Ato II – Capítulo IV – Castelo no céu...
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Seu velho corpo já não era mais o mesmo, a corrida que depreendia há horas fazia seus ossos estalarem a cada movimento. O casaco lhe pesava sobre os ombros e o frio estava à beira do insuportável.
Mas não podia se dar ao luxo de parar. Sem enxergar um palmo à sua frente devido à escuridão, Dohko chegou próximo ao pequeno riachinho que cortava a província. Parou um momento para respirar e pensar. Não tinha alternativas, seria preciso fazer um sacrifício.
Entrou pelo riachinho e seguiu caminho por seu leito. Ao menos o seu rastro não deixaria para Shion seguir.
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Acompanhado de vários soldados, Shion vasculhava cada centímetro da província. Não sabia quanto tampo ficara desacordado, poderiam ter sido preciosos minutos perdidos!
Entrou pelo bosque que circundava a estrada e também chegou ao riachinho. Agachou-se em suas margens, pensativo. Esperto como era, Dohko certamente havia seguido pelo leito para não deixar rastros. Maldição! Para que lado havia seguido?
Foi então que se lembrou da promessa que o homem havia feito a Marin, antes de ela morrer. Levantando-se depressa, Shion ordenou aos soldados que voltassem ao centro de Shandong.
Precisava fazer uma visita a uma certa enfermeira.
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O sol nem havia nascido ainda quando Dohko chegou à província de Henam. Consultou o envelope que June lhe dera. Pelo endereço escrito, a casa onde Shunrei morava devia ser perto dali, na estrada onde se encontrava.
Cansado, ele recostou-se por alguns segundos em uma árvore, mas voltou a ficar alerta ao ouvir sons de passos e uma vozinha infantil a cantar, tristemente, uma cantiga que há muito não ouvia.
-Tem um castelo lá no céu... Aonde eu vou sempre me esconder... Lá nada tenho que varrer... No meu castelo lá no céu...
Seguiu a voz e viu caminhando pela estrada uma menininha de cabelos negros, presos em uma trança. Andava de cabeça baixa, carregando um pesado balde de água.
-Quer ajuda, pequena?
A menina encolheu-se de medo, quase derrubando o balde. Dohko apressou-se em pegá-lo, sorrindo para a pequena.
-Vamos, eu quero somente ajudar você. Eu carrego este balde até sua casa, está muito pesado.
-Obrigado, mas eu não tenho casa, senhor.
-Como não tem? Vai-me dizer que vive no meio do mato?
-Não senhor, eu moro com o senhor e a senhora Li Wang... Mas eles vivem dizendo que sou um estorvo e que ainda vão me mandar embora da casa deles...
Dohko ouviu a tudo, muito atento. A menina era muito novinha, talvez nem oito anos ainda, e falava com tamanha tristeza e amargura. Sentiu um nó na garganta, será que ela era...
-Como se chama, pequena?
-Shunrei, senhor.
-Shunrei... E por que mora com estas pessoas? Não tem uma família, uma mãe?
-Não, senhor... A senhora Li Wang disse que a mamãe me abandonou quando era bebê, não quis saber de mim.
O sangue ferveu nas veias de Dohko. Como assim, abandonada? E todo sacrifício que Marin fizera para poder ajudar os Li Wang a cuidar de sua filha?
Que tipo de pessoas seriam esses tais de Li Wang?
Após uma caminhada média, ambos chegaram a casa. Shunrei foi à frente, subindo os degraus com dificuldades por conta da madeira podre, que ameaçava desabar sob seus pés.
-Shunrei, sua lerda! Por que demorou tanto em trazer a água que te pedi?
A menina foi recebida com um puxão de orelha pela senhora Li Wang, que só não bateu na pequena porque percebeu a presença de Dohko, carregando o balde de água. Sorriu para ele, confusa.
-Encontrei a menina na estrada, carregando este balde. Não acha que é muito pesado para uma garotinha tão pequena?
-Oh, não, senhor... Shunrei é forte, poderia muito bem ter lhe poupado trabalho.
Deixando o balde em um canto da sala, Dohko sentou-se junto à uma das mesas. A senhora aproximou-se dele, oferecendo os serviços de sua cozinha. Com fome, Dohko pediu um ensopado.
