E aqui vamos nós, em mais um capítulo dessa adaptação que virou a menina dos meus olhos...
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Ato III – Capítulo II – Café ABC
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Depois de um tempo de caminhada, Dohko e Shunrei chegaram a uma rua pequena, em um bairro mais afastado de Pequim. Era quase fim de tarde, precisavam de um lugar para ficar e poder descansar, o dia não tinha sido fácil para ambos.
-Ei, garoto! – o homem chamou por um menino, que estava sentado em uma calçada, brincando com umas pedras.
Solícito, o menino de cabelos vermelhos e olhos curiosos se aproximou dos dois.
-Como se chama, garoto?
-É Kiki, senhor.
-Muito bem, Kiki, eu me chamo Lyu-Ban e esta é minha filha Shunrei... Pode nos ajudar, indicando um lugar para passarmos a noite?
-É claro, senhor, venham por aqui. Tem um café que fica no fim da rua e aluga quartos!
Seguindo o menino, chegaram até um café com a fachada toda suja e uma porta mal acabada como entrada. Kiki foi à frente, procurando pela mulher que cuidava do local.
-Senhora Hilda?
-O que foi, Kiki?
-Eu trouxe novos hóspedes para a senhora, veja!
Kiki indicou Dohko e Shunrei e a mulher os cumprimentou com um sorriso. Enxugando as mãos úmidas em um pano preso à sua cintura, ela pediu aos dois que a seguissem até o andar superior.
Quando se dirigiam à escada, passaram por um grupo de rapazes, alguns bebendo, outros exaltados em discursos sobre os direitos dos cidadãos, sobre a economia do país e afins.
-Não se preocupe, menina, são apenas estudantes... – disse Hilda a Shunrei, vendo que ela parecia assustada.
Um dos rapazes, de cabelos castanhos e olhos azuis, falava mais alto que os demais, segurando um livro nas mãos. Provavelmente, era o líder do grupo, composto por mais cinco ou seis rapazes em idades diferentes.
-É tempo de mostrarmos a esse maldito Mao que não somos brinquedos em suas mãos, que temos nossas vontades e anseios!
Aplausos irromperam pelo pequeno salão, palavras de ordem eram repetidas. Mas um dos rapazes presentes estava muito quieto, como se não estivesse ali.
-E então, Ikki? Não tem nada a dizer? – o rapaz de cabelos castanhos inquiriu, fechando o livro que tinha em mãos.
Ikki pigarreou e fitou o rapaz, com um certo brilho nos olhos azuis profundos. Ao seu lado, um rapazinho de cabelos verdes o observava com admiração, esperando uma palavra sua.
-Claro que tenho, mas uma revolução não é feita com palavras, Aioria... Se não pegarmos em armas e incitarmos os cidadãos a isso, nunca conquistaremos nossos direitos.
-Entendo sua posição, Ikki, mas quero crer que não será necessário chegarmos a tanto.
-Um romântico, isso que é, meu caro amigo.
-Eu concordo com Ikki... – um rapazinho de cabelos e olhos castanhos falou, deixando uma garrafa sobre a mesa – Do jeito que estão as coisas, somente pegando em armas conseguiremos ser ouvidos.
-Até você pensa assim, Seya... – Aioria suspirou, resignado. E pior, estava começando a inclinar seus pensamentos para as idéias dos amigos.
-Mas antes de pegarmos em armas, devemos esgotar todas as outras possibilidades primeiro. Não esqueçam que quando uma revolução armada entra em curso, pessoas inocentes acabam morrendo sem ao menos saber o motivo...
-Tinha que ser o Shun para dizer uma coisas dessas! – debochou Seya, pegando novamente a garrafa para um novo gole.
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No ponto policial, Shion estava sentado à sua mesa quando uma sombra se formou sobre o tampo, fazendo com que ele voltasse seu pensamento para a realidade.
-Inspetor Aiacos...
-Tenho uma nova missão para você, meu caro Shion. Nossos homens investigaram um grupo de estudantes, parece que estão tramando uma revolução ou algo assim.
-Quer que eu me infiltre no meio deles, descubra seus planos e depois prenda a todos?
