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Ato III – Capítulo I – Estrelas
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Pequim, nove anos depois...
A cidade estava tomada por soldados, que vigiavam as pessoas e tinham a tarefa de auxiliar a polícia no controle do crime e no bem estar da população.
Bem estar? Isso era o que prometia Mao Tsé-Tung com seus planos qüinqüenais, abandonados assim que o governo havia conseguido o controle sobre toda e qualquer propriedade privada. Tudo era comandado pelo Estado, até mesmo as opiniões dos cidadãos chineses.
O país vivia uma época dura e, de certa forma, sombria. Em Pequim, as primeiras manifestações contra o governo começavam a pipocar, mas eram sufocadas pelo exército vermelho. Porém, grupos clandestinos continuavam com a resistência, articulando planos para a revolução que libertaria a todos da opressão.
A polícia tinha trabalho dobrado por conta desses grupos, era preciso muita atenção e estratégias muito bem articuladas para conseguir descobrir quem eram seus integrantes e prendê-los antes que pudessem fazer qualquer coisa. E nesta tarefa, um policial em especial se destacava entre os demais.
Shion era respeitado por sua mente brilhante e articulações que desmantelavam grupos inteiros como se fossem castelos feitos de areia. Perdera a conta de quantas medalhas e felicitações recebera por seus serviços, mas nada disso tinha muita importância para ele.
Em seu íntimo, ainda tinha esperanças de conseguir a sua maior condecoração.
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-Belo trabalho, Aldebaran... As flores este ano estão muito mais vistosas e bonitas!
-Ora, como se somente eu fosse o responsável por este jardim!
Dohko deu risadas, enquanto continuava a regar as flores do jardim do templo. Trabalhava todos os dias ao lado de Aldebaran naquele jardim, durante os últimos nove anos. Gostava de lidar com as flores, mas aquela que mais admirava não estava ali, com as raízes fincadas na terra fofa e molhada.
-Onde está Shunrei?
-Adivinhe...
Shunrei. A sua pequena menina, seu maior tesouro e alegria que tinha na vida. Uma garota esperta, muito ativa e curiosa. Vivia pelo templo fazendo perguntas que muitas vezes deixavam mestre Shaka de cabelos em pé!
-Vou atrás dela, está quase na hora do almoço. – disse Dohko, largando o regador e saindo do jardim atrás da menina.
Do outro lado do templo, uma garota de longos cabelos negros presos em uma trança, usando uma túnica cor de vinho, estava agarrada ao portão de ferro da entrada, observando nas pontas dos pés o movimento de pessoas e animais ao longe.
-Outra vez neste portão, Shunrei?
-Mestre Mu... – ela se virou para ele, encarando-o com os olhos negros e cheios de vida – Eu só estava olhando as pessoas.
-Sei disso, mas sabe que seu pai não gosta muito dessa sua mania. Vamos, está na hora de comer.
-Mestre Mu?
-Sim? – ele respondeu ao chamado, já imaginando o que estava por vir.
-Como é o mundo lá fora? A cidade, as pessoas...
-Bem... – Mu suspirou, porque tinha que ser ele o alvo preferido de Shunrei para essas perguntas? – O mundo que conheci do lado de fora, há alguns anos, era bonito e pessoas boas viviam nele... Mas não sei como ele é agora, Shunrei.
-Entendo... Sabe, mestre Mu... Eu queria muito conhecer o mundo além deste portão.
-Mas precisa pedir ao seu pai, ele é quem decide o que é melhor para sua vida, menina.
-Shunrei!
A menina, assustando-se com o grito que ouvia ao longe, saiu depressa de perto do portão e correu pelo gramado, até encontrar o pai.
-Outra vez no portão, Shunrei? – ele questionou, abraçando-a carinhosamente.
-Não, papai... Eu estava conversando com mestre Mu!
-Sei... Ande, venha comigo, está quase na hora de almoçarmos.
Abraçada a Dohko, Shunrei seguiu com ele até sua casa, mas com o pensamento longe. Como seria o mundo fora daquele templo?
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No quartel que ficava no centro de Pequim, uma brigada de jovens soldados havia acabado de chegar da ronda matinal e os rapazes estavam espalhados pelo dormitório, trocando impressões sobre o trabalho e o que viam nas ruas da cidade.