Assim que a senhora saiu para preparar o pedido, seu marido entrou pela sala. E não conteve a raiva ao ver a pequena Shunrei segurando a boneca que mais uma vez sua filha esquecera jogada por ali.
-Eu já não falei que esta boneca é da Saori, sua idiota!
-Ei! – Dohko o chamou – Quanto o senhor quer por esta boneca?
-O quê?
-Tome... – ele estendeu ao homem uma nota de dez yuans – Nunca comprei uma boneca antes, mas isto deve dar.
-Certamente, senhor...
- Lyu – Ban.
-Ah, sim, senhor Lyu – Ban... Giovanni Li Wang, ao seu dispor.
-Ótimo... Se está à minha disposição, então dê a boneca à pequena Shunrei.
Resmungando, Giovanni fez o que Dohko pedira e foi para a cozinha conversar com sua mulher, que terminava o ensopado.
-Que tipo de homem tem coragem de pagar dez yuans por uma boneca de pano velha, Shina?
-Algum viajante idiota cheio de dinheiro, meu bem... Vamos, leve este ensopado para ele e tente conseguir mais alguns yuans.
O homem voltou à sala e serviu Dohko. Este ia começar a comer quando percebeu os olhinhos famintos de Shunrei sobre seu prato.
-Quanto custa este ensopado?
-Trinta yuans, senhor.
-Então tome sessenta e traga um para a menina.
Desta vez foi Shina quem levou a comida, olhando torto para Shunrei, agarrada à boneca e ansiosa pela possibilidade de experimentar o ensopado que cheirava tão bem.
Ambos comeram até ficarem satisfeitos. Recostando-se na cadeira, Dohko consultou seu relógio. Suspirou e virou-se para o casal, muito sério.
-O que esta menina é para os senhores?
-A Shunrei? É quase como nossa filha, senhor Lyu – Ban... Gostamos muito dela.
-Sei... Então não me deixariam levá-la comigo em minha viagem?
-Senhor, isso seria... – Giovanni calou-se ao ver Dohko tirar um maço de notas do bolso e começar a contá-las – Acho que podemos conversar a respeito.
Pouco depois, Dohko deixava a casa dos Li Wang, levando uma trouxinha de roupas em uma mão e Shunrei à outra, agarrada em sua boneca e muito calada.
-Trezentos yuans por uma imprestável como Shunrei... Esse tal de Lyu - Ban é mesmo um grande idiota, minha querida.
-Para onde vamos, senhor Lyu - Ban? – perguntou-lhe Shunrei, após algumas horas de caminhada e silêncio.
Dohko estancou o passo e encarou os olhos negros e curiosos da menina.
-Vamos para Pequim, minha querida... E você pode me chamar de papai, está bem?
-Papai?
-Sim... É o que serei a partir de hoje para você, Shunrei.
Subitamente feliz, Shunrei abraçou as pernas de Dohko, que se comoveu com o gesto. Sentindo os olhos marejarem, jurou a si mesmo que a partir daquele dia, a menina teria uma vida digna e feliz.
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No coche que o levava pela estrada, Shion ia remoendo suas idéias e seu ódio pelo maldito prisioneiro 23612... Mas aquela fuga logo teria um fim e seria pelas suas mãos!
A enfermeira, sem querer, havia lhe dado uma dica. Pequim... Certamente procuraria por um amigo.
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Quando chegaram à cidade, já era noite. Esgueirando-se pelo mato que circundava a entrada da cidade, Dohko praguejou contra sua sorte.
Parados juntos aos portões, dezenas de soldados e Shion também. Certamente o bom faro do inspetor o levara a crer que tentaria chegar à cidade, onde poderia facilmente se esconder.
Parou um momento para analisar suas possibilidades. Não poderia ficar muito tempo por ali, seria logo descoberto. Continuar viagem estava fora de cogitação, Shunrei não agüentava dar mais um passo.
Precisava se arriscar, mas e a pequena? Foi então que uma idéia surgiu em sua mente.
Contornando os portões pelo mato, Dohko e Shunrei chegaram a uma baixada, próxima ao muro de uma casa. Falando baixo para não ser ouvido, ele voltou-se para a menina.
-Shunrei, escute... Você vai precisar ser corajosa e confiar em mim, tudo bem? – a menina concordou com um aceno – Muito bem, suba em minhas costas e segure-se firme em meu pescoço.