-E com a eficiência de sempre, inspetor.
Suspirando, Shion pegou a pasta que seu superior lhe estendia. Mais um trabalho daqueles e iria surtar!
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O quarto era simples, mas Shunrei não se importava com isso. Estava feliz por finalmente conhecer o mundo fora dos muros do templo, mal havia se passado algumas horas e já vivia aventuras e descobertas.
Dohko, por sua vez, repetia internamente a si mesmo que tinha tomado a decisão certa. Apenas algum tempo fora do templo e o primeiro que encontrava era justo Shion!
-Papai? – a voz de Shunrei o chamando o fez voltar a si.
-O que foi, minha filha?
-O senhor parece preocupado, aconteceu alguma coisa?
-Não é nada, Shunrei... – Dohko disse, puxando a garota para um abraço, sentando ambos sobre uma cama de solteiro – Não precisa se preocupar comigo.
A garota sorriu, beijando a face do pai. Então, encarando-o com seus olhos cheios de vida, resolveu lhe perguntar algo.
-Papai... Agora que estamos fora do templo, nós podemos visitar o túmulo da mamãe?
Dohko suspirou, já imaginava que a filha fosse lhe pedir aquilo, mas não tão já.
-Por enquanto não dá, Shunrei... Sua mãe foi enterrada em outra cidade, não temos como fazer uma visita agora. Mas prometo que assim que puder, eu a levarei até ela.
Assentindo, a garota se aconchegou no abraço do pai, sentindo-se cansada. Esfregando os olhos e bocejando, ela deitou-se na cama.
-Papai?
-Sim?
-Me fale mais uma vez sobre como era minha mãe.
-Bem... – Dohko começou, ajeitando-se na cama para melhor acomodar a filha – Sua mãe era uma linda mulher, muito generosa e gentil e amada por todos. E te amava muito também, sempre tão preocupada contigo...
-Você amava a mamãe?
-Sim...
Uma lágrima rolou pela face marcada pelo tempo e as dificuldades. Sorrindo, Shunrei limpou-a com as costas da mão e abraçou o pai, adormecendo logo em seguida. Emocionado, Dohko beijou os cabelos negros da filha, sorrindo.
-Eu prometo que sempre cuidarei de nosso anjo, Marin...
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No quartel, Hyoga praticamente se atirou na cama, estava cansado depois de tanta correria. Shiryu, meio aéreo, sentou-se em sua cama e tirou os coturnos calmamente, sorrindo de um jeito bobo.
-Que bicho te mordeu, Shiryu? Hein? Shiryu!
De nada adiantavam os gritos do amigo, o soldado não ouvia nada. Todos os seus sentidos estavam concentrados na lembrança de um anjo de cabelos e olhos negros.
Um anjo chamado Shunrei.
-Será que vou vê-la novamente? – perguntou a si mesmo, mas em tom que Hyoga pôde ouvir claramente.
-Ela quem, Shiryu?
-Shunrei...
-Ah, tá, a tal de cabelos lavanda que você ajudou antes da confusão de hoje.
-Cabelos lavanda? Não estou falando daquela andarilha e sim da menina que salvei de ser atacada por aqueles homens!
-Detalhes... – Hyoga disse, displicente – Bom, eu vou tomar um banho e descansar, tô morto!
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Na manhã seguinte...
Ajeitando o colarinho de sua túnica, Shion parou à entrada do café, estudando o entorno. A poeira e o cheiro de mofo que reinava naquela rua lembravam ao inspetor a miséria que conhecera na província de Shandong, há cerca de dez anos.
Afastando possíveis pensamentos que poderiam atrapalhar seu trabalho, Shion entrou pelo café e foi direto ao balcão, onde encontrou uma mulher de longos cabelos azuis claros servindo uma xícara de chá a uma garota. Reconheceu de imediato a menina que trombara consigo no dia anterior, mas não deu muita importância a este fato.
-Com licença?
-Pois não, meu senhor?
-Procuro por um rapaz, um jovem estudante. Seu nome é Aioria.