Porém, um deles permanecia em silêncio, sentado em sua cama. Tirando seus coturnos, ele se deitou com os braços apoiados atrás da cabeça, os longos cabelos negros espalhados pelo lençol, os olhos de mesma cor fitando o estrado da cama de cima do beliche.
Gostava de seu trabalho, sentia orgulho em fazer parte da Juventude Vermelha e do governo de seu país. Mas por que via tanta miséria nas ruas, tanta gente passando por necessidades e sendo castigadas por isso?
-Bem que senti um cheiro de queimado no ar... Está muito pensativo, Shiryu! – zombou um outro rapaz, atirando-se na cama ao lado.
-Não tem graça nenhuma essa sua piada, Hyoga! Me deixa quieto no meu canto, vai.
O amigo jogou a cabeça de lado e riu, espalhando a cabeleira loira pelo lençol. Gostava de provocar Shiryu, somente pelo prazer de ver o amigo sair do sério. O rapaz, por sua vez, voltou a se perder em seus pensamentos, até ouvir a voz autoritária de seu comandante soar pelo corredor.
Depressa, os soldados se colocaram em fileiras à frente dos beliches, esperando o momento da revista.
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Durante todo o almoço, Shunrei permaneceu quieta, brincando com a comida e suspirando alto de vez em quando. Aldebaran tentou por diversas vezes conversar com a garota, Dohko a observava preocupado.
Quando a refeição acabou, Aldebaran voltou ao jardim e Dohko ficou para trás, ajudando a filha a lavar a louça.
-Shunrei... – ele a chamou, enquanto ela terminava de enxugar os pratos – Aconteceu alguma coisa, minha filha?
-Nada, papai...
-Não minta para mim, Shunrei.
A garota suspirou novamente e se sentou em uma cadeira, torcendo o pano de prato e com o olhar perdido pela janela da cozinha, como se quisesse enxergar além dos muros do templo.
-Papai... Eu...
-Você o quê? – Dohko perguntou, puxando outra cadeira e se sentando de frente para a filha.
-Por que ainda vivemos aqui neste templo, papai?
-Shunrei, eu já lhe disse... Mestre Shaka nos acolheu quando mais precisamos e você ainda é uma menina, não conhece o mundo lá fora, não sabe...
-É esse o problema, papai, eu não conheço o mundo lá fora... Não conheço outras pessoas, outras garotas. E não sou mais tão menina, tenho dezesseis anos!
Dohko fitou o chão, o que mais poderia dizer a Shunrei para convencê-la de que era melhor para ambos permanecer naquele lugar?
-Papai, por favor... Eu quero sair deste templo, quero andar pelas ruas, conhecer pessoas novas, fazer amigos... Por favor, papai... Por favor!
Com uma das mãos, Shunrei ergueu o rosto do pai e viu que seus olhos pareciam perdidos, como se sentisse medo. Fez-lhe um carinho, que foi retribuído com um beijo na palma de sua delicada mão.
-Eu prometo que vou pensar no que me disse, Shunrei. Agora preciso trabalhar, minha filha.
Dohko saiu da casa, deixando Shunrei sozinha. Foi para o jardim, mas não conseguia se concentrar em seu trabalho. Sabia que, de certa forma, não era justo privar a filha de seus melhores anos de juventude por medo ou capricho que era seu, não da garota.
Precisava tomar uma decisão. Algo que poderia mudar para sempre o seu destino. E também o de Shunrei.
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-Ah, isso não é justo! Por que a gente tinha que ser escalado para as rondas matinais na cidade? – reclamava Hyoga, tirando sua farda para tomar um banho, acompanhado de Shiryu e outros rapazes do batalhão.
-Pelo simples fato de que fizemos a ronda noturna durante toda a semana passada, Hyoga! Esqueceu-se de que temos uma escala de trabalho?
-Não, não esqueci, Shiryu! Mas bem que queria não ter que pensar nisso! A manhã foi feita para descansar, não para trabalhar!
Fazendo caretas, Hyoga encarou a água fria do chuveiro, praguejando contra as ordens de seu superior. Balançando a cabeça em sinal de reprovação, Shiryu meteu-se debaixo da ducha e até se esqueceu das reclamações do amigo.
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De certa maneira, Shunrei tinha razão, pensava Dohko. Não poderia manter sua menina presa por toda vida, por conta do medo que ele sentia de encontrar-se com Shion.
