandong. No meio da noite, quando a província era praticamente só o silêncio, eles chegaram.
Dohko apeou às portas da prefeitura, abriu-a rapidamente e subiu até seu gabinete, onde Sorento ainda se encontrava arrumando alguns documentos.
-Senhor Chang! Não o esperava para esta noite e...
-Sorento, eu não tenho tempo para conversas! Arranje-me uma folha de papel timbrado, depressa!
Solícito, o secretário atendeu ao pedido do prefeito e ficou observando-o redigir uma carta assinada, que reconheceu como um decreto oficial.
-Aqui está, Sorento... A partir desta noite, eu estou oficialmente afastado de meu cargo na prefeitura... Irei partir desta província e você, que sempre foi muito dedicado ao seu trabalho e à Shandong, assumirá meu lugar.
-Como assim, senhor Chang? Eu não entendo...
-Acredite, Sorento, você é capaz de assumir tamanha responsabilidade. E, por favor, não me chame mais de senhor Chang... Um rapaz tão bom quanto você merece saber a verdade...
-Que verdade? – Sorento questionou, enquanto o ex-prefeito remexia em uma das gavetas de sua mesa, procurando por algum dinheiro.
-A de que um homem chamado Dohko existiu sobre esta terra e, ao contrário do que possam vir a lhe dizer, serviu a sociedade da melhor maneira que pôde...
Deixando Sorento sozinho, Dohko partiu da prefeitura. Mas, antes de sair de Shandong, precisava visitar uma certa mulher.
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No hospital, foi recebida por uma apreensiva June, que remexia as mãos nervosamente, muito preocupada.
-A Marin piorou, senhor Chang... Está tossindo muito sangue, sua pulsação é muito fraca. O que ainda a mantém viva é o desejo de rever sua filha...
Com o semblante muito sério, Dohko aproximou-se da cama e Marin o encarou, com os olhos apertados e cansados. Mal conseguiu abria a boca para falar.
-E minha filha, senhor Chang? O senhor me prometeu...
-Fique sossegada... Meu secretário teve alguns problemas, mas eu irei pessoalmente buscar Shunrei.
-Não irá a lugar nenhum, Dohko!
Era Shion, que entrava pelo quarto acompanhado de Jabu, que parecia não muito satisfeito em estar ali, segurando uma arma em sua mão direita.
-O senhor está preso, Dohko! Queira me acompanhar e...
-Agora não posso, Shion... Eu prometi a esta mulher que iria buscar sua filha! Dê-me 24 horas para cumprir minha promessa e então...
-Isto está fora de cogitação!
-Minha filha... - Marin pediu, amparada por June, que nada entendia do que estava acontecendo – Shunrei... O senhor prometeu buscar Shunrei...
-Escute aqui, mulher... - Shion falou diretamente a Marin – Acreditou nas mentiras deste homem? Ele é um marginal, jamais lhe traria sua filha de volta!
-O quê? Não, isso não é verdade! Não...
-Acredite, ele não faria nada disso... Ou a doença a deixou tão louca a ponto de duvidar de minha palavra?
-Não diga uma idiotice dessas, Shion!
Dohko quis avançar sobre Shion, mas os gritos desesperados de Marin o detiveram. Cuspindo muito sangue e chorando, ela tentava se levantar, June a segurava pelos ombros.
-O senhor... Men... Mente...
Foram as últimas palavras de Marin, antes de cair sobre os travesseiros. A força que fizera, o baque pelo que Shion lhe falara acabaram por fazê-la perder todas as esperanças. Esta morta.
-Você... Desgraçado! - Dohko gritou – Você matou a Marin, Shion! Maldito!
-Esta mulher já estava morrendo! Você virá comigo agora e...
Shion não terminou a frase. Atingido por algum objeto pesado na cabeça, ele caiu desmaiado no chão do hospital.
-O que você fez, Jabu?
O rapaz estava lívido, a arma com a coronha voltada para cima. Tinha sido um golpe certeiro.
-Senhor Chang ou quem quer que seja, eu acredito em sua bondade e não posso permitir que vá preso... A frente do hospital está sendo guardada por dois soldados, mas o senhor pode fugir pelos fundos.
Sem saber o que dizer ao rapaz, Dohko o abraçou com força. June, ainda assustada com tudo, não se movia do lugar. Dohko aproximou-se do corpo de Marin e beijou-lhe a testa.
-Eu juro, Marin, que não permitirei que nenhum mal aconteça à sua Shunrei... Adeus... Adeus Jabu, senhorita June...
June, ao se dar conta de que Dohko iria realmente fugir, acordou para a realidade e lhe entregou uma carta, que encontrara em meio às roupas de Marin.
-Tome, aqui está o endereço do casal que cuida de Shunrei... Que Buda possa protegê-lo, senhor Chang...
-Meu nome é Dohko, senhorita June... Por favor, nunca se esqueça disso.
Despedindo-se com um aceno, Dohko desceu pelas escadas, ganhou a porta dos fundos rapidamente e desapareceu pela noite de Shandong.
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Ah, finalmente a verdadeira identidade do prefeito revelada! Agora sim, faz sentido o comentário sobre o Kanon no capítulo anterior... Naquele momento, Dohko pensava em Saga, o homem que o ajudou quando todos lhe deram as costas...
Até o próximo capítulo, pessoas!
(!) Planos Qüinqüenais: Quando assumiu o governo da China, logo após o fim da Segunda Guerra, Mao Tse-Tung importou para o país o modelo econômico desenvolvido por Karl Marx e em execução na União Soviética. O plano consistia em estatizar gradativamente toda e qualquer propriedade privada do país e também investir pesado em agricultura para que, em cinqüenta anos, a China fosse a maior economia em vigor no mundo.
Bem, os planos qüinqüenais duraram na verdade cerca de quinze anos; muitas propriedades foram tomadas a força de seus donos, algumas estatizações geraram protestos e a agricultura continuou em seu sistema "feudal" como sempre foi, gerando uma pobreza cada vez maior no interior do país.
As conseqüências desses eventos e também as primeiras manifestações contra o governo serão tema dos próximos capítulos, aguardem...
"Quem sou eu?", canção-monólogo de Jean Valjean, parte do primeiro ato de "Les Miserábles". Um dos momentos mais lindos e emocionantes do musical...