A menina obedeceu e em um pulo, Dohko escalou o muro da casa. Tomando impulso, ele saltou novamente, desta vez para o telhado, mas, Shunrei, com medo...
-AAAHHHH!
Guiado pelo grito, Shion vislumbrou uma silhueta sobre os telhados da cidade. Sorriu para si mesmo.
-É ele, homens! Peguem-no, mas tomem cuidado... Ele está com uma menina!
Pulando de telhado em telhado, Dohko fugia dos soldados, que evitavam atirar para não ferirem Shunrei. Ao chegar em um beco, ele saltou para um muro e então para o chão.
Reconhecia o muro que dava para os fundos do beco. Respirando fundo, ele pediu a Shunrei que se segurasse com mais força e escalou o muro, caindo em um gramado fofo do outro lado.
A queda acabou chamando a atenção de alguém, que veio correndo com um lampião nas mãos.
-Quem está aí... Senhor Chang?
-Aldebaran... Por favor, agora sou eu quem está debaixo da carroça, precisando de ajuda.
Do outro lado do muro, Shion bufava de raiva. Contornando a rua, foi bater no pesado portão de ferro que guardava a frente da construção.
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Entrando por uma pequena casa nos fundos da construção, Dohko colocou a pequena Shunrei na cama de Aldebaran, ela já adormecida apesar de tudo. Confuso, o outro homem trancou a porta de sua casa e então se voltou para Dohko.
-Quem é esta menina?
-É minha filha... Por favor, Aldebaran, nós precisamos de sua ajuda. Podemos ficar aqui, por algum tempo?
-Eu não sei, tenho que falar com os monges do templo. Eles são bons homens, mas não sei o que vão pensar ao vê-lo aqui, senhor Chang.
-Não me chame por esse nome, Aldebaran... Não mais. O senhor Chang, de certa forma, nunca existiu...
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Shion quase derrubou o portão, de tanta força que colocou em seus punhos. Após longos minutos de espera, um homem vestido em trajes cor de laranja, cabelos cor de lavanda e expressão serena apareceu ao portão para ver o que estava acontecendo.
-Pois não, senhor?
-Meu nome é Shion, sou inspetor de polícia e exijo que abra este portão! Um homem invadiu a propriedade e preciso prendê-lo.
-Sinto muito, mas não posso fazer o que me pede, inspetor... Já é noite, todos estão repousando. Volte uma outra hora.
-Mas o homem que procuro é perigoso e pode fugir!
-Já lhe disse, volte uma outra hora, inspetor...
Encerrando aquela conversa, o monge voltou ao templo. Furioso, Shion deu um soco no portão e afastou-se dali. Sim, ele voltaria uma outra hora.
Desta vez, não deixaria Dohko fugir novamente.
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-Então o seu irmão que há muito não via resolveu lhe fazer uma visita durante a noite, Aldebaran... É isso o que está me dizendo?
De pé, frente a frente com o mestre do templo, Aldebaran confirmou com um aceno a pergunta que ele lhe fazia. Atrás de si, Dohko e Shunrei ouviam a tudo de cabeça baixa. Já havia amanhecido em Pequim.
-E, pelo que entendi, seu irmão também está aqui porque precisa de abrigo e um trabalho para poder cuidar desta linda menina.
-Sim, mestre Shaka... Meu irmão é forte e há tanto trabalho a fazer por aqui, creio que o mestre pode ajudá-lo.
-Como se chama, senhor... – Shaka voltou-se para Dohko, inserindo-o na conversa.
- Lyu – Ban, mestre Shaka.
-Lyu - Ban... Muito bem, creio que não há problemas em sua estada em nosso templo. Como bem disse Aldebaran, temos muito trabalho por aqui e o senhor pode ajudá-lo a cuidar do jardim. E quanto à sua filha, a menina...
-Shunrei, mestre.. – ela mesma respondeu, com um tom de voz quase inaudível.
-Shunrei, um bonito nome. Você poderá ficar aqui com seu pai, desde que obedeça a certas regras de conduta que estabelecemos em nossa convivência, como, por exemplo, evitar certos lugares deste templo que não são apropriados a uma menina como você.
-Sim, mestre Shaka...
Encerrando a conversa, Shaka mandou que os três fossem embora. Pouco depois, estava se preparando para sua meditação quando um dos monges o procurou.