A garota era sua maior alegria. E vê-la triste e infeliz era tudo o que ele não queria.
-Mestre Shaka? – chamou Dohko, pedindo permissão para entrar na sala do mestre do templo. Assentindo, Shaka indicou que o jardineiro sentasse à sua frente.
-O que quer, senhor Lyu – Ban?
-Mestre, eu vim até aqui para lhe fazer um comunicado.
-Sim?
-É que... Que... – Dohko não sabia bem como dizer – Eu gostaria de lhe agradecer por sua hospitalidade e confiança durante todos esses anos, mas eu...
-O senhor e Shunrei estão indo embora deste templo, não é isso?
-Sim, mestre Shaka... A Shunrei é jovem, tem tanto o que ver e aprender, não é justo que viva aqui, presa a este templo.
-Entendo a sua posição, senhor Lyu – Ban... Mas lamento perder um jardineiro tão bom quanto o senhor. E sua filha sempre foi uma benção, amiga de todos neste lugar.
Dohko agradeceu as palavras de mestre Shaka e se retirou. Seu coração dava pulos de tanta excitação e medo, mas pensar o quanto Shunrei ficaria feliz de certa forma o tranqüilizava.
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Dois dias depois...
-Adeus, Aldebaran... Nunca me esquecerei do grande amigo e irmão que foi para mim nestes últimos anos...
Aldebaran, apesar de todo o seu tamanho, estava emocionado com a despedida. Mas as lágrimas só caíram quando Shunrei, tão pequena perto dele, o abraçou.
-Até breve, tio Aldebaran...
-Até, Shunrei...
A menina pegou sua malinha de roupas e foi seguindo para o portão, onde mestre Mu a esperava para se despedir. Dohko já ia fazendo o mesmo quando a mão de Aldebaran em seu ombro o deteve.
-Cuide bem desta menina... E de você também, Dohko.
Surpreso ao ouvir seu nome dito pelo amigo, Dohko abriu a boca para falar algo, mas as palavras simplesmente não saíram. Aldebaran sorriu.
-Você fala enquanto dorme, meu amigo... – ele disse, afastando-se de volta para seu trabalho.
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-Então esta é a capital do país... – comentou consigo mesma uma mulher de cabelos verdes, caminhando pelas calçadas da entrada de Pequim – Saori, ande mais depressa! Quanta lerdeza!
A garota de cabelos lavanda e olhos azuis suspirou, como podia andar mais depressa carregando as suas coisas e da mãe também? Mais atrás, um homem de cabelos azuis revoltos apertou o passo até alcançar a mulher.
-Imagine só o que podemos ganhar nesta cidade, Shina... Comida, dinheiro...
-Tem razão, Giovani. Veja só estas pessoas, cada um com uma cara de idiota maior que o outro.
Ouvindo seus pais zombarem dos passantes, Saori balançou a cabeça em desaprovação. Quantas vezes tinha ouvido aquela mesma história e depois ter que fugir pela madrugada para não serem pegos? Estava cansada daquela vida, se é que poderia chamar a sua situação de vida.
Sentindo as trouxas pesando em seus braços, ela tentou andar mais depressa e tudo foi ao chão, desajeitadamente.
-Sua molenga, olhe o que fez!
Abaixando-se para recolher tudo, a garota ficou esperando o puxão de orelhas que certamente seu pai lhe daria. Mas quem parou ao seu lado foi um rapaz fardado, que se abaixou para ajudá-la.
-Aqui estão suas coisas, senhorita.
Saori levantou o olhar e deu de cara com os olhos negros de brilho esverdeado a encarando, um sorriso limpo e sincero. Repentinamente sentindo a face queimar de vergonha, ela pegou suas coisa e agradeceu com um aceno.
-Tome mais cuidado da próxima vez, sim?
O rapaz sorriu e foi se afastando, indo encontrar com um outro, de cabelos loiros e igualmente fardado. Saori bem que quis dizer alguma coisa, mas as palavras não saíram.
-Se for ajudar a cada uma que passa pela gente, não chegaremos nunca ao nosso posto, Shiryu!
"Shiryu...", Saori gravou o nome em sua mente, sentindo o coração dar pulos. Retomando sua caminhada, a garota sequer ouviu a bronca do pai.