-É aquele rapaz de cabelos castanhos, sentado naquela mesa do canto. – Hilda indicou uma mesa, onde Aioria e Ikki tomavam seu café e discutiam estratégias para a revolução que tanto almejavam.
-Temos que procurar pelas pessoas, Aioria, trazer o maior número delas para nosso lado. Sem esse apoio, o máximo que conseguiremos será uma baderna, uma briga de vizinhos.
-Pode ser, Ikki, mas...
-Mas o quê?
-Ainda não gosto dessa idéia de uma luta armada.
-Aioria, deixe de ser covarde. Esta é a única maneira que temos para vencer!
-Seu amigo tem razão, meu rapaz... – Shion disse, puxando uma cadeira para se sentar junto aos dois – O governo de Mao é extremamente organizado, somente com armas seria possível fazer alguma coisa contra ele.
-Quem é o senhor? – perguntou Ikki, desconfiado com a aproximação e as palavras daquele homem.
-Meu nome é Shion, cheguei há pouco em Pequim. Ouvi rumores sobre a revolução em minha província e resolvi me engajar na luta.
-Ouviu rumores?
-Sim... Existem outros grupos com o de vocês pela cidade e até pelo restante do país, todos com o mesmo desejo: liberdade.
Shion falava com calma e propriedade, o que agradava à Aioria, mas deixava Ikki com a desconfiança à flor da pele. O inspetor sabia disso, estava acostumado a lidar com estudantes como o rapaz.
-E então? Aceitam minha participação em seus planos ou não?
Aioria estudou a expressão de Shion por um momento, pensativo. Então, abrindo um largo sorriso, apertou a mão do inspetor. Agora, ele era oficialmente, um membro do grupo.
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-Conheço tudo por aqui, senhor Lyu-Ban... – dizia Kiki a Dohko, caminhando com ele pelas ruas do bairro onde estavam – As pessoas, os lugares, onde encontrar comida por um preço mais justo, essas coisas.
-Mora há muito tempo neste lugar, Kiki?
-Desde que me entendo por gente. A senhora Hilda sempre me ajudou com comida e roupas, mas eu gosto mesmo é de viver na rua, livre.
Livre? Dohko sorriu, pensativo. Sabia o que a liberdade representava, embora há muito não soubesse o sabor que ela possuía. Boa parte de sua vida tinha sido passada entre personagens e máscaras, histórias inventadas para ter um mínimo de paz e continuar seu caminho.
Caminharam mais um pouco e chegaram até uma banca de frutas. Dohko estava escolhendo algumas quando um homem aproximou-se, vestido em frangalhos e com uma expressão desoladora em sua face marcada pelo tempo.
-Uma moeda para um pobre homem, senhor...
Procurando por alguma em seu bolso, Dohko levantou os olhos e o homem arregalou os seus, em um misto de surpresa e desconfiança.
-Aqui está, pegue.. – ele estendeu uma nota e também um pacote que acabara de pegar na banca – E fique com estas maçãs também, meu senhor.
O outro agradeceu com um aceno, mas sem tirar seus olhos do homem à sua frente. Dohko pagou ao dono da banca e saiu pela calçada, conversando com um animado Kiki, que saltitava enquanto comia.
-Giovani? O que aconteceu, por que está aí parado feito um poste? – perguntou um outro homem ao das maçãs, aproximando-se com mais outros dois..
-Não foi nada, Afrodite. Vamos, ainda temos muito que fazer hoje!
Giovani acompanhou os amigos por uma rua lateral, mas com a cabeça longe. Seria aquele homem quem estava pensando?
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No quartel, Hyoga e Shiryu caminhavam por um corredor, apressados e muito sérios. Quase não trocavam nenhuma palavra entre si, preocupados. O que será que o capitão queria para convocar ambos às pressas?
-Capitão Hypnos? – chamou o rapaz de cabelos negros, entrando pela sala. O capitão levantou o olhar e pediu aos soldados que entrassem.
-Recebemos sua convocação, capitão... Aconteceu alguma coisa?
-Não exatamente, mas temos que evitar que venha a acontecer.
-Não entendi, senhor.