-Mestre Shaka?
-Sim, Mu?
-O inspetor de polícia está no pátio e deseja lhe falar.
Com a expressão mais serena que possuía, Shaka foi ao encontro de Shion, que não parava quieto de tanto nervoso. Em suas mãos, o chapéu que sempre usava estava quase todo amassado.
-Bom dia, inspetor... O que deseja em nosso templo?
-Bom dia, mestre Shaka... Eu procuro por um homem, um prisioneiro fugitivo que foi visto invadindo este templo durante a noite...
-Um prisioneiro? Desculpe-me, inspetor, mas creio que o senhor está equivocado... Não houve nenhuma ocorrência desta natureza em nosso templo durante a noite, eu posso lhe assegurar.
-Eu é que lhe peço desculpas, mestre Shaka, mas devo insistir que está errado.
-Inspetor, o que lhe digo é verdade e não voltarei atrás em minha palavra... Agora, se nos der licença, está na hora de nossa meditação. Mu, acompanhe o inspetor até a saída. – Mu assentiu e Shaka suspirou, pensativo...
-Mestre Shaka? – chamou-o Mu, voltando pouco depois.
-Sim?
-Por que mentiu ao inspetor Shion a respeito de uma invasão ao nosso templo?
-Infelizmente eu não tenho essa resposta, Mu... Vamos, está na hora de nossa meditação.
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Contrariado, doido da vida, Shion foi levado para fora do templo. Não era possível que Dohko conseguira vencê-lo mais uma vez! Decidido a reverter a situação, o inspetor voltou à inspetoria de Pequim, disposto a conseguir uma ordem para invadir o templo e revistá-lo de cima a baixo.
Porém, quando entrou pela sala do inspetor responsável, Shion teve uma surpresa não muito agradável.
-Esperava encontrá-lo por aqui, inspetor Shion.
-Senhor Aiacos... O que faz aqui, nesta inspetoria?
O homem não respondeu de imediato, ficou remexendo em alguns papéis sobre a mesa. Shion, pensativo, tentava encontrar algum motivo para o inspetor chefe da polícia chinesa ter se deslocado de sua base apenas para conversar com ele.
-Soube de sua "caçada" a um certo prisioneiro de nome Dohko... Algo que já dura cerca de oito anos, não é?
-Sim, senhor. Dohko é um prisioneiro reincidente que violou sua condicional e precisa ser levado à prisão novamente.
-Isso é o que pensa, inspetor... – Aiacos disse, calmamente, Shion arqueou uma sobrancelha – Shion, este homem não representa nenhum perigo à nossa sociedade e os crimes que citou há pouco já caducaram há algum tempo.
-Mas, senhor, isso não é possível!
-Claro que é, Shion... E você está proibido de continuar perseguindo este homem. Há muito que fazer por aqui, nesta cidade, e um homem valoroso e correto como você não deve se prender a estas bobagens do passado.
Shion engoliu em seco as palavras do seu superior. Estava queimando de raiva por dentro! Agora que Dohko estava tão próximo, nada poderia fazer para prendê-lo.
Mas isso não ficaria assim. Poderiam se passar quantos anos fossem que ele, Shion, teria seu triunfo. A sua medalha.
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Ufa, terminei este capítulo e como ele, encerra-se o Ato II desta fic. Próximo capítulo, o início da terceira e última parte da fic e aí sim veremos o belo Shiryu dar as caras por aqui... E sim, um aviso: para quem conhece a história de "Os Miseráveis", a terceira parte será aquela em que a história sofrerá maiores mudanças, mas sem perder o seu foco original.
Shaka e Mu são monges budistas, mas optei por uma "licença poética" e não cortei seus cabelos, já imaginaram esses dois carecas que desperdício seria, meu Deus!
Ah, eu tinha que usar o Aiacos nesta fic, ele quase nunca aparece e muito menos é citado em fics e dos três juízes de Hades, ele é o que mais gosto... Bem, fico por aqui. Até a próxima fase!
"Castelo no céu", canção monólogo da pequena Cosette, parte do primeiro ato do musical "Les Miserábles". Cosette é a filha de Fantine e a inspiração para Shunrei nesta fic. Mas, para quem conhece a história da personagem, um aviso: Shunrei não será tão ingênua quanto ela nesta fic.