Em outro ponto, Shunrei caminhava dando pequenos pulos, estava tão excitada e feliz que mal cabia em si. Mas atrás e muito atento, Dohko não tirava os olhos de sua menina.
-Veja papai, que flores lindas! – ela apontou um canteiro onde gérberas vermelhas cresciam imponentes. Sorrindo e fascinada com tudo, Shunrei foi até elas para colher uma, que passou a brincar e acariciar com as mãos pequenas.
Na praça onde estavam, viram um pequeno batalhão da Juventude Vermelha em formação. E, para surpresa e desagrado de Dohko, mais alguém junto aos soldados.
-Participando da ronda também, Inspetor Shion? – perguntou-lhe um homem de cabelos e olhos dourados, com um ar de seriedade.
-Apenas descansando a mente, capitão Hypnos.
Interessada em tudo, Shunrei desatou a correr bem em direção ao inspetor, queria chegar logo até um canteiro de flores amarelas que havia por ali. Dohko tentou segurar a garota, mas foi inevitável.
-Não deveria correr assim, mocinha... Não sabe que é perigoso, que pode cair e se machucar? – questionou Shion, apartando a corrida segurando-a pelo braço. Envergonhada, Shunrei baixou os olhos e percebeu o pai se aproximando de si.
-Venha, minha filha, não incomode o policial.
Evitando olhar para Shion, Dohko tirou Shunrei de perto dele. O inspetor apertou os olhos, tinha a impressão de conhecer aquele homem de algum lugar. Porém, tal pensamento foi cortado por uma tremenda algazarra, vinda de um dos lados da praça.
De repente, do nada, dezenas de homens e mulheres vestidos em trapos apareceram correndo e gritando, indo para cima dos pedestres, atacando as pessoas mais distraídas, gritando palavras de ordem contra Mao e seus soldados.
Na confusão, muito assustada, Shunrei tentou correr, mas a multidão que fugia a cercava, Dohko acabou se afastando dela.
-Shunrei! Minha filha! Shunrei!
No meio da confusão, Shunrei acabou sendo empurrada ao chão por um rapaz todo sujo e desgrenhado, ela se encolheu de medo. Porém...
Ouviu gritos em sua direção e o homem ser levado dali por um rapaz fardado. Ao levantar a cabeça, ainda com medo, ela viu à sua frente, de mão estendida, um jovem rapaz de cabelos negros e olhos com um brilho esverdeado.
-Você está bem? Se machucou? – perguntou Shiryu, visivelmente preocupado. Assentindo, Shunrei aceitou a mão que ele lhe estendia e se levantou.
Por um instante, ainda que pequeno, os olhares se encontraram de maneira intensa. Perdido, sem saber o que fazer ou pensar, Shiryu não largava a mão da garota, a segurava com mais força.
-Shunrei, minha filha, você está bem? – Dohko perguntou, correndo pela calçada – Obrigado por salvar minha filha, meu rapaz. Anda, vamos embora daqui, Shunrei.
Levando a garota, que não conseguia prestar atenção em mais nada além do rapaz fardado, Shunrei foi embora, sumiu em meio ao caos.
Em pouco tempo, a polícia e os soldados de Mao conseguiram conter os agressores e famintos.
-Nossa, essa foi demais para mim... – Hyoga comentou, tirando os fios loiros que estavam grudados na testa por conta do suor – Ow, Shiryu, falei com você... Shiryu!
-Shunrei...
-O que disse?
-Shunrei... O nome do anjo que acabei de conhecer...
Com cara de quem não estava entendo nada, Hyoga deu de ombros e foi se juntar ao batalhão que perfilava os presos. Ainda encantado, Shiryu acompanhou o amigo. E Saori, que estava escondida próxima a uma banca, observava com tristeza o rapaz caminhar pela praça.
Cansado, Shion fitava o céu, pensativo. Era estranho, tinha a impressão de já ter visto os olhos daquela garota antes. Mas aonde?
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Gostaram desse início de terceiro ato? Agora a coisa desenrola de vez, teremos mais ação e romance... Ah, esse capítulo foi betado pela minha irmã Amanda, ams o próximo já esta sendo escrito e mandareio para vc, Themys!
"Estrelas", canção presente no musical "Les Misérables", solo de Javert no segundo ato.