-A polícia nos procurou, pedindo reforços, Hyoga. Estão investigando um grupo de estudantes que pretendem uma revolução armada contra nosso governo... – o capitão passou aos dois alguns documentos com registros e identificação – O inspetor Shion já está infiltrado no grupo, mas precisa de mais homens para ajudar a conter os estudantes. O inspetor Aiacos me pediu alguma indicação e por isso eu os convoquei aqui, hoje.
-O senhor quer que nós dois nos infiltremos neste grupo, junto com o inspetor Shion? – questionou Shiryu, arqueando uma sobrancelha. O capitão apenas assentiu.
-Tudo o que precisam saber sobre os estudantes estão nestes papéis. O inspetor Aiacos quer que comecem logo, no máximo amanhã. Procurem por ele na inspetoria e ele lhes dará o restante das instruções.
Com um gesto, o capitão Hypnos dispensou os dois soldados. Batendo continência, ambos se retiraram. Mas foi somente chegar ao dormitório para Hyoga praguejar de insatisfação.
-Eu não estou gostando disso, Shiryu! Essa missão não vai acabar bem, você vai ver.
-Por que me diz isso, Hyoga?
-Um pressentimento que tive...
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No dia seguinte...
Andando sozinha por uma rua próxima ao café, Saori contava as moedas que tinha conseguido com esmolas. E pensava na bronca que tomaria por tão pouco, mas não se sujeitaria aos mesmos desmandos dos pais e do bando de ordinários que os acompanhava.
Ao terminar, ela levantou o olhar e viu, do outro lado da calçada, três homens caminhando juntos. E a visão de um deles quase a fez tropeçar em uma pedra.
"Shiryu...", pensou, seguindo o pequeno grupo até seu destino, quase no fim da rua. Sem ser percebida, a garota ficou do lado de fora, observando os movimentos do rapaz dentro daquele lugar, que parecia ser um café.
Os estudantes estavam reunidos no café, como sempre. Sentada em uma mesa mais afastada, dedicando-se a limpar alguns copos para a senhora Hilda, Shunrei prestava atenção redobrada em cada palavra que era dita, parando de vez em quando para pensar no que aquilo tudo significava.
No quarto que ocupavam, Dohko arrumava suas coisas e as da filha, ajudado por Kiki. Por conta disso, não viu quando o café recebeu visitantes.
-Shion, camarada! – gritou Aioria, ao ver o inspetor entrar, acompanhado de mais dois rapazes – Quem são esses aí?
-Meus amigos, Shiryu e Hyoga... Eles também querem se juntar a nós nesta revolução.
Os dois rapazes cumprimentaram os demais com um aceno e tomaram seus lugares em uma das mesas, junto com Seya e Shun. Revirando os olhos de tédio, Hyoga sequer prestou atenção à sua volta, mas Shiryu, atento, percorreu o lugar, curioso. E, ao se deparar com uma certa figura...
-Ei! O que deu em você, companheiro? – perguntou Seya, ao ver o rapaz dar um pulo e a cadeira se estatelar com força no chão.
O barulho chamou a atenção de Shunrei e ela desviou o olhar em direção ao grupo. E sentiu o coração falhar uma batida ao se deparar com aqueles olhos negros a observando.
-Shunrei... – foi tudo o que Shiryu conseguiu dizer, fascinado, com o coração aos pulos.
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Mais um capítulo! E este foi betado pela linda Arthemysis, eu tenho te pentelhado tanto, né miga? Beijos para ti e muito obrigada pela imensa ajuda.
Bom, este terceiro ato começa a se desenrolar de vez e teremos mais ação e romance em breve e também algumas passagens emocionantes, já tô até chorando por aqui, imaginando o destino que terão alguns personagens.
O nome do capítulo é a canção de introdução à "Vermelho e Negro", na primeira parte do segundo ato de "Les Misérables" e é cantada por Enjolras (a inspiração do Aioria, Ikki e do Hyoga), Marius (nosso herói, Shiryu!) e os demais estudantes.
óo, ou fugindo dela, criando personagens e hisimentara de fato. justo, essas coisas.
